Ganhei de presente o livro, com dedicatória e tudo, com a promessa de que leria e escreveria alguma coisa. Alguma coisa aí vai…

I
É uma novela autobiográfica. Ou um ensaio ficcional. Ou como disse Fernando Meirelles, um thriller ensaístico (voltarei a isso mais tarde). Conta a história de um professor de literatura especializado em Machado de Assis que se vê às voltas com um tumor cerebral bastante peculiar. Dividido em três partes específicas, 1. O tumor físico; 2. Libido Sciendi e 3. O tumor metafísico, narra como o aparecimento de um tumor no lobo temporal do protagonista transmuda sua visão de mundo. Mais, como esta visão fica refém de um tipo específico de filosofia chamado fisicalismo (mais, logo abaixo). Sim, é um livro sobre filosofia da mente e isso é bom e ruim.

II
O tumor físico. Achei o começo do livro interessante. Uma mistura de neurofisiologia com Machado me pareceu promissora. Apesar do narrador-protagonista dar bastante velocidade à prosa, a narrativa fica um pouco aborrecida. Metáforas um pouco forçadas (“riso de hienas num funeral”, alternância de explicações complexas (funcionamento do corpo caloso) com outras bastante batidas e clichês (dissecção da palavra melancolia, uma menção de que Aristóteles achava que o cérebro serviria para “esfriar” o sangue proveniente do coração – não seriam os pulmões?) e o excesso de citações, algumas um pouco fora de contexto (não nos deixando jamais esquecer que Giannetti lançou um livro só delas há 2 anos), fizeram a leitura um pouco laboriosa.

III

Libido Sciendi. Aqui o livro entra de cara no problema mente-cérebro e Giannetti se mostra um grande didático e autodidata. Coloca alguns problemas que já abordamos aqui, como nesta passagem:

“(…) não é coisa fácil para o ser humano apreender impessoalmente a si próprio e à maneira como vê o mundo; percebi que fazer isso exigia uma postura distinta daquela a que estamos habituados na vida comum. Precisava de algum modo me afastar e recuar de mim mesmo, alcançar um grau de distanciamento que me permitisse olhar-me de fora, o mais friamente possível, com o mesmo espírito com que um botânico coleta e examina variedades de orquídeas ou um musicólogo analisa a partitura de uma sonata.”

Ou seja, Rogozov. De importante, no capítulo 17 a menção do riquíssimo conto machadiano “O Espelho” (ver uma boa análise aqui) e a “teoria das duas almas” que será usada ao longo de todo o livro. No capítulo 19, o confrontamento anunciado na “orelha” do livro e no seu dorso: Demócrito vs Sócrates. A partir do Fédon de Platão e da narrativa da morte de Sócrates, o narrador-personagem coloca a decisão deste em não fugir e submeter-se às leis de Atenas como um conflito arquetípico entre o fisicalismo e o mentalismo. Demócrito de Abdera já foi taxado de materialista (tese de Marx), antinaturalista (tese de Clément Rosset) e fisicalista, este último termo especificamente relacionado à produção da mente pelo cérebro. Ele e seu mestre Leucipo, de quem pouco se sabe, resolveram o problema heráclito-parmenidiano com o atomismo. Tudo flui na aparência, mas os átomos que constituem todo o universo, continuam iguais, unos e indivisíveis. O fisicalismo, por sua vez, sustenta que tudo o que existe está e é sujeito às leis físicas o que implica que o que chamamos de “vontade”, “livre-arbítrio” e outras cositas são vícios de linguagem e, de fato, seriam apenas configurações neuronais que se deixariam perceber pela consciência. O mentalismo é a visão de que a mente é a real causa da vontade e que apenas a partir dela ocorrem os fenômenos in concert que determinam os comportamentos humanos (cobrir-se quando se tem frio, procurar comida quando se tem fome, etc). Tendo a decisão de Sócrates de tomar a cicuta que lhe fora sentenciada sido interpretada através dos milênios como uma decisão moral – tipicamente mentalista – na página 107, escreve-se:

“A perspectiva fisicalista contesta a versão mentalista do comportamento de Sócrates e oferece uma explicação alternativa. Os três componentes da ação do filósofo de não fugir mas aceitar a pena que lhe foi imposta precisam ser melhor analisados e devidamente entendidos. (…) E, por fim, como o juízo de valor e a vontade consciente – dois estados mentais – são capazes de acionar e pôr em movimento (neste caso em repouso) os músculos e tendões do filósofo – estados do corpo?”

