março 10, 2010
Category: Gripe Suína

Essa semana fiquei surpreso com o número de pessoas, inclusive médicos, que estão inseguros em relação à vacinação para a gripe pandêmica. Por isso, mais um post sobre a vacina. Espero não estar torrando a paciência de vocês. Vamos lá:
Existem vários tipos de vacina para a gripe A H1N1. Segundo o
Ministério da Saúde, a Organização Pan Americana de Saúde (OPAS) fornecerá 10 milhões de doses para o Brasil. O Governo já havia comprado, em novembro de 2009, o primeiro lote de vacinas com 40 milhões de doses fornecidas pelo laboratório Glaxo Smith Kline (GSK). Além disso, encomendou 33 milhões de doses ao Instituto Butantan que as fabricará segundo transferência de tecnologia negociada com o laboratório Sanofi-Pasteur. A vacina que eu tomei foi essa, Butantan-Sanofi Pasteur de vírus inativado da cepa A/California/7/2009 (H1N1)v, propagada em ovo, com 15 μg de hemaglutinina por dose plena. O tipo de vacina também é um dos determinantes do esquema de vacinação proposto pelo
Governo.
O que são os adjuvantes?Os componentes da vacina além dos vírus inativados estão dando o que falar. Em especial devido a "correntes" totalmente desinformadas que circulam por meio de spams nos emails por aí. Vamos às informações: Os adjuvantes são substâncias que aumentam a imunogenicidade da vacina. Em tempos de pandemia, a quantidade de vírus disponíveis é um fator limitante e os adjuvantes aumentam a capacidade de produção da vacina em 100 a 200%. Mesmo assim, isso pode não ser suficiente. Há dois tipos principais de adjuvantes: o esqualeno e os sais de alumínio. A vacina Butantan-Sanofi Pasteur não tem nenhum dos dois. A vacina da GSK tem o
AS03, o esqualeno e ainda outro agente imunogênico, o tocoferol (vitamina D). Os adjuvantes foram testados na fabricação de vacinas da gripe sazonal e da H5N1.
E o tal de Timerosal?
Timerosal, ou em inglês,
thiomersal, é o nosso antigo mertiolate. É uma tintura de mercúrio orgânico com poderes antimicrobianos quando usado tópicamente. Foi retirado do mercado por causar uma ardência enorme nos ferimentos abrasivos e pela necessidade de retirada gradual dos produtos à base de mercúrio por razões ambientais. O timerosal é usado nas vacinas na manufatura e para evitar a contaminação do produto final. A vacina pandêmica tem mais ou menos 2,5 a 50 μg timerosal por dose como preservativo. O timerosal contem 49,6% de mercúrio (ou seja, 1,25-25 μg de mercúrio por dose).
Essas doses são consideradas baixas e aproximadamente 1/4 da ingestão máxima diária para uma pessoa de 60 kg. Muitas pessoas, inclusive alguns
vizinhos meus, são alérgicos ao timerosal. E agora? Podem tomar a vacina ou não?
Segundo o relatório abaixo [2] e um especialista em vacinação que consultei, as alergias de contato ao timerosal NÃO contraindicam a vacinação. Existem tipos raros de alergia ao composto nos quais o paciente apresenta sintomas sistêmicos, por exemplo, angioedema (inchaço na boca e face), broncoespasmo (chiado no peito), urticária (vergões na pele). Nesse caso, a alergia é mais importante e a vacina está contraindicada. Na dúvida, é sempre melhor perguntar ao seu médico.
Essa vacina, afinal, é segura? Vou citar o relatório novamente:
"Baseado em informações recebidas de 16 países, a OMS estima que por volta de 80 milhões de doses da vacina pandêmica foram distribuídas e aproximadamente 65 milhões de pessoas foram vacinadas. Campanhas de vacinação globais têm se utilizado de vacina com e sem adjuvantes, com vírus atenuados e inativados (este último grupo não licenciado na Europa). Apesar da intensa monitorização sobre a segurança das vacinas, todos os dados compilados até o momento, indicam que as vacinas pandêmicas gozam do mesmo excelente perfil de segurança que as vacinas sazonais, as quais tem sido utilizadas por mais de 60 anos."Nesse ponto, acho que fomos beneficiados por estarmos no hemisfério sul. Dessa vez, testaram lá antes.
