II EWCLiPo: um pequeno grande evento
No último final de semana estive em Arraial do Cabo para participar do II EWCLiPo, o encontro de blogs científicos em língua portuguesa. Além de conhecer pessoalmente vários companheiros de blogosfera científica, tive a oportunidade de assistir várias palestras interessantes que destacavam o principal tema de discussão do encontro: divulgação científica feita por jornalistas e por cientistas.
Um ponto com certeza marcante foi a presença em massa de jornalistas, algo que não aconteceu no I EWCLiPo. As discussões e reflexões mostraram que não existe nenhum problema entre jornalistas e cientistas quanto a divulgação científica. Existe sim um problema entre cientistas e mal jornalistas de ciência. Quando colocam um jornalista de esportes para escrever uma reportagem de ciência a probabilidade de termos um problema sério é muito grande. Mas casos como o Reinaldo mostram que o problema não está na profissão do divulgador, mas sim na sua formação. Tenho certeza que se jornalistas que escrevem artigos de ciência tivessem tempo para se dedicar a área, além de terem formação específica, a maior parte dos problemas que encontramos em reportagens de ciência poderia ser evitado. É claro que o evento não foi restrito ao tema Jornalistas X Cientistas. Para acompanhar mais detalhadamente como foi o evento indico este post.
Uma palestra me deixou ao mesmo tempo perplexo e muito feliz neste evento. Foi a do Bernardo Esteves, da Ciência Hoje On-line. O Bernardo nos mostrou uma prévia de como vai ser o novo portal da revista. Dentre as várias novidades, teremos um blog com direito a comentários e links para textos externos, vídeos e mais reportagens feitas diretamente para o site. Além de, é claro, mais interação com blogs de ciência brasileiros. Se metade do que o Bernardo apresentou realmente se concretizar tenho certeza que essa será uma iniciativa única não só se tratando de divulgação científica nacional como internacional. Eu não conheço uma revista de divulgação gringa que tenha todos esses recursos.
Para finalizar o pessoal da Ciência Hoje online fez um vídeo entrevistando vários blogueiros presentes ao evento. Minha singela participação está registrada no final do vídeo, com direito a reflexão sobre a importância do evento.
Climate Week NY°C: mais do mesmo
A Climate WeeK NY°C tem como função reunir líderes de vários países do globo para debater o tema central “Mudanças Climáticas”. Essa semana precede a Conferência sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas que será realizada na Dimarca (7-18 de Dezembro). Mas qual a função de mais um encontro como o de Nova YorK sobre mudanças climáticas? É somente servir como palanque político para esses governantes falarem de suas possíveis (e impossíveis) políticas de combate ao aquecimento global. Hoje (terça feira 22/09), os líderes se reunirão para discutir abertamente sobre este problema.
Uma das pautas mais esperadas é sobre a influência da crise financeira sobre as emissões de CO2 globais. Um estudo da agência internacional de energia (ainda não publicado) mostra em dados preliminares que as emissões reduziram bastante e significativamente nos últimos meses. Além da freada na produção industrial, comenta-se ainda que políticas públicas de redução das emissões (principalmente as políticas européias) atuaram em sinergismo. Por exemplo, ana Europa houve uma redução de 1,3% em 2008 em relação a 2007, sendo 6,2% abaixo das metas de Kyoto para 2008.
Nesse contexto, um mal-estar está crescendo entre os EUA e a União Européia. As metas que estão sendo aplicadas na Europa se mostram bastante promissoras (e até um pouco ousadas). Já nos EUA, devido a mobilização total do senado em relação a questão da Saúde, as políticas de controle de emissão de gases estufa estão andando a passos de tartaruga. Além disso, países como a China e Índia não estão fazendo absolutamente nada em relação a políticas públicas sobre esta questão. Ao contrário, a matriz energética chinesa é o carvão (uma das mais poluentes) e suas emissões só tendem a crescer.
