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Na última edição da revista Science, foi publicado um artigo de extrema importância para a Amazônia brasileira. Pesquisadores brasileiro (IMAZON) em colaboração com pesquisadores estrangeiros avaliaram o impacto da avanço do desmatamento no desenvolvimento econômico e social nos municípios amazônicos afetados. Mas antes de tudo, o artigo mostra dados impressionantes. Nosso país abriga 40% da do que sobrou de floresta tropical no mundo, porém do ano de1998 a 2008, nós desmatamos a uma taxa de 1,8 milhões de hectares por ano (quase que um terço de todo o desmatamento global de florestas tropicais), liberando por volta de 250 milhões de toneladas de carbono. Nosso país desmata seguindo basicamente duas receitas: ou retiramos as madeiras nobres, depois queimamos e, em seguida, fazemos pasto, ou retiramos as madeiras nobres e desenvolvemos plantações. No nosso caso em particular, estamos fazendo essas conversões de habitat em questão de décadas, sendo que em outros países, esse mesmo ciclo durou séculos ou mesmo milênios.

Todo esse avanço no desmatamento tem como bandeira principal o melhoramento do nível de vida dos habitantes dessas grande floresta. Isto é, degradação ambiental em nome da melhoria na qualidade de vida. Nesse contexto, os pesquisadores dividiram 286 municípios amazônicos em 7 classes relativas ao tempo do avanço da fronteira de desmatamento (levando em consideração a extensão e atividade do desmatamento) indo da classificação pré-fronteira (floresta intacta e sem sinal de desmatamento se aproximando), elevando gradualmente a taxa de de desmatamento, até áreas de pós-fronteiras (onde o desmatamento severo já ocorreu a algum tempo e outras atividades são os carros chefes). Junto a isso, foi medido o índice de desenvolvimento humano (IDH) de cada município, indicando o grau de desenvolvimento do município. O IDH é o valor médio de outros três subíndices: expectativa de vida, alfabetização e padrão de vida (baseado na renda per capita).

 

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Observem o IDH e a taxas das parâmetros levados em consideração na medida do IDH. Da classe A (mais preservada) G (devastada a tempos)

 

Como vocês podem observar, existe um padrão no valor do IDH e de seus componentes. Logo, após os estágios iniciais de desmatamento observa-se um rápido aumento no grau de desenvolvimento, isto é, em um primeiro momento ocorre realmente uma melhoria nos índices dos municípios. Porém, após algum tempo de desmatamento e superexploração dos recursos naturais, ocorre a queda nesse índice, não havendo diferença estatística deles entre a classe A e G (como se fosse um antes e depois da exploração). O que isso nos diz? Que em um curto espaço de tempo pode haver desenvolvimento, mas após algum tempo e esgotamento dos recursos naturais (virou pasto ou plantações). Os autores observam que houve um aumento do IDH do Brasil como um todo nesse período, porém os resultados apontam é que houve um aumento mais rápido da expectativa de vida, alfabetização e padrão de vida nos estágios iniciais de avanço da fronteira de desmatamento. Já nos municípios localizados antes e depois da fronteira houve diminuição.

Mas a que se deve isso? Especulou-se que esse aumento na taxa de desenvolvimento era devido a imigração de pessoas para munícipios nas classes intermediárias de desmatamento. Pessoas com melhor educação e condições financeiras chegariam a tal localidades. Porém, essa fato não explica o rápido crescimento nos estágios iniciais, visto que nessa fase, o maior montante de imigrantes são de pessoas pobres em busca de uma vida mais digna. A explicação mais condizente consiste no desenvolvimento do município mesmo: construção de estradas, lucro com ô comércio de bens naturais em abundância, acesso melhor a aparto médicos, e outros. Mas esse desenvolvimento é transitório, esse declínio reflete a exaustão dos recursos naturais que deram suporte ao boom inicial. A exploração da madeira não é mais rentável e ocorre a degradação do solo por causa das grandes áreas de pasto.

Isso nos mostra o quão errada é a mentalidade atual da exploração desordenada. Além disso, o discurso “Estamos levando desenvolvimento para a Amazônia” é mentira. Como em tudo no Brasil, os mais ricos são os que se beneficiam do rápido desenvolvimento e acumulam essa riqueza. Após a exploração, sobram os restos para os mais pobres. Desmatar não levou a um aumento na qualidade de vida dos habitantes da floresta. Com isso, em um primeiro momento devemos parar com esse modelo, traduzindo, para o desmatamento e a expansão agropecuária. Depois, reflorestamento de áreas degradas e, em seguida, estímulo a exploração “sustentável” (se é que isso existe!). Os autores propõem também o incentivo a exploração do mercado de sequestro de carbono, visto que possuímos imensos estoques de carbono e capacidade comprovada de monitoramento de mudanças na floresta. Quando o governo brasileiro entender que a floresta vale muito mais em pé do que tombada, aí sim, veremos o que é desenvolvimento. 

Dica do Carlos Hotta do Brontossauros

Referência:

Rodrigues, A., Ewers, R., Parry, L., Souza, C., Verissimo, A., & Balmford, A. (2009). Boom-and-Bust Development Patterns Across the Amazon Deforestation Frontier Science, 324 (5933), 1435-1437 DOI: 10.1126/science.1174002

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