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É a autópsia do pensamento técnico e moral do médico contemporâneo que me interessa. Seu pequeno mundo, suas certezas, seus deslizes, suas angústias. Sua relação com a Ciência e desta, com o mundo. Para que se possa tomar conhecimento de como um médico se torna o que é, nos dias de hoje. Eis o médico, pois. Ecce Medicus. Seja benvindo. Por Karl.

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Homens

Category: CulturaMedicina
Posted on: novembro 3, 2009 8:24 AM, by Karl

http://www.mlahanas.de/Greeks/Arts/Images/ManEv.jpg
Os gregos tinham pelo menos três palavras para dizer "homem". Quando queriam dizer "homem" em oposição a mulher, dizia-se andrós. Andrós é o homem viril e herói, de onde vêm os nomes André, Alexandre (Alexandrus), Leandro e outros. "Homem" com o sentido de humanidade e em oposição aos animais era anthropos, de onde vêm as palavras antropologia e misantropo (o "anti-social"). Quando "homem" estava em oposição aos deuses, a palavra mais correta era brotós, ou thnetos, o que morre, cuja raiz gerou a tanatologia - o estudo da morte e do morrer.

Quem é o "homem" que adoece e ao qual o médico deve dispensar seus cuidados é uma pergunta interessante dentro desse contexto. Nas tragédias gregas é explorado justamente o aspecto finito do homem perante aos deuses e o brotós, predomina. Mas há referência a todos, dependendo de cada situação. Em que pese o fato de haver médicos andrologistas, aqueles que cuidam de fertilidade e disfunções sexuais masculinas, acho que o médico em geral cuida mesmo, ou pelo menos deveria, do brotós/thnetos. Qualquer doença desperta a consciência de que não somos eternos e podemos morrer a qualquer momento. Um médico não pode nunca esquecer-se disso, mesmo quando trata de doenças banais.

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Comments (10)

1

Oi, Karl

Gostaria que muitos estudantes de medicina lessem esse seu post, que está muito bom (como sempre).

Abraço,

Fernanda

Posted by: Fernanda Poletto | novembro 3, 2009 12:26 PM

2

Caro Karl,

Meu nome real (não o do meu "avatar") se enquadra na categoria dos nomes citados por você e, assim, sua postagem me chamou a atenção. Se não me engano, o homem "andrós", viril, não deve ter mesmo problemas de saúde: as palavras latinas para viril (em latim, virilis) e virtude (em latim, virtus) parecem ter a mesma raiz de homem (em latim, vir) - logo, um homem viril seria um homem de virtudes, de qualidades, que, portanto, não tem defeitos para relatar aos médicos...

Um abraço!

Posted by: Stephen Dedalus | novembro 3, 2009 2:22 PM

3

isso que o dedalus falou é justamente o que eu estava pensando. imagino que os médicos precisem de uma abordagem diferente para homens e mulheres. porque homens gostam de se achar acima da doença (se é por medo ou mania de super, já não sei).
então anthropos não é uma categoria útil, nesse caso.

é assim?

Posted by: maria | novembro 3, 2009 4:28 PM

4

Bem lembrado, Stephen. O latim também diferencia o "homem" em oposição à mulher (vir) de onde vêm as palavras viril e virago (mulher que se comporta como homem) e nomes como Viriato e Virgílio; e "homem", espécie humana (homo) originado de humus, que significa solo. Infelizmente, o silogismo que você sugere é o mesmo que muitos homens cometem no consultório: confundir virtudes morais com as orgânicas. Um homem viril pode (e deve) chorar.
Obrigado pelos sempre pertinentes comentários.

Posted by: Karl Author Profile Page | novembro 3, 2009 4:33 PM

5

"Um homem também chora" (Gonzaguinha) http://bit.ly/9LxFE

Posted by: Sibele | novembro 3, 2009 6:55 PM

6

Um gancho desse post com a notícia do passamento de Claude Lévi-Strauss, aos 100 anos:

Em 2005, aos 97 anos, o antropólogo declarou, ao receber o 17o Prêmio Internacional da Catalunha, na Espanha:

"Fico emocionado porque estou na idade em que não se recebem nem se dão prêmios, pois sou muito velho para fazer parte de um corpo de jurados. Meu único desejo é um pouco mais de respeito para o mundo, que começou sem o ser humano e vai terminar sem ele - isso é algo que sempre deveríamos ter presente"

Qualquer que seja a classificação masculina, não importa: certeza mesmo, é que somos todos finitos.

Eu gostaria de usar mais latim, mas parece que alguns não entendem, ou não querem entender, ou então, fazem-se de desentendidos...

Posted by: Sibele | novembro 4, 2009 12:19 AM

7

Karl, lindo post, mas eu não podia deixar passar uma chatice linguística: "andrós" (a melhor transliteração do ponto de vista fonético seria andrôs, na verdade) é o genitivo. "Anér" é o nominativo, a forma básica.

Posted by: Reinaldo José Lopes | novembro 4, 2009 5:52 PM

8

Boa, Reinaldo. Mas na transliteração eu achava que o "ó" era lido como "ô", sei lá, acho que por causa do francês. Imagino que brotós, seja o mesmo caso, não? Obrigado pelo privilégio do comentário.

Posted by: Karl Author Profile Page | novembro 4, 2009 6:42 PM

9

De fato, é em caso de doença e enfermidade, nossa ou de próximos, que somos chamados ao fato de vivermos uma existência não eterna, pouco etérea, e fisicamente restrita - não importa quão largos os nossos passos, ou quão grande nossa ganância por dinheiro, ou mulheres, ou renome.

Posted by: Fernando | novembro 4, 2009 8:14 PM

10

muito interessante! eu só não sabia da ultima palavra thnetos. muito bem lembrado o dado sobre palavras em latim.
agora poderia ser incluída algo sobre os termos (gregos e romanos) para a mulher, meu assunto favorito... };)

Posted by: roberto quintas | novembro 5, 2009 7:54 AM

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