Biodiversidade: temos que nos importar com isso?

Palestra Espaço Ciência Viva

Vemos todos os dias (bem, nem todos os dias) o tema biodiversidade ser abordado na mídia e nas escolas. “O Brasil tem uma grande biodiversidade!”, dizem todos aos quatro ventos. Bem, mas o que é biodiversidade? Isso é importante para nós? Faz alguma diferença na nossa vida termos uma grande biodiversidade?

Esta e outras questões eu espero discutir com todos os presentes no próximo Sábado da Ciência, no Espaço Ciência Viva. O Espaço Ciência Viva fica localizado no bairro da Tijuca (Rio de Janeiro), bem próximo ao metrô. Ele é o primeiro museu participativo de ciências do Brasil e foi criado em 1982. O sábado da ciência reúne diversas atividades, incluindo desde os tradicionais módulos interativos até palestras e exibição de vídeos. O próximo sábado (26/04) terá como tema “Ecologia, Reciclagem e Biodiversidade” e a minha palestra será intitulada “Biodiversidade: temos que nos importar com isso?”. Mais informações sobre as atividades no site do evento.

Como o evento é gratuito aguardo a presença de todos, inclusive das respectivas famílias. Até lá!

A polêmica da vacinação contra HPV em adolescentes

A grande polêmica sobre vacinas, atualmente, reside na vacinação contra o HPV humano. Neste contexto, temos duas posição contrárias e distintas: início precoce da vida sexual de adolescente, visto que a vacinação é para a faixa de 11 a 13 anos; e os possíveis efeitos adversos da vacina.

A primeira posição é defendida por alguns líderes religiosos, sendo, no mínimo, patética. Declaram que a discussão sobre a doença causada pelo vírus e suas formas de contágio poderiam “estimular” as adolescentes a iniciariam precocemente sua vida sexual. Não, novela da globo com grande apelo sexual, não, BBB com sexo explícito, não, carnaval na sapucaí, não, essas coisas não estimulam a precocidade sexual, mas sim debates escolares sobre doenças sexualmente transmissíveis. Por favor, declarações dessas deveriam ser passíveis de cadeia. Justamente na faixa etária mais desinformada e de difícil passagem que é adolescência, existem pessoas que não querem promover o diálogo sobre vida sexual.

A segunda posição reside nos efeitos adversos da vacina. Para começar, toda vacina pode gerar algum tipo de feito adverso, mesmo em vacinas da gripe é comum. Na vacina contra HPV não poderia ser diferente. Entretanto, o CDC ainda recomenda a vacinação. A suposta correlação entre a vacina e a síndrome de Guillain-Barré não tem qualquer base científica, pelo contrário, artigos científicos declaram não haver esta correlação.

Além disso, ainda declaram que bastaria o exame de papanicolau para a a detecção e tratamento do câncer. Entretanto, como dito pela matéria, este exame é indicado para mulheres de 25 a 64 anos. Uma adolescente contraindo o vírus com seus 14 anos, por exemplo, teria muito tempo para o mesmo desenvolver as infecções e, posteriormente, o câncer. Justamente por isso a vacinação precoce. Existem artigos científicos (1 e 2) que recomendam a vacinação das adolescentes, uma vez que, após levantamentos sanitários, o número de meninas infectadas precocemente pelo vírus era muito maior do que imaginavam.

Por fim, argumentam que a vacina não cobriria todos os tipos de vírus circulantes na população. Só que isso vacina nenhuma faz. Mais uma vez, cito a vacinação da gripe, que deve ser feita anualmente para a atualização dos vírus novos. Geralmente, os vírus cobertos pelas vacinas são o de maior prevalência.

Este é um tema de grande importância, ainda mais quando relacionado a questões de saúde pública. Temos que ter bastante critério ao fazer qualquer tipo de contra indicação de vacinas. Espero fazer alguns updates sobre este tema neste mesmo post mais para frente.