Isso me parece uma guerra dos sujos contra os mal-lavados. EUA e Europa tem papel primordial na atual concentração de gases estufas na atmosfera. A revolução industrial começou na Europa. Já nos EUA, a produção industrial é colossal a décadas, alimentando um consumismo desenfreado. Estilos de vida europeus e norte-americanos são insustentáveis no nosso planeta. No outro canto de ring, as economias da China e Índia crescem em escalas absurdas ano após ano, sendo que a suas matrizes energéticas são as mais poluentes possíveis. Além é claro, de suas populações de bilhões de habitantes, fato extremamente danoso tanto para a questão climática, quanto para todas as outras questões ecológicas.
Porém uma coisa que me incomoda é a culpa que estão atribuindo à China e Índia (claro que ambas possuem papel importante no atual cenário mundial). O economista chefe da Angência Internacional de Energia, Fatih Birol, argumenta que se a China alcançar as metas dela, será o país com maior redução das emissões. É fácil falar isso quando seu país não está mais em desenvolvimento. Não estou tirando a culpa da China, mas nossa situação atual se deve quase que exclusivamente as emissões Européias e Norte-americanas seculares. Enquanto os países desenvolvidos (leia-se EUA) continuarem com o discursinho de que as metas dos países em desenvolvimento (leia-se China) são as prioridades, e não se preocuparem com as suas próprias metas, o cabo-de-guerra não terá fim.
Minhas esperanças (que são poucas) recaem mesmo na Conferência sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas. O Protocolo de Kyoto foi quase que totalmente ignorado, suas metas foram classificadas como freios ao desenvolvimento econômico. Um novo acordo precisa ser feito e ratificado por todas as nação (desenvolvidas e em desenvolvimento), novas metas devem ser traçadas. Mas, sem jamais esquecer os precedentes históricos de emissões, e agora, abrangendo as novas emissões dos países em desenvolvimento.
Ainda sobre o Zoneamento “Agroecológico” da Cana
Semana passada escrevi um pouco sobre as minhas expectativas em relação ao Zoneamento Agroecológico da Cana, divulgado pelo governo na última quinta-feira (17/09). Ótimos comentários foram feitos sobre o post, o que gerou uma boa discussão por lá. Após a divulgação do estudo base e do projeto de lei sobre o Zoneamento eu pensava em fazer uma análise mais profunda do material e divulgar a minha opinião. Bem, o Glenn Makuta se apressou e publicou primeiro suas relevantes considerações sobre o estudo base no Tubo de Ensaios, aqui do ScienceBlogs Brasil. Neste contexto gostaria de fazer minhas considerações sobre o estudo base e o projeto de lei. Antes gostaria que vocês tivessem acesso a esses documentos, que podem ser baixados neste link da Assessoria de Comunicação do Ministério do Meio Ambiente.
Estudo base do Zoneamento

Em termos gerais, como ressaltado pelo Ítalo no último post, posso dizer que o estudo base utilizado pelo governo para fazer o Projeto de Lei sobre o zoneamento da cana é de extrema qualidade. A ideia é simples. Removemos as áreas consideradas como prioridades para a conservação (Amazônia e Pantanal) e as “áreas com cobertura vegetal nativa” da análise. As áreas atualmente ocupadas pela agricultura, agropecuária e pastagens são divididas de acordo com a sua potencializada para o plantio de cana. Então vemos que não há problema algum. Somente as áreas já utilizadas pelo homem entram no zoneamento. Certo? Bem, vamos com calma. Primeiro eu faço uma pergunta simples. As fronteiras dos biomas Amazônia e Pantanal estão bem definidas no estudo, como mostra a figura abaixo. Mas o que seriam “áreas com cobertura vegetal nativa”? Este termo não está bem definido e é apenas citado no texto. O projeto de lei segue a mesma lógica. Se uma área tem apenas 10 ou 20% de “vegetação nativa”, apenas esta área estará fora do zoneamento? Não encontrei respostas no estudo e nem no projeto de lei.

