Quer construir redes ferroviárias? Pergunte ao protozoário!

Desde o início deste blog, tenho esta notícia como a que mais me espantou (no bom sentido). Ela só confirma a importância da biotecnologia. Resumindo, quando um protozoário amebóide foi posto para crescer sobre um molde em pequena escala do Japão, onde na posição de cada cidade foi colocado um floco de aveia, este criou uma rede de canais para a distribuição dos nutrientes muito parecida com a rede de ferrovias deste país.

 

protozoario.jpg

O protozoário é a bolinha amarela na primeira imagem, os flocos de aveia são os pontos menores

 

Protozoários são formados por uma única célula, porém o Physarum polycephalum consegue ser visto a olha nu. Então, ao ser exposto a várias fontes de alimento, esse ser circunda cada uma delas e cria uma rede de canais para distribuir os nutrientes pela extensão da célula toda. Claro que não é de primeira, como vemos na figura acima, primeiro o protozoário explora o ambiente e vai encontrando as fontes de alimento, além de ir criando varios canais entre elas. Com o passar do tempo, alguns dos canais são “destruídos” para otimizar esta distribuição e, depois de 26 horas do ínicio do experimento, podemos ver o resultado final muito parecido com a malha ferroviária japonesa. 

Por fim, os pesquisadores, baseados nas propriedades biológivas de formação de canais do protozoário, criaram uma descrição matemática para desenvolvimento de redes. Este modelo, assim como o ser vivo, gerencia os canais, eliminando os redundantes e aumentando o calibre dos com maior fluxo. Uma das possíveis utilidades pode ser a elucidação de dúvidas sobre o crescimento vascular que alimenta os tumores. 

 

Fonte: Wired Science

Resenha: Richard Dawkins – O maior espetáculo da Terra

richard_dawkins_capa_livro.jpgPara quem nunca leu um livro de divulgação científica de Richard Dawkins e apenas conhece este biólogo queniano (sim, ele nasceu no Quênia) pelas críticas fervorosas ao seu livro mais midiático intitulado “Deus, um delírio” (Companhia das letras, 2007) e pelo seu famoso bom humor, uma recomendação: Comece sua trilha através do seu último livro “O maior espetáculo da Terra” (Companhia das letras, 2009). Neste livro, toda a destreza de um dos maiores divulgadores de ciência de todos os tempos é demonstrada, através de uma argumentação simples, direta e convincente. Considero esta mais recente empreitada de Dawkins como uma aula por escrito, onde o leitor/aluno sente-se preso ao escritor o tempo todo, até o último parágrafo, como em toda boa aula.

Claro que para leitores mais acostumados com a escrita Dawkiniana, o estilo sarcástico e divertido do autor não podem ser considerados como “grandes novidades”. Mas neste livro podemos encontrar várias cartas na manga, o que o torna uma leitura interessante para todos os públicos, mesmo os fissurados por biologia e, principalmente, evolução. Então vamos começar do princípio, com o objetivo do livro. Mais uma vez, Dawkins coloca um grande objetivo por trás de um dos seus projetos. Este é colocado de forma clara na contracapa de “O Maior espetáculo da Terra”:

“A evolução é um fato, e este livro o demonstrará. Nenhum cientista que se preze o contesta, e nenhum leitor imparcial fechará o livro duvidando disso.”

Richard Dawkins – O maior espetáculo da Terra, 2009 (contracapa)

Para quem acompanha o autor, este objetivo claro e forte em relação aos leitores não é novidade em um livro de Dawkins. Comparem com esta frase do seu livro “Deus, um delírio”:

“Se este livro funcionar do modo como espero, os leitores religiosos que o abrirem serão ateus quando o terminarem.”

Richard Dawkins – Deus, um delírio, 2007 (divulgação)

Com toda a certeza a previsão feita no livro mais recente é mais factível do que em relação aos leitores religiosos. Desentendimento com religiosos a parte, o fato da evolução é defendido por grande parte dos crentes em algum tipo de religião, descontando os mais fanáticos. Desta forma, tenho certeza que grande parte das pessoas fechará “O maior espetáculo da Terra” sem dúvidas sobre o fato da evolução.

Dentre os vários pontos altos deste livro posso citar a interessante crítica ao uso do termo “teoria” para se referir tanto a evolução quanto ao criacionismo, no capítulo intitulado “Apenas uma teoria?”. Uma busca rápida no google com o termo em português “teoria do criacionismo” resulta em quase 80.000 entradas, que podem ser encontradas em grandes jornais e até em sítios educativos como “Brasil escola” e “Mundo educação”. O que mostra a importância desta discussão. Exemplos do poder da seleção artificial como no caso da pesquisa feita com lobos na Rússia, associados a evolução “Bem diante dos nossos olhos” dos experimentos de longa duração com E. coli feitos por Richard Lenski, mostram ao leitor que a evolução está longe de ser “apenas uma teoria”. O trabalho de mais de 20 anos realizado por Lenski é tão emblemático que foi descrito ao longo de quase 20 páginas do livro e também foi lembrado pelo Breno aqui no blog no início do ano passado. Vale ressaltar outro ponto interessante do livro que é a relevante discussão sobre o que os criacionistas consideram como os “furos” da evolução no capítulo intitulado “Elo perdido? Como assim, ‘perdido’?”. Os “elos perdidos” estão mais “achados” do que muita gente imagina.

