Resenha: AB INITIO – Franklin David Rumjanek

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Estamos chegando ao final do chamado “Ano Darwin”, onde comemoramos duas datas muito importantes para a história da ciência. A primeira foi dia 12 de Fevereiro, que marcou os 200 anos de nascimento de Charles Robert Darwin. A segunda foi dia 22 de novembro, onde lembramos os 150 anos de publicação do seu livro mais marcante, que mostrou para o mundo de forma magistral a relevância da evolução por seleção natural. O diferencial do livro escrito por Franklin David Rumjanek, lançado em pleno ano Darwin, está em não se manter no mar das mesmices lançadas neste ano.

Franklin David Rumjanek vai além da abordagem tradicional sobre Evolução, colocando para o público geral a importância de outros personagens na construção deste conceito, principalmente de um dos mais injustiçados de todos, o francês Jean-Baptiste de Lamarck. Apenas a contextualização de Lamarck em um livro direcionado ao público geral sobre ciências já seria uma importante contribuição para a divulgação científica nacional, mas este é o tema da segunda parte do livro. Na primeira parte Franklin David Rumjanek faz um levantamento da literatura recente que vai desde a origem do universo até os limites de complexidade da vida, um tema normalmente árido e vasto. O autor faz uma boa tentativa de tratar de um tema desta natureza utilizando uma linguagem mais fácil, largando um pouco os jargões da área. Mas talvez um dos pontos que poderiam ser criticados seria a falta de ligação entre seus os dois grandes temas. É claro que existe uma conexão intrínseca entre Origem da vida e Evolução (subtítulo deste livro), mas a falta de uma melhor ligação entre os dois temas centrais durante o livro foi marcante. Dois temas de tamanha complexidade poderiam ser melhor explorados se fossem abordados de forma separada, havendo assim mais espaço para o autor poder explorar seus argumentos e deixá-los um pouco menos complexos para o público leigo, ávido por ciência. Como o autor mesmo enfatiza ao longo do texto, este é o público para o qual o livro é direcionado. Em vários momentos Franklin David Rumjanek passa para o público noções de metodologia da ciência, o que faz o leitor entender melhor como o conhecimento científico é formado. Fazer com que uma área tão ligada a bioquímica seja passada para o grande público não é uma tarefa fácil, mas neste livro conseguimos ter uma boa e recente visão sobre os principais avanços científicos sobre a Origem da Vida. Este é, com certeza, um dos grandes diferenciais deste livro.

AB INITIO – Origem da vida e evolução é uma das várias recentes publicações da editora carioca Vieira e Lent direcionada para a divulgação científica. Espero que este caminho continue sendo trilhado pela editora, publicando livros de qualidade em uma área tão importante e carente, principalmente no Brasil.

Este livro foi uma cortesia da Vieira e Lent casa editorial para este blog.
 

Como cessar o desmatamento na Amazônia: será que isso acontecerá?

ResearchBlogging.orgDiante deste cenário desolador da COP-15, esta semana foi publicado um artigo na revista Science com diretrizes que o Brasil deve tomar para acabar com o desmatamento na Amazônia. Como se sabe, 80% das emissões de gases estufa do Brasil são advindos do desmatamento (queimadas ou derruba de árvores) da floresta.

Uma primeira ação foi a criação do fundo Amazônico. Este fundo tem como objetivo captar investimentos para prevenção do desmatamento e estímulo da conservação e uso sustentável da floresta. Quem vai administrar o dinheiro que entrar é o BNDES e, no primeiro momento, a Noruega já investiu 1 bilhão de dólares. A segunda ação é a exclusão da cadeia de suprimentos do mercado de carne bovina e de soja de fornecedores que desmatem aéreas de floresta. Com estas duas ações, o estudo indica que é possível acabar com o desmatamento na floresta amazônica e com isso reduzir entre 2-5% das emissões globais de gases estufa.

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Gráfico com o possível cenário de fim do desmatamento em 2020

Para quem acha que isso é um número desconcertante, o Brasil entre 1996 e 2005 desmatou a uma taxa de 19.500 Km2/ano. Essa conversão em pasta e áreas de cultivo liberou para atmosfera entre 0,7-1,4 GtCO2e (gigatoneladas de CO2 equivalente) por ano para atmosfera. Em 2008, na criação do fundo amazônico, nosso país se comprometeu a reduzir o desmatamento em 20% da taxa histórica (1996-2005) até 2020. Além disso, o estudo indica a necessidade da compensação financeira dos povos nativos da floresta quando estes mantiverem, em suas propriedades, áreas de preservação. 

