Resenha: Além de Darwin – Reinaldo José Lopes

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Muito se falou no último EWCLiPo ( II Encontro de Weblogs científicos em língua portuguesa) sobre a eterna discussão entre Jornalistas e blogueiros de ciência. Acho que esta discussão já não é mais necessária e, como diria o Ed Young, ela já deveria ter terminado em 2006. Digo isso porque o problema é bem simples de ser resolvido. Existem, em termos gerais, dois tipos de divulgadores de ciência: os bons e os ruins. Dentre os bons temos pessoas de todas as áreas, inclusive jornalistas, como o grande Carl Zimmer. E dentre os ruins temos vários exemplos que não precisam ser citados, incluindo cientistas de renome. Tenho toda a certeza que o jornalista Reinaldo José Lopes pode ser classificado dentre os bons divulgadores de ciência, e posso resumir o porquê. O motivo é bem simples e acho que todos os cientistas, sem exceção, deveriam buscá-lo. Reinaldo consegue passar informações cientificamente corretas para um público que nunca passaria perto de um artigo científico. Nem perto de um livro dos grandes divulgadores de ciência como Richard Dawkins, Jay Gould, Carl Sagan. Considero o livro “Além de Darwin” (Editora Globo) do Reinaldo José Lopes o único livro de divulgação científica sobre evolução que eu daria para a minha mãe ler. E este é o auge do que precisamos em termos de divulgação científica, principalmente no Brasil.

Com certeza um dos motivos que fazem o “Além de Darwin” ser um ótimo presente para um público não iniciado em evolução está no seu formato. Mesmo não tendo gostado do título e, principalmente da capa (sabemos que o autor do livro é sempre o último a ver), acredito que o formato do livro dividido em textos curtos, em sua maioria com temas de grande apelo para o leitor (como, por exemplo, na página 23: “Vamos ao que interessa: sexo”) e uma linguagem com termos coloquiais e mais simples atraem um público mais amplo. O problema talvez é que esse público alvo pode não chegar a abrir o livro, já que a foto do Darwin carrancudo e um título meio pesado podem afastar o leitor de ser iniciado (no bom sentido, claro). Algo como “Pílulas de evolução” refletiria melhor o que o livro apresenta. Não sei se atraria mais leitores, mas seria mais condizente com o conteúdo. Também não sei como funciona a pressão de uma grande editora para publicar um livro com Darwin no título em pleno ano Darwin, o que é realmente uma pena. Dentre os vários casos interessantes tratados de forma muito bem humorada (#eurialto, e várias vezes), posso ressaltar os capítulos “Feto malvado, mamãe mão de vaca – Embriões e os seus truques sujos para extorquir as grávidas”; “Até logo, e obrigado pelos peixes – Baleias e golfinhos têm o cérebro mais avançado da Terra?” e “Donald, o bem-dotado – Batalha sexual faz dos patos os campeões penianos do mundo”.

Um ponto que normalmente é o estopim de uma boa discussão (ou não) sobre evolução é o assunto religião. Não é preciso conhecer o Reinaldo pessoalmente para saber o seu ponto de vista sobre o assunto. Católico praticante (acho que não deveria existir a expressão católico não praticante, mas ela é bem utilizada), ele deixa isso bem claro no texto, principalmente na última parte do livro intitulada “Esperanças: do certo, do errado, da fé e da razão”. Não irei aqui questionar opniões pessoais quanto a religião, mas um ponto acho interessante ressaltar aqui. Concordo plenamente com o Reinaldo que “A biologia evolutiva não vai, sozinha, ensinar-nos o que fazer com a Terra” (pág 231), nem mesmo a ciência como um todo. Mas esse não é e nunca foi o objetivo desta ferramenta. Muito menos trazer aspectos de moral para o ser humano. No parágrafo anterior, este aspecto é levantado:

“Ao fim e ao cabo, a dúvida entre simplesmente seguir nossos instintos mais tribais, favorecendo parentes e aliados e se lixando para o resto, e tentar estender a toda a nossa espécie, e quem sabe uma parcela significativa do resto dos seres vivos, uma só teia de compaixão, não tem uma resposta puramente racional. Argumentos baseados na razão só vão até certo ponto.”

