Quem é o “descobridor” da teoria da evolução?
“Down Kent Bromley
18 de junho
Meu caro LyellHá mais ou menos 1 ano atrás, você me recomendou ler um artigo de Wallace nos anais [da Sociedade Lineana], que lhe interessou e como eu estava escrevendo para ele, eu sabia que isso iria lhe agradar muito, então eu lhe disse. Ele enviou-me hoje o anexo e me pediu para enviá-lo para você. Parece-me que vale a pena a leitura. Suas palavras que eu deveria me prevenir tornaram-se realidade. Você disse isso quando eu expliquei aqui muito brevemente a minha opinião de “Seleção Natural”, dependendo da luta pela existência. Eu nunca vi uma coincidência mais impressionante. Se Wallace tivesse meu esboço escrito em 1842, não poderia ter feito um resumo melhor! Até seus termos constam agora nos títulos dos meus capítulos. (…)
Fonte: Darwin Correspondance Project
“Down Bromley Kent
4 de julho – 1858Meu querido Gray
(…)
Wallace, que agora está explorando-Nova Guiné, enviou-me um resumo da mesma teoria [Seleção Natural], a maioria, curiosamente coincidente até mesmo em expressões. E ele nunca poderia ter ouvido uma palavra do meu ponto de vista. Ele dirigiu-me a enviá-lo para Lyell .- Lyell que está familiarizado com a minha consulta ao Hooker, (que leu uma dúzia de anos atrás, um rascunho longo escrito em 1844) me pediu com muita gentileza para eu não deixar de ser prevenido e que lhes permita publicar junto com o artigo de Wallace um resumo da minha [teoria]; e como a única coisa breve que eu havia escrito era uma cópia de minha carta para você, que mandei-o e, creio eu, acaba de ser lido, (embora nunca tenha sido escrita ou feita para este propósito) (…).”
Fonte: Darwin Correspondance Project
Polêmicas históricas a parte, hoje em dia todos sabemos que o Fato da Evolução deve ser descrito tendo como base uma co-autoria Darwin-Wallace. É assim que o trabalho destes dois naturalistas foi lido perante a Sociedade Linneana e é reconhecido até hoje pela mesma sociedade. Em um especial recente a própria Sociedade coloca Darwin e Wallace na capa com o subtítulo “Teoria da evolução de Darwin-Wallace”. Então o problema da autoria está resolvido? Não. Muitos questionam a ordem da co-autoria. Ao invés de “Darwin-Wallace” vários autores defendem que Wallace deveria ser o primeiro autor e levantam os motivos do possível preterimento. Eu já falei um pouco sobre estes motivos no post “Alfred Wallace – O evolucionista esquecido“.
Acho que o argumento final para esta discussão está em escutar a pessoa que seria a mais prejudicada no caso. Vamos tentar fazer uma comparação com um exemplo fictício. Duas pessoas publicam um artigo e, por vários motivos, dizem que o segundo autor (ou autora) do artigo é o que realmente trabalhou e desenvolveu a ideia principal do artigo. O segundo autor tem um passo triste, veio de uma família pobre e tinha que vender parte do próprio material de pesquisa para sobreviver. O primeiro autor é uma pessoa rica, que nunca trabalhou na vida. Começa então uma grande polêmica que gera vários teorias conspiratórias. Para acabar com essa polêmica, jornais e revistas procuram o segundo autor e pedem que ele fale sobre o caso. No dia seguinte todos os jornais publicam a notícia de que o segundo autor confirma que eles tiveram a mesma ideia em lugares distintos, mas que o primeiro autor foi o que realmente desenvolveu a teoria, merecendo ser primeiro autor do trabalho.
Em escala menor sem os recursos midiáticos foi mais o menos o que aconteceu com Darwin e Wallace. Além de Wallace ter dado o nome de “Darwinismo” a um dos seus livros pós “Origem das espécies”, outra prova nos indica que ele mesmo defendia que Darwin teria uma contribuição muito grande para o desenvolvimento da teoria. Após a leitura perante a Sociedade Lineana, os artigos de Darwin e Wallace foram publicados. Wallace fez algumas anotações na sua cópia dos artigos, que hoje em dia se encontram no Museu de História Natural de Londres.

Cópia dos artigos publicados pela Sociedade Lineana que pertenceram a Wallace. Anotações feitas por Wallace na página da direita. Crédito: darwinsbulldog
1860. FevereiroDepois de ler a admirável obra de Darwin “A Origem das Espécies”, acho que não há absolutamente nada aqui que não esteja em quase perfeita concordância com os fatos e opiniões deste cavalheiro.
Seu trabalho porém toca e explica em detalhes vários pontos que eu mal tinha pensado – como as leis de variação, a correlação do crescimento, a seleção sexual, a origem dos instintos e dos insetos neutros, e a verdadeira explicação de afinidades embriológicas. Muitos de seus fatos e explicações na distribuição geográfica são também completamente novo para mim e do mais alto interesse.
