Fotografia científica: Gafanhoto

Grasshopper couple

 Clique para ampliar. Crédito: Luiz Bento

Normalmente neste tipo de post eu falo sobre fotos feitas por outras pessoas, onde comento os aspectos biológicos da situação registrada. No caso do post de hoje eu coloquei uma foto minha. Ela foi feita no Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, localizado no norte do estado do Rio de Janeiro. Ele é o primeiro Parque do Brasil a contemplar o ecossistema de restinga. Para conhecer um pouco melhor o PNRJ, clique aqui. Toda minha iniciação científica e meu mestrado foram feitos em lagoas costeiras desta região, então tenho um carinho a mais por este fantástico ecossistema.

Os gafanhotos (insetos da ordem Orthoptera, subordem Caelifera) da foto acima estão “agarrados” em um broto de Allagoptera arenaria, palmeira conhecida popularmente como guriri ou juruba. Juruba é o nome dado pelos índios Goytacases que dominavam esta região a esta pequena palmeira que, por sua abundância, acabou dando nome a região e hoje ao Parque Nacional.

Na foto (clique para ver melhor) podemos ver o detalhe das antenas segmentadas, o terceiro par de pernas saltadoras, com coxas bem desenvolvidas, e o aparelho bucal mastigador, muito utilizado por esse herbívoro para cortar o seu almoço.

Como todas as fotos do meu flickr, os gafanhotos acima estão sob a licença Creative Commons. Então use e abuse em outros blogs, sites e na sala de aula. Só não esqueça de dar crédito a este fotógrafo amador.

Nem tão bonita, nem tão feia: O balanço entre reproduzir ou morrer

Quem nunca ficou impressionado ao olhar as asas de uma borboleta? Na minha opnião são todas muito bonitas e interessantes. Seus padrões de cores e formas podem nos lembrar olhos ou até mesmo que a cabeça da borboleta está na parte traseira dela.

padroes de asas de borboletas2.jpg
Estes padrões são muito importantes para a sobrevivência da borboleta, tanto para evitar predadores, quanto para atrair parceiros para reprodução. E esta é a parte interessante, existe uma divisão espacial deste padrões. Jeffrey Oliver e seus parceiros publicaram recentemente um artigo na revista Proceedings of The Royal Society B sobre este tema. Eles observaram que tal divisão espacial é de extrema importância para borboletas. A parte de dorsal da asa seria responsável por sinilizar padrões responsáveis pela atratividade sexual da borboleta, enquanto os padrões da parte ventral seria importantea na sinilização para evitar predadores.

Observou-se uma taxa maior de evolução, pela reconstrução filogenética, dos caracteres responsáveis pelos padrões sexuais em comparação com os padrões responsáveis em evitar predadores. Este é o primeiro estudo a demonstrar que tal separação espacial é uma estratégia viável em acomodar várias funções de sinalização em uma mesma parte coporal. Além de tal comportamento ser de suma importância na diversidade de padrões visuais nas asas desses animais, e por conseguinte, na diversidade de espécies.

Realmente, seria muito perigoso para as borboletas altas taxas de mudança da aparência da parte da asa responsável em afugentar predadores. Mutações que levassem a asas das borboletas apresentarem fisionomias que afugentassem (de maneira mais tosca que seja) os predadores, foram selecionadas ao longo do tempo. Imagina ao invés de parecer olhos de coruja, sinalizassem com maior clareza a presença da borboleta que tenta, em vão, se esconder. Rapidamente, todas as borboletas que tivessem essa fisionomia seriam predadas e esse padrão sumiria da população.

Fonte: Nature

Referência: Oliver, J. C., K. A. Robertson, and A. Monteiro. 2009. Accommodating
natural and sexual selection in butterfly wing pattern evolution. Proc. R. Soc. B, doi:10.1098/rspb.2009.0182

O aumento da temperatura já era, agora só nos resta poupar o ártico

Desde da era pré-industrial até os dias de hoje, a concetração de CO2 na atmosfera cresceu de 284ppm para 380ppm. O CO2, junto com outros gases (óxido nitroso, metano e trifluoreto de nitrogênio) possuem capacidade de reter calor da atmosfera, sendo por isso chamados de gases estufa. Atribui-se o aumento na concentração dessses gases ao processo de aquecimento global (1 grau centígrado desde o período pré-industrial até agora), isto é, quanto maior a concentração desses gases na atmosfera, maior a temperatura média global.

