Um mundo sem mosquitos!?

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“Alerta mosquito. Baixo (lanche), médio (refeição) e alto (banquete). Mosquitos são bons para alguma coisa… eles são comida para milhões de aves migratórias que fazem ninho no Alasca a cada verão”. Crédito: Travis S.

O título deste post foi feito a partir de uma reportagem publicada pela Agência de notícias da Nature no final do mês passado. Para vocês terem uma ideia da polêmica gerada, segue o título e subtítulo da reportagem (assinada por Janet Fang):

Um Mundo sem mosquitos
Erradicar qualquer organismo traria consequências sérias para Ecossistemas, não é? Não se tratando de mosquitos.”

Ao longo do texto a repórter defende de forma bem argumentada a posição de que os mosquitos em geral causam grandes problemas para a espécie humana devido a doenças como a Malária e que a extinção destes insetos não traria grandes consequências para os Ecossistemas. Alguns cientistas foram entrevistados para a reportagem, incluindo o entomologista brasileiro Carlos Brisola Marcondes da Universidade Federal de Santa Catarina. É do brasileiro que a repórter pinçou uma frase bem marcante: “O mundo sem mosquitos seria mais seguro para nós“. Dentre os poucos exemplos levantados que contariam pontos para os pobres mosquitos foi uma situação descrita como “excepcionalmente rara” pelo entomólogo americano Daniel Strickman, a situação da tundra no ártico. Segundo o cientista em determinada época do ano a população de mosquitos pode ser bem relevante e ser um importante alimento para várias espécies de animais. Mas logo depois na reportagem o biólogo americano Cathy Curby diminui mais ainda este caso, informando que estudos mostram uma baixa presença de mosquitos no estômago de aves da região.

Outros argumentos foram dados ao longo do texto, mas a parte realmente polêmica foi deixada para o final:

” (…) A noção romântica de toda a criatura tendo um lugar vital na natureza pode não ser suficiente para pleitear o caso do mosquito. Trata-se das limitações dos métodos de erradicação de mosquitos, não das limitações de intenção, que fazem um mundo sem mosquitos improvável.

E assim, enquanto seres humanos encaminham inadvertidamente espécies benéficas, de atum aos corais, para a extinção, os seus melhores esforços não podem ameaçar seriamente a um inseto com poucas características compensadoras. ‘Eles não ocupam um nicho insubstituível no ambiente‘, diz o entomologista Joe Conlon, da Associação Americana de Controle de Mosquitos, em Jacksonville, Florida. ‘Se erradicarmos eles amanhã, os ecossistemas onde eles são ativos sofrerão um contratempo e depois continuarão a vida. Algo melhor ou pior assumiria.”

Claro que a resposta a esta reportagem foi tão forte quanto as declarações do glorioso membro da Associação americana de controle de mosquitos. Não que eu possa desmerecer o especialista americano, mas acho que ele falou de algo mais complexo do que parece. E não sou apenas eu que digo isso. Na edição do periódico científico Nature publicada hoje (não confundam a agência de notícias com o prestigioso periódico científico americano) várias cartas foram publicadas em repúdio à reportagem do mês passado. Uma destas cartas chamou minha atenção por não apenas criticar a reportagem em si, mas toda a política que envolve a conservação de espécies:

“Se um mundo sem mosquitos seria melhor para a humanidade e infligiria não mais do que ‘danos colaterais’ sobre os ecossistemas, então o que mais poderíamos razoavelmente eliminar da face do planeta – cobras venenosas, pragas de gafanhotos?

Não importa se os danos colaterais de erradicar os mosquitos podem incluir a perda de um grupo de polinizadores e uma fonte primária de alimento para muitas espécies. Talvez um outro organismo vai vir para preencher o nicho eventualmente – supondo que os organismos são substituíveis e intercambiáveis.

Nesse caso, os ecólogos têm que perguntar qual nível mínimo de biodiversidade é necessária para a provisão funcional dos serviços ecossistêmicos para sustentar a humanidade.”

Fern Wickson

Simples, direto e correto. Mesmo se os “danos colaterais” da eliminação dos mosquitos fossem mínimos, mesmo se houvesse outro inseto voador que substituísse o nicho ecológico deixado pelos mosquitos. Não existem estudos conclusivos sobre o papel real dos mosquitos em seus ecossistemas. Mas mesmo se esses estudos existissem e mostrassem que a eliminação dos mosquitos não fosse causar nenhum efeito em termos ecossistêmicos, os mosquitos não são as únicas criaturas que trazem malefícios ao homem. Vamos então eliminar todos os animais peçonhentos? Todos os repugnantes? Vamos reduzir a biodiversidade até o mínimo teórico levantado por Wickson?

Estamos em um mundo realmente estranho onde investimos rios de dinheiro para salvar os animais bonitos e pensamos em uma extinção intencional de espécies que mal sabemos o papel na natureza. Onde gastamos milhões de reais para salvar ecossistemas “famosos” e achamos que biomas como o Cerrado podem ser degradados de forma irrestrita. Vivemos no século da informação, mas o que mais falta é informação de qualidade. Principalmente sobre meio ambiente.  

