Discutimos bastante aqui, o que é um
médico bom, o
que é a doença, como a
complexidade do conceito de doença gera problemas para médicos, pacientes e todos outros envolvidos nessa incomum relação humana. Faltou discutir alguma coisa sobre a relação médico-paciente propriamente dita. Uma
reportagem de hoje do
New York Times, trazida por um dos ombudsmen (no caso, uma
ombudswoman) deste blog confirma que a relação médico-paciente tão estudada (há vários livros sobre o assunto,
ver aqui para ficar apenas na nossa língua) está numa enorme e fragorosa crise. No caso da reportagem, a crise é mesmo de confiança nos médicos. Os pacientes não confiam nos médicos porque, basicamente, os médicos não os escutam. E se você inicia uma relação qualquer partindo da desconfiança, imagine onde isso vai parar. As desculpas vão da diminuição nos
reimbursements, anúncios cada vez mais frequentes de erros médicos, e, pasmem, a Internet! Sim, os pacientes ficam lendo na Internet sobre doenças e chegam aos médicos querendo que eles façam o que estava escrito no
medical Web site! Há um depoimento de um médico que diz literalmente, que seu conhecimento foi desmistificado e que, apesar de toda a paciência do mundo em explicar ao paciente seu problema, eles "não sossegam enquanto não faço o que eles querem"(!!!) É meu amigo, acho até que eles marcam consulta contigo exatamente para isso!
Numa reflexão um pouco mais elaborada, a médica Pauline Chen acha que o massacrante treinamento do médico disconecta-o do mundo de seus pacientes. Tem algo de verdade. Fiquei impressionado, entretanto, com a genialidade do Dr. Paul Newman que atribui tudo isso ao seguinte: "Doctors are trained to diagnose disease and treat it, he said, while “patients are interested in being tended to and being listened to and being well.”" Soberbo. Achei fantástico o conselho final de levar a listinha ao médico para não esquecer de nada e a conclusão de que estamos de lados diferentes da mesa, cada um empurrando para um lado.
Meus comentários sobre o assunto e o artigo são os seguintes:
1) Faz parte do tratamento do paciente buscar o médico de sua preferência. E não é pelo livrinho do convênio. Quando um paciente bate a porta de um médico que lhe foi indicado para resolução de seu problema, não importa se pela comadre, vizinha, amiga da tia, etc, 50% do tratamento já está dado. A relação parte dessa forma, de uma confiança sublime, terreno que cria a possibilidade de cura ou alívio.
2) Para o médico que confunde ciência médica com medicina é óbvio que a internet desmistificou o conhecimento. Esse médico é o que acha que será substituído pelo computador. (Há um artigo no BMJ que mostra que o Google acerta 58% dos diagnósticos. Vai tirar emprego de muita gente!).
3) Os médicos precisam entender a diferença entre tratar e cuidar.
4) Os pacientes precisam entender que tipo saúde querem para si. Só assim, entenderão que doença têm. Única chance de explicá-la aos médicos. (Sobre isso, este post também).
Por fim, encontrei no hospital um velho professor cuja esposa, com Alzheimer avançado, internara para tratamento de pneumonia. Sua frase mais marcante era "sou do tempo em que a Medicina era ruim e os médicos excelentes. Hoje a Medicina é excelente, já os médicos....."
Comments (4)
seus comentários me deixaram aqui pensando.suponho que o bom médico, em vez de se sentir ameaçado pela informação que o paciente cavouca no google, sabe dialogar com ela. e construir um entendimento em cima disso.fiquei pensando no saber ouvir... um amigo uma vez me disse que tinha aprendido a falar com médicos: não dá pra dizer todos os sintomas, porque algumas informações levam pelo caminho errado - das coisas esperadas...
Posted by: Maria Guimarães | julho 30, 2008 2:55 PM