Acho que este argumento contradiz um pouco a ótima defesa do evolucionismo perante o Design desinteligente (como diria Dawkins) feita no capítulo intitulado “Desinteligências – por que a hipotese do design inteligente é má ciência e péssima teologia”. Neste capítulo, Reinaldo usa um argumento interessante (pág. 203):

“Vamos supor que os IDesigners estejam corretos. Sim, há indícios claros de planejamento inteligente nos seres vivos. Peço licença para perguntar. O que fazemos com isso? Para onde vamos daqui para frente? É possível expandir o conhecimento sobre a biologia de alguma maneira com essa premissa, além do meramente descritivo?”

Se hoje não temos um pleno conhecimento de como funciona a moral e o altruísmo em seres humanos e em macacos, isso não corrobora a ideia de que a compaixão é algo que a razão pura não explicaria. Como o próprio Reinaldo frizou, a defesa dos IDesigners que o evolucionismo está errado porque há sinais de design inteligente não ajuda a expansão do conhecimento científico. Pode até restringir se for levada a sério. Tenho certeza que atualmente ainda existem muitas lacunas em relação ao nosso entendimento de moral e altruísmo. Mas o conhecimento está avançando. Dou como exemplo uma matéria da Nature News sobre um artigo que fala da origem da moral humana e um artigo da PLoS ONE intitulado Altruísmo em chipanzés: o caso da adoção. Não estou afirmando que estes exemplos provam que o altruísmo e moral são frutos apenas da razão. Mas dizer que a razão não explica não ajuda em nada o estudo deste interessante ramo da ciência.

Tirando a minha opnião pessoal sobre a pequena parte do livro dedicada a religião, gostaria de ressaltar que é simplesmente incrível como o livro “Além de Darwin” de Reinaldo José Lopes é ágil, simples e ao mesmo tempo muito correto cientificamente. Sem dúvida alguma recomento a leitura ao público leigo mas também aos cientistas e divulgadores de ciência amadores (grupo ao qual eu me encaixo). Temos uma aula de como passar informação científica para um público leigo de um grande jornalista. Ótimo exemplo de não ser ralo demais (o que muitas ONGs ambientalistas praticam) e nem complexo demais (como a maioria dos livros de Dawkins e Gould).

Resenha: Richard Dawkins – O maior espetáculo da Terra

richard_dawkins_capa_livro.jpgPara quem nunca leu um livro de divulgação científica de Richard Dawkins e apenas conhece este biólogo queniano (sim, ele nasceu no Quênia) pelas críticas fervorosas ao seu livro mais midiático intitulado “Deus, um delírio” (Companhia das letras, 2007) e pelo seu famoso bom humor, uma recomendação: Comece sua trilha através do seu último livro “O maior espetáculo da Terra” (Companhia das letras, 2009). Neste livro, toda a destreza de um dos maiores divulgadores de ciência de todos os tempos é demonstrada, através de uma argumentação simples, direta e convincente. Considero esta mais recente empreitada de Dawkins como uma aula por escrito, onde o leitor/aluno sente-se preso ao escritor o tempo todo, até o último parágrafo, como em toda boa aula.

Claro que para leitores mais acostumados com a escrita Dawkiniana, o estilo sarcástico e divertido do autor não podem ser considerados como “grandes novidades”. Mas neste livro podemos encontrar várias cartas na manga, o que o torna uma leitura interessante para todos os públicos, mesmo os fissurados por biologia e, principalmente, evolução. Então vamos começar do princípio, com o objetivo do livro. Mais uma vez, Dawkins coloca um grande objetivo por trás de um dos seus projetos. Este é colocado de forma clara na contracapa de “O Maior espetáculo da Terra”:

“A evolução é um fato, e este livro o demonstrará. Nenhum cientista que se preze o contesta, e nenhum leitor imparcial fechará o livro duvidando disso.”

Richard Dawkins – O maior espetáculo da Terra, 2009 (contracapa)

Para quem acompanha o autor, este objetivo claro e forte em relação aos leitores não é novidade em um livro de Dawkins. Comparem com esta frase do seu livro “Deus, um delírio”:

“Se este livro funcionar do modo como espero, os leitores religiosos que o abrirem serão ateus quando o terminarem.”

Richard Dawkins – Deus, um delírio, 2007 (divulgação)

Com toda a certeza a previsão feita no livro mais recente é mais factível do que em relação aos leitores religiosos. Desentendimento com religiosos a parte, o fato da evolução é defendido por grande parte dos crentes em algum tipo de religião, descontando os mais fanáticos. Desta forma, tenho certeza que grande parte das pessoas fechará “O maior espetáculo da Terra” sem dúvidas sobre o fato da evolução.