E arremata:


“O homem moral socrático, argumenta a filosofia fisicalista, não passa de um subproduto fantasioso – e com forte componente narcísico – do homem natural atomista. Um arco-íris pré-newtoniano.”

Bonito, né? Mas isso joga a discussão para o lado mais profundo e escuro do lago: o elo causal entre o pensar e o agir. Há uma diferença entre pensar/querer e ter consciência de que se está pensando/querendo. O narrador cita então estudos de Benjamin Libet em “que a escalada de atividade neural – o evento físico no cérebro – precede no tempo não apenas a ação muscular, mas também o evento mental, ou seja, a própria consciência da decisão de agir” por uns parcos três décimos de segundo. Mas, precede. O resto é argumentação em cima disso e uma sensação de estarmos folheando uma revista, tantas as citações e cores com que se pintam o quadro.

IV

O tumor metafísico. Não é à toa que a terceira parte do livro começa com uma citação de Sören Kierkegaard. No capítulo 33, o narrador aventa a possibilidade de que o livro poderia ser um thriller e esse exato momento, seria o do crime. O capítulo 34 é o dramalhão do narrador por acreditar em algo extremamente terrível e, pior, nas suas consequências. Nesse meio tempo, tome William James: “meu primeiro ato de livre-arbítrio será acreditar no livre-arbítrio”; pau no Dawkins (adorei essa, hehe): “para quem crenças humanas são dóceis e podem ser ligadas e desligadas como interruptores de abajur”; além de Bentinho e Sócrates. Como consequências da ideia e mais terríveis do que ela própria temos que: “É ilusão tomar como causa aquilo que sobe à consciência como um ato de vontade, fruto da intenção de agir” e principalmente esta:

“Um estado mental (“preciso almoçar”) nunca é realmente produzido por outro estado mental (“estou com fome”); todos são produzidos por estados do cérebro. Quando um pensamento parece suscitar outro por associação, não é na verdade um pensamento que puxa ou atrai outro pensamento – a associação não se dá entre os dois pensamentos, mas sim entre os dois estados do cérebro ou dos nervos subjacentes a esses pensamentos”.

Trocando “nervos subjacentes a esses pensamentos” por “núcleos neuronais” ou coisa parecida, fica um pouco melhor. Segue-se um exercício inapelável de lógica:

“A ideia é tremenda, mas basta um silogismo para resumi-la. As leis e regularidades que regem o mundo são independentes da minha vontade (premissa maior); a minha vontade é fruto das mesmas leis e regularidades que regem o mundo (premissa menor); logo, a minha vontade é independente da minha vontade (conclusão).”

Isso nos torna algo como autômatos, ensopados de serotonina e dopamina, cujas concentrações determinam minha vontade de transar com minha mulher hoje ou comer um pizza de calabresa. O narrador se apavora com isso e também com o fato de que o médico que o operou, não está nem aí para essa vãs filosofias. O livro melhora substancialmente. Algumas tiradas geniais e citações bem colocadas, trazem o leitor de volta à vida do personagem que fica, pasmem, bem mais interessante, no papel de robozão. Talvez uma contradição mesma do livro.

V

Numa mistura de “O Mundo de Sofia” com “Trem Noturno para Lisboa” e pitadas de insanidade de “Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas“, o livro tem um final interessante e uma provocação: após mostrar que “lutar” contra o fisicalismo é entrar em uma luta imaginária, o narrador instiga o leitor a refutá-lo. Tentarei discutir um pouco mais sobre isso nos próximos posts e talvez se mostre o bom e o ruim, a dor e a delícia, de discutir filosofia da mente.

Para um resumo de uma palestra de Giannetti sobre o livro ver aqui.

Atualização

Veja o excelente post no Amigo de Montaigne, sobre o “Erro de Giannetti”.

A Ilusão da Alma

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