A cana vai chegar na Amazônia legal, legalmente

Em breve na Amazônia Legal.

Em breve na Amazônia Legal. Crédito: Wikimedia

 

Em 2009 escrevi sobre o Zoneamento Agroecológico da cana-de-açúcar (parte um e parte dois). O argumento principal da iniciativa era estudar as melhores áreas para o plantio de cana e impedir a sua expansão para biomas como Pantanal e Amazônia. Independente das críticas que eu fiz na época sobre a iniciativa em si e o estudo que serviu como base, a discussão foi importante para colocar a questão em pauta. Enquanto em países como os EUA existe uma disputa direta entre a produção de alimentos e a de biocombustíveis (além de outros problemas como o uso em excesso de fertilizantes), o nosso problema estaria mais voltado a conservação da biodiversidade. Na época da divulgação do Zoneamento, o Ministério do Meio Ambiente publicou a seguinte nota:

“(…) o governo vai proibir a expansão do plantio de cana no Pantanal e na Amazônia. (…) Dois argumentos convenceram Lula a impedir a expansão do plantio de cana nos biomas pantanal e amazônico. Um deles é que o Brasil precisa manter um discurso ambiental forte para defender a ampliação da produção de etanol frente a outros combustíveis no mundo. Isso abriria portas para exportação do etanol brasileiro.”

Parece que o Brasil não precisa mais impedir o avanço da cana-de-açúcar na Amazônia, nem se for apenas para manter um discurso ambiental forte. Pelo menos é o que os nossos representantes da Comissão de Meio Ambiente, Defesa do Consumidor e Fiscalização e Controle do senado acham. Eles aprovaram hoje o plantio de cana na Amazônia Legal. Mas e o Zoneamento Agroecológico da cana? Segundo a maior parte dos membros da comissão temos outras prioridades:

“(…) Para o autor da proposta, senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA), o plantio de cana na região vai estimular a produção de biocombustíveis. Em voto favorável, o relator, senador Acir Gurgacz (PDT-RO), apontou a necessidade de ampliar as áreas de cultivo para o atendimento das demandas futuras de etanol e açúcar.

(…) os senadores Ivo Cassol (PP-RO), Valdir Raupp (PMDB-RO) e Ataídes Oliveira (PSDB-TO) defenderam a ampliação da produção de etanol, sob argumento de que o cultivo levará desenvolvimento a seus estados.”

Somente os senadores Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) e Ana Rita (PT-ES) votaram contra. Você está espantado com isso? Eu não. Sabe quem é o presidente da comissão de Meio Ambiente do senado? O digníssimo senador Blairo Maggi, um dos líderes da bancada ruralista e um dos maiores produtores de soja do Brasil. E você achando que o nosso maior problema era o Feliciano…

Bate-papo com um cientista: ciência, vida e poesia

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Prof. Kleber Del Claro durante a entrevista ao projeto “Tubo de Ensaio”

 

É engraçado como às vezes tropeçamos com coisas na internet. A maioria delas você vai esquecer no dia minuto seguinte, outras não. Com certeza o vídeo abaixo faz parte das coisas que você têm que assistir e repassar para o maior número de pessoas possível.

Não consegui achar muitas informações, mas a entrevista/documentário abaixo faz parte do projeto “Tubo de Ensaio”, composto por 12 vídeos com cientistas da Universidade Federal de Uberlândia. O interessante é que não é uma entrevista burocrática onde o cientista fala somente sobre seus dados e de como podemos salvar a humanidade através do conhecimento científico. A entrevista mostra o lado humano do pesquisador e faz com que os 28 minutos de duração passem bem rápido. A ideia do programa lembra muito a iniciativa do vizinho Rafael, o diaLOGOS. Fugir do estilo tradicional de entrevista e buscar uma maior humanização e interação do cientista com a sociedade. Uma pena que a iniciativa do Rafael não foi financiada no portal Catarse, mas tenho certeza que ela não será esquecida!

Uma descrição legal do projeto Tubo de Ensaio eu encontrei no blog Paiol d´Ideias:

De forma direta esta é a função do programa “tubo de ensaio”: deixar que o conhecimento siga seu destino, não fechar-se em si. A troca proporcionada pelo encontro entre ciência e arte acontece nos três principais campos do conhecimento [humano,biomédico e exato], o que enriquece em muito as discussões sobre o presente, passado e futuro da sociedade e os reflexos de suas ações. É necessário que saibamos o quanto a ciência tem a contribuir, não apenas como sociedade enquanto conhecimento, mas também como ativo modificador da realidade cultural e artística da cidade.

