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Afirmações próximas a que intitula este post povoaram os grandes blogs de céticos do clima nos últimos dias. Até na mídia tradicional tivemos reportagens sobre o assunto. Mas é claro que tudo não passa da boa e velha pseudociência.

Sim, grande parte do gelo da Antártica está aumentando ao invés de diminuir (diferente do gelo do ártico) nos últimos meses. Isso de alguma forma pode refutar os argumentos favoráveis ao aquecimento global? Claro que não. Primeiro porque o IPCC e nenhum cientista sério do mundo defende que o aquecimento global corresponde a um aumento da temperatura de todo o planeta. O que aumentará (já aumentou e continuará aumentando) é a temperatura média global. Desta forma, dependendo de fatores regionais, as mudanças climáticas decorrentes do aquecimento global podem trazer consequências bem diferentes para cada região do planeta. Ainda mais no caso da Antártica.

Vamos começar separando a Antártica em duas regiões principais quanto a resposta às mudanças climáticas. A região peninsular e a região continental (ver figura abaixo). O aumento da espessura da camada de gelo foi registrado apenas no mar de Ross (região continental). O gelo da península antártica, ao contrário do mar de Ross, está diminuindo em um ritmo acelerado. Podemos ver que em um mesmo continente temos respostas diferenciadas ao aquecimento global. Agora que conhecemos um pouco mais esta heterogeneidade, vamos entender os motivos do comportamento anômalo do mar de Ross.

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Dinâmica de ventos no continente antártico. Fonte: NewScientist

Turner e colaboradores discutem em um artigo da Geophysical Research Letters como o aumento do buraco da camada de ozônio no último ano pode ter alterado a dinâmica de ventos nesta região. A figura acima mostra que a região do mar de Ross é dominada por um turbilhão de ventos que mantêm as frentes frias concentradas nesta parte do continente. Além disso, esta dinâmica também é responsável pela atração de ar quente da américa do sul para a região peninsular do continente antártico. Por isso temos uma resposta tão diferenciada das duas regiões. Sendo assim é perfeitamente factível um aumento da espessura de gelo de uma parte do continente antártico em um cenário de aquecimento global, considerando a influência do buraco da camada de ozônio no regime de ventos regional.

Acho que o problema de grande parte dos céticos do clima é fazer uma interpretação pseudocientífica de dados científicos. E o pior é que o discurso se torna convincente, principalmente para leigos. Já descrevi aqui no blog dois exemplos deste fato. O primeiro exemplo foi sobre a falácia de que o gelo do ártico estaria se recuperando em 2008. Bem parecido com o exemplo deste post, vários blogs repercutiram imagens de satélite em que o gelo do ártico estaria se recuperando. Mas eles “esqueciam” de lembrar que a camada de gelo recuperada era muito mais fina que a anterior. O segundo exemplo foi o da análise da temperatura da Terra em 2008. Fiz um post mostrando que, dependendo da sua linha de base, a temperatura do planeta poderia mostrar um padrão de aumento ou de queda. Tudo depende de como esta interpretação é feita. É claro que no caso da Antártica, muito sensacionalismo é feito pela grande mídia. A Antártica realmente não está degelando como um todo, mas as previsões para os próximos anos, principalmente com a recuperação da camada de ozônio, não são nada otimistas.

Com toda esta má interpretação dos dados feitas por céticos do clima, cientistas sérios que fazem críticas relevantes ao IPCC acabam sendo ridicularizados. Uma pena, pois devemos entender que não existe consenso científico.

Fonte: NewScientist

Referências:

Turner, J., J. C. Comiso, G. J. Marshall, T. A. Lachlan-Cope, T. Bracegirdle, T. Maksym, M. P. Meredith, Z. Wang, and A. Orr (2009). Non-annular atmospheric circulation change induced by stratospheric ozone depletion and its role in the recent increase of Antarctic sea ice extent. Geophys. Res. Lett., doi:10.1029/2009GL037524, in press.

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