O Caramujo e a Estrela
“Compreensão, nas Humanidades, é compreender-se”Hans-Georg Gadamer
“A seleção natural pode ser pensada como um processo puramente *mecanicista*.”
Roberto Takata
As ciências ditas “humanas” ou históricas (que Aristóteles chamava de Política, Dilthey, de Geistwissenschaften – literalmente, ciências do espírito – e Kant, de razão prática) têm um status epistemológico diferente. Foi o próprio Wilhelm Dilthey quem talvez primeiro tenha tido a percepção primordial. As ciências do espírito implicam uma relação histórica. Eu “sou” mas antes de mim, há uma história que me precede. Nas ciências naturais o homem se distancia pois estuda fenômenos distintos dele. Bastante influenciado pelo neokantismo, pelo positivismo e pelos grandes historiadores alemães do século XIX, Dilthey ficou fascinado por essa oposição entre as explicações empíricas das ciências naturais e a compreensão movediça da história. Explicar e compreender são coisas bem diferentes. Eu explico o sistema respiratório do caramujo; explico o movimento das estrelas, explico até sintomas psicológicos humanos, mas posso não compreendê-los. O que faz esse caramujo aí? Por que essa estrela? Como posso amar essa mulher e não Gisele? Não obstante, posso compreender o choro e o gozo de outros homens! (Aliás, nisso se baseia toda a literatura).
As coisas têm trilhado caminhos diferentes desde então. Exceto por algumas áreas de fronteira que, como toda boa área de fronteira, fazem-se presentes pela tensão existente entre os dois lados. Uma área nítida de tensão é a medicina. Dizem que a medicina é a “mais científica das humanidades e a mais humana das ciências”. Sua vinculação à prática configura-lhe um status epistemológico incerto: intuição e algoritmo, acaso e necessidade, desordem e coerência, população e indivíduo. É esse o caminho dos médicos: um trapézio por sobre as fronteiras. Quanto mais facilmente o trapezista passa de uma barra a outra, melhor o médico. Alguns até fazem piruetas.
Uma outra área fronteiriça é a grande clareira aberta pela teoria da evolução. A publicação d’ “A Origem das Espécies” há 150 anos causou uma revolução nas ciências naturais. Provocou também, tal qual a teoria psicanalítica de Freud, uma nova forma de nos vermos. Uma nova história. A apropriação da teoria da evolução pelos cientistas foi feita de acordo com o distanciamento peculiar do modo de ser científico e produziu (e produz ainda) muitos frutos. Do lado humanístico do problema, a nova forma de ser-no-mundo foi uma paulada no pensamento metafísico. A Inglaterra vitoriana era também a capital da teologia natural. Estudava-se “história natural” para mostrar como Deus era sábio em seus desígnios e exaltar a beleza da Natureza por Ele criada. Não é exagero dizer que uma boa parte do “longo argumento” darwiniano foi dedicada desmontar o reconhecidamente admirado raciocínio de William Paley. Sua eficiência em fazê-lo foi um dos pilares da polêmica que se seguiu. Se considerarmos que a teoria da evolução é apoiada no gradualismo, na variação das espécies e na seleção natural, temos um “mecanismo” de produção de novas espécies e seres – nós, inclusos – que funciona independentemente de qualquer desígnio, projeto ou mesmo, vontade metafísica. A explicação empírica e natural é o mecanismo. A compreensão histórica da mudança do ser-no-mundo é a contingência da ausência de projeto.
Sim. O acaso permeia a teoria da evolução e Jacques Monod o intuiu. O Nobel de Medicina não o aliviou das críticas de seus pares. Poucos entenderam que ele falava do outro lado da fronteira que lhe concedera o prêmio: “O puro acaso, só o acaso, liberdade absoluta mas cega, está na raiz do prodigioso edifício da evolução”.




É a autópsia do pensamento técnico e moral do médico contemporâneo que me interessa. Seu pequeno mundo, suas certezas, seus deslizes, suas angústias. Sua relação com a Ciência e desta, com o mundo. Para que se possa tomar conhecimento de como um médico se torna o que é, nos dias de hoje. Eis o médico, pois. Ecce Medicus. Seja bem-vindo. Por 



Discussão - 8 comentários
Karl, o trapezista.
Karl,
Vamos ter que fazer duas distinções:
1) O *fato* da evolução e a *teoria* da evolução.
2) A teoria da evolução de *Darwin* (e cia) e a teoria da evolução moderna.
O acaso *não* permeia a teoria da evolução de Darwin.
Atualmente se aceita o papel do acaso, o que influencia no modo como a evolução como *fato* ocorre.
Qdo Monod fala do acaso na evolução está se referindo à evolução como fato e não à teoria evolutiva de Darwin. Devemos lembrar tb da outra parte do discurso de Monod: o acaso e a *necessidade*.
O acaso permeia a evolução como fato de diversas maneiras: um meteoro que cai, uma montanha que se eleva e separa populações – são o acaso na forma de *contingências*. O acaso move a evolução de populações na geração de mutações e na deriva gênica.
