Palestras sobre Darwin e evolução
Em 1959 foi comemorado o centenário de publicação do livro mais famoso de Charles Robert Darwin, chamado por nós de forma resumida de “A Origem das espécies”. Para marcar esta data matematicamente curiosa (porque 99, 101 ou 103 anos não faz a mínima diferença em termos de importância) foi organizado na Universidade de Chicago uma grande conferência. Dentre os palestrantes nomes que vemos em todos os livros texto sobre evolução como Julian Huxley, Theodosius Dobzhansky, Ernst Mayr e G. G. Simpson. Rolou até a composição de músicas especialmente para o evento que foram apresentadas em uma espécie de musical, dentre elas “I was born, my friends–Darwin“.
Bela mesa “redonda” realizada na conferência em 1959. Fonte: Darwin/Chicago 2009Cinquenta anos depois o pessoal da Universidade de Chicago resolveu repetir a dose e realizar um grande evento para comemorar os 150 anos de publicação do famoso livro. Ele foi realizado em outubro do ano passado mas só agora os vídeos das palestras foram colocados no ar. Dentre os palestrantes deste ano posso destacar Richard Lewontin, Douglas Futuyma, Jerry Coyne, Daniel Dennett, Neil Shubin e Michael Ruse. Claro que é covardia comparar com o pessoal de 1959, mas o evento do ano passado merece ser assistido. Por algum motivo os organizadores preferiram disponibilizar as palestras em arquivo .mov para serem baixadas do site e não colocar em um youtube ou outro site genérico. Mas assim pelo menos facilita baixar e salvar para futuras consultas. Lembro que os vídeos das palestras do Lewontin e Numbers ainda não estão no ar devido ao tamanho, como explicou Jerry Coyne em seu ótimo blog “Why evolution is true“.
Sobre o uso do termo “Evolucionismo”
Georges-Louis Leclerc, Conde de Buffon. Um dos precursores do pensamento evolutivo moderno. Fonte: Wikimedia Commons.Na bela tarde gelada deste último domingo por algum motivo que eu não me lembro se iniciou uma discussão no twitter sobre o uso do termo “Evolucionismo”. Segundo a @mariaguimaraes:

Minha resposta a esta colocação foi de que eu discordava deste posicionamento, que “Evolucionismo” era um termo popular para se designar o conjunto de ideias que formavam a base da Teoria da Evolução. O @uoleo também deixou sua opinião sobre o assunto, concordando com a @mariaguimaraes:

Como o espaço no twitter é bem limitado, resolvi chamar um amigo da minha biblioteca para dar sua opinião de forma mais prolixa do que 140 caracteres sobre este assunto:
“A maneira como o Darwinismo é compreendido depende muito da experiência e do interesse do observador. A palavra tem significados diferentes para um teólogo, para um Lamarckista, para um Mendeliano ou para um evolucionista moderno. Uma outra dimensão que contribui para a diversidade de opinião sobre o significado do Darwinismo é a geografia: a palavra “Darwinismo” tem significados um pouco diferentes na Inglaterra, na Alemanha, na Rússia e na França. Desde o começo (…) as teorias de Darwin estavam em oposição a um número de ideologias tais como o essencialismo, o fisicalismo, a teologia natural e o finalismo, cuja força variava de um país para o outro. Para os defensores de uma ou de outras dessas ideologias, a palavra “Darwinismo” significa o oposto de suas próprias crenças.
(…)
Darwinismo enquanto Evolucionismo
O evolucionismo era um conceito estranho aos fisicistas, não somente por rejeitar o essencialismo, mas também por aceitar o elemento histórico tão conspicuamente ausente das ideias fisicistas do século dezenove. Influências históricas eram igualmente estranhas a todos os filósofos vindos da lógica ou da matemática. Foi Charles Darwin quem tornou o pensamento evolutivo uma ideia respeitável dentro da ciência. Todavia não seria certo se referir ao evolucionismo como Darwinismo. O pensamento evolutivo já estava bem disseminado quando Darwin publicou a Origem, particularmente na linguística e na sociologia. Na biologia também, graça a autores como: Buffon, Lamarck, Geoffroy, Chambers, e diversos autores alemães. Darwin, definitivamente, não foi o pai do evolucionismo, mesmo merecendo tal designação.
(…)
Darwinismo enquanto Uma Nova Visão de Mundo
J. C. Greene (1986) tem sugerido, assim como outros historiadores das ideias, que o sufixo -ismo deveria ser usado apenas para designar ideologias, e não teorias científicas. Eu concordo com Greene; entretanto, existem teorias científicas que se tornam pilares importantes de ideologias, como é o caso do Newtonismo e o mesmo podemos dizer do Darwinismo. Alguns dos mais importantes conceitos de Darwin. como a evolução variacional, a seleção natural, a interação acaso & necessidade, a ausência de agentes sobrenaturais na evolução, a posição do homem no reino da vida e muitos outros, não são apenas teorias científicas, mas também importantes conceitos filosóficos e caracterizam novas visões de mundo que incorporam esses conceitos. Portanto, eles têm a sua legitimidade tanto na ciência como na filosofia, o que justificaria o uso de um sufixo -ismo.