Outro ponto. A exclusão da Bacia do Alto Paraguai do zoneamento da cana foi uma decisão considerada de “última hora”. O problema está na localização desta área, bem próxima ao epicentro da indústria sucroalcooleira no Brasil. Já existem atividades rurais em áreas do Pantanal, mas estas não entraram no Zoneamento. Por qual motivo? O único motivo é agradar o mercado externo. Se uma área de Cerrado ou Mata Atlântica foi incluída no zoneamento, porque não uma área do Pantanal? Não estou achando errado a exclusão do Pantanal do zoneamento, mas acho que a lógica para isso ser feito não apresentou nenhuma consistência ou argumento científico. O sub título do estudo fala em “Preservar a vida”, mas, neste caso, só se ela for da Amazônia ou Pantanal.
Voltando ao problema das “fronteiras”, gostaria de ressaltar o mapa abaixo sobre a potencialidade do centro-oeste para o plantio de cana. Podemos ver o mesmo mapa dos biomas mostrado anteriormente, acrescido das áreas aptas para a expansão da cana. A pressão sobre o bioma teoricamente intacto do Pantanal é algo realmente preocupante.

Um ponto interessante do estudo está na exclusão das área com declividade maior do que 12% do zoneamento. Estas áreas não poderiam ser mecanizadas, o que fortaleceria o uso das queimadas. Este tipo de ferramenta para limpar a área e facilitar a colheira ainda é utilizado em boa parte das plantações de cana e os seus efeitos serão futuramente discutidos aqui no blog na série sobre biocombustíveis. O único problema que vejo nesta medida é o aspecto social por privilegiar o agronegócio perante a agricultura familiar. Mas este com certeza não é o único problema da agricultura familiar no Brasil. Esse papo de que álcool e o biodisel irão ser produzidos por agricultura familiar ficou no papel. E com certeza não sairá dele.
Resumindo, o estudo como um todo será de grande importância para aumentar a produção de cana. Ele indica áreas de alta, média e baixa aptidão para o plantio, sendo fundamental para a agroindústria direcionar os seus esforços. A única parte voltada a conservação deste estudo está nas áreas excluídas do zoneamento. O nome “Agroecológico” dado ao zoneamento está muito mais para o “Agro” do que para o “Ecológico”. Mesmo assim, dentre os impactos esperados pelo estudo encontrei um no mínimo estranho:
Projeto de lei do Zoneamento
Estou longe de ser um especialista em legislação, mas vou tentar analisar alguns pontos do projeto de lei. Já no primeiro artigo, parágrafo único, temos uma informação lógica mas interessante:
” Parágrafo único. As medidas previstas nesta Lei não se aplicam a outros produtos
advindos da cana-de-açúcar, tais como cachaça, rapadura, ração animal e açúcar mascavo.”
Acho que temos um problema em relação ao nome estudo e do projeto. Não era zoneamento da cana-de-açúcar? Pelo parágrafo acima está mais para zoneamento da produção de álcool e açúcar branco. Mas vamos em frente. No artigo terceiro, inciso segundo:
” Fica vedada, a partir da vigência desta Lei (…) II – a supressão, em todo o território nacional, de vegetação nativa para a expansão do plantio de cana-de-açúcar;”
Voltamos ao início do post. “Vegetação nativa”? Qual extensão da área? Este seria um artigo muito bom, se não fosse a continuação dele…
”§ 1o
Para os efeitos do inciso II, os órgãos ambientais competentes deverão exigir
dec
laração do interessado de que a área onde a vegetação será suprimida não será destinada ao cultivo de cana-de-açúcar para a produção de açúcar, etanol e demais biocombustíveis derivados da cana-de-açúcar.
§ 2o
As vedações previstas neste artigo não se aplicam à expansão do plantio da cana-de-
açúcar para suprimento da demanda decorrente:
I – da instalação e operação de unidades industriais que possuam licença ambiental
regularmente concedida até 17 de setembro de 2009; e
II – da ampliação das unidades em funcionamento, caso o pedido de licenciamento
ambiental da ampliação tenha sido protocolado até a data referida no inciso I.”
