Os bonitos que me desculpem, mas belos cantos são fundamentais

Como eu disse, adoro aves. Então este é mais um post sobre esses incríveis animais. O canto das aves tem um papel muito importante na dinâmica de suas vidas. Usado para atrair as fêmeas, o canto elaborado dos machos é usado também para afugentar outros machos. É por causa dessa caraterística, que pássaros canoros são tão valorizados pelos humanos. Eles colocam os pássaros próximos uns aos outros, assim, estimulando as aves a cantarem (instinto de afugentar do seu território outros machos). Os que cantam mais são os mais valorizados. Puro egoísmo e narcisismo humano.

Carlos Botero e colaboradores observaram que o canto de algumas espécies da Família Sturnidae (antiga Mimidae) era mais complexo e elaborado em regiões onde o clima é mais incerto. Isto é, ambientes nos quais existe grande variação entre estações ou os padrões climáticos são imprevisíveis dificultam as tentativas de reprodução e a obtenção de alimentos. Por esses pássaros possuirem uma característica muito interessante, eles são capazes de imitar cantos de outros pássaros, adicionando trechos de outra autoria a seu próprio canto. Assim, quanto mais complexo o canto, maior seria a capacidade cerebral do indivíduo em questão, o que daria uma maior probabilidade de conseguir se reproduzir. Botero explica que as fêmeas nesses ambientes mais extremos são mais exigentes na hora da escolha do macho.

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Essa escolha das fêmes dessas aves, seria algo como as mulheres humanas dessem mais valor a inteligência de seus parceiros (maior capacidade cerebral), ao invés da aparência física.  Botero explica que essa escolha das aves estaria favorecendo comportamentos de  inovação e maior inteligência dos machos, características essas que ajudariam na sobrevivência em ambientes com grande variabilidade climática.

Paralelos entre humanos e pássaros podem ser feitos sobre essa ótica. Artes, linguagem e música poderiam ter sido desenvolvidas como características que indicariam sinais de maior inteligência, e então, maior chance de sobrevivência na natureza. Exemplo clássico de seleção sexual.

“Our data suggest that a similar process might be going on in the
songbirds, and this possibility presents us with a unique opportunity
to understand the forces behind the evolution of traits that are so
important for our own species.”
Carlos Botero
Fonte: Eurakalert

Referência:

Carlos A. Botero, Neeltje J. Boogert, Sandra L. Vehrencamp and Irby J.
Lovette. 2009. Climatic Patterns Predict the Elaboration of Song Displays in
Mockingbirds. Current Biology. doi:10.1016/j.cub.2009.04.061

Biografia de Darwin em quadrinhos

Darwin: A Graphic Biography

A biografia de Darwin não só foi transformada em quadrinhos de alta qualidade, como foi distribuída de graça (claro que apenas na Inglaterra). O texto é de Eugene
Byrne e o desenho de Simon
Gurr, totalizando 100 páginas de conteúdo. No sítio do desenhista podemos ver como funciona a distribuição dos quadrinhos, que incluiu livrarias e museus como distribuidores. Abaixo podemos ver uma página da biografia, registrando uma conversa entre o Dr. Robert Waring Darwin (mais conhecido como pai de Darwin) e Charles em sua juventude, discutindo sobre o rumo profissional do futuro naturalista. Robert insiste que seu filho deve se tormar um sacerdote. Argumenta que ele teria tempo para fazer outras amenidades, como pegar besouros e caçar (passatempos preferidos de Charles).

 
Robert Darwin's career advice

Para ver outras páginas da biografia de Darwin em quadrinhos, visite o flickr do desenhista.

Fonte: The Beagle Project Blog

Devemos acelerar o aquecimento global!

- Pai, o que causa o Aquecimento Global?
- Uma lente de aumento bem grande.
- Outro dia muito quente. Deve ser o Aquecimento Global. Alguém deve fazer alguma coisa.
- E aí, rapazes. A estação do biquini começa mais cedo a cada ano!
Direto da idade da pedra, B.C.

Vida sem luz

ResearchBlogging.orgA primeira coisa que pensamos quando lemos o termo “autotrófico” é em plantas. No máximo em microalgas. Alguns pensariam que também existem bactérias que fazem fotossíntese e se encaixariam nesta classificação. Mas vamos tentar entender a origem deste termo.

