Conhecendo os recifes de corais sem sair de casa
Após o lançamento de um serviço de mapas pelo seu principal concorrente no mercado dos celulares, parece que o google resolveu continuar seu projeto de dominação mundial melhoria do Google Earth/mapas. Depois de nos levar a lua e a marte, o google também não poderia deixar de lado os oceanos que cobrem a maior parte do nosso planeta. Em 2009 eles começaram este processo e ontem foi anunciado mais um passo para tornar a ferramenta ainda mais interessante.
Fonte: Blog oficial do Google
Agora uma parte dos oceanos, mais especificamente os recifes de corais podem ser vistos pelo street view (expressão que ficou desatualizada depois desta novidade) de uma forma que só mergulhadores poderiam ter acesso. Por enquanto apenas recifes de corais da Austrália, Filipinas e Havaí podem ser acessados, mas já podemos procastinar dedicar um bom tempo para conhecer esta produtiva parte do mundo. Aqui você pode encontrar as principais localidades que já possuem as fotos panorâmicas (apenas em inglês por enquanto). E se você é biólogo que nem eu pode até abrir estas fotos panorâmicas no trabalho e não ficar mal com o seu orientador/chefe. (Obs.: Faça isso por sua conta e risco). Para quem quiser uma prévia do serviço é só ver o vídeo abaixo:
Uma dica para o google: comece a catalogar logo os recifes de corais brasileiros. Porque daqui a pouco não sobrará nada para catalogar….
Rio+20: fracasso?
Não postei nada aqui no blog sobre a Rio+20, mas quem me acompanha pelo twitter deve ter visto que minha opinião sobre a conferência não foi negativa. Ao longo dos dias do evento acompanhei atentamente a cobertura da mídia e blogs sobre o assunto e vi que a opinião da maioria das pessoas é que a conferência foi um fracasso. Mas será que realmente podemos dizer isso?
Na minha opinião, não. Diferente da Conferência das partes das Nações Unidas sobre as mudanças climáticas (COPs), o objetivo principal da Rio+20 nunca foi o de ter um documento com metas claras assinado por todos os países. O que é até difícil de acreditar, vendo todos os temas que foram discutidos. Claro que isso seria um passo importante e que temos que chegar em um futuro próximo, mas não em uma conferência como esta. Para mim o principal saldo positivo foi a mobilização de milhares de pessoas presencialmente e milhões pela internet em torno de assuntos ligados a proteção ambiental. Estive presente virtualmente no Fórum sobre ciência, tecnologia e inovação para desenvolvimento sustentável realizado na PUC-RJ onde tivemos várias palestras interessantes sobre a inserção da ciência na discussão sobre desenvolvimento sustentável. Além disso em diversos lugares do Rio de Janeiro ocorreram exposições, mostras cinematográficas e palestras sobre temáticas ambientais que tiveram uma presença popular surpreendente. Será que a mobilização de 220 mil pessoas em 11 dias que chegaram a enfrentar 5 horas de fila para ter uma experiência com a temática ambiental é irrelevante? E isso foi apenas no forte de Copacabana.
Conscientização popular irá resolver os nossos problemas ambientais? Claro que não, mas não podemos ser inocentes ao ponto de achar que apenas políticos reunidos em uma sala poderão cumprir esta tarefa. Desenvolvimento sustentável envolve maiores gastos e ninguém em um momento de crise econômica quer se comprometer. Por isso, a pressão social feita através de meios como a internet pode ser o fator diferencial que não tivemos após a Eco-92. Além da pressão social, outro caminho para a mudança pode ser deixar de focar em negociações em nível de nações e pensar em uma ação com um enfoque mais regional. Um grande ponto positivo da Rio+20 foi o evento parelelo com prefeitos de grandes cidades do mundo (C40 cidades). Neste nível de governo é muito mais fácil haver pressão social por mudanças, além da velocidade em que elas podem acontecer ser muito mais alta. Neste evento tivemos metas concretas propostas por prefeitos de diferentes cidades. Para elas ocorrerem de fato, sem serem atrapalhadas por mudanças no poder, voltamos novamente o papel da pressão social. Engraçado que durante a Rio+20 tivemos depoimentos de pessoas que reclamaram de passeatas, que as pessoas que estavam nas ruas eram “vagabundos” e que estariam atrapalhando ainda mais o trânsito da cidade. Tenho certeza que essas são as mesmas pessoas que dizem que o povo brasileiro não se mobiliza por nada, que somos apolíticos e que a rio+20 foi um fracasso.