De forma poética, humana e partindo de estéticas menos convencionais, o programa propõe abordar o ser humano cientista como aquele ser que pensa não apenas tecnicamente, mas também filosófica, artística e socialmente.

Registrar de forma documental foi deixar a história construir-se por si. Que os elementos surgissem de forma limpa e natural, abrindo possibilidades para resultados muito menos esperados. O acaso, principal elemento da arte e, por que não dizer, parte considerável dentro da construção cientifica.
A ciência em forma de pesquisa, a vida em forma de pesquisador, a poesia recitada pelas lentes da câmera.

 

O único vídeo que eu encontrei da série foi feito com o Prof. Kleber Del Claro, do Laboratório de Ecologia Comportamental e de Interações da UFU. Tive o prazer de conhecer o Kleber na banca de doutorado da minha esposa e ele é uma figura sensacional. Além de um cientista competente, consegue transformar qualquer assunto científico em um verdadeiro papo de bar. O que para mim é um pré-requisito para a divulgação científica.

 

 

Uma pena que apenas esse vídeo foi disponibilizado (aparentemente de forma não oficial). Se alguém conhecer mais o projeto por favor deixe um comentário. Com certeza os outros vídeos merecem ser divulgados. Alguns dados extras sobre o projeto:

Carlos Segundo [direção e fotografia]
Paulo dos Santos [direção e produção]
Umberto Tavares [apresentação e produção].
Guimarães Lobo [comunicação]

Entrevistados:
Profª. Drª. Beatriz R. Soares; Prof. Dr. Alberto Martins; Prof. Dr. Guimes R. Filho; Prof. Dr. Eduardo Takarashi; Prof. Dr. Alcimar B. Soares; Prof. Dr. João Marcos Alem; Profª. Drª. Sandra A. De Amo; Prof. Dr. Antonio Eduardo; Prof. Dr. Carlos Henrique; Profª. Drª. Elise B. Mendes; Prof. Dr. Kleber Del Claro; Prof. Dr. Julio Penna; Profª. Drª. Luciana Arslan

Ajudando jovens brasileiros a fazer ciência, sem sair de casa

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Davi, de Michelangelo. Se a arte pode ser comissionada, porque não a ciência?

Em um mundo onde cada vez mais a população cobra dos políticos para onde vai o dinheiro dos seus impostos, a ciência não poderia ficar de fora. Mesmo muitas vezes sendo esquecido pelos professores e alunos de pós graduação, a maior parte do dinheiro que financia a pesquisa cientifica no Brasil é público. Quer dizer, vem dos impostos que todos nós pagamos. Sendo assim a população em geral pode e deve saber onde e como foi investido o dinheiro que foi cobrado pelo governo. Com um país do tamanho do nosso isso muitas vezes se torna complexo, ainda mais se tratando de ciência. Se tratando de iniciativas privadas, existe uma maneira de conseguirmos saber exatamente como o nosso dinheiro foi investido e ainda ganhar até recompensas por isso.

 

Crowd-o-quê?

Uma iniciativa que faz muito sucesso no exterior e que cada vez ganha mais adeptos no Brasil é o crowdfunding. Em português alguns traduzem para um termo questionável: “vaquinha virtual”. Para mim esse é um termo errado, pois o crowdfunding vai muito além disso. Em um portal que pode ser geral ou temático (já existe um até específico para ciência, o Petridish), pessoas comuns podem descrever uma ideia, uma proposta ou até um projeto já iniciado mas que precisa de $$ para acontecer. As propostas vão desde quadrinhos, documentários, gravação de CD, videoclipes e até ciência! Ano passado um colega nosso de Science Blogs Brasil ficou até famoso com o financiamento de um projeto sobre biologia sintética. O potencial do crowdfunding pode ser muito grande, principalmente por quebrar o sistema de financiamento tradicional de projetos que envolve alguns pré requisitos, como já ter dinheiro, contatos ou algum trabalho publicado (no caso cultural) ou mesmo uma estrutura de laboratório e carimbo de professor (no caso científico).

