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Ebola virus virion.jpg
Ebola virus virion” por CDC/Cynthia Goldsmith – Public Health Image Library, #10816
Licenciado sob domínio público via Wikimedia Commons.

ResearchBlogging.orgEstamos passando neste exato momento pelo pior surto de Ebola de todos os tempos, pelo menos que já foi registrado. Já são mais de 1848 casos e um impressionante número de 1013 mortos. Sim, isso mesmo que você leu. A mortalidade desse surto está em quase 60% dos casos. O que aparentemente parece um contra senso já que uma mortalidade tão grande dificultaria a transmissão do vírus, na verdade não é. E explicações relacionadas a ecologia e fatores sociais podem ser muito importantes para entender melhor o surto atual.

Primeiro, antes de continuar a ler, recomendo o ótimo episódio 39 do Scicast com o Atila sobre o tema. Após entender o contexto do Ebora com o Atila, vamos discutir um aspecto muito relevante, que se relaciona com a temática do blog. A base para a discussão é um editorial do periódico PLOS Negleted Tropical Diseases, que coloca duas importantes perguntas em pauta, sobre onde o surto está acontecendo e o motivo dele estar ocorrendo agora. Os autores defendem que essas duas perguntas podem ser respondidas por motivos socioeconômicos e ecológicos.

Diferente dos surtos anteriores, o atual chegou até a África ocidental, mais especificamente na Guiné. Existe uma grande discussão se o ebolavírus sempre esteve lá de forma não perceptível – causando mortes apenas locais não registradas – ou se ele foi recentemente introduzido. Como o surto é muito recente, ainda existem dados um pouco contraditórios sobre o caso. Na hipótese de que o vírus foi introduzido recentemente, os grandes responsáveis poderiam ser os morcegos. Isso porque esse tipo de transmissão já foi registrado em surtos anteriores e porque o vírus encontrado na Guiné teria vindo do Zaire, uma distância muito grande para ter sido trazido por seres humanos infectados. Tendo como base o tempo de incubação até a morte ser rápido (1 semana) e a falta de estrutura rodoviária na região, a transmissão via seres humanos seria improvável.]

Transmissão

Simples. Tente pensar na realidade de boa parte da África. A pobreza extrema faz com que pessoas aumentem cada vez mais a sua área de busca de alimentos e madeira, aumentando a frequência de humanos em áreas de floresta virgem. Esse problema social acaba aumentando o risco de exposição das pessoas ao ebola virus, que poderia estar circulando na população de morcegos a mais tempo. Ao retornar para suas vilas e procurar ajuda médica (se existir), existe uma grande chance dela ser feita de forma precária, sem luvas ou agulhas esterilizadas. Causa direta de um sistema de saúde de baixa qualidade, resultado de governos autoritários e muitas vezes corruptos. A pressão do homem em ecossitemas intocados e problemas socioeconômicos podem ser causa direta não só deste surto, mas de todos os anteriores.

O maior de todos

A explicação ecológica e social pode até fazer sentido, mas temos ainda que entender porque esse é o maior surto de todos. Uma hipótese é que o surto atual começou em uma época de seca prolongada, causada possivelmente pelo maior desmatamento das últimas décadas na região. Maior desmatamento, maior pressão sobre ecossitemas intocados, maior contato com morcegos infectados com ebolavírus. Roteiro perfeito para um filme de terror, mas que por muitos anos se manteve fora da grande mídia e do foco da ONU por matar pessoas em uma região quase esquecida pelo resto da humanidade.

O Ebola não é uma doença nova, mas só agora notícias sobre uma possível vacina começam a sair na mídia. Talvez porque só nos preocupamos com o problema quando ele bate na nossa porta, o que me faz refletir sobre o nome do periódico científico que foi publicado o editorial discutido aqui. Triste e trágica constatação.

 Referência:

Bausch DG, & Schwarz L (2014). Outbreak of ebola virus disease in Guinea: where ecology meets economy. PLoS neglected tropical diseases, 8 (7) PMID: 25079231

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