Dentre os vários pontos altos deste livro posso citar a interessante crítica ao uso do termo “teoria” para se referir tanto a evolução quanto ao criacionismo, no capítulo intitulado “Apenas uma teoria?”. Uma busca rápida no google com o termo em português “teoria do criacionismo” resulta em quase 80.000 entradas, que podem ser encontradas em grandes jornais e até em sítios educativos como “Brasil escola” e “Mundo educação”. O que mostra a importância desta discussão. Exemplos do poder da seleção artificial como no caso da pesquisa feita com lobos na Rússia, associados a evolução “Bem diante dos nossos olhos” dos experimentos de longa duração com E. coli feitos por Richard Lenski, mostram ao leitor que a evolução está longe de ser “apenas uma teoria”. O trabalho de mais de 20 anos realizado por Lenski é tão emblemático que foi descrito ao longo de quase 20 páginas do livro e também foi lembrado pelo Breno aqui no blog no início do ano passado. Vale ressaltar outro ponto interessante do livro que é a relevante discussão sobre o que os criacionistas consideram como os “furos” da evolução no capítulo intitulado “Elo perdido? Como assim, ‘perdido’?”. Os “elos perdidos” estão mais “achados” do que muita gente imagina.

Um ponto curioso do livro está no parágrafo em que Dawkins faz uma coisa um pouco incomum em seus textos, que é uma “autocrítica” bem humorada, que resultou em boas risadas quando li:

“Quando a teoria neutra da evolução molecular foi proposta pela primeira vez, entre outros pelo grande geneticista japonês Motoo Kimura, ela era polêmica. Hoje muitos aceitam alguma versão desta teoria, e, sem esmiuçar as evidências aqui, irei aceitá-la neste livro. Dada a minha reputação de “arquiadaptacionista” (alegadamente obcecado pela seleção natural como a principal e até única força propulsora da evolução), o leitor pode ter confiança de que, se até eu apoio a teoria neutra, é improvável que muitos outros biólogos oponham-se a ela!*

*Já fui, inclusive chamado de “ultradarwinista”, um motejo que considero menos insultante do que talvez tivesse em mente quem o proferiu.”

 Richard Dawkins – O maior espetáculo da Terra (Páginas 311-312)

Claro que este parágrafo não foi uma verdadeira “crítica”, como as que tomaram conta até de um livro inteiro, intitulado “The Selfish Genius: How Richard Dawkins Rewrote Darwin’s Legacy” da especialista em “comunicação da teoria da evolução”(?) Fern Elsdon-Baker. O livro ainda não foi publicado no Brasil, mas já trouxe bastante controvérsia lá fora. Acho que o Dawkins é um pouco avesso a “novidades”, como demonstra na página 204 ao chamar a “Epigenética” de “…um termo pomposo atualmente gozando dos seus 15 minutos de fama na comunidade biológica“, mas nada disso pode manchar a sua importância como divulgador do legado de Darwin, Wallace e muitos outros evolucionistas.

“O maior espetáculo da Terra” não termina nesta discussão. Dawkins passa ainda por embriologia, movimento dos continentes, críticas diretas ao que ele chamou de “Design desinteligente”. E ainda existem dados de pesquisas alarmantes da influência do criacionismo na população da Europa e dos EUA, no apêndice “Negadores da história” (ótima analogia, como a utilizada atualmente para descrever os antigamente rotulados “céticos do clima”).

Para fechar esta resenha gostaria de compartilhar um parágrafo que pareceu um pouco perdido no meio do texto, mas que me despertou para a importância da divulgação científica como um todo. É uma ideia simples, mas parece que muita gente não pensa desta maneira:

“Causou-me certa irritação ler um folheto, no consultório do meu médico, alertando sobre o perigo de parar de tomar comprimidos de antibiótico antes do tempo prescrito. Não há nada de errado no aviso em si, mas a justificativa apresentada preocupou-me. O folheto explica que as bactérias são ‘expertas’ e aprendem a lidar com antibióticos. Presumivelmente os autores acharam que o fenômeno da resistência aos antibióticos seria mais fácil de entender se eles o chamassem de aprendizado em vez de seleção natural. Mas falar em esperteza e aprendizado para bactérias é confundir o público, e sobretudo não ajuda o paciente a compreender por que ele deve seguir a instrução de continuar tomando comprimidos até o fim. (…) Folhetos como aquele da sala de espera do meu médico não ajudam nessa educação – uma lamentável oportunidade perdida de ensinar algo sobre o formidável poder da seleção natural”.