Recurso renovável, pero no mucho

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Venda de atum em um mercado japonês. Crédito: Wikimedia commons

Alunos do curso de graduação em Ciências Biológicas tem que estudar temas que vão desde microbiologia até Ecossistemas e nem sempre conseguem uma resposta fechada para todas as perguntas que podem ser geradas dentro desse espectro. Muitas vezes temos que apreender na marra que nem tudo é 8 ou 80 em Biologia e, quando estamos tratando de Ecologia, o buraco pode ser bem mais embaixo.

Um destes tópicos é a classificação de recursos em renováveis e não renováveis. Na teoria tudo parece bem simples, mas quando começamos a pensar na prática vemos que existem muitas exceções à regra. Um exemplo que foi tratado pelo pessoal do Geófagos é o da água. O ciclo hidrológico parece perfeitamente renovável, mas muitas vezes podemos dar uma ajudinha e acabar quebrando o ciclo renovação. Outro exemplo é o das nossas presas, mais especificamente os recursos pesqueiros. Na teoria este seria um recurso renovável, já que os peixes ocorrem em grande quantidade nos oceanos e se reproduzem de forma relativamente rápida. Bem, seria assim se não fosse pela nossa grande habilidade de desregular os sistemas ecológicos.

Um dos principais problemas para a manutenção do estoque pesqueiro está na pesca ilegal que retira anualmente cerca de 5 milhões de toneladas de peixes por ano da nossa área costeira. Pesca feita de forma descontrolada pode diminuir e muito o estoque de algumas espécies, se tornando um risco para a sua manutenção. O problema é tão grande que no final do ano passado o Governo Federal lançou o Programa Nacional de Combate a Pesca Ilegal. Segundo informações do Ministério do Meio Ambiente e da Pesca, o foco será na fiscalização, mas também na conscientização dos pescadores por meio de campanhas públicas. Outro ponto importante é o da conscientização da população em geral sobre o pescado vendido no Brasil. Muitas das espécies frequentemente encontradas em mercados e em peixarias estão sobre-exploradas, ou seja, seus estoques estão se reduzindo, chegando até a possibilidade de se esgotarem. E é aí que entra a inventividade do pós-graduando brasileiro.

Cansado de ler artigos científicos sobre o tema e ver que eles nunca seriam lidos pelas pessoas fora da torre de marfim da academia, o Fernando Tuna (belo nome para quem trabalha com peixe, hein?) que é biólogo da UFRJ e atualmente cursa Mestrado em Biologia Marinha na UFF e MBE executivo em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ resolveu tomar uma atitude. Porque não traduzir os artigos científicos mais recentes que tratam de estoque pesqueiro de uma maneira amigável e prática, e de uma forma acessível para qualquer pessoa interessada? Daí surgiu a ideia do aplicativo Fish List.

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Imagina chegar em um mercado e ver que tem um peixe em promoção. Mas você não sabe se aquele peixe pode estar com o estoque reduzido e que a sua compra pode acabar estimulando a possibilidade dele se esgotar. O Fish list é um aplicativo simples, mas que traz informações que podem ajudar você a decidir sobre quais peixes comprar, trocar ou até mesmo recusar. As instruções para baixar o aplicativo podem ser encontradas aqui. A criação do aplicativo e da página do Facebook do projeto foram produtos do MBA em Gestão Ambiental do Fernando na COPPE/UFRJ. Uma ideia simples, mas que mostra como temos um oceano de informação na academia que precisa de uma ajuda de pessoas como o Fernando para conseguir ser realmente útil para toda a população.

Você conhece os museus brasileiros de ciência?

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Em viagens de turismo para o exterior costumamos sempre incluir museus em nossa agenda, mas visitar instituições que podem ficar bem perto da nossa casa é algo que sempre fica em segundo último plano. Os motivos para a baixa visitação dos museus brasileiros são muitos e, segundo pesquisas do Observatório de Museus e Centros Culturais (OMCC), eles podem variar desde problemas com transporte até violência. Para diminuir o problema do acesso físico aos museus, iniciativas como o Google Art project para museus internacionais e do Era Virtual para museus brasileiros são bem interessantes, mas ainda um pouco limitadas principalmente quando estamos falando de museus de ciência.

