A cerveja na prevenção do câncer
Não é segredo para ninguém que sou um apreciador da cerveja, visto a quantidade de posts que já escrevi sobre o assunto (origem da lager, ignobel, cerveja e antibióticos, evolução e cerveja, entre outros).
Procurando sobre o assunto no Sciencedirect, encontrei um artigo que discutia as propriedades que podem prevenir o câncer de alguns compostos químicos. Vamos a alguns experimentos:
Cientistas dividiram alguns ratos em 3 grupos diferentes em relação ao tipo de líquido que o animal ingere: água, solução alcoólica 5% e cerveja. Só que nesse meio tempo, os pesquisadores injetavam um composto carcinogênico, isto é, indutor de câncer. Mais precisamente o DMH, que induz tumores no cólon. No final da pesquisa, os pesquisadores concluíram que os ratos que bebiam cerveja tiveram 33% menos chances de desenvolver tumores. Outro grupo de pesquisadores, em um desenho experimental parecido, concluiu que os danos induzidos pelo agente químico AOM no DNA de células do cólon era menor no grupo de ratos que bebiam cerveja.
Um adendo rápido, também foi verificado que em cobaias que receberam cerveja do tipo lager ou cerveja escura (uma stout, tipo Guinness para mim está ótimo!) em duas concentrações diferentes tiveram inibido o processo de arteriosclerose. Sendo que, quando utilizadas diluições da bebida, somente a cerveja lager mostrou eficácia contra a arteriosclerose. Notícia boa para os brasileiros, pois a maioria das cervejas consumidas popularmente são aguadas para caramba!
Por fim, ao serem analisados os constituintes da cerveja, foram observados compostos com atividades antioxidante, antiinflamatórias e moduladoras do metabolismo carcinogênico (anti câncer, como explicadas acima). Sendo que, o principal componente fornecedor destas substâncias é o lúpulo.
Esta planta da família das cannabaceae começou a ser usada na produção de cerveja como conservante. Grandes quantidades de lúpulo eram adicionadas no barril de cerveja após sua fabricação para conservar a bebida ao longo das viagens de navio. Os constituintes mais importantes do lúpulo são os alfa-ácidos (humulonas), sendo que também existem também os beta-ácidos, porém esses não resistem ao processo de fabricação da cerveja. Esses compostos, que dão o sabor amargo característico da cerveja, além de possuirem propriedades antibióticas, a sua forma isomérica (iso-alfa-ácidos) possuem várias atividades biólogicas relevantes para a prevenção do câncer, além de ter papel importantíssimo no combate a osteoporose. E pasmem, os iso-alfa-ácidos podem também ter efeitos benéficos no tratamento dos sintomas da diabetes (inibição da aldose redutase, ativação do receptor ativados pro proliferadores de peroxissoma (PPAR) alfa e gama e redução da resistência a insulina).
Isto só nos mostra o potencial dos constituintes da cerveja como possíveis compostos ativos de remédios. É claro que você que bebe que nem um desgraçado não vai se tornar um imortal, muito menos o Zeca Pagodinho. Mas esta nobre arte de produção da bebida mais famosa do mundo se mostra como uma das descobertas mais importantes para a história da humanidade.
Referência
Clarissa Gerhauser (2005). Beer constituents as potential cancer chemopreventive agents European Journal of Cancer DOI: 10.1016/j.ejca.2005.04.012
Esponja de gás carbônico
Pesquisadores da Califórnia desenvolveram um novo material capaz de absorver gás carbônico do ar. Eles usaram como base o polímero polieilenamina (PEI), porém com um belo pulo do gato. Este polímero é um bom absorvente de CO2, entretanto somente na sua superfície. Na media que a camada superficial se satura, ele para sua ação.
Nesse contexto, os pesquisadores conseguiram dissolver o polímero em metanol e, em seguida, banharam sílica pirogênica (capaz de produzir materiais porosos). Ao secar, a solução de polímero adere na superfície desse material poroso e, assim, superfície de contato (diminui a razão superfície/volume) com o ar. Deste modo, a eficiência de absorção é aumentada drasticamente.