Richard Dawkins – O maior espetáculo da Terra (Página 130)
Muita gente por aí acha que o público precisa de informação, não importa como e em qual formato ela chegue ao público. Sinto isso principalmente com os ambientalistas em geral. Dizem que devemos “erotizar” a informação, travesti-la de uma roupagem que faça com que as pessoas se interessem mais. Na maioria dos casos, como exemplificado por Dawkins, uma informação passada de forma simples demais, travestida para ser mais palatável, pode trazer mais problemas do que soluções. Passar a informação de forma simplificada mas sem subestimar a inteligência do nosso público alvo não é fácil. Mas nunca, jamais este objetivo deve ser transfigurado. Precisamos atingir um maior público, mas sem perder a qualidade da informação. E neste sentido, Richard Dawkins dá uma aula em “O maior espetáculo da Terra”.

Resenha: AB INITIO – Franklin David Rumjanek

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Estamos chegando ao final do chamado “Ano Darwin”, onde comemoramos duas datas muito importantes para a história da ciência. A primeira foi dia 12 de Fevereiro, que marcou os 200 anos de nascimento de Charles Robert Darwin. A segunda foi dia 22 de novembro, onde lembramos os 150 anos de publicação do seu livro mais marcante, que mostrou para o mundo de forma magistral a relevância da evolução por seleção natural. O diferencial do livro escrito por Franklin David Rumjanek, lançado em pleno ano Darwin, está em não se manter no mar das mesmices lançadas neste ano.

Franklin David Rumjanek vai além da abordagem tradicional sobre Evolução, colocando para o público geral a importância de outros personagens na construção deste conceito, principalmente de um dos mais injustiçados de todos, o francês Jean-Baptiste de Lamarck. Apenas a contextualização de Lamarck em um livro direcionado ao público geral sobre ciências já seria uma importante contribuição para a divulgação científica nacional, mas este é o tema da segunda parte do livro. Na primeira parte Franklin David Rumjanek faz um levantamento da literatura recente que vai desde a origem do universo até os limites de complexidade da vida, um tema normalmente árido e vasto. O autor faz uma boa tentativa de tratar de um tema desta natureza utilizando uma linguagem mais fácil, largando um pouco os jargões da área. Mas talvez um dos pontos que poderiam ser criticados seria a falta de ligação entre seus os dois grandes temas. É claro que existe uma conexão intrínseca entre Origem da vida e Evolução (subtítulo deste livro), mas a falta de uma melhor ligação entre os dois temas centrais durante o livro foi marcante. Dois temas de tamanha complexidade poderiam ser melhor explorados se fossem abordados de forma separada, havendo assim mais espaço para o autor poder explorar seus argumentos e deixá-los um pouco menos complexos para o público leigo, ávido por ciência. Como o autor mesmo enfatiza ao longo do texto, este é o público para o qual o livro é direcionado. Em vários momentos Franklin David Rumjanek passa para o público noções de metodologia da ciência, o que faz o leitor entender melhor como o conhecimento científico é formado. Fazer com que uma área tão ligada a bioquímica seja passada para o grande público não é uma tarefa fácil, mas neste livro conseguimos ter uma boa e recente visão sobre os principais avanços científicos sobre a Origem da Vida. Este é, com certeza, um dos grandes diferenciais deste livro.

AB INITIO – Origem da vida e evolução é uma das várias recentes publicações da editora carioca Vieira e Lent direcionada para a divulgação científica. Espero que este caminho continue sendo trilhado pela editora, publicando livros de qualidade em uma área tão importante e carente, principalmente no Brasil.

Este livro foi uma cortesia da Vieira e Lent casa editorial para este blog.
 

Resenha de livro: A Tirania do Petróleo

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Dos Rockfellers aos Bushs, Antonia Juhasz nos mostra a obscura e poderosa dinâmica das companhias de petróleo. Um histórico rico do ínicio da era do petróleo com a Standart Oil, até sua dissolução em várias empresas que foram os primórdios das famosas companhias que nos são tão familiares (como Exxon-Mobil, BP e outras). A Tirania do Petróleo
mostra que dependência de petróleo da nossa sociedade não tem como
principal fator a eficiência energética em si, mas sim questões
políticas de grupos que controlam desde eleições para presidentes em vários países (principalmente os EUA) até
vidas de populações inteiras.