Um estudo realizado pelo Centro Americano de Pesquisas Atmosféricas (NCAR) que será publicado na próxima semana na revista Geophysical Research Letters aponta que uma concentração de 450ppm de CO2 pode ser uma meta rasoável para estabilização até o final desse século. É claro, esse cenário se realizará se forem colocadas em prática ações de redução das taxas de emissão atual. Se o ritmo continuar como o atual, as previsões são para patamares de 750ppm até o final desse século.

No cenário de 450ppm, a temperatura média global deve sbir 0,6 graus. Menor que os 2,2 graus se mantido o ritmo atual de emissões. O que isso quer dizer? Bem, o aumento de temperatura global já não dá mais para parar.

Quais são os outros impactos? Serão 14 cm de aumento do nível (contra 22 cm com 750ppm) do mar devido a expansão térmica da água do mar, não contabilizando o aumento causado pelo derretimento de geleiras. Outro impacto seria a perda de 1/4 da camada de gelo do ártico e depois a estabilização dessa área até 2100, diferente dos 3/4 de perda e a não estabilização no cenário de 750ppm.

Poupando o ártico, grandes estoques pesqueiros podem ser salvos, bem como populações de aves e mamíferos aquáticos. Porém o resultado que mais me chamou minha atenção foi a redução da precipitação na parte sul dos EUA e um aumento na parte norte. Bem, a parte norte, como sabemos é fria e neva muito. Clima que não é propício para agricultura, diferente da parte sul que possui clima mais ameno. Está me parecendo medo do futuro, mas agora com perigos locais reais e não mais perigos globais. Ainda mais, quando o centro de estudos responsável pela pesquisa é americano e não de outros paises.

Fica aí mais resultados de mais simulações de mais super-computadores. Ainda bem que está vindo por aí mais um relatório de IPCC para juntar e analisar isso tudo. Não querendo dizer que o resultado desse resumão seja mais confiável que qualquer outro.

Fonte: EurekAlert

A Origem das espécies – esboço de 1842

A origem das espécies - Esboço de 1842

Em uma visita habitual aos sebos virtuais, resolvi buscar livros do desconhecido autor “Charles Darwin“. Dentre as centenas de cópias dos seus livros “A Origem das espécies” e “Viagem de um naturalista ao redor do mundo” em sebos de todo o Brasil, um título me chamou a atenção. O nome do livro era “A origem das espécies – Esboço de 1842“. Seria este o esboço escrito por Darwin 17 anos antes da publicação do seu mais famoso livro “A origem das espécies“? Aquele tão citado por vários autores, dentre eles Ernst Mayr em “Uma ampla discussão” (FUNPEC editora, 2006)? Realmente era ele. Versão em português de um manuscrito histórico, onde Darwin expõe pela primeira vez em um texto razoavelmente coerente parte de suas ideias. A editora é a Newton Compton Brasil (alguém sabe se ela ainda existe?), edição publicada em 1996.

Esta edição integral do “Sketch” de 1842 apresenta o texto integral da versão original, trazendo não só o texto escrito por Charles Darwin mas também o texto apagado por ele. Na “nota do tradutor” (página 15), Mario Fondelli ressalta:

 

“O que temos aqui é um conjunto de ideias básicas que, melhor desenvolvidas e ampliadas, acabariam formando o fundamento da teoria darwinista. Só que aqui ainda são apresentadas sem polimento, sem uma metodologia rigorosa nem uma exaustiva explicação dos fatos. (…) Mas há nisto umas vantagens que não poderiam ser percebidas numa obra mais cuidadosamente acabada: este afã de entregar ao papel pensamentos fugidos, estas correntes de raciocínio que nos parecem quase ilógicas mas que deviam ter sentido muito claro para o autor, fazem com que possamos quase testemunhar a labuta mental do cientista, e nos permitem conhecê-lo de forma mais humana do que qualquer biografia.”

