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ResearchBlogging.orgVocê pode até não precisar gostar de café  ou até ter um motivo médico que impeça o consumo desse líquido essencial ao dia-a-dia do ser humano moderno, mas não pode negar a sua importância global. O café é a commodity mais importante do mundo depois do petróleo (o que significa que irá virar a primeira em pouco tempo, mas esse título é questionável). No caso do café, pelo menos, não tem como tomarmos um 7×1 da Alemanha. Na verdade, de nenhum país do mundo. O Brasil é o país que mais produz café do mundo, ganhando do segundo (Vietnan) e terceiro lugar (Colômbia) somados. Em 2014 o Brasil produziu 32% da safra mundial de café e no ano passado batemos um novo recorde de produção. Para um país exportador de produtos agrícolas é um ótimo número, não é mesmo? Bem, para a economia sim. Só em 2015 as exportações de café somaram US$ 4,6 bilhões no Brasil. Segundo previsões do mercado, o aumento consumo mundial de café vai passar dos atuais 0,5% para até 2,5% ao ano. E quem vai produzir a maior parte de todo esse café? Tenho certeza que você sabe a resposta.

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Produção de café no mundo. Volume em mil sacas de 60 Kg. Fonte: ABIC

 

Sabemos desde o colégio que o café teve uma importância histórica para o nosso país, principalmente para o sudeste. E claro que sua produção em pleno século XIX seguiu os passos do ciclo da cana-de-açúcar, o seguinte tripé: Queima/derrubada da mata original, monocultura e trabalho escravo. O interessante é que esse tripé não é necessário para o desenvolvimento do cafeeiro. O café, assim como o cacau, pode ser criado em um sistema agroflorestal, permitindo a manutenção dos nutrientes e de níveis baixos de erosão do solo. Mas segundo um artigo de 2014 do periódico BioScience, com o aumento de consumo de café cada vez mais a produção tem passado de uma produção agroflorestal para intensiva, o que traz um efeito negativo para o ambiente e para a biodiversidade local.

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Sistema agroflorestal que reúne café, mogno, açaí e copaíba. Crédito: Angela Peres

Para melhorar a situação, no ano passado a Embrapa anunciou o sucesso da primeira colheita de uma variedade especial de café arábica que se desenvolve bem na Amazônia. Claro que já produzimos café na região Amazônica, mas principalmente da variedade Robusta que tem menor valor comercial. As variedades conhecidas do café arábica se desenvolvem melhor em regiões de clima mais ameno e de altitude elevada. Com o sucesso de uma variedade de café arábica na Amazônia podemos ter mais um grande concorrente na expansão da fronteira agrícola sobre esse grande (por enquanto) e importante bioma. Outro detalhe importante é que se as previsões do IPCC se confirmarem, o cultivo de café arábica nos estados de Goiás, Minas Gerais, São Paulo e Paraná será drasticamente reduzido nos próximos 100 anos. Então meu caro leitor, vamos fazer um resumo. Se a previsão de consumo mundial de café nos próximos anos tende a aumentar, o Brasil é o maior produtor mundial de café e a viabilidade da produção no sudeste e sul do país tende a piorar, qual região vai produzir esse café arábica tão precioso para as nossas exportações? Acho que você também sabe a resposta dessa pergunta.

selo-café-sustentávelBem, então não temos solução? Claro que temos, mas devemos cobrar ativamente para que sejam implementadas. Iniciativas como o Guia para a produção de café sustentável na Amazônia do ImaFlora são de extrema importância para mostrar que existe uma alternativa. Programas que distribuem selos de café produzidos de forma “sustentável” (desde que sérios e que sejam reavaliados de forma constante) também podem ter grande importância, por ajudar o consumidor a saber como o seu café foi produzido. Uma Pesquisa sobre o impacto ambiental do ciclo de vida do café no Brasil mostra que existe grande variação do impacto dependendo do método de produção. Contabilizando erosão hídrica e matéria orgânica do solo a diferença pode ser ainda maior. Esse dado reforça que existe grande diferença no impacto ambiental causado por diferentes formas de se produzir café.

Essa é uma grande oportunidade para forcarmos nos melhores métodos, mas ressalta que ainda temos que estudar muito o impacto da cultura do café. Como cada ambiente responde de forma diferente é importante investirmos em estudos de impacto na Amazônia, já que a maior parte da literatura é focada em Mata Atlântica. E claro, diminuir o impacto não significa impacto zero. Então vou ali encher minha xícara de café.

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Referências:
Jha, S., Bacon, C., Philpott, S., Ernesto Mendez, V., Laderach, P., & Rice, R. (2014). Shade Coffee: Update on a Disappearing Refuge for Biodiversity BioScience, 64 (5), 416-428 DOI: 10.1093/biosci/biu038
Assad, E., Pinto, H., Zullo Junior, J., & Ávila, A. (2004). Impacto das mudanças climáticas no zoneamento agroclimático do café no Brasil Pesquisa Agropecuária Brasileira, 39 (11), 1057-1064 DOI: 10.1590/S0100-204X2004001100001

Guimarães, G. P, & de Sá Mendonça, E. (2015). Erosão hídrica e compartimentos da matéria orgânica do solo em sistemas cafeeiros conservacionistas e convencionais Coffee Science, 10 (3), 365-374

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