Fica registrado a opinião de um grande evolucionista. Para mais uma defesa do termo “Evolucionismo” recomendo a leitura do Manifesto de lançamento da rede Evolucionismo, criada por Eli Vieira.
150 anos de “Origem das espécies” e 200 anos da “Teoria da Evolução”
Para quem ainda não sabe, hoje comemoramos 150 anos da publicação de um dos livros mais importantes de todos os tempos, não só para a ciência, mas para diversas áreas do conhecimento. O biólogo e divulgador científico Richard Dawkins no seu livro “O Capelão do Diabo” até classifica o darwinismo como uma “verdade universal”, proposta por um dos maiores pensadores de todos os tempos. Extremista ou não, o fato é que a importância de Darwin para o melhor entendimento da evolução das espécies é marcante.
Mas o post de hoje, em plena comemoração pelo livro mais conhecido de Charles Darwin (que era apenas um resumo de suas ideias, como ele mesmo dizia), não será sobre ele. Gostaria de propor hoje a reflexão sobre um personagem menos conhecido pelo público em geral. Não estou falando de Alfred Russel Wallace, co-autor da teoria da evolução. Estou falando do francês Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, Chevalier de la Marck. Ou simplesmente Lamarck, para os íntimos. Este ano comemoramos também os 200 anos de publicação do seu livro “Filosofia Zoológica”. Quando lembramos de Lamarck uma imagem vem rapidamente em nossas mentes: Girafas! E é lógico que logo depois lembramos que era uma pessoa que teve uma ideia sobre evolução das espécies… errada.

Antes de andar com uma camisa com este logo, leia até o final do post
“Lamarck fez menção aos pescoços das girafas como uma ilustração aproximada do aumento evolutivo pelos efeitos herdados do esforço de vida. Mas toda a sua discussão percorre um parágrafo em um capítulo cheio de exemplos muito mais longos que ele obviamente considerava muito mais importante. Lamarck tinha isso – e absolutamente nada mais – a dizer sobre pescoços de girafas, algumas linhas de especulação nunca pretendida como a peça central de uma teoria.”
Primeiro mal entendido desfeito, vamos tentar refletir sobre a importância de Lamarck para a teoria da evolução. Todos sabemos que Darwin e Wallace não surgiram com suas ideias de um dia para o outro, que muitos nomes importantes enfrentaram conjunturas até mais difíceis para defender suas ideias pouco ortodoxas, mas algo de especial existe neste naturalista francês. Segundo o grande biólogo Ernst Mayr:
“Parece-me que Lamarck tem uma reivindicação muito melhor para ser designado ‘o fundador da teoria da evolução’ (…). Todos os outros antes dele tinham discutido a evolução en passant incidentalmente em outros temas ou utilizando termos poéticos ou metafóricos. Ele foi o primeiro autor a dedicar um livro inteiro principalmente à apresentação de uma teoria da evolução orgânica. Ele foi o primeiro a apresentar todo o sistema de animais como um produto da evolução.”
Claro que Lamarck teve falhas, principalmente na explicação da evolução orgânica, mas muitas destas foram superestimadas ao longo do tempo, contribuindo para a má compreensão da importância histórica do trabalho de Lamarck. Ele não nos trouxe uma boa explicação sobre a origem das espécies (na verdade nem era o seu intuito). Ele defendia que as espécies evoluiam de forma direcional, como se fosse uma escada rolante, onde os seres menos complexos evoluiriam em direção a perfeição. Além disso, segundo Lamarck o fator que mais contrubuiria para a evolução da espécies seria a famosa “Lei do uso e desuso”. Esta ideia, normalmente utilizada para diminuir a importância de Lamarck, foi utilizado em nada mais nada menos do que 13 páginas da primeira edição do “Origem das espécies” por Darwin, para explicar os seus exemplos. Já em relação ao mecanismo de hereditariedade, ambos os autores tiveram dificuldades de argumentação, sendo Lamarck o mais contido sobre o tema.
Para fechar este post em homenagem a obra que há 200 anos abriu caminho para a teoria da evolução, a opnião de Ernst Mayr sobre um dos nomes mais injustiçados da história da biologia:
“(…) Foi Lamarck quem, desafiando o Zeitgeist preservou e propagou um conjunto de idéias impopulares entre os criacionistas, catastrofistas, e essencialistas. Curiosamente, Lamarck foi a maior parte das vezes mais correto onde ele mais diferia das ideias estabelecidas, como no seu apoio ao evolucionismo e uniformitarismo, enquanto os erros por quais ele é mais lembrado, como o uso e o desuso, a herança dos caracteres adquiridos, e grande parte de sua fisiologia, não eram de todo original dele, mas representavam ideias amplamente utilizadas, meramente adotadas por Lamarck. (…) Como todas as grandes figuras da história das ideias, Lamarck foi tanto o ponto final de uma longa história antecedente, bem como o ponto de partida para novos desenvolvimentos.”