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Discussão - 23 comentários

  1. [...] blog Discutindo Ecologia repercutiu uma questão: um artigo da Nature concluiu que se fossem extintos, os mosquitos não trariam nenhum [...]

  2. Rondinelli disse:

    De acordo com a “ciência” o mundo não teria problemas ecológicos sem os mosquitos, mas veja bem, se não fossem as doenças matando um bocado de humanos o mundo não poderia manter tantos humanos ativamente. Todo tipo de desastre natural, doenças em geral e até mesmo guerras são importantes para que a população de humanos não se torne insuspentável no planeta.
    Como o @luizbento disse, gastam milhões para saber se poderiam erradicar uma espécie enquanto não conseguem descobrir um meio de melhorar efetivamente a vida das pessoas.

  3. Galera, seguinte… Eu sou um antropocêntrico, ok? Mas não gosto radicalismos. E essa minha postura tbm a levo até aos biocentristas, embora eu discorde desses em quase tudo que afirmam.
    Entretanto, sobre a questão dos mosquitos, digo aqui o seguinte: que estas pestes desapareçam definitivamente das cidades e, que vivam lá na floresta, cerrado etc…
    Se para extinguir os mosquitos na cidade é necessário controle biológico ou um “genocídio”, tanto faz. O bom seria não tê-los aqui. Mas certamente, o conveniente é poder compreender que estes mosquitos são, em algum nível, necessários para a sobrevivência de determinados seres d’algum nicho.
    Forte abraço!

  4. manuel disse:

    Caro Luiz
    Aqui lhe deixo uma notícia sobre o mosquito,na suposição de que não tenha dado por ela,que as novidades,ou não,sucedem-se,aos montes.
    Vem na Sience Daily,24 de Agosto,2010,e é- Mosquitoes:genetic structure of the first animal to show evolutionary response to climate change determined.
    Trata-se dum estudo publicado em Proceedings of National Academy of Sciences.
    Muito boa saúde,Caro Luiz.

  5. Régis Rafael disse:

    Olá pessoal,
    Podemos tirar poucas conclusões sobre a importância dos mosquitos, ainda assim o simples fato de existirem no momento atual já é um forte, se não definitivo, indicativo de sua importância ecológica.
    De fato os mosquitos são muito incômodos para nós, penso seriamente em desistir de visitar a Amazônia algum dia por causa deles, mas não confundam, controle biológico sim, extinção, sem chance!
    Até mesmo por motivos antropocêntricos a conservação de qualquer espécie é importante, segundo um artigo da Nature intitulado The value of the world’s ecosystem services and the natural capital o valor atribuído aos serviços prestados pela biodiversidade chega ao valor de 33 000 000 000 000 por ano! Esse valor supera em duas ou três vezes o valor do PIB somado de todos os países do mundo, sem dúvida os mosquitos estão nessa conta, digo mais, esse valor deve estar muito subestimado pela clara falta de conhecimento básico sobre ecologia.
    Um abraço!

  6. smx disse:

    Eita!! …tem gente se comparando à mosquitos.Ou será que eu entendi errado? oO’
    Se for realmente comprovado o fato deles serem irrelevantes num contexto geral, e as consequências forem aceitáveis.
    SE FOR viável, Por que ñ?
    Se é que têm jeito de medir as consequências…
    O que não se pode é romantizar os bichinhos.Odeio essa briguinha Natureza Vs Ser Humano.
    PRECISAMOS de pesquisas.Só isso. !

  7. Nádia Moura disse:

    Para aqueles que possuem muitas dúvidas sobre algumas importâncias desses pequenos seres “repugnantes” ao ver de muitos, aqui fica o convite para o congresso de Entomologia. Realizar-se-á em Natal/RN a partir do dia 25 de setembro.Para quem for, nos encontramos lá.

  8. marcio disse:

    O mundo sem os mosquitos seria o fim da picada!

  9. Felipe disse:

    seria perfeito um mundo sem mosquitos. *-*
    nada a ver essas pessoas metidas a ambientalistas que fingem se preocupar com a vida desse ser insignificante. HIPOCRESIA.
    esses vermes incomodam e transmitem doenças e sujeira. têm q ser
    extintos mesmo.

  10. lindembergue disse:

    Vale aquele ditado. Se os mosquitos acabarem, será o fim da picada.

  11. Makina disse:

    Um mundo sem mosquitos? Para mim seria o fim da picada…

  12. Luiz Bento disse:

    Claudia,
    Infelizmente temos algumas declarações de biólogos na reportagem. Uma pena mesmo.

  13. Claudia Chow disse:

    Ai, ai, seria tão bom se resolver problemas desse tipo fosse assim tão fácil, né? Simplista demais esse pensamento de q vamos acabar com os mosquitos e todos os nossos problemas serão resolvidos, hein? Tem certeza se o cara q falou isso é biologo, ecologo ou algo do genero? Talvez se fosse geólogo eu até entenderia, mas tenho certeza q um geólogo não teria qq propriedade para afirmar um absurdo desses e não seria levado a sério.