Nada poderia ser mais simples e direto. Wallace reconhecia de forma notória que Darwin desenvolveu muito mais sobre a evolução das espécies do que ele próprio. Não que isso tire os méritos de Wallace, mas não podemos também diminuir o papel de Darwin. Wallace foi um naturalista muito importante não só para o desenvolvimento do pensamento evolutivo mas para vários outras áreas da biologia como taxonomia e biogeografia (Wallace é chamado por muitos estudiosos de “Pai da geografia animal”).
Não podemos fechar os olhos para o legado de Wallace, mas temos que fazer jus a grandiosidade de Darwin para o Fato da evolução.
150 anos de “Origem das espécies” e 200 anos da “Teoria da Evolução”
Para quem ainda não sabe, hoje comemoramos 150 anos da publicação de um dos livros mais importantes de todos os tempos, não só para a ciência, mas para diversas áreas do conhecimento. O biólogo e divulgador científico Richard Dawkins no seu livro “O Capelão do Diabo” até classifica o darwinismo como uma “verdade universal”, proposta por um dos maiores pensadores de todos os tempos. Extremista ou não, o fato é que a importância de Darwin para o melhor entendimento da evolução das espécies é marcante.
Mas o post de hoje, em plena comemoração pelo livro mais conhecido de Charles Darwin (que era apenas um resumo de suas ideias, como ele mesmo dizia), não será sobre ele. Gostaria de propor hoje a reflexão sobre um personagem menos conhecido pelo público em geral. Não estou falando de Alfred Russel Wallace, co-autor da teoria da evolução. Estou falando do francês Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, Chevalier de la Marck. Ou simplesmente Lamarck, para os íntimos. Este ano comemoramos também os 200 anos de publicação do seu livro “Filosofia Zoológica”. Quando lembramos de Lamarck uma imagem vem rapidamente em nossas mentes: Girafas! E é lógico que logo depois lembramos que era uma pessoa que teve uma ideia sobre evolução das espécies… errada.

Antes de andar com uma camisa com este logo, leia até o final do post
“Lamarck fez menção aos pescoços das girafas como uma ilustração aproximada do aumento evolutivo pelos efeitos herdados do esforço de vida. Mas toda a sua discussão percorre um parágrafo em um capítulo cheio de exemplos muito mais longos que ele obviamente considerava muito mais importante. Lamarck tinha isso – e absolutamente nada mais – a dizer sobre pescoços de girafas, algumas linhas de especulação nunca pretendida como a peça central de uma teoria.”
Primeiro mal entendido desfeito, vamos tentar refletir sobre a importância de Lamarck para a teoria da evolução. Todos sabemos que Darwin e Wallace não surgiram com suas ideias de um dia para o outro, que muitos nomes importantes enfrentaram conjunturas até mais difíceis para defender suas ideias pouco ortodoxas, mas algo de especial existe neste naturalista francês. Segundo o grande biólogo Ernst Mayr:
“Parece-me que Lamarck tem uma reivindicação muito melhor para ser designado ‘o fundador da teoria da evolução’ (…). Todos os outros antes dele tinham discutido a evolução en passant incidentalmente em outros temas ou utilizando termos poéticos ou metafóricos. Ele foi o primeiro autor a dedicar um livro inteiro principalmente à apresentação de uma teoria da evolução orgânica. Ele foi o primeiro a apresentar todo o sistema de animais como um produto da evolução.”
Claro que Lamarck teve falhas, principalmente na explicação da evolução orgânica, mas muitas destas foram superestimadas ao longo do tempo, contribuindo para a má compreensão da importância histórica do trabalho de Lamarck. Ele não nos trouxe uma boa explicação sobre a origem das espécies (na verdade nem era o seu intuito). Ele defendia que as espécies evoluiam de forma direcional, como se fosse uma escada rolante, onde os seres menos complexos evoluiriam em direção a perfeição. Além disso, segundo Lamarck o fator que mais contrubuiria para a evolução da espécies seria a famosa “Lei do uso e desuso”. Esta ideia, normalmente utilizada para diminuir a importância de Lamarck, foi utilizado em nada mais nada menos do que 13 páginas da primeira edição do “Origem das espécies” por Darwin, para explicar os seus exemplos. Já em relação ao mecanismo de hereditariedade, ambos os autores tiveram dificuldades de argumentação, sendo Lamarck o mais contido sobre o tema.
Para fechar este post em homenagem a obra que há 200 anos abriu caminho para a teoria da evolução, a opnião de Ernst Mayr sobre um dos nomes mais injustiçados da história da biologia:
“(…) Foi Lamarck quem, desafiando o Zeitgeist preservou e propagou um conjunto de idéias impopulares entre os criacionistas, catastrofistas, e essencialistas. Curiosamente, Lamarck foi a maior parte das vezes mais correto onde ele mais diferia das ideias estabelecidas, como no seu apoio ao evolucionismo e uniformitarismo, enquanto os erros por quais ele é mais lembrado, como o uso e o desuso, a herança dos caracteres adquiridos, e grande parte de sua fisiologia, não eram de todo original dele, mas representavam ideias amplamente utilizadas, meramente adotadas por Lamarck. (…) Como todas as grandes figuras da história das ideias, Lamarck foi tanto o ponto final de uma longa história antecedente, bem como o ponto de partida para novos desenvolvimentos.”