Como é difícil visitarmos uma instituição que não conhecemos, uma iniciativa da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), TV Escola – Ministério da Educação (MEC), Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM) e Fundação José de Paiva Netto (FJPN) resultou na criação de 52 documentários sobre diversos museus brasileiros, incluindo alguns com a temática científica. Os documentários têm 26 minutos de duração e estão sendo exibidos pela TV Brasil desde 2012. O mais legal da iniciativa é que todos os episódios da série estão disponíveis online e podem ser acessados tanto pelo site oficial quanto pelo canal no YouTube. Os museus de ciência contemplados pelo projeto são (clique no link para assistir ao documentário):

Em uma primeira edição – com perfil mais didático e voltada para servir de material em escolas – o Museu de Zoologia da USP e o Museu Paulista da USP também fizeram parte do projeto. Essa primeira edição conta com 15 museus e só está disponível no canal do YouTube. Tanto a primeira quanto a segunda edição estão disponíveis de forma completa (total de 67 documentários), mas infelizmente contam com um número baixo de visualizações.

Para mudar esta situação assista aos documentários sobre os museus de ciência brasileiros, curta e compartilhe com os amigos, e depois não deixe de conhecer fisicamente as instituições. Ciência faz parte da cultura e o papel destas instituições é muito importante na sua popularização.

Sobre beagles, ativismo e divulgação científica

Animal Use in Research - Brazilian Campaign

Cartaz de uma campanha da FAPERJ que eu registrei em um post de 2008.

Depois de um puxão de orelha do Takata e da recente mobilização dos blogs de ciência causada pela Mariana, não poderia deixar de dar os meus dois tostões sobre a invasão do Instituto Royal. Para saber mais sobre o que os blogueiros de ciência estão comentando sobre o assunto recomendo este post do Takata.

Para mim o evento que testemunhamos no último final de semana foi um sinal de como a ciência está completamente afastada da cultura, como muito bem destacou C.P. Snow no meio do século passado. E com certeza os maiores culpados por isso são os próprios cientistas. Boa parte deles não considera a divulgação científica relevante e acaba se fechando em um mundo isolado. Isso é inaceitável, ainda mais levando em consideração as ferramentas disponíveis na web que facilitam ainda mais o contato direto com a população. O resultado disso é que casos como o do Instituto Royal demonstram que os cientistas precisam de uma opinião pública crítica e que entenda como e porque a ciência é feita, já que são eles que financiam os estudos através dos impostos. Não podemos achar que assuntos delicados serão abraçados pela população sem que os cientistas sejam totalmente transparentes e didáticos sobre o que fazem e porque fazem. Lembro de um trecho do artigo do Ildeu de Castro institulado “A inclusão social e a divulgação de C&T no Brasil“:

 

“(…) Um dos aspectos da inclusão social é possibilitar que cada brasileiro tenha a oportunidade de adquirir conhecimento básico sobre a ciência e seu funcionamento que lhe dê condições de entender o seu entorno, de ampliar suas oportunidades no mercado de trabalho e de atuar politicamente com conhecimento de causa.”

 

Para uma atuação politica consciente levando em consideração que na sociedade moderna boa parte dos temas mais polêmicos são relacionados a ciência e tecnologia (aquecimento global, transgênicos, uso de células-tronco), a divulgação científica é a base para que todos tenham critérios na hora de dar o seu voto, participar de passeatas e até para discutir o assunto em redes sociais. Já discuti com alguns ativistas ambientais que não basta convencer as pessoas sobre a importância da sua causa de forma superficial. Os ativistas que ontem invadiram um instituto para salvar animais podem amanhã ser contra o uso de células-tronco, utilizando a mesma energia e pressão que utilizaram para o que muitos consideram uma “boa causa”. Divulgação científica é muito mais do que isso.