No primeiro parágrafo vemos um ponto interessante. Se o latifundiário declara que vai plantar milho ele pode devastar a área que quiser. Depois ele pode repentinamente mudar de ideia e plantar cana. Aí sim ele estará contra a lei! Ponto de vista curioso. Será que este sistema de “declarar” o que vai plantar vai realmente funcionar?
Já no segundo temos um problema crítico em qualquer tipo de projeto de conservação. Tudo será para um ponto em diante e não mexemos no que já está em funcionamento. Recentemente o Saci publicou uma reportagem sobre uma usina localizada em Roraima (dentro da área protegida a “sete chaves” pelo governo, Amazônia). O projeto da usina parece que já está em trâmite, então pelo projeto de lei a usina poderia ser implementada? E ainda pior, baseado no inciso segundo do segundo parágrafo ela poderia ter sua área ampliada? Claro que segundo o projeto os Biomas Pantanal e Amazônia estariam “protegidos”, mas não é bem assim…o projeto de lei fala que a “expansão” do plantio será vetada nestes biomas. Algo que pode ser interpretado de outra maneira.
O artigo quarto fala da parte de mecanização, um dos pontos fortes do estudo de base. Segundo ele:
“Art. 4o
Fica vedada a utilização de fogo, nas áreas mecanizáveis, como método
despalhador e facilitador do corte de cana-de-açúcar de acordo com o cronograma previsto no Anexo, ressalvadas as legislações estaduais ou municipais mais restritivas.
§ 1o
Para os fins do disposto no caput, consideram-se mecanizáveis aquelas áreas acima
de cento e cinquenta hectares com declividade igual ou inferior a doze por cento em solo com estruturas que permitam a adoção de técnicas usuais de mecanização da atividade do corte da cana-de-açúcar.
§ 2o
A existência de áreas com estruturas de solo que impossibilitem a mecanização do
corte da cana-de-açúcar deverá ser comprovada pelo interessado, mediante laudo técnico que delimite as referidas áreas, o qual deverá ser aprovado pelo órgão ambiental competente.”
Entendi. Então a medida que vetaria o uso do fogo é só para áreas “mecanizáveis”, o que significa que as outras áreas poderão utilizar o fogo? Existe uma decisão do STJ vetando o uso do fogo em São Paulo, mas isso é muito pouco. Acho que o projeto de lei ficou devendo nesta parte.
Em anexo ao projeto de lei temos os números mágicos citados pelo Minc no dia da apresentação do zoneamento.
Uma palavra faz toda a diferença. Repararam no “passíveis”? A eliminação vangloriada pelo Minc de 100% das queimadas em 2017 tentará ser atingida apenas nas áreas passíveis de mecanização. As outras áreas poderão continuar as queimadas, sem problemas (pelo menos fora de São Paulo).
Considerações finais
Como eu disse anteriormente, um bom estudo depende de um bom projeto de lei para ser implementado. Se o estudo tem brechas, o projeto de lei também e, além disso, políticos já começarem a propor e pressionar por alterações no projeto original, as consequências podem não ser muito boas. Gostaria de fechar este post com uma frase do Minc sobre o zoneamento:
“O argumento da situação externa foi decisivo. Lá fora tem essa discussão sobre alimentos e devastação. Consegui o apoio da Unica (usineiros) e agora vamos poder dizer que nosso etanol é 100% verde. Se não fosse, usariam barreiras para impedir a exportação do etanol.”
“Lá fora” eles discutem sim sobre a pressão do plantio de cana sobre os alimentos. Também discutem “lá fora” sobre a perda de biodiversidade que o plantio para a produção de biocombustíveis pode causar. Também discutem “lá fora” sobre a eutrofização de corpos aquáticos pelo uso indiscriminado de fertilizantes em monoculturas. “Lá fora” eles dão valor para a emissão total do ciclo da cana e não apenas para se ela é plantada na Amazônia e no Pantanal. “Lá fora” eles consideram o Cerrado como um Hotspot de Biodiversidade. Não podemos e nunca poderemos dizer que o etanol é 100% verde. E é por este motivo que nos próximos posts eu falarei sobre os problemas da “energia que se planta”, como dizia o logo do biodisel.