Será que não seria melhor ensinar aos nossos alunos sobre o quão é interessante a história da ciência? Não podemos deixar mais nossos alunos acharem que Lamarck e muitos outros contribuintes da teoria da evolução sejam apenas pessoas que tiveram ideias erradas ou, como afirma a camiseta, “dumbass” ou “estúpido“. Ensinar como ocorre o progresso do conhecimento científico pode ser a base da formação de alunos mais críticos e menos intolerantes. Não só em relação a ciência, mas em todas as áreas.
Referências:
Mayr, E. (1972). Lamarck revisited Journal of the History of Biology, 5 (1), 55-94 DOI: 10.1007/BF02113486
Mitchell, G., van Sittert, S., & Skinner, J. (2009). Sexual selection is not the origin of long necks in giraffes Journal of Zoology, 278 (4), 281-286 DOI: 10.1111/j.1469-7998.2009.00573.x
Simmons, R., & Scheepers, L. (1996). Winning by a Neck: Sexual Selection in the Evolution of Giraffe The American Naturalist, 148 (5) DOI: 10.1086/285955
Gould, S. J. (1996). The tallest tail. Natural History, v 105 , p18-25 . Baixar artigo
Especial da Sociedade Lineana sobre Darwin e Wallace
Em comemoração aos 150 anos da Teoria da evolução de Darwin e Wallace a mesma Sociedade Lineana preparou um número especial que está disponível de forma gratuita (clique aqui para baixar o pdf). Além do texto original lido perante a sociedade há 150 anos atrás, temos uma reunião de vários artigos sobre a vida e obra de Wallace e Darwin. Particularmente interessante são os artigos relacionados a Wallace, sempre bem vindos em uma situação de certa escassez de material sobre este grande naturalista. Este realmente não é apenas mais um especial lançado este ano sobre Darwin. Vale a pena a leitura completa.
Alfred Wallace – O evolucionista esquecido
Diferente de Darwin, Wallace teve um “pouco” de azar. O navio em que ele voltava para a Inglaterra após a temporada na Amazônia se incendiou e grande parte do seu material coletado e suas anotações foram perdidos. Seis anos após esta tragédia, Wallace escreveu uma carta histórica para Darwin, que é considerada um dos principais motivos para a publicação de forma adiantada do famoso “Origem das espécies”. Após esta carta, Darwin foi estimulado por amigos mais próximos a publicar logo suas idéias, o que culminou no artigo conjunto publicado em primeiro de julho de 1858 na Linnean Society.
A homenagem é mais do que merecida para Alfred Russel Wallace que, se não for o evolucionista esquecido, pelo menos pode ser considerado o evolucionista injustiçado. Na verdade, se formos considerar a opinião do próprio Wallace, acho que ele não ligaria para isso. Um dos livros que Wallace escreveu pós Origem das espécies se chamava “Darwinismo“, clara indicação que ele achava que Darwin tinha papel central na formulação da teoria. Mas com certeza seu papel histórico deve ser sempre lembrado quando pensamos em evolução.
Para mais informações sobre o evento, veja a reportagem da Agência FAPESP.
Ponto para Wallace
Em seu famoso artigo de 1858, Wallace discorre sobre como diferentes animais podem ter mecanismos para contrabalancear pontos negativos. Ele cita o caso de animais que apresentam pés deficientes mas asas robustas e outros que apresentam grande velocidade em decorrência da ausência de armas de defesa. Ele propôs uma espécie de feedback em uma escala diferenciada, mas a idéia é a mesma da proposta pelos autores do artigo sobre a cadeia de proteínas. Enquanto Wallace discute na escala do organismo, que, de alguma forma, “(…) verificaria e corrigiria qualquer irregularidade antes dela se tornar aparente (…)”, as proteínas teriam o mesmo papel em microescala.
Então pera aí. Se existe algum mecanismo que de certa forma é capaz de “(…) direcionar o processo evolutivo” (segundo palavras de Rabitz, co-autor do trabalho) os defensores da balela do “Design inteligente” estão certos?!? Claro que não. Segundo Chakrabarti, “Estes princípios estão completamente consistentes com os princípios da seleção natural. Mudanças biológicas são sempre promovidas por mutações aleatórias e seleção, mas em certo ponto da conjuntura evolutiva, esses processos aleatórios podem ter criado estruturas capazes de direcionar a evolução subseqüente em direção a uma maior sofisticação e complexidade”.
Desta forma, os autores defendem que esta descoberta teria o efeito contrário ao esperado pelos defensores da pseudo-ciência citada acima. Como boa parte dos argumentos deles estão voltados para “Como órgãos tão complexos podem ter sido originados por aleatoriedade?”, a descoberta deste novo mecanismo pode ajudar a afundar de vez estes argumentos neocriacionistas. Mas acho que nem precisava desta nova descoberta para isso.
Vi a nota sobre o artigo no incansável EurekAlert!