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Este ano um grupo de três jovens do interior de Santa Catarina resolveu tentar a sorte no crowdfunding científico, com o nome de Programa ALEXA de Radioexploração Espacial. Um deles chamado Tulio Baars escreveu um projeto para a NASA para estudar o Sol, já que ele vive em uma das melhores regiões do mundo para fazer este tipo de estudo. Algum tempo depois ele recebeu uma resposta da NASA dizendo que gostaria de apoiar o projeto, enviando um radiotelescópio. Ele também recebeu apoio da Universidade de Stanford, que enviou direto para o interior de Santa Catarina mais dois radio telescópios. Como o governo brasileiro não poderia ficar parado, tratou logo de fazer sua parte, cobrando quase R$800 de impostos dos garotos. A ideia do Tulio foi pedir doação para ajudar a pagar os impostos e montar uma estrutura básica para coleta e envio dos dados para a NASA e para quem quiser saber mais sobre o Sol e como ele afeta a Terra. Isso mesmo que você leu. Ciência aberta, feita por jovens brasileiros sem precisar ganhar nota na prova.

 

Como posso ajudar?

Ao doar você se torna um verdadeiro mecena, mesmo fazendo a doação mínima pedida para o projeto específico (a doação mínima com recompensa é de R$ 15 no caso do ALEXA). Isso porque diferente da Idade Média onde projetos culturais eram financiados por apenas algumas pessoas com muito dinheiro, hoje projetos podem sair do papel com a ajuda de centenas ou até milhares de pobres mortais que resolvem ajudar contando suas moedinhas. Normalmente os projetos apresentam recompensas que variam de acordo com a doação e o ALEXA não poderia ficar de fora. As recompensas podem ser desde o envio de um adesivo, agradecimentos e o envio em PDF das primeiras medições até o patrocínio efetivo do projeto, com direito a logo da sua empresa em camisa e materiais de divulgação.

Felizmente as doações já passaram a meta inicial e ainda falta mais de um mês para serem encerradas. Então você ainda pode ajudar para que o ALEXA consiga atingir as próximas metas, que incluem montagem de laboratório móvel, kit de células fotoelétricas e um sistema meteorológico. No site do projeto no Catarse você pode ver fotos dos radio telescópios, um vídeo sobre o projeto e até foto dos comprovantes de pagamento dos impostos.

Então se você está cansado da burocracia do sistema acadêmico e gostaria de contribuir com uma ciência de raiz visite o site do ALEXA, doe e acompanhe o trabalho desses garotos de Santa Catarina. Eu já doei e mal posso esperar pelo primeiro relatório.

 

Links:

Onde você pode doar: Catarse da campanha.

Facebook e twitter do ALEXA

Twitter do Tulio Baars

Posts do Meio Bit, Jovem Nerd e do Bule Voador sobre o projeto.

 

Conhecendo os recifes de corais sem sair de casa

Após o lançamento de um serviço de mapas pelo seu principal concorrente no mercado dos celulares, parece que o google resolveu continuar seu projeto de dominação mundial melhoria do Google Earth/mapas. Depois de nos levar a lua e a marte, o google também não poderia deixar de lado os oceanos que cobrem a maior parte do nosso planeta. Em 2009 eles começaram este processo e ontem foi anunciado mais um passo para tornar a ferramenta ainda mais interessante.

 

 Fonte: Blog oficial do Google

 

Agora uma parte dos oceanos, mais especificamente os recifes de corais podem ser vistos pelo street view (expressão que ficou desatualizada depois desta novidade) de uma forma que só mergulhadores poderiam ter acesso. Por enquanto apenas recifes de corais da Austrália, Filipinas e Havaí podem ser acessados, mas já podemos procastinar dedicar um bom tempo para conhecer esta produtiva parte do mundo. Aqui você pode encontrar as principais localidades que já possuem as fotos panorâmicas (apenas em inglês por enquanto). E se você é biólogo que nem eu pode até abrir estas fotos panorâmicas no trabalho e não ficar mal com o seu orientador/chefe. (Obs.: Faça isso por sua conta e risco). Para quem quiser uma prévia do serviço é só ver o vídeo abaixo:

 

 

Uma dica para o google: comece a catalogar logo os recifes de corais brasileiros. Porque daqui a pouco não sobrará nada para catalogar….