Sobre o zoneamento da cana-de-açúcar e biocombustíveis
Amanhã às 11:30 da manhã na sede da Embrapa em Brasília o Ministro do Meio Ambiente Carlos Minc e o presidente Lula irão anunciar o Zoneamento da cana-de-açúcar. Segundo a assessoria de comunicação do Ministério do Meio Ambiente (grifos são meus):
“A iniciativa garantirá uma atividade
sustentável com todas as salvaguardas socioambientais. A expansão de
áreas para produção de etanol, com os critérios adotados, transforma o
projeto de expansão de áreas para o plantio de cana-de-açúcar em uma
grande contribuição do Brasil para o mundo no que diz respeito à
produção de energia limpa. Porque foi planejado de forma pactuada,
consensuada entre os setores envolvidos e feita com critérios técnicos,
científicos, ambientais e sociais.”
Tenho certeza de que qualquer atitude que vise organizar uma atividade agrícola é benéfica, mas vamos tentar olhar os detalhes. Primeiro que qualquer tipo de atitude que use a palavra sustentável já me faz levantar da cadeira. É uma palavra muito bonita, mas que também é utilizada por redes como o Wallmart para convencer os seus clientes que eles “lutam pelo meio ambiente”. O plano de zoneamento (que ainda passará pelo Congresso Nacional) só será conhecido por completo amanhã, mas o G1 deu uma amostra do que vem pela frente:
“(…) o governo vai proibir a expansão do plantio de cana no Pantanal e na Amazônia. (…) Dois argumentos convenceram Lula a impedir a
expansão do plantio de cana nos biomas pantanal e amazônico. Um
deles é que o Brasil precisa manter um discurso ambiental forte
para defender a ampliação da produção de etanol frente a outros
combustíveis no mundo. Isso abriria portas para exportação do
etanol brasileiro.”
Belo argumento. Então fazemos um zoneamento apenas para “manter um discurso ambiental forte“? Conservação da biodiversidade, diminuição da emissão de gases estufa, manutenção dos serviços ecológicos…nada disso é importante, se não for necessário para “abrir as postas para a exportação do etanol brasileiro“. Será que precisamos aumentar a área devastada em nosso território para exportar álcool para o mercado externo? Bem, vamos continuar com o segundo argumento:
“O outro motivo que levou o governo a evitar exploração de algumas áreas no Pantanal, como defendia o ministro da Agricultura, Reinold Stephanes, é que já haverá 7 milhões de hectares disponíveis em outras áreas para dobrar a produção até 2017. Portanto, não havia motivo para criar exceções nesses dois biomas.”
Atitude muito correta. O ministro da agricultura defendia o uso do Pantanal para plantio de cana-de-açúcar e o governo, em uma atitude ambientalmente correta, disse que não precisávamos plantar cana no pantanal. Temos milhões de hectares disponíveis e não precisamos criar exceções no Pantanal e na Amazônia. Você me perguntaria onde estariam esses hectares “disponíveis”. Eu respondo:

Por-do-sol no Cerrado. Crédito: matiasromero
“A estimativa do governo é que os atuais canaviais somam 7 milhões de hectares. A expansão da produção de etanol vai demandar pelos menos mais 6 milhões de hectares, a grande maioria em áreas de Cerrado.”
O que eu esperaria depois destas informações? Que todos os blogs ambientalistas fizessem um protesto, mesmo que fosse de sofá, contra o avanço dos biocombustíveis sobre o Cerrado. Mas acho que vou esperar sentado. Desde que não encostem na Amazônia, o pessoal das ONGs “verdes” estão tranquilos. Desde que não mexam no mico-leão-dourado, nas baleias, nos golfinhos…bichos e biomas “feios” não tem vez com os ambientalistas.