E parece que não estou sozinho nesta visão menos negativa da Rio+20. Hoje foi publicado um editorial no periódico Nature intitulado “Um primeiro passo”. Abaixo traduzi alguns trechos interessantes:
“(…) Rio nunca foi concebido como um local para a assinatura de novos importantes tratados ambientais, por isso não deve ser surpresa que os governos não o fizeram.”
“Os governos anunciaram iniciativas para reduzir as emissões, proteger as florestas, ampliar o acesso à energia e, geralmente, fazer do mundo um lugar mais limpo e mais verde para todos. (…) Milhões de brasileiros, pelo menos, foram bombardeados com a cobertura de notícias detalhando o conjunto completo de temas em debate. Isto não é o suficiente, mas não é nada também. Ao concentrar-se muito sobre o texto final e que o ele contém, os críticos estão ignorando o que estava lá.”
“(…) Embora o acordo que saiu do Rio na semana passada não tenha definido metas de desenvolvimento sustentável, ele criou um processo para fazê-lo.”
Críticas são importantes, mas desde que construtivas e que também contemplem os pontos positivos de uma reunião sobre meio ambiente deste porte. Como disse um diplomata europeu em uma entrevista durante o evento “Melhor estarmos aqui discutindo estes temas de grande importância para o futuro da humaninade do que não estarmos aqui”.
Cientistas do clima: escutem mais antes de falar
Fui surpreendido esta semana por um editorial no mínimo “forte” do periódico Nature Geoscience intitulado “Diálogos da mudanças climática”. O texto demostra como a comunicação científica está cada vez mais em alta no meio acadêmico. Entre trechos “batidos” como dizer que os cientistas devem discutir mais o tema para o espaço vazio não ser preenchido pelor vozes não científicas, achei que a conclusão geral do editorial foi bem interessante.
Casos como a onde de calor de 2003 na Europa foram citados como sucessos da divulgação feita por cientistas e outros como o da onda de calor na Rússia de 2010 como um certo fracasso. Isso ocorreu princialmente pela complexidade do evento e em como a percepção do público de que os “cientistas não se entendem” pode atrapalhar a discussão sobre um efeito em longa escala de tempo. Artigos vistos pelo grande público como contraditórios foram divulgados na época, o que dificulta o entendimento do fenômeno, principalmente de um assunto tão complexo como a ciência do clima. Reproduzo abaixo o parágrafo final do editorial:
“(…) os cientistas do clima devem fazer todos os esforços para expor-se às questões da sua audiência - sejam políticos, jornalistas ou o público em geral. No final das contas, ouvir vai ajudar os cientistas a se comunicarem de forma mais eficaz, e pode estimular ideias para pesquisas relevantes para a sociedade.”
Muito interessante esta convocação final do editorial. Divulgação científica unidirecional tente ao fracasso. Precisamos entender as dúvidas e o conhecimento do público sobre o assunto, antes de dizer que o problema é que “ninguém entende ciência”, como muitos colegas acadêmicos gostam de ressaltar. Existem sim deficiências na educação científica, mas usar isso como desculpa para um fracasso na divulgação científica não me parece uma justificativa coerente.
Referência:
Editorial (2012). Climate change dialogues Nature Geoscience, 5 (5), 301-301 DOI: 10.1038/ngeo1474
Rei da Espanha (e do WWF-Espanha) caçando elefantes.
O rei da Espanha Juan Carlos, fraturou o quadril em uma viagem à África. Mas não em uma viagem comum, mas sim numa caçada. Isso mesmo, caçada. Caçada de elefantes ainda por cima. Podemos ver o rei posando ao lado do seu troféu. Só que o figura é presidente e um dos fundadores do WWF-Espanha.
