Ana Maria Braga, o retorno da gênia!

Post de repúdio a liberdade de ignorância

Ameba Facepalm. É implícito, já que ela não tem mãos.

Respeito a liberdade religiosa. Todos podem acreditar na religião que preferirem. Mas não tenho nenhum pingo de respeito pela liberdade de ignorância, ainda mais quando estamos falando de um ministro.

O novo ministro da pesca Marcelo Crivella despejou neste discurso na tribuna do Senado um conjunto do pior lado do criacionismo. Apelar para um jogo de palavras (é “apenas” uma teoria), exigir fósseis metade anfíbios, metade aves [sic], dentre outros.

Mas eu tenho que concordar em um ponto com o nosso senador. Acho um absurdo essa teoria que todos os seres vivos evoluíram a partir de uma ameba. Não sei quem é o autor desta teoria, mas eu também não concordo.

Post inspirado neste twitt.

Aula magna sobre Charles Darwin.

Como os programas matinais podem ser importantes na divulgação científica.

PS: Acho até que o Louro José reparou no erro: “- Drosophila??……”

Quem é o “descobridor” da teoria da evolução?

Um dos fatos históricos mais comentadas quando estamos falando de Teoria Fato da Evolução é a discussão de quem seria o verdadeiro “descobridor” do mecanismo pelo qual as espécies evoluem. Por algum motivo gostamos de rotular pessoas, criar heróis ao invés de entender o processo histórico. Vide a discussão “Porque Darwin não descobriu as leis de Mendel?“. Existem vários artigos dedicados especificamente a discutir a possível rixa Darwin-Wallace. Muitos argumentam que Darwin foi o único a ser reconhecido publicamente como “Pai da teoria da evolução” pelo seu grande poder aquisitivo, o que realmente não era pouco. Segundo levantamentos recentes ele teria deixado um patrimônio de 20,5 milhões de dólares. Outros falam sobre a grande pressão que Hooker, Asa Gray e Lyell teriam feito para Darwin publicar o mais rápido possível o seu livro assim que eles descobriram a famosa carta de Wallace onde foi descrita uma teoria muito parecida com a proposta por Darwin. Quem trabalha com ciência sabe que essas pressões por publicação e autoria são comuns e que isso não indica um desvio de carácter. O interessante neste contexto é o espanto que o próprio Darwin mostrou depois de ter contato com as ideias de Wallace.

Down Kent Bromley

18 de junho

Meu caro Lyell

Há mais ou menos 1 ano atrás, você me recomendou ler um artigo de Wallace nos anais [da Sociedade Lineana], que lhe interessou e como eu estava escrevendo para ele, eu sabia que isso iria lhe agradar muito, então eu lhe disse. Ele enviou-me hoje o anexo e me pediu para enviá-lo para você. Parece-me que vale a pena a leitura. Suas palavras que eu deveria me prevenir tornaram-se realidade. Você disse isso quando eu expliquei aqui muito brevemente a minha opinião de “Seleção Natural”, dependendo da luta pela existência. Eu nunca vi uma coincidência mais impressionante. Se Wallace tivesse meu esboço escrito em 1842, não poderia ter feito um resumo melhor! Até seus termos constam agora nos títulos dos meus capítulos. (…)

Trecho de uma carta escrita por Darwin para Lyell
Fonte: Darwin Correspondance Project

“Down Bromley Kent
4 de julho – 1858

Meu querido Gray

(…)

Wallace, que agora está explorando-Nova Guiné, enviou-me um resumo da mesma teoria [Seleção Natural], a maioria, curiosamente coincidente até mesmo em expressões. E ele nunca poderia ter ouvido uma palavra do meu ponto de vista. Ele dirigiu-me a enviá-lo para Lyell .- Lyell que está familiarizado com a minha consulta ao Hooker, (que leu uma dúzia de anos atrás, um rascunho longo escrito em 1844) me pediu com muita gentileza para eu não deixar de ser prevenido e que lhes permita publicar junto com o artigo de Wallace um resumo da minha [teoria]; e como a única coisa breve que eu havia escrito era uma cópia de minha carta para você, que mandei-o e, creio eu, acaba de ser lido, (embora nunca tenha sido escrita ou feita para este propósito) (…).”

Trecho de uma carta escrita por Darwin para Asa Gray
Fonte: Darwin Correspondance Project

Polêmicas históricas a parte, hoje em dia todos sabemos que o Fato da Evolução deve ser descrito tendo como base uma co-autoria Darwin-Wallace. É assim que o trabalho destes dois naturalistas foi lido perante a Sociedade Linneana e é reconhecido até hoje pela mesma sociedade. Em um especial recente a própria Sociedade coloca Darwin e Wallace na capa com o subtítulo “Teoria da evolução de Darwin-Wallace”. Então o problema da autoria está resolvido? Não. Muitos questionam a ordem da co-autoria. Ao invés de “Darwin-Wallace” vários autores defendem que Wallace deveria ser o primeiro autor e levantam os motivos do possível preterimento. Eu já falei um pouco sobre estes motivos no post “Alfred Wallace – O evolucionista esquecido“.