Por uma bagatela de aproximadamente 12 bilhões de dólares para serem investidos entre 2010 e 2020 para o possível término do desmatamento nesta região, o estudo também revela que esta ação poderá gerar receitas entre 37-111 bilhões de dólares. Porém, os próprios pesquisadores admitem que seria “uma façanha extraordinária e extremamente difícil, talvez única na história do avanço de fronteiras agropecuárias“.

Diante do fracasso da COP-15, onde Obama somente repetiu o que o mundo todo já sabia e continuou seu jogo de empurra com a China, o presidente Lula fez um discurso histórico. Lembrando ao mundo os 200 anos de emissões descontroladas dos países desenvolvidos e suas resistências em querer mitigar o probelma que causaram. Assisti também uma entrevista do ministro Carlos Minc desesperado em tentar conseguir pelo menos um pequenino acordo entre alguns países, mas, como ele mesmo repetiu 4 vezes, acordo este muito aquém do que o IPCC recomenda como mínimo de redução do emissões para as temperaturas globais não subiram acima dos assustadores 4°C. Como já discutido aqui neste blog, a COP-15 tende ao fracasso absoluto, os grandes líderes mundiais não chegaram a nenhum acordo devido interesses econômicos.

Que venham mais conferências inúteis como essa! Quem sabe um dia algo sério seja firmado.   

Referência:

Nepstad, D., Soares-Filho, B., Merry, F., Lima, A., Moutinho, P., Carter, J., Bowman, M., Cattaneo, A., Rodrigues, H., Schwartzman, S., McGrath, D., Stickler, C., Lubowski, R., Piris-Cabezas, P., Rivero, S., Alencar, A., Almeida, O., & Stella, O. (2009). The End of Deforestation in the Brazilian Amazon Science, 326 (5958), 1350-1351 DOI: 10.1126/science.1182108

Dan Dennett: Memes

Inspirado pelo post do Atila sobre o TEDxSP, resolvi “perder” algumas horas com o site do TED  no meio de centenas de vídeos que valem a pena ser assistidos. Dentre eles achei um que já foi traduzido pela equipe de tradutores brasileiros. Ele não é especificamente sobre o que trata o blog, mas eu não poderia deixar de publicar uma palestra do sensacional Daniel Dennett. Eu traduzi outra palestra dele, intitulada “Fofo, sensual, doce, engraçado” que também é muito interessante. 

Nesta palestra de 2007, o filósofo Dan Dennett fala sobre Memes, termo cunhado por Richard Dawkins que fala sobre como as ideias podem ser passadas de pessoas a pessoas e terem um comportamento análogo ao dos genes. Poderia falar mais aqui sobre este tema, mas acho melhor deixar vocês com uma explicação muito mais interessante sobre este conceito. Lembrem que para assistir a palestra com legenda em português é só clicar em “View subtitles”.

 

O polêmico editorial de Sara Palin sobre mudanças climáticas

A candidata derrotada a vice-presidência dos EUA, Sara Palin, publicou um polêmico editorial sobre mudanças climáticas no jornal Washington Post. Vou começar com sua última frase deste texto: Obama deve boicotar Copenhagen. Este é a conclusão que a “gênia” e “especialista” no assunto. Mas, para chegar a uma conclusão destas, Sara deve ter bons motivos para isso, não é? Bem, pelo que ela escreveu não.

Basicamente, ela usou o escândalo do ClimateGate para desacreditar as conclusões que a ciência conseguiu chegar até hoje. Este escândalo consiste no vazamento de e-mails de pesquisadores ingleses, onde conversas entre eles supostamente combinavam manipulações de dados de artigos científicos com o intuito de encobrir que a temperatura da Terra está diminuindo. Além de fazerem um acordo para negar artigos com visões contrárias as suas, isto é, calar os céticos do aquecimento global.

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 Você confia em uma mulher dessa?

Nossa querida governadora ex-governadora (dica do @rmtakata) do Alasca não nega que seu Estado sofre com as mudanças climáticas. Pelo contrário, se gaba de ter um departamento para cuidar destas questões. Porém, prega, veementemente, que estas mudanças não tem causas antropogênicas. Com isso, argumenta que políticas públicas devem se basear na “Ciência” e não questões políticas. Mas o que ela quer com isso? Ela justifica que o presidente Obama ao querer aprovar medidas de controle das emissões de gases estufa (projeto este que está parado para votação no senado) estará prejudicando a economia norte americana. Ela usa o terrorismo da dimunição de vagas de trabalho e aumento no custo da energia para tentar conquistar a opinião pública.