[1] Atmar RL, & Keitel WA (2009). Adjuvants for pandemic influenza vaccines. Current topics in microbiology and immunology, 333, 323-44 PMID: 19768413
[2] European Centre of Disease Prevention and Control. [link]
Figura retirada daqui.
Posted by Karl at março 10, 2010 11:12 PM • 1 Comments • 0 TrackBacks
março 8, 2010
Category: Gripe Suína
No Hospital das Clínicas, eu quase fui filmado pela Globo!! (Te cuida, Tiago Lacerda). Tomei minha vacina e recomendo a todos, que não tiveram gripe suína, a tomar também. Segue a medaglia da campanha. Vou deixar no Blogroll.
Posted by Karl at março 8, 2010 12:33 PM • 4 Comments • 0 TrackBacks
março 7, 2010
Category: Gripe Suína
Quando a epidemia de gripe começou, escrevi sobre como ela causava a morte. Basicamente, o quadro é pulmonar. Um grupo de pesquisadores resolveu fazer uma pergunta bastante interessante e importante: bem, já que temos vacinas eficazes para o pneumococo - um dos principais germes causadores de infecções respiratórias graves -, será que a vacinação contra esse germe teria impacto na mortalidade por gripe suína?
O resultado saiu publicado na BMC infectious diseases [1]. É uma ideia há muito perseguida por um dos autores (Klugman) que tem inclusive uma publicação na Science sobre o tema. Apesar da metodologia ser um modelo teórico e apresentar as limitações inerentes a esse tipo de metodologia, foi possível demonstrar uma diminuição no número de infecções secundárias à gripe e, consequentemente, na mortalidade geral atribuída à epidemia. Interessante notar que o período da exposição ao pneumococo em relação ao vírus da gripe parece ser crítico, ao menos em camundongos: se o indivíduo entre em contato com o pneumococo ANTES da gripe, não parece haver aumento da mortalidade. Se a exposição é concomitante, um risco intermediário ocorre. Mas é grandemente aumentado se a exposição ao pneumococo ocorre 7 dias após a gripe. Aventa-se que a base biológica para isso seria o γ-interferon, que tem um pico em camundongos em 7 dias e facilita o clareamento das bactérias pelos macrófagos alveolares.
Isso justifica o conselho de nossas avós de que, após uma gripe forte, não vale a pena ficar se expondo. Parece também corroborar o dito popular de que uma gripe pode "se transformar" em uma pneumonia. Por fim, parece que não é má ideia a vacina para pneumococo na vigência de uma epidemia de influenza. A vacina desse modelo é uma vacina heptavalente produzida por um grande laboratório e os pesquisadores todos são consultores pagos, exceto um, que é funcionário da empresa. Independentemente disso, o racional para o modelo é muito forte. Eu costumo recomendar a vacina contra infecções pelo Streptococus pneumoniae (o pneumococo) a pacientes com problemas respiratórios normalmente. A vacina vale por 5 anos. Confesso que estou propenso a indicar mais essa vacina com o inverno que se aproxima.
[1] Rubin JL, McGarry LJ, Klugman KP, Strutton DR, Gilmore KE, & Weinstein MC (2010). Public health and economic impact of vaccination with 7-valent pneumococcal vaccine (PCV7) in the context of the annual influenza epidemic and a severe influenza pandemic. BMC infectious diseases, 10 PMID: 20092638

Posted by Karl at março 7, 2010 8:46 PM • 2 Comments • 0 TrackBacks
março 5, 2010
Category: Gripe Suína
O inverno foi turbulento no hemisfério norte. Não pelas nevascas, nem pelas alterações de temperatura, mas muito mais no que concerne às políticas relacionadas à pandemia da gripe suína. A OMS, em meio a
acusações de interferências da BigPharma em suas decisões "pandêmicas", prepara um
pronunciamento cuidadoso sobre a "segunda onda" para não "baixar a guarda dos governos" (sic). Vacinas sobram nos países e os
governos não sabem o que fazer com elas.
Alguns doam. Pouca gente fala da "nova" gripe e a sensação é de "fim-de-festa".