Comparado com o material que maior poder de absorção antes do seu desenvolvimento, a esponja dos californianos consegue absorver 1,72 nanomols de CO2 por grama de material frente os 1,44 nanomols do material antigo. Outra grande vantagem é que sua regeneração ocorre ao aquecer o material a 85 oC, bem abaixo dos 800 oC do anterior.
Além de poder ser usado em árvores artificiais, imitando o comportamento das suas correspondentes naturais, e, principalmente, como um “tampão” CO2 em baterias super eficientes que armazenam energia de fontes alternativas. Estes baterias utilizam o oxigênio do ar em suas reações químicas, porém qualquer pequena contaminação com CO2 pode danificá-las, sendo assim, esse novo material protegeria da influência de CO2.
Esse é o tipo de pesquisa que acredito ser o futuro na ciência de mudanças climáticas. Não acredito que que consigamos diminuir nossas emissões de gases estufa a ponto de naturalmente revertermos um possível cenário aumento de 2 oC (limite estimado para não enfrentarmos grandes calamidades climáticas globais).
Fonte: ScienceNOW
Cura através da cerveja: uma história de 2000 anos
A cerveja é uma bebida milenar. Sua origem é datada de 4000ac, sendo que seus primeiros fabricantes estão entre sumérios, egípcios e mesopotâmios. Basicamente, ela é produzida através da fermentação de diferentes tipos de açúcares encontrados em cereais. Tradicionalmente aqui no Brasil, utiliza-se cevada e milho. Porém, podem ser usadas outras fontes de açúcares, como o trigo, além de complementos como mel, mandioca, café e chocolate.
Na história suméria, existe uma deusa da cerveja: Ninkasi. A adoração era tão grande que compuseram até mesmo um hino para ela, além de vários versos a cultuando.

Recentemente, um químico chamado Mark Nelson, trabalhando com ossadas de um antigo povo sudanês (antigo reino Nubiano), observou a presença do antibiótico tetraciclina. Entretanto, este povo viveu, aproximadamente, 250-550ac e, na história da ciência, o primeiro antibiótico descoberto pelo homem foi a penicilina a 82 anos atrás.
O que acontece é que este povo já dominava a arte de produzir cerveja, a tetraciclina é produzida por um tipo de bactéria (estreptomicetos) encontrada no solo, apresentando semelhanças morfológicas com os fungos, podendo até, erroneamente, serem caracterizadas como tais. Este grupo de bactérias é, atualmente, estudado por essa capacidade de produzir metabólicos secundários (antibióticos e enzimas extracelulares).
Esta bactéria é característica de solos áridos, tipicamente encontrados no Sudão. Possivelmente, elas contaminaram os barris de produção de cerveja, e como produzem colônias douradas e que flutuam sobre o líquido, elas podem ter sido propagadas como ingrediente da cerveja por este povo. Isso se deve a possível veneração ao outro por antigas civilizações. Com isso, o crescimento desta bactéria junto a cerveja, enriquecia este maravilhoso líquido com o antibiótico tetraciclina.
Esta hipótese de crescimento junto a cerveja foi testada pelo co-autor do trabalho George Armelagos. Ele produziu cerveja “contaminada” pela bactéria junto com seus alunos de graduação e obteve a bebida enriquecida com o antibiótico (que ótimo projeto de graduação, não?!).
Apesar de proteger contra infecções, o excesso de tetraciclina pode causar deficiência na absorção de ferro pelo corpo. Porém o custo da proteção contra infecções contrabalança este efeito colateral, ainda mais pelos prazeres de beber uma boa cerveja.
Não entendo o porquê dos cientistas atuais não enriquecerem cerveja com medicamentos. Iria ser altamente eficiente. Observemos o exemplo do flúor na água ou do iodo no sal de cozinha. Para você que queria mais um motivo para beber ou mais uma pauta para aquele interessante bate-papo de botequim, o primeiro antibiótico ser produzido devido a cerveja é uma boa pedida.
Fonte: Wired Science