Depois desta contextualização gostaria de anunciar que os meus próximos posts serão sobre o lado obscuro dos biocombustíveis. Tentarei mostrar através de dados científicos o quanto esses combustíveis ditos “verdes” estão muito longe dessa denominação. Espero contribuir com a discussão e análise mais crítica deste tema, tão maltratado pela mídia e principalmente pela “defensores” do meio ambiente. Até lá.
Leia a continuação deste post aqui: Ainda sobre o Zoneamento “Agroecológico” da Cana
Espantando dois pássaros com uma nota só
Evolução é um tema muito polêmico por mais estudada que possa ser. Mesmo para biólogos, essa área de estudo pode causar debates bem acalorados, com visões completamente diferentes. Imaginem só para leigos, como o ator Paulo Betti, que está lançando uma peça chamada “A tartaruga de Darwin”. Ouvindo sua entrevista na rádio Band News, Paulo comete o comum erro de achar que evolução é algo com um fim (propósito) específico. O ator explica que estamos vivendo cada vez mais (aumentando nossa expectativa de vida) por causa da evolução e tendo que lidar com doenças causadas pela idade avançada. E o pior, ainda diz que é como a Teoria de Darwin previu. Porém, a seleção natural atua somente sobre características que se manifestem antes ou durante o período de reprodução, pois a questão é deixar o máximo de descendentes possível. Bem, a peça é uma comédia (deve ser por isso que ele já está fazendo piada desde agora) e não deve ter contado com um consultor da área. É uma pena.
Mas por que comecei com essa história toda? Foi um fato bastante curioso que li no ScienceNOW. Pesquisadores britânicos encontraram duas espécies bem diferentes de pássaros que desenvolveram o mesmo tipo de canto de territorialidade. Mas o que é isso? Alguma espécies de pássaros são territorialistas, isto é, protegem uma área que funciona, dentre outras coisas, como seu supermarcado. Eles se alimentam de vegetais ou pequenos animais que habitam essa localidade. Mas, normalmente, o que é encontrado são padrões de cantos diferentes para cada espécie. Machos da mesma espécies tendem a competir por territórios, pois como tal, acupam exatamente mesmo nicho ecológico.

H. subflava no canto esquerdo do tatame e H. peruviana no lado direito
Neste caso, as duas espécies de pássaros ocupam habitats diferentes. A Hypocnemis subflava prefere áreas de bambuzais, enquanto a Hypocnemis peruviana prefere áreas de floresta densa e alta. Os pesquisadores chegaram a pensar que o X da questão era que nós não conseguimos distinguir pequenas variações entres os dois cantos. Com isso bolaram um experimento, onde o canto de 150 indivíduos de cada uma das duas espécies foram gravados e, além disso, o canto de outras espécies mais aparentadas a cada uma dessas duas. Em seguida, botaram indíviduos das duas espécies em questão para escutar os cantos, tanto uma da outra, como das outras espécies mais próximas a cada uma das duas. Qual foi o resultado? Tanto a H. subflava, quanto a H. peruviana assumiram postura de briga quando escutaram o canto tanto uma da outra, quanto de indivíduos da sua mesma espécie. Entretanto, as duas não deram a mínima para o canto das espécies próximas. Conclusão, o canto realmente é o mesmo.
Os pesquisadores imaginam que a evolução convergente deste mesmo padrão de canto aconteceu pois é não é incomum sobreposição dos habitats destes pássaros, com isso, a convergência de cantos espantaria tanto índividuos da mesma espécie, quanto indivíduos da outra espécie na luta por recursos. O interessante é que os os cantos de acasalamento (para atrair fêmeas) não acompanham o mesmo padrão, eles são diferentes. Eles podem competir pelo mesmo território, porém não por fêmeas da sua espécie. Isto é, a competição por território e interespecífica e a por fêmeas é intraespecífica.
É Paulo…. as coisas são um pouco mais complicadas do que podemos imaginar. Mas nem por isso devemos desistir de tentar entender. Evolução é que nem futebol, todo mundo acha que entende um pouco. Mas não é por isso que qualquer um pode treinar a seleção brasileira.
Fonte: ScienceNOW