O argumento é que a epi(pan)demia não foi o que esperávamos, principalmente no que se refere à letalidade. Como não foi? Caríssimos leitores, o inverno de 2009 foi um dos períodos em que mais trabalhei na minha vida! Eu vi o bicho de frente. Insisti nas hipóteses não catastrofistas por acreditar (e saber) que gripe sazonal mata pra caramba também, além de dengue, febre amarela, malária e outras cositas desse meu Brasil varonil. Mas o negócio não foi brinquedo, não! Gente doente + Paranoia = Caos! Tentativas de respirar e pensar com calma foram vistas como peleguismo a favor do ministério da saúde. Teorias conspiratórias, informações desencontradas, médicos, autoridades e pessoas batendo cabeça, formaram um cenário patético com uma real sensação de fim-de-mundo! Apesar da
letalidade da nova gripe não ser comprovadamente maior, sim, existiam
perguntas que ainda precisariam ser respondidas. A principal delas é que trata-se de um vírus desconhecido ao qual os seres humanos são extremamente suscetíveis. E assim terminamos 2009.
E eis que surge a
vacina. Não que eu esperasse fogos de artifício, banda na rua, feriado nacional, mas também não precisava ser surpreendido por uma enxurrada de questionamentos sobre "quais os argumentos racionais temos para se tomar a vacina contra gripe A H1N1"! Descobri que
médicos de outros países passaram pelo mesmo problema. Fiquei pensando bastante sobre isso e conclui que
: o principal argumento racional para se tomar a vacina é a própria irracionalidade com que a epidemia foi enfrentada no inverno passado! Ou as pessoas vão querer passar pelas mesmas aflições? A vacina tem problemas? Tem. Como qualquer vacina! Ou vamos deixar de tomar a dupla adulto a cada 10 anos ou parar de vacinar os pequenos em função de seus efeitos colaterais? Mas que raio de raciocínio é esse? "Não vou tomar a vacina porque é nova e não sei exatamente de seus efeitos". Mas essa é a
mesma razão do porque a gripe A H1N1 é perigosa": é nova e não sei de seus efeitos! Talvez a médica americana que escreveu isso tenha mesmo razão:
"The dramatic shift in public sentiment over the course of this H1N1 epidemic is both fascinating and frustrating. It is clear that there is a distinct emotional epidemiology and that it bears only a faint connection to the actual disease epidemiology of the virus." Epidemiologia emocional diferente da real. Nem desespero na época da epidemia, nem descaso agora, por favor! Um pouco de
temperança (à época da epidemia) e de
prudência (agora) não fariam mal.
Volta e meia, alguém me chama de "véio" carinhosamente no Twitter. Se ser velho é ficar, um pouco que seja, intolerante, acho que eles têm razão. Eu vou tomar vacina e dar aos meus filhos.
Para ler mais:
1)
Portal da Bireme sobre H1N1.
2)
Portal da OMS. (inglês)
3)
FAQs do CDC sobre vacinação da gripe suína. (inglês)
4)
Sobre a utilidade da vacinação (em francês).
5)
Informações do Ministério da Saúde.
Posted by Karl at março 5, 2010 8:21 PM • 8 Comments • 0 TrackBacks
março 3, 2010
Category: Ciência Médica

Desde que entrei na faculdade de medicina, o estetoscópio me fascinou. Estudei técnicas auscultatórias e as apliquei. Diagnosticar doenças cardíacas e pulmonares com um aparelho é muito interessante. O estetoscópio tem uma história bonita (um resumo razoável em inglês
aqui, qualquer dia conto essa história em bom português).
A evolução tecnológica do estetoscópio (esteto, para os íntimos) é uma marca da evolução da própria medicina. De um tubo rígido interposto entre o ouvido do médico e o seio de belas senhoras evitando assim o constrangimento de colocar diretamente a orelha em locais castos, a um instrumento acústico e, recentemente, eletrônico, foram quase 2 séculos.

Recentemente, a ultrassonografia (USG) vem ganhando um espaço jamais imaginado na prática médica. Antes, um campo dominado exclusivamente pelos radiologistas, o "ultrassom" vem sendo incorporado a várias outras especialidades como traumatologia, emergências, terapia intensiva, cirurgia geral e vascular, entre outras tantas. Os aparelhos vem melhorando dia a dia e as imagens, que antes pareciam as de uma TV com "chuvisco" foram ficando impressionantemente nítidas. Qualquer pessoa que já viu um ultrassom morfológico de uma mulher grávida sabe do que estou falando. Além disso, a tecnologia foi ficando mais barata, simples e menor! Esse último adjetivo é o motivo do post. Recentemente, a GE Healthcare lançou um
aparelho de ultrassonografia que é mais que portátil. É de mão! Chama-se VScan (foto ao lado).
