Modificado do livro Clinical Epidemiology – The Essentials – 3 ed.

Placebo é o futuro da segunda conjugação latina do verbo placeo que pode ser traduzido como agradar, aprazer. Tem a mesma raiz de prazer, portanto. Placebo pode ser traduzido como “eu agradarei” e indica medicação sem princípio ativo com o intuito único de “agradar” o paciente.
O placebo é um dos recursos mais controversos da medicina, e também um dos mais poderosos. Tido como comprovação inequívoca da “cura pela mente”, é adorado e odiado por médicos e cientistas, sendo que ambos o consideram indispensável. Explico.
Uma medicação placebo produz o chamado efeito placebo. Trata-se de conseguir o efeito medicamentoso esperado (p.ex. analgesia, melhora da depressão, etc) sem utilizarmos uma medicação com efeito farmacológico específico. O efeito placebo tem diferentes significados para pesquisadores e clínicos. Pesquisadores estão interessados em isolar os efeitos de determinadas drogas de modo a correlacionar tais efeitos com as teorias correntes e associá-las a relações de causas e efeitos. Consideram o efeito placebo como a linha de base da ação de qualquer medicamento, a partir do qual o efeito terapêutico deva ser medido. Clínicos, por outro lado, desejam o efeito placebo e sempre tentam maximizá-lo nos tratamentos que prescrevem. O interessante é que toda medicação tem, além de seu efeito terapêutico real, uma parcela variável de efeito placebo. No caso dos antibióticos o efeito específico é muito maior que o placebo. Já quando falamos por exemplo de medicações psicoativas, a história é outra. É difícil saber exatamente o quanto do efeito de uma medicação antidepressiva é placebo ou específico. Daí as complicadas pesquisas que são realizadas “cegando” pacientes e médicos sobre quem está utilizando placebo ou a droga a ser estudada. É óbvio que o clínico está interessado no efeito específico da droga, mas se o efeito placebo puder dar uma mãozinha também, ele não vai ficar chateado. O importante é a melhora do paciente.
Na verdade, o efeito específico de cada droga prescrita é só uma parte da melhora que o paciente pode alcançar. Olhando para a figura acima, vemos que uma parcela da melhora pode ser atribuída à evolução natural de uma doença – sim, há doenças nas quais a cura é espontânea! Outras vezes, apenas o fato de observarmos um grupo de pacientes e outros não, pode justificar uma melhora clínica nos pacientes observados. Esse efeito é chamado de Hawthorne em homenagem ao local (subúrbio de Chicago) onde foi descrito pela primeira vez (já comentamos esse assunto no post). O restante da melhora clínica alcançada pode então, ser finalmente atribuído aos efeitos placebo e específico do medicamento.
A conversa fica interessante quando perguntamos quais são os mecanismos de ação de um placebo. Dependendo do interpelado, a resposta vai variar da metafísica a neurofisiologia, da psicologia motivacional ao simples condicionamento skinneriano. O fato é que os mecanismos de ação não são bem estabelecidos, o que envolve o placebo com uma aura de certo misticismo. Isso permite as várias interpretações, usos e mal-usos já citados.
Com todos esses comemorativos, a história do placebo é digna de um roteiro hollywoodiano. Quase tão antiga quanto a própria medicina, atravessou séculos e séculos de prática médica ajudando seres humanos necessitados, sobreviveu ao Esclarecimento que demoliu o pensamento médico galênico, resistiu à tecnologização da medicina e é hoje, ferramenta indispensável de uma racionalidade médica ultra-moderna, que depende dele, placebo, para validação de suas verdades.
Me perguntaram certa vez se o uso de placebo era ético. Como se estivéssemos a ludibriar o paciente com uma pílula de açúcar. Primeiro, que não prescrevemos pílulas de açúcar (tampouco, de farinha)! Segundo que, como já se disse, todo medicamento tem uma ação específica e um efeito placebo, em maior ou menor grau. Na realidade, acho que a pergunta é mal-posta.  Ética é diferente de Epistemologia. Como justificar a eticidade de uma intenção? O placebo nos faz lembrar da humanidade que está envolvida na interação entre dois mamíferos primatas: um sentindo-se mal e outro, com a melhor das intenções. Dado que ambos primatas envolvidos têm uma imaginação sublime, a complexidade na qual a relação se dá só é comparável aos sentimentos que eles têm em relação à morte ou ao amor. Um imagina que o outro vai curá-lo. O outro imagina que vai, pelo menos, aliviar o sofrimento de seu semelhante. Nesse jogo de intenções é que a medicação com efeito placebo alto ou baixo atua.
Por isso, considero o placebo como uma das maiores invenções da medicina. Uma meta-invenção, na verdade, já que atua na fonte das invencionices da estranha espécie humana que adoece como todas, mas resiste como nenhuma, em morrer.

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