Será que não seria melhor ensinar aos nossos alunos sobre o quão é interessante a história da ciência? Não podemos deixar mais nossos alunos acharem que Lamarck e muitos outros contribuintes da teoria da evolução sejam apenas pessoas que tiveram ideias erradas ou, como afirma a camiseta, “dumbass” ou “estúpido“. Ensinar como ocorre o progresso do conhecimento científico pode ser a base da formação de alunos mais críticos e menos intolerantes. Não só em relação a ciência, mas em todas as áreas.
Referências:
Mayr, E. (1972). Lamarck revisited Journal of the History of Biology, 5 (1), 55-94 DOI: 10.1007/BF02113486
Mitchell, G., van Sittert, S., & Skinner, J. (2009). Sexual selection is not the origin of long necks in giraffes Journal of Zoology, 278 (4), 281-286 DOI: 10.1111/j.1469-7998.2009.00573.x
Simmons, R., & Scheepers, L. (1996). Winning by a Neck: Sexual Selection in the Evolution of Giraffe The American Naturalist, 148 (5) DOI: 10.1086/285955
Gould, S. J. (1996). The tallest tail. Natural History, v 105 , p18-25 . Baixar artigo
Por que alguém se torna biólogo?
“Tradicionalmente, alguém se torna biólogo ou por formação na área médica ou por ter sido um jovem naturalista. Hoje, é comum para um jovem se empolgar com as ciências da vida através dos meios de comunicação, sobretudo por filmes sobre a natureza na televisão, de visitas a um museu, (geralmente à sala dos dinossauros) ou de um professor inspirador. Há também milhares de jovens observadores de pássaros, alguns dos quais acabarão se tornando biólogos profissionais (como foi o meu caso). O ingrediente mais importante é a fascinação diante das maravilhas das criaturas vivas. E isso permanece com a maioria dos biólogos para o resto da vida. Eles nunca perdem a empolgação com a descoberta científica, seja ela empírica ou teórica, nem o amor pela perseguição de novas ideias, novos vislumbres, novos organismos. E muita coisa na biologia tem uma relação direta com as circunstâncias e com os valores pessoais do biólogo. Ser um biólogo não significa ter um emprego; significa escolher um estilo de vida.”
Companhia das letras
Como NÃO ensinar seleção natural para seus alunos
- “A natureza é uma guerra(1) entre espécies(2)…”
(2) Não. A luta pela existência (em termos darwinianos) ocorre entre indivíduos e não entre espécies. O histórico deste pensamento essencialista é muito bem retratado por Ernst Mayr em seu livro “Uma ampla discussão” (FUNPEC editora, 2006), onde ele discute este assunto em um trecho intitulado “Luta entre espécies ou entre indivíduos?”. A unidade de seleção (onde realmente a seleção natural atua) é o indivíduo, já que a diferenciação das características “visíveis” pela seleção natural (fenótipo) ocorrem neste nível. Existe uma frente de cientistas que defendem o gene como a unidade de seleção. Segundo um de seus mais famosos defensores, Richard Dawkins, “(…) A unidade de seleção no sentido de replicador é o gene. E no sentido de veículo, o organismo. Ambas são igualmente importantes. Só fazem coisas diferentes. Não estão competindo pelo papel de unidade de seleção”. Divergências a parte, a unidade de seleção definitivamente não é a espécie. Quando definimos que a unidade de seleção é o indivíduo abrimos os olhos para a competição intraespecífica, que pode ser tão ou até mais importante do que a competição interespecífica. Se pensarmos apenas em espécie, esquecemos este componente tão importante das interações.
- “(…) e que as mais fortes e mais adaptáveis são as que sobrevivem”
- “(…) Quando as espécies se reproduzem fazem cópias de si próprias, nem sempre idênticas, pois ocorrem mutações ou desvios que criam variedade. Darwin chamou isso de seleção natural.”
Depois dessa aula de como a divulgação científica não deve ser feita, nada melhor do que o grande biólogo Ernst Mayr para ensinar aos jornalistas da Globo o que realmente é seleção natural.
“(…) O termo, simplesmente, refere-se ao fato de que somente uma pequena parte da prole de um grupo de genitores sobrevive o suficiente para se reproduzir. Não há uma força seletiva particular na natureza, nem um agente seletivo definido. Há muitas causas possíveis para o sucesso de poucos sobreviventes. Alguma sobrevivência é devido a processos estocásticos, isto é, pura sorte. A maior parte, entretanto, é devido ao trabalho superior da fisiologia do indivíduo sobrevivente, que permite enfrentar as vicissitudes do ambiente melhor do que os outros membros da população. A seleção não pode ser dissecada em porções internas e externas. O que determina o sucesso de um indivíduo é precisamente a capacidade da maquinaria interna do organismo (incluindo o seu sistema imune) de enfrentar os desafios do ambiente. Não é o ambiente que seleciona, mas o organismo que enfrenta o ambiente com muito ou com pouco sucesso. Não há nenhuma força externa.”