Autotróficos seriam os organismos capazes de se “auto nutrir”, produzir moléculas orgânicas a partir de moléculas inorgânicas e da energia luminosa. Certo? Bem, não tão certo assim. A utilização mais correta do termo autotrófico é que eles seriam organismos independentes de material orgânico, que assimilam compostos chamados C-1 (CO2, CH4 ou metanol) como fonte de carbono. Parece que eu esqueci de colocar algum termo, não é? Onde entraria a energia luminosa nesta classificação mais ampla? Ela não entraria. Isto porque nem todos os organismos autotróficos utilizam a energia luminosa como fonte de energia. A fonte de energia pode vir da oxidação de compostos inorgânicos, como sulfeto, metano e hidrogênio.

Podemos dividir os organismos autotróficos em dois grandes grupos: os que dependem da energia luminosa (fotoautotróficos) e os que oxidam compostos inorgânicos e não dependem da energia luminosa (quimioautotróficos). Devido aos organismos quimioautotróficos, nem toda a vida de nosso planeta depende da energia do sol. A importância dos organismos quimioautotróficos na sustentação da cadeia alimentar foi primeiramente mensurada há mais de 30 anos em ecossistemas bem peculiares, as fontes hidrotermais. Elas se localizam em regiões de oceano profundo e se organizam em grandes comunidades de organismos, sendo considerada como uma das mais produtivas do mundo. Desta forma, toda esta biomassa, que inclui espécies de camarão, vermes tubulares, mexilhões é sustentada na ausência completa de luz. 

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Comunidade associada a uma fonte hidrotermal. Crédito: Nature

Após a descoberta das fontes hidrotermais, a importância da quimiossíntese foi estudada em outros ecossistemas, como sedimentos de ambientes aquáticos costeiros e corais. Como estes ambientes apresentam uma grande distribuição em todo o mundo, o estudo da real importância da quimiossíntese em termos globais tem sido o tema de muitos artigos em revistas de renome nos últimos anos. Ambientes de águas anóxicas como lagos profundos ou com grande taxa de decomposição têm altas taxa de metanogênese (produção de metano) por archeas, sendo ecossistemas onde a quimiossíntese poderia ter grande importância para a cadeia alimentar. O metano gerado por archeas metanogênicas é oxidado por bactérias metanotróficas, sendo uma fonte extra de energia e carbono para o ambiente. Este fato já foi comprovado por análises isotópicas, que conseguem determinar a origem do carbono. Quando o carbono (metano) é proveniente da metanogênese, ele tem um sinal baixo. Desta forma, organismos que apresentarem um sinal parecido, provavelmente tem uma dieta baseada em carbono com origem no processo metanogênico. Organismos com um sinal mais alto tem uma dieta mais direcionada para outras fontes de carbono, como fotossíntese. Um estudo publicado em 2008 na Ecology analisou o sinal das larvas de quironomídeos (Diptera) em 87 lagos e viu que as bactérias metanotróficas foram as maiores responsáveis pelo crescimento de biomassa das larvas.

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Bactérias metanotróficas (Methylosinus trichosporium OB3b). Crédito: Ezra Kulczycki

Acharemos o sinal de que o carbono em peixes e no homem pode ter origem bacteriana? Tudo indica que sim. Talvez em alguns anos descobriremos que organismos muitas vezes desconsiderados por nós seres “superiores” podem ser uma importante fonte de energia e carbono para a vida em nosso planeta, até mesmo para grandes vertebrados.

Para ler outros posts desta blogagem coletiva sobre a luz, clique aqui.

Referências:

Bastviken, D., Ejlertsson, J., Sundh, I., & Tranvik, L. (2003). METHANE AS A SOURCE OF CARBON AND ENERGY FOR LAKE PELAGIC FOOD WEBS Ecology, 84 (4), 969-981 DOI: 10.1890/0012-9658(2003)084[0969:MAASOC]2.0.CO;2