 

Realmente este texto nos faz entrar em contato direto com a atmosfera criada por Darwin. Frases soltas, apagadas (delimitadas por colchetes pelo tradutor) marcações pedindo mais exemplos, citações sem referências… um completo caos para um leitor de primeira viagem, mas um relato histórico muito interessante para qualquer pessoa que se interesse mais pelas origens do pensamento darwinista. Podemos conhecer um resumo das ideias de Charles Darwin apenas 6 anos depois da sua marcante viagem a bordo do Beagle e entender melhor como se deu o processo de amadurecimento de sua teoria. Além do esboço de 1842, esta edição brasileira traz de “brinde” (e no meu conhecimento pela primeira vez em português) a comunicação lida em primeiro de Julho de 1858 na Sociedade Linneana intitulada “Sobre a tendência das espécies em formar variedades e sobre a perpetuação das variedades e das espécies por meio de seleção natural“. Comentei um pouco sobre a importância desta comunicação aqui. A carta de Lyell e Hooker, o resumo de um manuscrito de Darwin, o trecho de uma carta de Darwin para o professor americano Asa Gray e o artigo “Sobre a tendência das variedades a divergirem indefinidamente do tipo original” de Alfred Russel Wallace. Tudo em português do Brasil.

Selecionei abaixo alguns trechos do esboço de Darwin que são bem interessantes:

 

“Um indivíduo posto sob novas condições [frequentemente] varia pouco em relação a fatores como estatura, teor de gordura, cor, vigor, hábitos (nos animais) e, provavelmente, a disposição. Os hábitos de vida também desenvolvem certas partes; o desuso as atrofia [a maior parte destas pequenas variações tende a tornar-se hereditária].”

Página 19

O trecho citado acima mostra a influência da lei de uso-desuso e da teoria dos caracteres adquiridos de Lamarck no pensamento de Darwin. Ao longo do esboço Darwin cita algumas vezes Lamarck em trechos onde passa a ideia de divergência do pensamento Lamarckista, como em “(…) Introduzir nesta altura o contraste com Lamarck – disparate de hábitos ou mudança??” (página 28)  ou em “(…) A degradação e a complicação não tendem de modo algum a perfeição. Justamente argumentando contra Lamarck” (página 58). Mas a influência de Lamarck no pensamento de Darwin é algo que perdurou mesmo após a publicação do “A origem das espécies” em 1859. Ao contrário de Darwin, Alfred Russel Wallace tinha uma posição muito mais forte contra Lamarck, explicitada em seu artigo lido na Sociedade Linneana em 1858.

 

“(…) Malthus trata do homem – nos animais não existe freio [impedimento] moral – eles se reproduzem no período do ano em que o alimento é mais abundante ou a estação é mais favorável;(…) Isto requer muita reflexão; estudar Malthus e calcular a taxa de aumento e lembrar a resistência – somente periódica.”

Página 25

Na página 25 e em alguns trechos posteriores Darwin mostra a grande importância para a construção do conceito de “seleção natural”  do “Ensaio sobre a população” do Reverendo Thomas Malthus. Este ensaio foi publicado originalmente em 1798, mas a versão mais famosa (sexta) foi publicada em 1826.

 

“(…) É irrelevante que o Criador de inúmeros sistemas de mundos tenha criado cada indivíduo dos milhares de parasitas ocultos e de vermes [do lodo] que pulam cada dia da existência, sobre a terra na água do [deste] globo. Deixemos de assombrar-nos, por mais que se possa deplorá-lo, se um grupo de animais foi criado diretamente para pôr seus ovos nas vísceras ou nas carnes de outros, se alguns organismos tiram prazer da crueldade – se os animais se deixam levar por falsos instintos – se todos os anos há um incalculável desperdício de ovos e pólen. Podemos ver que o bem maior que se possa imaginar, a criação dos animais superiores, decorre diretamente de morte, carestia, roubo e guerras secretas da natureza.”

Página 67-68

A origem das espécies - Esboço de 1842

O último trecho selecionado foi a base de um texto reproduzido no “A origem das espécies“. Argumento até hoje utilizado por evolucionistas contra a ideia de design divino. Simplesmente genial. Outro fato interessante é o que foi levantado pelo Kentaro. Darwin foi sim quem cunhou o termo “criacionista”, mas foi bem antes de 1859. Por várias vezes o termo é citado neste esboço, se referindo aos defensores de um Criador onipotente, que teria criado a vida em vários momentos.

A Origem das espécies – esboço de 1842 não é um livro para ser lido pelo público geral. Na verdade eu não consigo entender como ele foi vendido por R$2,00 (como indicado na capa e pela qualidade de sua encadernação e páginas), exclusivamente em “bancas e agências de jornais de todo o brasil” (como descrito na página 6). Ele é um livro que traduz as ideias de Charles Darwin de forma crua, confusa e até muitas vezes contraditória. Uma oportunidade para ler um dos maiores cientistas da história sem cortes e sem revisão de pares é algo realmente interessante.