Mas se engana quem acha que o livro é somente um histórico, este livro nos mostra uma faceta desses companhias que não são reveladas para o grande público com frequência. Tráfico de influências, guerras sangrentas, exploração de países miseráveis e, claro, destruição do ambiente. Por mais que este não seja o foco do livro (e não é mesmo), impactos ambientais das industrias petrolíferas são abordados em alguns capítulos, mas sem caráter científico. Em busca do ouro negro cada vez mais raro, essas gigantes são capazes de destruir o que e quem for preciso para alcançar mais um poço. E é nessa interface que se encontrar os ambientes naturais de nosso planeta, principalmente, a exploração de águas profundas oceânicas (a meu ver, um dos ecossistemas mais inexplorados e ameaçados de nosso planeta).

Entender como funciona por completo uma empresa desse tipo e como elas se relacionam entre elas e entre os governos dos países mais poderosos é vital para o esclarecimento das políticas públicas de proteção ambiental. E isso esse livro faz de maneira muito competente. Sendo assim, diante do poder delas, a proteção ao meio natural se mostra como uma pedra no sapato dos grandes industriais, mas que com dinheiro e influência pode ser facilmente contornada.

Este livro foi uma cortesia da Editora Ediouro para este blog.

A Origem das espécies – esboço de 1842

A origem das espécies - Esboço de 1842

Em uma visita habitual aos sebos virtuais, resolvi buscar livros do desconhecido autor “Charles Darwin“. Dentre as centenas de cópias dos seus livros “A Origem das espécies” e “Viagem de um naturalista ao redor do mundo” em sebos de todo o Brasil, um título me chamou a atenção. O nome do livro era “A origem das espécies – Esboço de 1842“. Seria este o esboço escrito por Darwin 17 anos antes da publicação do seu mais famoso livro “A origem das espécies“? Aquele tão citado por vários autores, dentre eles Ernst Mayr em “Uma ampla discussão” (FUNPEC editora, 2006)? Realmente era ele. Versão em português de um manuscrito histórico, onde Darwin expõe pela primeira vez em um texto razoavelmente coerente parte de suas ideias. A editora é a Newton Compton Brasil (alguém sabe se ela ainda existe?), edição publicada em 1996.

Esta edição integral do “Sketch” de 1842 apresenta o texto integral da versão original, trazendo não só o texto escrito por Charles Darwin mas também o texto apagado por ele. Na “nota do tradutor” (página 15), Mario Fondelli ressalta:

 

“O que temos aqui é um conjunto de ideias básicas que, melhor desenvolvidas e ampliadas, acabariam formando o fundamento da teoria darwinista. Só que aqui ainda são apresentadas sem polimento, sem uma metodologia rigorosa nem uma exaustiva explicação dos fatos. (…) Mas há nisto umas vantagens que não poderiam ser percebidas numa obra mais cuidadosamente acabada: este afã de entregar ao papel pensamentos fugidos, estas correntes de raciocínio que nos parecem quase ilógicas mas que deviam ter sentido muito claro para o autor, fazem com que possamos quase testemunhar a labuta mental do cientista, e nos permitem conhecê-lo de forma mais humana do que qualquer biografia.”

 

Realmente este texto nos faz entrar em contato direto com a atmosfera criada por Darwin. Frases soltas, apagadas (delimitadas por colchetes pelo tradutor) marcações pedindo mais exemplos, citações sem referências… um completo caos para um leitor de primeira viagem, mas um relato histórico muito interessante para qualquer pessoa que se interesse mais pelas origens do pensamento darwinista. Podemos conhecer um resumo das ideias de Charles Darwin apenas 6 anos depois da sua marcante viagem a bordo do Beagle e entender melhor como se deu o processo de amadurecimento de sua teoria. Além do esboço de 1842, esta edição brasileira traz de “brinde” (e no meu conhecimento pela primeira vez em português) a comunicação lida em primeiro de Julho de 1858 na Sociedade Linneana intitulada “Sobre a tendência das espécies em formar variedades e sobre a perpetuação das variedades e das espécies por meio de seleção natural“. Comentei um pouco sobre a importância desta comunicação aqui. A carta de Lyell e Hooker, o resumo de um manuscrito de Darwin, o trecho de uma carta de Darwin para o professor americano Asa Gray e o artigo “Sobre a tendência das variedades a divergirem indefinidamente do tipo original” de Alfred Russel Wallace. Tudo em português do Brasil.