  14. Luiz Bento disse:

    Olá “Eu”,
    A questão toda do post está voltada para isso. Quais pesquisadores disseram que a erradicação dos mosquitos não traria danos? Os entrevistados pela reportagem. Sabemos que os estudos sobre o papel ecossistêmico dos mosquitos são muito raros e pouco conclusivos. Não existe uma base científica que afirme que o papel dos mosquitos não é importante. Por isso o Fern fez aquele comentário.
    Obrigado pela visita.
    Abraços.

  15. EU disse:

    Achei o comentário de Fern Wickson, no mínimo, ridículo. Os pesquisadores disseram que a erradicação de mosquitos não traria danos consideráveis ao meio ambiente. Por outro lado, a erradicação de cobras peçonhentas, por exemplo, geraria sérios problemas ao meio ambiente, pois as cobras tem um papel importante no equilíbrio ambiental, visto que são predadoras de vários animais (roedores, por exemplo) que se multiplicariam descontroladamente se não tivessem predadores.

  16. Nádia Moura disse:

    Pois é Zé…
    É de pessoas como você que mencionei acima.

  17. Mosquito disse:

    É, está na hora de bolarmos um plano para liquidar a raça humana, antes que seja tarde demais.

  18. disse:

    Nádia, lamento dizer, mas NÓS SOMOS SIM os seres masi importantes do planeta. Se não concorda, vá pentear macaco!

  19. Nádia Moura disse:

    O que mais me instiga é essa hipocrisia do homem de pensar que ele é o ser mais importante do planeta, de querer modificar, extinguir ou implantar qualquer coisa que venha o favorecer. Quem somos nós para desmerecer os outros seres viventes desse planeta? Não somos os donos do entendimento da vida na terra, simplesmente inventamos hipóteses que esperamos serem corroboradas e que nem sempre o são. Conhecer o que nos rodeia é imprescindível, mas modificar nem sempre é o mais sensato a se fazer, pois as consequencias podem nos fugir das mãos.

  20. Raquel Araujo disse:

    “O mundo sem mosquitos seria mais seguro para nós” e um mundo sem nós seria mais seguro para todas as outras espécies…

  21. manuel disse:

    Caro Luiz
    Apresso-me a avisá-lo do que um mosquito amigo acabou de me segredar. Esconda-se,muito bem escondidinho,que os mosquitos,em reunião universal,decidiram eliminar a raça humana.
    Esconda-se,muito bem escondidinho,pode ser que escape.

  22. Luiz Bento disse:

    Obrigado pelo ótimo complemento ao post Rafael.
    Sem dúvidas o trabalho ainda é grande e por isso precisamos de mais profissionais na área. Sem pesquisa básica sobre as espécies dificilmente teremos noção da importância ecossistêmica de cada uma.
    Abraços.

  23. Rafael disse:

    Sempre odiei moscas, quando era criança, fiquei imaginando uma forma de matar todas elas da forma mais Nazista possível, servem para que afinal, só para estragarem nossas sopas?. Demorou muito tempo até eu topar com larvas de mosca em ação, depois disto mudei de ideia completamente, desisti das armadilhas de veneno, estudei formas de mante-las longe de casa e não tenho mais este tipo de ímpeto maligno embora continue odiando moscas.
    Agora você me mostra essa história do mosquito, creio que entre no mesmo ramo. Levanta outras perguntas também? Quais espécies devem ser preservadas? Quantas? Por que? Qual o nicho delas?
    As políticas de conservação, como você mencionou, me parecem bastante confusas e orientadas a certos grupos por motivos não muito técnicos. Afirmam, por exemplo que ao preservar uma espécie bandeira, se preserva o habitat dela e todas as outras formas que nele habitam, desta forma, preservam-se muitos organismos. Mas existem lugares que não têm espécie bandeira, ou pelo menos não é tão bandeira assim. Tenho uns amigos que trabalham com ecologia de tartarugas e eles uma vez disseram: “Todo mundo quer salvar as tartarugas marinhas pro causa do Tamar e por que são fofinhas e as limícolas que se danem!”
    Devo admitir que nem sabia que haviam tartarugas de água doce, para mim ou eram marinhas ou eram terrestres (para mim tudo com casco que anda no seco é jabuti, sou um ignorante com essas coisas). Como você disse ainda não se sabe ao certo o papel dos mosquitos no ambiente. Imagino que a maioria das pesquisas se concentre nas espécies que são vetores de doenças e conseqüentemente nas fêmeas. Acho que nunca ouvi falar sobre machos de mosquito, só sei que existem por que são inevitáveis. Nem sei se existem espécies não transmissoras de doenças, pelo menos nunca ouvi falar…
    Ainda tem muito trabalho para se fazer em pesquisa básica, antes de pensarmos em algo tão arrogante assim como a extinção planejada de uma espécie.

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