Acho sim que o ativismo animal é válido. Provavelmente sem eles não teríamos leis rígidas que regulam a experimentação animal, como a Lei Arouca no Brasil. Mas acho também que a invasão do instituto Royal aumenta mais ainda a distância entre ciência e sociedade. Assim como os cientistas devem se preocupar mais com divulgação científica, os invasores deveriam ter provas reais antes de uma atitude tão radical.  De acordo com uma reportagem da Record, os ativistas que começaram o protesto não tinham a intenção de invadir o prédio. Isso mostra que a invasão foi causada por uma histeria coletiva, devido ao calor do momento. Toda a discussão que surgiu após a invasão é um desdobramento positivo de uma atitude infeliz, que com certeza destruiu anos de pesquisas sérias. Todos os testes que com certeza causaram sofrimento aos animais (independente de seguirem a legislação) foram feitos em vão. Mesmo sem maus tratos sabemos que os animais sofrem com os testes e por isso temos que lutar para que isso seja minimizado, tanto em relação a percepção dos animais (analgésicos e tratamento adequado) quanto no número de animais necessários para uma pesquisa.

Temos atualmente um órgão responsável pela regulação do uso de animais em pesquisa. É o CONCEA. Todos os institutos que usam animais em pesquisa tem que ter uma autorização do CONCEA e devem passar por comissões de ética locais que avaliam o estudo antes dele acontecer. O CONCEA inclusive atuou na proibição do uso de animais pelo curso de medicina da UFSC, devido a provas de maus tratos. Não é perfeito, mas podemos cobrar mais atuação do CONCEA ao invés de destruir um instituto que aparentemente usa de forma correta animais em pesquisa. Iniciativas de divulgação científica sobre o assunto são aparentemente pequenas, mas posso citar um site interessante sobre ética na pesquisa. Pouco atualizado, mas mostra pelo menos uma tentativa de passar a informação de forma mais fácil para o público. Falta divulgação da iniciativa, já que eu só descobri o site depois da invasão do Instituto Royal.

Quanto aos beagles, realmente é difícil ser apenas racional. No meu caso o que me choca mais é o uso de macacos. Mas devemos lembrar que só uma pequena parte dos estudos é feita com animais de grande porte. E eles só são submetidos a medicamentos que tiveram sucesso em etapas anteriores em ratos e camundongos. Dados vazados pelo jornal da bandeirantes mostram que apenas 1,3% das pesquisas feitas no Instituto Royal eram para fins cosméticos. E em um pronunciamento oficial, a Dra. Silvia Ortiz afirmou que todas as pesquisas com cosméticos do instituto são feitas com cultura de células. Então o uso que é realmente questionável de animais em pesquisa feito pela indústria cosmética não era realizado no Instituto Royal, de acordo com as informações que temos até agora.

Não é um assunto fácil. Acho que os ativistas sérios são de grande importância para denunciar abusos e cobrar leis mais rígidas. Vamos brigar pelo uso mínimo de animais (pois vários testes ainda são insubstituíveis) e pelo desenvolvimento de testes alternativos. Para isso foi criada a Rede Nacional de Métodos Alternativos, que busca estimular e validar métodos alternativos de teste de medicamentos. Como o Pirulla discutiu em um vídeo, uma boa dica para os ativistas é buscar financiamento para pesquisas na área de métodos alternativos ou mesmo trabalhar diretamente nessa área. Com certeza seria uma grande contribuição para tentarmos diminuir ao máximo o uso de animais em pesquisa. Em um debate recente sobre o assunto, a Profa. Rita Leal Paixão da UFF declarou que temos que parar agora com todos os testes em animais para que isso estimule a criação de métodos alternativos. Acho que temos sim que estimular métodos alternativos, mas atitudes radicais como essa podem atrasar e muito avanços importantes na ciência e na medicina.

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