Dubilier, N., Bergin, C., & Lott, C. (2008). Symbiotic diversity in marine animals: the art of harnessing chemosynthesis Nature Reviews Microbiology, 6 (10), 725-740 DOI: 10.1038/nrmicro1992
Fenchel, G. M. and B. T.H. 1998. Bacterial biogeochemistry. The ecophysiology of mineral cycling. Academic Press.
Jones, R., Carter, C., Kelly, A., Ward, S., Kelly, D., & Grey, J. (2008). WIDESPREAD CONTRIBUTION OF METHANE-CYCLE BACTERIA TO THE DIETS OF LAKE PROFUNDAL CHIRONOMID LARVAE Ecology, 89 (3), 857-864 DOI: 10.1890/06-2010.1

Macrófitas aquáticas NÃO causam diarréia, hepatite e doenças de pele

Parece mentira, mas não é. A segunda edição do jornal local do Rio de Janeiro de hoje (12/05), transmitido pela Rede Globo, passou para o público, com todas as letras, que as pessoas em contato com as gigogas correm o risco de ter diarreia, hepatite e doenças de pele. Isso mesmo. As plantas aquáticas, e não o esgoto in natura jogado diariamente nesta lagoa, causam doenças. Solução? Retirar toneladas de gigogas das lagoas todos os dias. Desta forma, seguindo o mesmo raciocínio, posso pegar minha sunga e ir tomar um banho na lagoa após a retirada das macrófitas, sem me preocupar com as doenças. Não seria mais fácil parar de jogar esgoto na lagoa?

Para o melhor entendimento da função das macrófitas aquáticas neste ambiente hipereutrofizado, gostaria de acrescentar a este post parte de um capítulo relacionado as lagoas da cidade do Rio de Janeiro que escrevi no livro “Rio próximos 100 anos: O Aquecimento Global e a cidade”, publicado em 2008.

“A gigoga é uma espécie de macrófita aquática das mais abundantes nas lagoas [da cidade do Rio de Janeiro]. Nos últimos anos foram registrados vários eventos de super população desta espécie intimamente ligada a alta concentração dos nutrientes nitrogênio e fósforo, presentes em alta concentração nestes ecossistemas devido ao lançamento de esgoto in natura. Macrófitas aquáticas tropicais apresentam uma alta capacidade de absorção de nitrogênio e fósforo da água (Brahma D et al. , 1991), sendo as macrófitas aquáticas flutuantes, como a gigoga, as que apresentam as maiores taxas de absorção, devido ao fato de absorverem estes nutrientes diretamente da coluna d’água através de suas raízes. Um hectare de gigogas pode absorver o equivalente a média diária de produção de esgoto de 800 pessoas (Rogers e Davis, 1972).

Desta forma, as gigogas atuam como um “filtro natural” de esgoto em ecossistemas aquáticos, sendo até recomendadas para o controle do processo de eutrofização em uma lagoa no norte do Estado do Rio de Janeiro devido a sua alta capacidade de absorção de nutrientes (Petrucio e Esteves, 2000). As gigogas apresentam uma tolerância de apenas 2,5 ‰ a concentração de sal na água (Haller et al., 1974) enquanto a salinidade da água do mar é cerca de 35 ‰. Ou seja,  um pequeno aumento na salinidade pode resultar em uma grande diminuição da biomassa deste vegetal. A ausência deste “filtro natural” de esgoto associada grande aporte extra de nutrientes causado pela morte das gigogas poderá causar um aumento repentino na concentração de nitrogênio e fósforo, o que pode ter um resultado drástico para estes ecossistemas. Eventos de afloramentos de algas tóxicas podem se tornar ainda mais freqüentes nos próximos anos, devido a este grande aporte de nutrientes.”  

Eichhornia crassipes

Gigoga, jacinto aquático ou aguapé (Eichhornia crassipes). Crédito: hsivonen

Existem trabalhos sérios de manejo de macrófitas aquáticas. Elas podem retirar ativamente nutrientes do ambiente aquático e serem removidas antes de morrerem. A biomassa rica em nutrientes pode ser utilizada como adubo em áreas de entorno possivelmente desmatadas. Além disso, vários projetos de ETE verdes (estações de tratamento verde) utilizam as macrófitas para depuração de águas poluídas, servindo perfeitamente para menores demandas. Este já é o terceiro vídeo que eu comento no blog sobre furadas de jornalistas. Tenho a impressão de que poderia fazer isso o dia inteiro e não faltaria pauta para novos posts.

Aprenda com os jornalistas como NÃO ensinar Seleção natural para os seus alunos e como NÃO fazer divulgação científica em rede nacional.

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