Um ponto curioso do livro está no parágrafo em que Dawkins faz uma coisa um pouco incomum em seus textos, que é uma “autocrítica” bem humorada, que resultou em boas risadas quando li:

“Quando a teoria neutra da evolução molecular foi proposta pela primeira vez, entre outros pelo grande geneticista japonês Motoo Kimura, ela era polêmica. Hoje muitos aceitam alguma versão desta teoria, e, sem esmiuçar as evidências aqui, irei aceitá-la neste livro. Dada a minha reputação de “arquiadaptacionista” (alegadamente obcecado pela seleção natural como a principal e até única força propulsora da evolução), o leitor pode ter confiança de que, se até eu apoio a teoria neutra, é improvável que muitos outros biólogos oponham-se a ela!*

*Já fui, inclusive chamado de “ultradarwinista”, um motejo que considero menos insultante do que talvez tivesse em mente quem o proferiu.”

 Richard Dawkins – O maior espetáculo da Terra (Páginas 311-312)

Claro que este parágrafo não foi uma verdadeira “crítica”, como as que tomaram conta até de um livro inteiro, intitulado “The Selfish Genius: How Richard Dawkins Rewrote Darwin’s Legacy” da especialista em “comunicação da teoria da evolução”(?) Fern Elsdon-Baker. O livro ainda não foi publicado no Brasil, mas já trouxe bastante controvérsia lá fora. Acho que o Dawkins é um pouco avesso a “novidades”, como demonstra na página 204 ao chamar a “Epigenética” de “…um termo pomposo atualmente gozando dos seus 15 minutos de fama na comunidade biológica“, mas nada disso pode manchar a sua importância como divulgador do legado de Darwin, Wallace e muitos outros evolucionistas.

“O maior espetáculo da Terra” não termina nesta discussão. Dawkins passa ainda por embriologia, movimento dos continentes, críticas diretas ao que ele chamou de “Design desinteligente”. E ainda existem dados de pesquisas alarmantes da influência do criacionismo na população da Europa e dos EUA, no apêndice “Negadores da história” (ótima analogia, como a utilizada atualmente para descrever os antigamente rotulados “céticos do clima”).

Para fechar esta resenha gostaria de compartilhar um parágrafo que pareceu um pouco perdido no meio do texto, mas que me despertou para a importância da divulgação científica como um todo. É uma ideia simples, mas parece que muita gente não pensa desta maneira:

“Causou-me certa irritação ler um folheto, no consultório do meu médico, alertando sobre o perigo de parar de tomar comprimidos de antibiótico antes do tempo prescrito. Não há nada de errado no aviso em si, mas a justificativa apresentada preocupou-me. O folheto explica que as bactérias são ‘expertas’ e aprendem a lidar com antibióticos. Presumivelmente os autores acharam que o fenômeno da resistência aos antibióticos seria mais fácil de entender se eles o chamassem de aprendizado em vez de seleção natural. Mas falar em esperteza e aprendizado para bactérias é confundir o público, e sobretudo não ajuda o paciente a compreender por que ele deve seguir a instrução de continuar tomando comprimidos até o fim. (…) Folhetos como aquele da sala de espera do meu médico não ajudam nessa educação – uma lamentável oportunidade perdida de ensinar algo sobre o formidável poder da seleção natural”.

Richard Dawkins – O maior espetáculo da Terra (Página 130)
Muita gente por aí acha que o público precisa de informação, não importa como e em qual formato ela chegue ao público. Sinto isso principalmente com os ambientalistas em geral. Dizem que devemos “erotizar” a informação, travesti-la de uma roupagem que faça com que as pessoas se interessem mais. Na maioria dos casos, como exemplificado por Dawkins, uma informação passada de forma simples demais, travestida para ser mais palatável, pode trazer mais problemas do que soluções. Passar a informação de forma simplificada mas sem subestimar a inteligência do nosso público alvo não é fácil. Mas nunca, jamais este objetivo deve ser transfigurado. Precisamos atingir um maior público, mas sem perder a qualidade da informação. E neste sentido, Richard Dawkins dá uma aula em “O maior espetáculo da Terra”.