Bom, o fato é que um aparelho assim, do mesmo tamanho que um Iphone, permite fazer alguns exames interessantes em qualquer consultório. Um deles é o próprio ecocardiograma, que se baseia nos mesmos princípios ultrassonográficos de um aparelho comum de ultrassom obstétrico ou abdominal. Isso permite que o médico ao invés de auscultar um sopro cardíaco, o visualize, quantifique, diagnostique, com uma precisão jamais imaginada à beira do leito. Um dos cardiologistas mais famosos do mundo, o prof. Eric Topol (blogueiro dos bons!) não esconde sua
admiração. Abaixo, um filme promocional.
Seria a aposentadoria anunciada de um instrumento tão caro aos médicos? O espelho frontal, aquele espelho que fica na cabeça dos médicos em qualquer desenho animado foi praticamente aposentado. Quem ainda os usa, raramente é verdade, são os otorrinos. Hoje, entretanto, eles têm uma coisa chamada "nasofibroscopia" que além de permitir-lhes uma visão melhor, incomoda menos o paciente e ainda deixa você, paciente, pegar uma carona no exame, por meio de um monitor.
Acho que o esteto vai se aposentar como o espelho frontal, as navalhas, o categut, as mezinhas e outras tantas tecnologias obsoletas com as quais os médicos tentaram minimizar as mazelas da espécie humana. Contudo, em todas as "aposentadorias" anteriores, ele, médico, acabou por se distanciar um pouquinho mais de seus pacientes. A sensação de um estetoscópio geladinho no peito com um sujeito de olhos fechados e aspecto calmo, em silêncio, ouvindo o que seu corpo tem a lhe dizer é, por si, terapêutica. A ver...
~ ~ ~ ~ ~ ~
Declaração de conflitos de interesse. Não tenho nenhum tipo de relação financeira, científica ou amorosa com a GE Healthcare, mas se eles quiserem dar um VScan para mim, eu vou ficar bem feliz!
~ ~ ~ ~ ~ ~

PS1. A foto acima mostra um estetoscópio didático com 5 extensões. Professores e alunos podiam auscultar um paciente ao mesmo tempo. Isso era muito importante nas aulas de propedêutica.
PS2. Não. A moça atrás não é Sara Pallin.
PS3. Eu sei que o paciente parece o Woody Allen e a cena não deixa de ser algo cômica, mas é uma situação possível em hospitais escola. Se alguém souber de onde é a foto, deixe nos comentários.
PS4. Clique nas fotos para ver os créditos.
Atualização
A foto é do filme
Zelig de Woody Allen. A "moça" atrás é a Mia Farrow. (via Kentaro).
Posted by Karl at março 3, 2010 5:46 PM • 8 Comments • 0 TrackBacks
fevereiro 11, 2010
Category: Cultura
"Nunca tive anos tão curtos formados por dias tão longos..."@uoleo no TwitterO Tempo sempre me intrigou muito. Desde muito cedo tive a consciência de que o tempo poderia passar rápido ou devagar de acordo com o meu modo de estar no mundo. Infelizmente, eu não tinha controle sobre isso. Pelo menos me contentava em percebê-lo.
Os gregos tinham dois termos para designar o tempo:
áeon e
khronos (não confundir com Cronos, pai de Zeus, uma divindade primeva da mitologia grega). O primeiro significa "época da vida", existência ou vida mesmo, destino. Se considerarmos a origem da palavra,
ayu ou
yu (de onde vem também
iuvenis), podemos também atribuir a
áeon o significado de vitalidade. De forma geral, segundo Ferrater Mora,
áeon significa o tempo de duração de uma vida.
Khronos, por sua vez, significava "duração do tempo" e o tempo como um todo, como uma esteira infinita. Significa ainda em grego moderno, o ano. Então, em seus sentidos primários,
áeon e
khronos designam uma época ou parte do tempo e o tempo em geral, respectivamente. Por isso, palavras como "cronômetro" e "era"; "cronologia" e "jovem" significam o tempo sob diversos aspectos de acordo com as duas interpretações.