 

Batman, energia limpa e eficiência energética

 Existem maneiras mais fáceis de matar um homem-morcego.

ResearchBlogging.orgEm 2008 o Breno relatou aqui no blog o que na época era um verdadeiro mistério. Morcegos estavam morrendo de forma recorrente em usinas de produção de energia eólica e o motivo ainda era uma incógnita. Além de ser um dos motivos de porque não vemos geradores de energia eólica próximos a batcarverna, hoje sabe-se que o problema não é incomum. Nos EUA levantamentos mostram que milhares de morcegos morrem por ano devido a este problema. O presidente da Bat Convervation International foi entrevistado pelo Wall Street Journal e afirmou que “A maioria dos biólogos vão te dizer que ao longo do tempo e, cumulativamente, [morcegos] não serão capazes de sustentar essas taxas de mortalidade“. O problema da energia eólica em relação aos morcegos parece sério, mas esse não é o único problema que eles enfrentam em relação a fontes consideradas “limpas” de energia e tecnologias energeticamente mais eficientes.

 

 Fonte: For the wind

 

Uma medida importante na transição para uma sociedade energeticamente mais eficiente está na mudança em como iluminamos nossas cidades. A iluminação artificial em si já é um problema significativo, podendo alterar o hábito de alimentação (concentração de insetos atraídos pela luz) e deslocamento de espécies de pássaros. Este efeito é potencializado em animais noturnos como os morcegos e é espécie-específico. Isto significa que, dependendo da espécie, o efeito pode ser muito diferente e por isso é muito importante que estudos sejam feitos antes de uma adoção em larga escala de um tipo diferente de iluminação artificial. Estes efeitos são bastante estudados para lâmpadas incandescentes e de sódio, mas não para LED. Com a pressão recente por adoção em larga escala desta tecnologia mais eficiente, cada vez mais veremos este tipo de iluminação nas grandes cidades e em regiões próximas a parques e reservas naturais. Mas qual seria o efeito da iluminação LED nos morcegos? Seria igual ao efeito da iluminação com lâmpadas incandescentes?

Com esta ideia a pesquisadora britânica Emma Stone e colaboradores publicaram no periódico Global Change Biology o primeiro estudo sobre o impacto da iluminação artificial LED em morcegos. O trabalho foi experimental e testou a influência deste tipo de iluminação em cinco espécies de morcegos. As duas principais conclusões do trabalho foram que os efeitos da iluminação LED são espécie-específicos e que houve um efeito significativo em pelo menos duas espécies de morcego estudadas. Na teoria o efeito do LED deveria ser menor que o de lâmpadas de sódio e incandescentes nos morcegos, já que a emissão de luz ultravioleta é menor, o que atrairia menos insetos. Porém este estudo experimental mostra que o efeito da iluminação de LED foi significativo em duas espécies de morcego e similares aos causados pela iluminação por lâmpadas de sódio. Emma e colaboradores concluem então que o efeito da iluminação artificial com lâmpadas de LED pode alterar o comportamento de espécies de morcego e ter consequências para a sua conservação.

Conclusão interessante, mas para mim o que faltou neste estudo foi uma comparação direta entre os diferentes tipos de iluminação artificial nos morcegos. A conclusão que podemos chegar é que a iluminação com lâmpadas LED também podem influenciar negativamente algumas espécies de morcego, mas ainda não sabemos se de forma mais ou menos significativa do que lâmpadas incandescentes ou de sódio. Desta forma o problema principal continua sendo a iluminação artificial em si e não a tecnologia. Os  autores reforçam na conclusão do artigo que toda a nova tecnologia deve ser testada independente de objetivos econômicos, energéticos e sociais. Mas para isso não adianta dizermos que a lâmpadas LED fazem tão mal a população de morcegos quanto os outros tipos de iluminação. Temos que testar de forma comparativa e só assim poderemos ter mais um motivo para decidirmos a tecnologia de melhor custo benefício para nossa sociedade.

 

Referência:

Stone, E. L., Jones, G., & Harris, S. (2012). Conserving energy at a cost to biodiversity? Impacts of
LED lighting on bats Global Change Biology, 18, 2458-2465 DOI: 10.1111/j.1365-2486.2012.02705.x

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