Existem caçadas regulamentadas para controle populacional. Por exemplo, temos a caçada controlada de Jacarés na Amazônia, onde algumas localidades existem mais de 100 animais por quilometro nas margens dos Rios. Porém os animais não são tratados como troféus, e muitas das vezes, sua carne e couro são usados para benefício da população local. Além da própria figura do Elefante, um animal majestoso.
Não, não vou aqui falar que o WWF não serve para nada e generalizar todos os componentes desta organização. Porém, nos mostra que não é um paraíso de pessoas preocupadas com sua causa. Muito desse “movimento verde” escorrega na demagogia dos discursos. Grandes ícones, discursos bonitos, mas péssimos exemplos.
Essas organizações se afogam em ações vazias: Black pixel (um pixel preto no seu monitor para poupar energia, porém só funciona em monitores de tubo), arquivos .WWF (reinventando o .PDF, porém regado a demagogia verde), Fake Shower (estima o quanto de água desperdiçada quando uma torneira está aberta, mas se aproveita para fazer propaganda em um aparelho ícone da sociedade consumista), além de campanhas beirando o ridículo como Xixi no banho (que me recuso a comentar) e a mais polêmica a Hora do Planeta (desligue uma lâmpada de sua casa e salve o planeta, mais cômodo impossível). Estes exemplos não são exaustivos, mas ilustram bem o cenário.
Todas estas organizações possuem pessoas comprometidas e sérias, mas a conscientização beira a bestialização das pessoas. Como quando o @luizbento participou do Debate MTV e, o representante do instituto Akatu disse que aquecimento global deveria ser erotizado para melhor divulgá-lo.
Onde quero chegar com isso? Para mim, a questão é fugir da manada. Pensar criticamente sobre essas campanhas e manobras para “mobilizar” pela causa ambiental. Já tive algumas discussões sobre “os fins justificam os meios”, mas ainda acho que existe um limite tênue entre perder a credibilidade e mobilizar. E acho que estamos zigue-zagueando sobre ele. Porém, ainda acredito que a maneira mais eficaz é aproximar a ciência do grande público de uma maneira digna.
Aquecimento global é culpado pela…fome na África?
Pelo menos esse é um destaque dado pelo portal UOL no final de uma reportagem sobre a publicação do relatório do IPCC sobre riscos de eventos extremos.
Explicação com embasamento científico. Você está fazendo errado! Fonte: Uol. Reportagem original pode ser lida aqui.
E esse foi apenas um exemplo. Temos 23 fotos de “consequências do aquecimento global” [sic]. Ficando apenas no Brasil podemos encontrar desde enchentes em São Paulo até as chuvas na região serrana do Rio de Janeiro e Santa Catarina. Achei estranho não ter encontrado uma foto de pessoas com câncer, talvez o estagiário tenha esquecido. Resumindo, todos os desastres e problemas ambientais dos últimos anos foram ligados ao aquecimento global. Mas será que isso é algo ruim? Se assustarmos as pessoas elas passarão para o “nosso lado” na “luta contra o aquecimento global”!
Esse argumento parece um absurdo, mas é exatamente assim que muitos jornalistas e até cientistas se comportam quando tratamos da divulgação de consequências do aquecimento global. Em um primeiro momento as pessoas podem até prestar mais atenção ao seu argumento se você assustar elas, mas assim que elas descobrirem ou forem informadas sobre excessos ou falhas na sua argumentação isso pode virar o jogo de forma muito rápida. O esporte preferido dos negacionistas do clima é procurar erros nos relatórios do IPCC, como se isso fosse mudar a literatura científica mundial sobre o tema.
Não precisamos atribuir mais consequências negativas a um fato para o tornar ainda mais urgente. Chuvas em Santa Catarina não são uma novidade, muito menos enchente em São Paulo. Colocar a culpa destes problemas regionais e da fome no mundo no aquecimento global não vai ajudar em nada. Pior ainda, pode dar de bandeja o que os negacionistas querem para publicar artigos sem embasamento científico como este no Wall Street Journal e em outros importantes meios de comunicação.