Para mim
, entretanto
, Khronos e
Áeon são deuses que gostam de brincar conosco. São eles que permitem a percepção do tempo de forma diferente e por isso possibilitam a solução do paradoxo do início do post. Essa frase, que deve fazer sentido para muita gente, sintetiza os domínios de cada deus: os anos curtos "
aeônicos" e os dias longos "
khrônicos" confundem nossa consciência do tempo. Alguém poderia dizer, "por isso, os meses devem ter a duração normal e o tempo passa sem sobressaltos". Sim, seria uma possibilidade dialética de solução. Mas não seria a mais bela.
A mais bela solução é que a frase do meu existencial amigo é um bisturi que separa os deuses siameses do tempo e me faz ver seus artifícios. Na minha cabeça mortal, minha dimensão do tempo é demasiado importante e me subjuga frequentemente. Me leva a crer que o tempo é meu senhor e me faz esquecer que tanto
Khronos quanto
Áeon são, na verdade, prisioneiros da eternidade do milésimo de segundo no qual se vive intensamente.
Consultei. Mora, José Ferrater. Dicionário de Filosofia. Martins Fontes. 2001. pág 671-685.
Posted by Karl at fevereiro 11, 2010 11:18 PM • 9 Comments • 0 TrackBacks
fevereiro 9, 2010
Category: Medicina
"O CONGRESSO NACIONAL decreta:
Art. 1º O exercício da medicina é regido pelas disposições desta Lei.
Art. 2º O objeto da atuação do médico é a saúde do ser humano e das coletividades
humanas, em benefício da qual deverá agir com o máximo de zelo, com o melhor de sua
capacidade profissional e sem discriminação de qualquer natureza.
Parágrafo único. O médico desenvolverá suas ações profissionais no campo da atenção
à saúde para:
I - a promoção, a proteção e a recuperação da saúde;
II - a prevenção, o diagnóstico e o tratamento das doenças;
III - a reabilitação dos enfermos e portadores de deficiências."Está havendo uma discussão, na minha opinião necessária, porém mal conduzida, sobre quais as responsabilidades do médico na sociedade brasileira. Tentarei, atendendo a pedidos, esclarecer meu ponto de vista sobre o assunto devagar, visto que o problema requer uma reflexão que o calor da discussão pode confundir. A discussão é sobre o que um médico pode ou não fazer, cujo projeto de lei, ora em trâmite no Congresso Nacional, se convencionou chamar de
lei do "Ato Médico".
Como está explícito nas primeiras linhas do projeto acima, sua pretensão é reger o exercício da medicina. O que tem sido alegado por muitas sociedades médicas, em especial a
Associação Médica Brasileira (AMB) e o
Conselho Federal de Medicina (CFM), é que a profissão médica, apesar de muito antiga, foi a última a ter seu exercício regulamentado por lei. Esse fenômeno ocorreu também em outros países. Outras profissões da área da saúde, bem mais recentes, como nutricionistas e fisioterapeutas, tiveram sua regulamentação estabelecida há vários anos. Essa indefinição de papéis permitiu o aparecimento de uma zona cinzenta onde vários profissionais poderiam atuar sobre um mesmo problema, sobrepondo-se. Nutricionistas e nutrólogos, psiquiatras e psicólogos, fisiatras e fisioterapeutas, e mesmo enfermeiras e médicos, teriam de discutir o que pertence à esfera profissional de cada um de modo que também as responsabilidades ficassem claras. A tentativa de definir o papel do médico foi de encontro com o espaço ocupado por outras profissões e a chiadeira foi muito grande.
De um lado, os médicos que buscam definir legalmente sua área de atuação; de outro, os vários profissionais da área da saúde se sentiram invadidos e tolhidos profissionalmente, já que vinham exercendo seu papel com autonomia e excelência, mas que agora terão que, de certa forma, subordinar-se a um profissional médico. Achei o tom das declarações de ambos os lados inadequado. Posso criticar especificamente as declarações das sociedades médicas: o que deveria ser uma carta de compromissos está se tornando uma disputa por territórios.