Selecionei abaixo alguns trechos do esboço de Darwin que são bem interessantes:

 

“Um indivíduo posto sob novas condições [frequentemente] varia pouco em relação a fatores como estatura, teor de gordura, cor, vigor, hábitos (nos animais) e, provavelmente, a disposição. Os hábitos de vida também desenvolvem certas partes; o desuso as atrofia [a maior parte destas pequenas variações tende a tornar-se hereditária].”

Página 19

O trecho citado acima mostra a influência da lei de uso-desuso e da teoria dos caracteres adquiridos de Lamarck no pensamento de Darwin. Ao longo do esboço Darwin cita algumas vezes Lamarck em trechos onde passa a ideia de divergência do pensamento Lamarckista, como em “(…) Introduzir nesta altura o contraste com Lamarck – disparate de hábitos ou mudança??” (página 28)  ou em “(…) A degradação e a complicação não tendem de modo algum a perfeição. Justamente argumentando contra Lamarck” (página 58). Mas a influência de Lamarck no pensamento de Darwin é algo que perdurou mesmo após a publicação do “A origem das espécies” em 1859. Ao contrário de Darwin, Alfred Russel Wallace tinha uma posição muito mais forte contra Lamarck, explicitada em seu artigo lido na Sociedade Linneana em 1858.

 

“(…) Malthus trata do homem – nos animais não existe freio [impedimento] moral – eles se reproduzem no período do ano em que o alimento é mais abundante ou a estação é mais favorável;(…) Isto requer muita reflexão; estudar Malthus e calcular a taxa de aumento e lembrar a resistência – somente periódica.”

Página 25

Na página 25 e em alguns trechos posteriores Darwin mostra a grande importância para a construção do conceito de “seleção natural”  do “Ensaio sobre a população” do Reverendo Thomas Malthus. Este ensaio foi publicado originalmente em 1798, mas a versão mais famosa (sexta) foi publicada em 1826.

 

“(…) É irrelevante que o Criador de inúmeros sistemas de mundos tenha criado cada indivíduo dos milhares de parasitas ocultos e de vermes [do lodo] que pulam cada dia da existência, sobre a terra na água do [deste] globo. Deixemos de assombrar-nos, por mais que se possa deplorá-lo, se um grupo de animais foi criado diretamente para pôr seus ovos nas vísceras ou nas carnes de outros, se alguns organismos tiram prazer da crueldade – se os animais se deixam levar por falsos instintos – se todos os anos há um incalculável desperdício de ovos e pólen. Podemos ver que o bem maior que se possa imaginar, a criação dos animais superiores, decorre diretamente de morte, carestia, roubo e guerras secretas da natureza.”

Página 67-68

A origem das espécies - Esboço de 1842

O último trecho selecionado foi a base de um texto reproduzido no “A origem das espécies“. Argumento até hoje utilizado por evolucionistas contra a ideia de design divino. Simplesmente genial. Outro fato interessante é o que foi levantado pelo Kentaro. Darwin foi sim quem cunhou o termo “criacionista”, mas foi bem antes de 1859. Por várias vezes o termo é citado neste esboço, se referindo aos defensores de um Criador onipotente, que teria criado a vida em vários momentos.

A Origem das espécies – esboço de 1842 não é um livro para ser lido pelo público geral. Na verdade eu não consigo entender como ele foi vendido por R$2,00 (como indicado na capa e pela qualidade de sua encadernação e páginas), exclusivamente em “bancas e agências de jornais de todo o brasil” (como descrito na página 6). Ele é um livro que traduz as ideias de Charles Darwin de forma crua, confusa e até muitas vezes contraditória. Uma oportunidade para ler um dos maiores cientistas da história sem cortes e sem revisão de pares é algo realmente interessante.

 

PS.: A minha hipótese para a venda deste livro em bancas de jornais é que muitas pessoas conhecem Darwin apenas pelo seu nome e talvez pelo nome do seu mais importante livro. Imagina chegar em uma banca de jornal e ver na capa “Darwin – A origem das espécies. Edição integral”. E logo acima “R$ 2,00″. Quem resistiria a tentação de levar um clássico por apenas dois reais? A parte de “esboço de 1842″ era apenas um detalhe…

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