 

PS.: A minha hipótese para a venda deste livro em bancas de jornais é que muitas pessoas conhecem Darwin apenas pelo seu nome e talvez pelo nome do seu mais importante livro. Imagina chegar em uma banca de jornal e ver na capa “Darwin – A origem das espécies. Edição integral”. E logo acima “R$ 2,00″. Quem resistiria a tentação de levar um clássico por apenas dois reais? A parte de “esboço de 1842″ era apenas um detalhe…

Downloads e índices de impacto de revistas científicas

Todo trabalho científico deve ser publicado para análise da comunidade científica no geral. Mais importante que a análise do referee da revista, é a análise de toda a comunidade. Nesse contexto surge o grande clímax dos cientistas brasileiros: publicar em uma revista científica com alto índice de impacto.

Mas o que é isso? Bem, esse índice se baseia na razão entre citações dos artigos publicados por uma revista e o número absoluto de artigos publicados pela mesma revista. Isto é, quanto mais os artigos de uma revista são citados, mais alto é seu índice. Mas é claro que não adianta publicar um milhão de artigos por ano, deve existir um balanço. Por exemplo, a revista Science (índice de impacto por volta de 30). Esta revista é uma das mais famosas do mundo (quando aparece no jornal nacional algo sobre ciência, é porque foi capa da Science), as maiores inovações da pesquisa mundial são publicadas nela. Assim, por serem artigos referência para várias outras linhas de pesquisa no mundo, os artigos da Science são muito citados em outras revistas científicas.

Outra coisa que também vem inflando (ou desinflando) egos dos pesquisadores é a quantidade de vezes que um artigo seu é tido como referência por outros artigos científicos. Quanto mais melhor! É algo como uma conta bancária, se a minha é maior que a sua, sou melhor que você. Lendo o EurekaAlert, vi que saiu na revista Journal of Vision um editorial publicado pelo seu editor chefe Andrew Watson no qual procura-se novas maneiras de medir o índice de impacto dos artigos científicos. Ao invés de ser pelo número de citações (modo lento, pois demora até outros artigos comecem a usar o seu como referência), a nova maneira seria medindo o número de downloads do artigo (mais rápida, qualquer servidor tem a habilidade de dar esse dados em tempo real).

Novos métodos à parte, eu me pergunto: Para quê isso? Um artigo só é bom se ele for citado por muitas pessoas? Um artigo só é bom se for capa da Science? Um artigo só é bom se um dos autores for alguém muito renomado? É um absurdo perder tempo com isso, é o tipo comportamento americano: “Eu tenho que ser o melhor, os números mostram isso!!!” Parece que um cientista só é respeitado se for um grande publicador, ou se já tiver publicado no revista ultra famosa.

Science, nature e PNAS são revistas do hemisfério norte. São os quintais dos cientistas americanos e europeus. Pesquisa tropical era algo tido como curiosidade até pouco tempo. Na área em que trabalhei, agora que estão entendo a importância dos ambientes tropicais (principalmente no ciclo do carbono). Sabe o que deveríamos fazer? Publicar isso em revistas nacionais, para aí sim eles começarem a dar valor as nossas publicações. Mas não, logo que temos algo bom queremos mandar para revistas internacionais, mesmo se for uma do Paquistão! Com esse comportamento, nunca iremos ter revistas com grande impacto mundial.

Outro fato, é que do mesmo jeito que existe camaradagem aqui, lá também tem. Os editores dessas grandes revistas são cientistas renomados, os quais têm amigos que são favorecidos na hora da publicação. É fato, não é só o Brasil que é corrupto. Europeus, chineses, americanos também são. Além disso, os artigos que mais vão sair nessas revistas são (maioria) os que têm alguma importância para eles (tentem visualizar um artigo sobre esquistossomose saindo na Science. É meio difícil, apesar de ser de importância gigantesca para gente). Indo um pouco mais além, a pesquisa nesses países se encontra anos luz na frente do nosso, não em termos de recursos humanos (nossos cientistas são maravilhosos), mas em recursos físicos. 

Na minha humilde reflexão, por que não fazer um índice de impacto no qual o que fosse levado em consideração fosse o número de vidas humanas salvas ou o número de pessoas que tiverem uma melhoria na qualidade de vida? O objetivo da ciência não é esse? Então, nada mais justo.

Parece piegas? Pode até ser. Mas é bem mais útil do que ficar vendo se o meu índice é maior que o seu! Pelos menos estaremos retribuindo o dinheiro investido.
 

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