Essa é uma daquelas leis que, no meu caso específico, não afetará em nada o meu trabalho. Se pensarmos bem, a questão específica é sobre
responsabilidades. Responsabilidades geram consequências. O número de processos civis contra médicos cresce ano a ano. Eu já participei como perito e membro de comissões técnicas ou éticas de processos contra médicos. Em uma unidade de terapia intensiva de um hospital de grande porte nas quais internam-se políticos, intelectuais e celebridades em geral, nunca vi ninguém - médico ou não - clamando por ser responsável por algum procedimento ou conduta relacionado a um paciente complexo ou com uma família complexa (podemos definir isso depois). O que vejo é exatamente o contrário. Ninguém quer assumir responsabilidade alguma - repito, médico ou não. Grande parte dos profissionais da equipe multidisciplinar que atendem nas UTIs nas quais trabalho, são A FAVOR do tal Ato Médico! Eu particularmente, trabalho muito com fisioterapeutas. Nunca precisei prescrever alguma conduta. Sempre pude discutir abertamente com profissionais que, muitas vezes, eram bem mais experientes que eu. Fiz-lhes a seguinte pergunta: "No caso de um médico prescrever uma extubação (retirada da cânula orotraqueal que conecta o paciente a um ventilador mecânico) com a qual você não concordasse, qual seria sua conduta?" A grande maioria tentaria argumentar com o médico, no que muitos, dizem, teriam sucesso. "E caso o médico se mostrasse irredutível?" A esmagadora maioria realizaria o procedimento com a alegação de que "a responsabilidade final cabe ao médico!" Ela tem que caber a alguém, afinal.
Como médico, também tenho o mesmo problema com outros médicos. Sou plantonista de UTI e estou vendo um paciente complexo. Avalio, penso, pesquiso e tomo algumas condutas que julgo serem pertinentes. Chega o médico do paciente e toma condutas, digamos, totalmente díspares. O que fazer?
É uma questão de responsabilidades. Posso tentar discutir, apresentar evidências de que aquilo não é o correto, mas a palavra final cabe a ele. E, agora chegamos ao ponto: se a conduta se mostrar equivocada, a responsabilidade (civil e até criminal) é dele, assim como as penas da lei! Qualquer discordância de minha parte tem que levar isso em consideração. O médicos intensivistas discutem muito (o que também acho que é uma discussão mal posta) sobre a questão das UTIs "abertas" e "fechadas". É exatamente a mesma situação!
Há uma necessidade de regulamentação da profissão médica. Há uma necessidade premente de estabelecer o responsável técnico por procedimentos relacionados à saúde e sua manutenção. Suspeito que essa delimitação tenha como
objetivo consequência um número maior de processos civis (
que aumentam ano a ano). Se por um lado, acusações de arrogância e falta de bom senso por parte dos médicos são pertinentes (algumas situações já presenciadas por mim mesmo!), por outro, não há como negar uma certa hipocrisia por parte das sociedades não-médicas: a quem deverá ser imputado um eventual erro? Qual o grau de responsabilidade que se pode atribuir à cada procedimento específico? E quanto ao diagnóstico? São questões difíceis de responder sem ideologizar o debate que, para o meu gosto, já está ideologizado demais.
No dia em que uma lei substituir o entendimento e o relacionamento cordial entre profissionais de alto nível, sejam eles médicos de várias especialidades ou uma equipe multiprofissional da qual faz parte um médico, eu espero estar aposentado. Não delegarei jamais meu relacionamento com qualquer profissional da saúde, seja médico de outra especialidade, seja não-médico, a um conjunto de regras e definições. Prefiro uma fórmula mais
buberiana: "Eu" reconheço "tu" como o "outro" ao meu lado e em "tu" vejo o profissional que sou e também o que queria ser: sob
TODOS os aspectos, cuidar de pessoas, para mim, é um
encontro.
Posted by Karl at fevereiro 9, 2010 2:12 PM • 9 Comments • 0 TrackBacks
fevereiro 2, 2010
Category: Blogs
O Ecce Medicus faz 2 anos. Considerando que são criados aproximadamente
175.000 blogs por dia e que a grande maioria dos blogs têm uma vida média de 3 meses, o Ecce Medicus é um
sobrevivente. Isso só foi possível graças aos leitores que constroem o blog comigo. Muitas pessoas já me disseram que os comentários aqui são tão interessantes, ou mais, que os posts. Isso me deixa feliz. Feliz por ter proporcionado um fórum para discussão da medicina e de como ela deve ser pensada. Fosse só isso e eu já teria dado como pronto esse projeto que iniciou-se 2 anos atrás. Mas, há outros planos...