E o prêmio de melhor post científico vai para…

Não sei se todos os leitores aqui do blog já repararam em um selo que é colocado no início de posts que discutem artigos publicados em revistas científicas revisadas por pares. Para quem não conhece, o selo é este:

exemplo_research_blogging.jpg

A ideia é bem simples. Juntar blogs dispostos a discutir pesquisa científica publicada em periódicos sérios, em que os trabalhos passem pelo chamado “peer-review”. A iniciativa é do grupo SEED, que montou um portal que reúne posts de blogs científicos que discutem este tipo de artigos. O portal é chamado de “Research Blogging” e concede além do selo que identifica os posts que discutem artigos científicos (chamado carinhosamente pelo Karl de “medalha”), um mecanismo que cria facilmente citações a partir de um número chamado DOI. O portal continha blogs apenas na língua inglesa, mas recentemente os criadores expandiram o seu alcance ao englobar diferentes línguas como alemão, espanhol, chinês e, é claro, o nosso bom e velho português. Os responsáveis pela versão em português do Research Blogging são o Atila (vizinho aqui do SB), a competente Tati Nahas do Ciência na mídia e um rapaz chamado Luiz Bento. Se você escreve sobre ciência revisada por pares não deixe de ler as regras e o nosso blog em português sobre o Research Blogging.

Se você ainda não se convenceu a participar desta comunidade, depois do que eu vou contar tenho certeza que não haverão mais desculpas. O Research Blogging anunciou recentemente que teremos uma premiação em $$ para os melhores posts e blogs em todas as línguas! Pode não ser um prêmio tão gordo, mas a iniciativa é bem interessante. Abaixo as informações sobre o prêmio que eu copiei descaradamente do blog bem mais competente da Tati:

Research Blogging Awards 2010

Research Blogging Awards 2010

A premiação do Research Blogging do
Seed Media Group homenageia os excelentes blogueiros que praticam a
pesquisa revisada por pares. Com cerca de 1,000 blogs registrados no
ResearchBlogging.org e 8,500 posts sobre pesquisa revisada por pares já
publicados, é hora de reconhecer os melhores dentre os melhores.

Qualquer blog que pratique pesquisa
revisada por pares é elegível para nomeação e os vencedores serão
selecionados por votos de seus pares na comunidade do Research
Blogging. Todos os finalistas serão destacados no ResearchBlogging.org
e os vencedores receberão prêmios em dinheiro que totalizam US$2000.

Os vencedores serão selecionados da seguinte forma:

1. Nomeações: Todos
podem nomear um blog (incluindo o seu próprio) para ser considerado
para a premiação, mas apenas blogs que praticam revisão por pares de
acordo com nossos requerimentos serão considerados para a premiação. As nomeações serão encerradas em 11 de fevereiro de 2010. Clique aqui para nomear seus favoritos.

2. Finalistas: Um juri
composto por especialistas irá selecionar entre 5 e 10 finalistas em
cada categoria. Os finalistas serão anunciados em 25 de fevereiro de
2010.

3. Votação: Apenas
usuários registrados no ResearchBlogging.org poderão votar para
selecionar os vencedores. Para ser um usuário registrado, é preciso
atender nossos requerimentos de blogagem sobre revisão por pares (clique aqui para se registrar). A votação estará aberta de 25 de fevereiro a 11 de março de 2010.

4. Prêmios: Os prêmios serão anunciados em 23 de março de 2010. Os vencedores serão selecionados a partir das seguintes categorias:

  • Research Blog do Ano $US$1,000
  • Post do Ano Year $50
  • Research Tuiteiro do Ano $50
  • Melhor Novo Blog (iniciado em 2009) $50
  • Melhor Blog Especializado $50
  • Melhor Blog para Leigos $50
  • Blog mais engraçado $50
  • Melhor Blog — Espanhol $50
  • Melhor Blog — Alemão $50
  • Melhor Blog — Português $50
  • Melhor Blog — Chinês $50
  • Melhor Blog — Biologia $50
  • Melhor Blog – Química, Física ou Astronomia $50
  • Melhor Blog – Pesquisa Clínica $50
  • Melhor Blog – Ciência da Computação, Engenharia ou Matemática $50
  • Melhor Blog – Conservação ou Geociências $50
  • Melhor Blog — Saúde $50
  • Melhor Blog — Psicologia $50
  • Melhor Blog – Filosofia, Pesquisa ou Scholarship $50
  • Melhor Blog — Neurosciencias $50
  • Melhor Blog – Ciências Sociais ou Antropologia $50

 

Segundo uma contagem informal do Atila, já passamos dos 30 blogs de ciência em português inscritos! Não deixe de visitar e participar desta iniciativa.

Prós e contras da domesticação

Lendo o último livro do Dawkins “O maior espetáculo da Terra” (em breve
farei uma resenha aqui no blog) encontrei exemplos interessantes do
poder da seleção artificial, mais conhecida como domesticação quando
falamos em animais. Um dos exemplos citado por Dawkins é da evolução de aspectos domésticos no lobo selvagem. Esta pode ser muito mais rápida do que podemos imaginar. Experimentos realizados na Rússia mostraram que em apenas 6 gerações de raposas selvagens selecionadas artificialmente características como avidez pelo contato com humanos, “choro” por comida, farejar e lamber os tratadores, etc já se mostravam dominantes.

Não pude deixar de lembrar da tirinha abaixo.


Clique para ampliar

- Domesticação é uma grande afronta a minha natureza predadora.
- Quem é o bonitinho, fofinho, lindo da mamãe?
- Claro, ela pode ter suas vantagens.


Do ótimo B.C.

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