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Nunca fui de acreditar em destino, mas desde que comecei meu estágio na graduação, eu não conseguia imaginar minha vida diferente do caminho que acabei seguindo: mestrado e doutorado, de preferência em instituições diferentes. Eu coloquei na cabeça que isso era o que eu nasci pra fazer e que nada poderia mudar. Tal ingenuidade até se estendia à minha visão sobre outros colegas. Via aqueles que desistiam da carreira acadêmica com tristeza. Posso dizer que minha visão mudou completamente nos últimos anos.

Eu poderia dar exemplos de como algumas péssimas aulas aqui, uns comentários babacas e ultra-competitivos de colegas ali acabaram minando minha certeza deste destino manifesto. Mas este texto já será pessoal o bastante sem envolver tantos detalhes do que passei. O que importa é que esta carreira tem seu preço, e que ela não é a única possível a ser seguida. Mas vamos por partes.

Tirinha do PhD Comics: “Hora de escrever minhas resoluções de ano novo” *Comer melhor, dormir mais, fazer mais exercícios, ver os amigos OU se formar* “Minhas resoluções precisam de uma solução melhor”

De uns tempos pra cá, ando lendo muito sobre saúde mental de estudantes de pós-graduação e como este grupo é desproporcionalmente acometido por depressão, ansiedade, alcoolismo e comportamento suicida, por exemplo. Os motivos são muitos, mas principalmente a manutenção de uma cultura de glorificação do sofrimento e de competição exacerbada. Quantas vezes já ouvimos mantras como “se você não está sofrendo, está fazendo isso errado”, “se você consegue dormir 8 horas por dia, sinal de que está com muita folga”, “vida social? Quê isso?”, “Você vai viajar pra casa nas férias? Deve estar com a tese pronta então né?” etc.

Sujeito moribundo com a cara em cima de livros. De: Berkeley Science Review.

Esta cultura é perpetuada por alunos e por docentes, como se fosse natural. Alunos não querem ser vistos como desleixados e professores reproduzem o que viveram na sua época de pós-graduação. Isso citando os bem intencionados, porque não faltam casos de assédio moral por parte de docentes em todo lugar, por exemplo.

Este ambiente ultra competitivo propicia um mal extremamente comum em pós-graduações e em ambientes corporativos: a síndrome do impostor. A ideia de que você é bem inferior intelectual ou tecnicamente aos seus pares, e que logo todos vão descobrir que você é uma farsa. Essa síndrome não é reconhecida como uma patologia, pelo que eu sei, mas está muito relacionada a casos de ansiedade, e muitas vezes acompanha a pessoa por muito tempo durante a vida. Infelizmente, como era de se esperar na nossa sociedade, especialmente no meio científico, este mal é mais comum em mulheres do que em homens.

Albert Einstein (acima) chegou a dizer ao fim da vida: “A estima exagerada que depositam em meu trabalho me deixa bem incomodado. Eu me sinto compelido a pensar que sou um vigarista involuntário.”

Algo que acabei construindo dentro da minha própria cabeça ao longo desses anos de experiência na academia foi a ideia de que nada seria mais importante do que minha carreira. Essa é uma mentalidade bem comum em outros meios profissionais também, e costuma ser endossada por “autoridades” de auto-ajuda empreendedora. Se a melhor opção para meu doutorado é do outro lado do planeta, eu tenho que ir pra lá e ignorar todo o resto da minha vida, como minha família, meus amigos, outras propostas de emprego, conforto em minha atual cidade/país, meus relacionamentos mais profundos… E ainda eu deveria estar contente, pois estou mais próximo do mitológico sucesso.

Posso ser jovem, inexperiente e posso inclusive estar reclamando de barriga cheia (se for me comparar aos problemas adicionais que alunas de pós-graduação podem estar passando agora, por exemplo), mas mesmo assim tenho um spoiler pra vocês: ninguém é obrigado a deixar a vida pessoal por causa da carreira. Demorei a perceber isso. Tem dias que penso inclusive que percebi tarde demais, agora que estou há milhares de quilômetros de lugares e pessoas que me fazem muita falta, especialmente enquanto estou em um lugar onde os alunos são mais workaholic ainda e a vida social é um pouco mais subestimada.

Spock, um vulcano (quase) sem emoções fazendo sua famosa saudação. Estou mais para Kirk.

Escrevo este texto antes de tudo como um desabafo pessoal. Ainda acho que ser professor universitário de uma instituição pública é o que eu faria de melhor no meu futuro próximo, mas já não coloco esse objetivo como prioridade máxima na minha vida. E se esse objetivo não for alcançado, tudo bem, existem muitas coisas (e muitas outras além dessas) que eu posso fazer ainda, e com certeza há maneiras mais interessantes de me sentir pleno. Além do papel terapêutico deste texto, fica também o alerta aos muitos de nossos ouvintes que acabam tentados a seguir essa carreira.

Nos últimos meses, a situação de bolsistas de pós-graduação no Brasil tem se complicado cada vez mais graças a pesados cortes no financiamento. Mais uma camada de dificuldade que só aumentará a competição nos programas. Por isso eu digo aos ouvintes que mesmo assim acabam optando por seguir cursos de ciência que fazer um curso de ciência básica não quer dizer que você precise fazer uma pós-graduação strictu sensu depois. Também não significa que você não pode trocar de curso se não estiver curtindo. Se optarem pela academia, lembre-se de que sua vida é bem maior do que seu diploma. Não ignore as pessoas ao seu redor, e lembre-se disso ao pesar decisões profissionais importantes. Em qualquer carreira que escolher, guarde um tempo livre para sua atividade física preferida, seu hobby e para quem você gosta. E o conselho mais importante: procure ajuda profissional se a barra pesar demais.

Essa quebra de encanto que tive com a carreira me deu mais alegria que tristeza no fim das contas. Agora tenho a noção de que não preciso ser um robô desprovido de sentimentos para me sentir uma “pessoa de sucesso”, e não vou praticar nenhum seppuku caso não alcance o destino tão honrado da academia.

Fonte bethesda LucasLucas é co-criador do podcast Dragões de Garagem e doutorando em Entomologia pela University of Minnesota. Quase nunca escreve no blog, mas há momentos em que as palavras precisam encontrar o papel (nem que seja virtual).

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