Segue uma antologia dos 10 posts mais visitados no último ano, já no
Scienceblogs Brasil, e dos últimos 10 posts preferidos meus. Podem dar palpite. O Ecce Medicus é uma "casa de tolerância" nesse sentido. Obrigado.
Os Dez Posts Mais Visitados - em ordem de popularidade (fonte Google Analytics - valeu
Paulinha!)
1.
O Bumbum de Gisele2.
Gripe Suína3.
Sobre a Letalidade da Gripe Suína4.
Mortes por Gripe Suína5.
Resistência Bacteriana6.
Cisto Sinovial7.
Mais Sobre o Rubor Facial8.
Cientista Documenta Relação Sexual dentro de Ressonância Magnética9.
A Teoria da Vitamina D e a Despigmentação da Pele Humana10.
Design Pulmonar - Projeto Tabajara?Meus Dez Posts Preferidos - sem ordem de preferência (fonte Sistema Límbico do Karl)
1.
Deus, Um Desejo2.
Pára-quedas, a Ciência e Eu3.
Romances e Pacientes4.
O Caramujo e a Estrela5.
Acromegalia II6.
Sobre Elefantes, Cegos, Paralelas e Pacientes7.
Diagnóstico e Intuição8.
O Desdiagnóstico9.
Seria a Informação Científica uma Commodity?10.
El Inglés, Idioma Internacional de la Medicina
Posted by Karl at fevereiro 2, 2010 6:34 PM • 8 Comments • 0 TrackBacks
janeiro 30, 2010
Category: Cultura
As piadas sempre trazem alguma coisa de verdade. Quando são contadas pelos pelos próprios protagonistas então, nem se fala. Parece que o politicamente incorreto se dissolve na figura do contador e a situação fica mais engraçada. Especificamente, em relação às "piadas de médico", são revelados estereótipos da personalidade dos profissionais de diferentes especialidades. Vou contar duas das piadas que mais circulam no meio médico.
Nota de Cem DólaresSabe como esconder uma nota de cem dólares de um médico? Você vai depender da especialidade dele para ter sucesso. Vejamos:
Como se escondem 100 dólares de um anestesista? No paciente. E de um ortopedista? Num livro de medicina. De um clínico, não precisa esconder porque ele nunca viu e não sabe o que é. E de um cirurgião-plástico? Impossível, ele vai achar de qualquer jeito! Talvez uma das mais interessantes seja a estória d'...
Os caçadores
Um grupo de médicos de especialidades diferentes resolveu sair num fim-de-semana para caçar patos. O grupo era constituído por um radiologista, um patologista, um anestesista, um sanitarista, um pediatra, um clínico, um cirurgião, um ortopedista e um psiquiatra. Depois de discutirem amplamente a verba necessária para o projeto com o sanitarista, embarcaram todos, no carro super-hiper-equipado, cheio de tecnologias inovadoras do radiologista... Este, ao chegar ao local, decide não sair do carro: "É mais confortável aqui... Espero vocês e depois vejo esses 'patos'. Depois de descerem do carro, o anestesista olha um nuvenzinha no final do horizonte e diz: "Vamos cancelar essa caçada!" No que o cirurgião imediatamente responde: "Ah, não, aqui também esse cara quer ser estraga-prazeres? Vamos caçar de qualquer jeito!". Preparam-se então para caçada... O pediatra aponta a espingarda, mas olhando para o alvo, diz: "Coitado do patinho, ah, tão pequenininho..." E não atirou. O clínico então aproxima-se, também prepara-se para atirar, mas raciocina: "Parece um pato, tem forma de pato, bico de pato, mas... talvez... a cor das penas... por outro lado... o estilo de vôo... talvez..." E o pato voa! O cirurgião, ansioso com o resultado da caçada até o momento, chega, toma a espingarda e sai atirando em tudo o que se mexe. Vira para o patologista e diz: "Vai lá e vê o que é pato e o que não é!" O ortopedista, voluntarioso, entra no mato, volta, entra de novo, e cansado ao sair, pergunta: "Gente, mas o que é pato mesmo?" Nesse momento, o psiquiatra intervém: "Mas, pessoal, por que O PATO?".
É isso.
Posted by Karl at janeiro 30, 2010 10:12 AM • 7 Comments • 0 TrackBacks