Este é o problema. Como bem levantado pelo Luiz no MTV debate de ontem, essa susposta manipulação de dados não invalida toda a base de dados geradas sobre mudanças climáticas e suas origens. Corruptos existem em todas as esferas da sociedade. Imagina se por termos políticos corruptos tentássemos invalidar a constituição brasileira (ué?! Não foram eles que escreveram a constituição?). Estes argumentos rasos só podem ser usados por quem não domina o assunto e quer cair no senso comum. Conquistar a opinião pública pelo terrorismo, justificando retardo econômico ao tentar regular as emissões de gases de seu país. Devemos ser críticos ao ouvir pessoas que não são especialistas no assunto emitirem qualquer tipo de opinião, ainda mais se essas pessoas morarem no país do Lobby (industria tabagista, farmacêutica, petrolífera…). Pode ser (e eu acredito que será) que Copenhaguen não dê em nada, mas prefiro que ouvir pessoas qualificadas para formar minha opinião!

UPDATE:
Para saber mais sobre pseudo-especialistas, leia esse artigo da revista Fórum

  

Uma crítica a desvalorização do professor brasileiro

Lendo o jornal The Gardian, encontrei uma matéria do dia 3 de dezembro muito interessante. Nela é discutida a implementação de uma nova política educacional, onde melhores estudantes de graduação (em áreas de ciências, tecnologia e matemática) teriam parte de seus estudo pagos pelo governo dando em contrapartida aulas nas escolas primárias e de ensino médio. Porém, o governo iria escolher quais universidades poderiam candidatar estudantes para este tipo de trabalho. Esta política busca, conforme a matéria, a valorização da profissão de professor. É mais ou menos assim, o estudante (que tem que pagar uma grana para se formar) dá aulas em escolas públicas e ao invés de receber um salário, tem suas mensalidades pagas pelo governo. E de lambuja, entende que vida de professor não é fácil, dando, assim, o devido valor a esta honrada profissão.

Entendo que aqui no Brasil o ensino universitário não se baseia no modo inglês. No geral, nossa primeira intenção é passar para uma universidade pública, caso não, tentamos uma particular. Com isso qual seria o estímulo para os estudantes universitários públicas para darem aulas aqui no Brasil? Nenhuma! Teria que ser obrigação! Estudou de “graça” vai dar aula em escolas municipais, estaduais e federais. Fez medicina de “graça” vai dar plantão em hospital público!

Já para os estudantes de universidade particular que utilizam o financiamento do governo, políticas como a inglesa seriam uma boa proposta. Nossa sociedade desvaloriza muito a profissão de professor. Professor universitário tudo bem, mas do município? estado? Nossa, já surge um olhar de pena na pessoa que acabou de saber sua profissão. Quanto vale um médico? Muito! Quanto vale um professor? Nossa, muito, mas muito mais! É base. Um médico atua no pico do iceberg da sociedade. Ele atua no indivíduo doente, no alívio da cura temos eles como deuses. O professor atua na base, atua na comunidade, na família e, ainda por cima, nos milhares de indivíduos alunos. Na neblina do cotidiano e de uma infra estrutura precária o valor do professor se perde. Não estou falando que médico não vale nada, mas professor vale muito. Novelas com protagonistas professores do múnicipio eu nunca vi, mas com protagonistas médicos… Só do Manoel Carlos foram todas!

Nossa sociedade no valoriza os professores. Aqui no Rio de Janeiro o salário inicial de um professor do Estado é de R$ 732,00 para 16 horas por semana. É um absurdo. Já ouviram um médico ganhar isso, mesmo trabalhando em empregos públicos? Quando um político pensa em segurança pública, ele não deveria pensar uma mais políciais nas ruas ou mais caveirões, mas sim em mais professores em sala de aula com salário digno.

Além disso, não devemos pensar que um aluno de 9° ano deve saber somente a ler e escrever. Ele tem que ter conhecimento científico, saber resolver problemas, saber entender como se estrutura uma maneira de organizar seus pensamentos de forma coerente e sensata. Ele não pode ter só Português e Matemática, tem que saber Biologia, Física, Química e Filosofia. Geremos cidadãos críticos, capaz de distinguir um político decente de um corrupto (se é que existe…), mas capazes de enteder que desmatar uma encosta é prejuízo para ele também.

Este é um desabafo de quem tem contato quase que diário com estes heróis de nossa sociedade, mas como alguns heróis de ficção se encontram sempre no dilema entre a falta de reconhecimento e a importância de suas ações. Pela valorização do professor da rede pública. Pela valorização de um ensino público de qualidade.
 

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