Podemos sob esse aspecto comparar a(s) teoria(s) da evolução com a(s) teoria(s) da gravitação.
A evolução das galáxias está sujeita às flutuações aleatórias de suas sementes quânticas. Há ainda a agitação caótica das partículas de gases em condensação. Depois o movimento ordenado das estrelas, planetas e asteroides que sofrem perturbações com choques inopinados.
O acaso permeia a evolução das galáxias e dos sistemas estelares. Mas a *teoria* da gravitação *não* é uma teoria que dependa do acaso.
[]s,
Roberto Takata
Takata-san,
Sua paciência comigo só é comparável a sua persistência em me fazer cruzar “fronteiras” =) e eu agradeço por isso. São discussões assim que me mantem escrevendo o blog.
Por outro lado, o “fato” da evolução já tinha, ele mesmo, causado certo distúrbio, mas não havia sido levado a sério (nem mesmo por cientistas). Até Darwin. A “teoria” da evolução incorporou racionalmente o “fato” da evolução. E agora nos aproximamos do ponto:
A introdução mera e simples de um cisco, uma pitada de acaso no arcabouço metafísico que explicava nossa presença nesse planeta, o fez tremer e ruir em grande parte. Do ponto de vista humanístico, a teoria da evolução só veio vitaminar um fantasma que há muito assombrava essa visão cosmológica de nossa existência: a ideia de que viemos de outros animais! Era de se esperar que 150 anos depois, reações violentas a esse pensamento ainda ocorram. Se o acaso dispara um mecanismo ou se faz parte dele importa pouquíssimo para quem viu seu mundo desabar. Esse espinho, ponta de dúvida, em toda uma concepção de mundo não passa despercebido: ou o rechaçamos violentamente, ou o assumimos e sofremos as consequências de uma visão secular com toda a falta de amparo que dela decorre. A própria filosofia é vítima dessa dicotomia.
É isso, os posts têm o intuito de chamar a atenção para o fato NO homem e não para além ou fora dele. O homem quer, sob esse ponto de vista, compreender-se, e não apenas entender, como diz a epígrafe gadameriana. Muitas vezes, imersos que estamos nas intrincadas alegorias do pensamento formal, não captamos a coisa do horizonte do outro. Obrigado pelos comentários impressionantemente esclarecedores. E pela paciência oriental.
Carol Karl,
Certamente a visão evolucionista serve para quebrar uma série de preconceitos sobre a constituição do humano. Eu nem me pronunciaria sobre teologia, continuaria na Filosofia: o universo dos valores, as questões da liberdade, no âmbito prático e teórico, entre outras são todas questões para as quais o pensamento evolucionista é um fator importante. Confesso que ainda me sinto um pouco “metafísico dogmático” com relação a esses temas: considero o evolucionismo, como outros pensamento científicos, mais como um (bom) problema do que como uma solução.
Abraço, Bruno.
Caro Karl,
Será que essa “objetivação” verificada nas Ciências Naturais é absoluta, realmente levando o sujeito a não se ver no seu objeto de estudo? Totalmente imparcial, neutro e livre de qualquer viés idiossincrático que esse sujeito, por demasiadamente humano, fatalmente carrega consigo? É mesmo possível?
a ameaça ao distanciamento é a parte da teoria da evolução (como formulada por darwin mesmo) que é mais difícil de engolir. foi assim na época e continua a ser. como assim, estamos sujeitos às mesmas regras que regem os nossos objetos de estudo?
ouvi no podcast da nature uma entrevista que me pareceu se encaixar nesta discussão. análises de linhagens evolutivas de maneira a testar a hipótese da rainha vermelha, aquela que diz que os organismos têm que constantemente mudar para continuarem igualmente adaptados ao ambiente. pelo que entendi, a ideia é que a especiação não acontece necessariamente por seleção natural, mas por uma capacidade de resposta a alterações súbitas no ambiente. ainda não fui ler o texto. para quem tem acesso à nature, dá para encontrar por aqui: http://www.nature.com/news/2009/091209/full/news.2009.1134.html
Se bem entendi onde queria chegar nestes dois últimos textos, sugiro que não seja o acaso darwiniano o seu tema. É ideia de um projeto divino de criação do Homem. Ou, esquecendo Deus, da ideia discutida por Gould, da evolução ser inevitavelmente progressiva no sentido de uma maior complexidade biológica. Gould argumenta que isso é apenas uma decorrência das condições iniciais dos sistemas de vida. Não por acaso. Já o Homem, esse sim, epifenômeno darwiniano, acaso cosmológico
João, Darwin transformou um pesadelo na mais cruel das possibilidades reais. Me aproprio do momento exato do entendimento do “mecanismo” da seleção natural e sua capacidade de explicar a brutalidade da vida nesse planeta à consequente falta de chão que provocou. Se nenhuma das ideias de Darwin era necessariamente original, é a razão do tumulto depois dele que me faz chama-lo “poeta do acaso”. Como uma fotografia na qual se recorta uma figura: a ausência chama mais atenção que todo o enquadramento.