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A eterna questão da autoria. Crédito: Research School of Biological Sciences

Acho que o argumento final para esta discussão está em escutar a pessoa que seria a mais prejudicada no caso. Vamos tentar fazer uma comparação com um exemplo fictício. Duas pessoas publicam um artigo e, por vários motivos, dizem que o segundo autor (ou autora) do artigo é o que realmente trabalhou e desenvolveu a ideia principal do artigo. O segundo autor tem um passo triste, veio de uma família pobre e tinha que vender parte do próprio material de pesquisa para sobreviver. O primeiro autor é uma pessoa rica, que nunca trabalhou na vida. Começa então uma grande polêmica que gera vários teorias conspiratórias. Para acabar com essa polêmica, jornais e revistas procuram o segundo autor e pedem que ele fale sobre o caso. No dia seguinte todos os jornais publicam a notícia de que o segundo autor confirma que eles tiveram a mesma ideia em lugares distintos, mas que o primeiro autor foi o que realmente desenvolveu a teoria, merecendo ser primeiro autor do trabalho.

Em escala menor sem os recursos midiáticos foi mais o menos o que aconteceu com Darwin e Wallace. Além de Wallace ter dado o nome de “Darwinismo” a um dos seus livros pós “Origem das espécies”, outra prova nos indica que ele mesmo defendia que Darwin teria uma contribuição muito grande para o desenvolvimento da teoria. Após a leitura perante a Sociedade Lineana, os artigos de Darwin e Wallace foram publicados. Wallace fez algumas anotações na sua cópia dos artigos, que hoje em dia se encontram no Museu de História Natural de Londres.

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Cópia dos artigos publicados pela Sociedade Lineana que pertenceram a Wallace. Anotações feitas por Wallace na página da direita. Crédito: darwinsbulldog

Para facilitar a leitura segue abaixo a transcrição do que foi escrito por Wallace na sua cópia dos artigos (tradução livre):

1860. Fevereiro

Depois de ler a admirável obra de Darwin “A Origem das Espécies”, acho que não há absolutamente nada aqui que não esteja em quase perfeita concordância com os fatos e opiniões deste cavalheiro.

Seu trabalho porém toca e explica em detalhes vários pontos que eu mal tinha pensado – como as leis de variação, a correlação do crescimento, a seleção sexual, a origem dos instintos e dos insetos neutros, e a verdadeira explicação de afinidades embriológicas. Muitos de seus fatos e explicações na distribuição geográfica são também completamente novo para mim e do mais alto interesse.

Nada poderia ser mais simples e direto. Wallace reconhecia de forma notória que Darwin desenvolveu muito mais sobre a evolução das espécies do que ele próprio. Não que isso tire os méritos de Wallace, mas não podemos também diminuir o papel de Darwin. Wallace foi um naturalista muito importante não só para o desenvolvimento do pensamento evolutivo mas para vários outras áreas da biologia como taxonomia e biogeografia (Wallace é chamado por muitos estudiosos de “Pai da geografia animal”).

Não podemos fechar os olhos para o legado de Wallace, mas temos que fazer jus a grandiosidade de Darwin para o Fato da evolução.

Palestras sobre Darwin e evolução

Em 1959 foi comemorado o centenário de publicação do livro mais famoso de Charles Robert Darwin, chamado por nós de forma resumida de “A Origem das espécies”. Para marcar esta data matematicamente curiosa (porque 99, 101 ou 103 anos não faz a mínima diferença em termos de importância) foi organizado na Universidade de Chicago uma grande conferência. Dentre os palestrantes nomes que vemos em todos os livros texto sobre evolução como Julian Huxley, Theodosius Dobzhansky, Ernst Mayr e G. G. Simpson. Rolou até a composição de músicas especialmente para o evento que foram apresentadas em uma espécie de musical, dentre elas “I was born, my friends–Darwin“.

Mesa_evento_Darwin_1959_Mayr.jpgBela mesa “redonda” realizada na conferência em 1959. Fonte: Darwin/Chicago 2009

Cinquenta anos depois o pessoal da Universidade de Chicago resolveu repetir a dose e realizar um grande evento para comemorar os 150 anos de publicação do famoso livro. Ele foi realizado em outubro do ano passado mas só agora os vídeos das palestras foram colocados no ar. Dentre os palestrantes deste ano posso destacar Richard Lewontin, Douglas Futuyma, Jerry Coyne, Daniel Dennett, Neil Shubin e Michael Ruse. Claro que é covardia comparar com o pessoal de 1959, mas o evento do ano passado merece ser assistido. Por algum motivo os organizadores preferiram disponibilizar as palestras em arquivo .mov para serem baixadas do site e não colocar em um youtube ou outro site genérico. Mas assim pelo menos facilita baixar e salvar para futuras consultas. Lembro que os vídeos das palestras do Lewontin e Numbers ainda não estão no ar devido ao tamanho, como explicou Jerry Coyne em seu ótimo blog “Why evolution is true“.

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