A serotonina é, entre outras coisas, um neurotransmissor. Isso quer dizer que células do sistema nervoso chamadas de neurônios a utilizam para transmitir informações. O papel da serotonina em quadros depressivos tem sido estudado há décadas e, ainda assim, é pouco conhecido. A ideia de que a redução da serotonina, bem como de outros neurotransmissores chamados de monoaminas, nos tecidos cerebrais pudesse ser a causa de estados depressivos foi difundida por estudos do final dos anos 50 e início dos 60 e ficou conhecida como Hipótese da Serotonina Baixa. A hipótese foi formulada após verificar-se que uma antiga droga antituberculosa (iproniazida) e a imipramina (um tricíclico) utilizada inicialmente no tratamento da esquizofrenia, tinham efeito antidepressivo. Investigações experimentais foram iniciadas com objetivo de elucidar seus mecanismos de ação. A iproniazida diminuía a metabolização das aminas e a imipramina reduzia sua recaptação.  Um antigo medicamento para abaixar a pressão arterial (reserpina), cujo mecanismo de ação consistia em depletar as reservas de monoaminas, pareceu dar a pista de que a redução da serotonina e de outras monoaminas cerebrais seria a provável causa da depressão observada em alguns pacientes que o utilizavam.

A Hipótese de Serotonina Baixa, apesar de não ter uma base científica muito sólida, acabou ganhando enorme popularidade. A ideia de que a falta de uma substância específica pudesse explicar as mais variadas alterações de humor fazia certo sentido no contexto mecanicista da medicina e da psiquiatria da década de 60. A procura por medicações que aumentassem o nível de serotonina no sistema nervoso vira um verdadeiro frenesi na indústria farmacêutica da época, animada com o sucesso dos antidepressivos tricíclicos, mas preocupada com seus inúmeros efeitos colaterais. Em 15 de Agosto de 1974, um composto apelidado de 110140 foi apresentado à literatura médica como o primeiro inibidor seletivo da recaptação da serotonina (ISRS) pelos pesquisadores do laboratório norteamericano Lilly. A droga foi posteriormente batizada de fluoxetina,  e seu nome comercial virou metonímia de classe farmacológica: Prozac. A ação da fluoxetina é, como diz o próprio nome da classe da qual foi a primeira representante, caracterizada pela redução da captação da serotonina na fenda sináptica. A fenda sináptica é o ponto de contato entre um neurônio e outro e o local onde são liberados os neurotransmissores. Quando um neurônio, após um estímulo, libera uma quantidade X de qualquer neurotransmissor na fenda, as moléculas da substância devem atravessá-la e ligar-se a receptores da membrana neuronal na célula vizinha, estimulando (ou inibindo) o funcionamento desta célula. Ao mesmo tempo, existem mecanismos de controle que tentam reduzir a ação dos neurotransmissores. A serotonina, por exemplo, tem um carreador (cuja abreviatura em inglês é SERT) que a recupera da fenda, devolvendo-a para a célula de origem. Isso permite a economia de neurotransmissores e também a redução de seu efeito fisiológico.

Fluoxetina

Mecanismo de ação dos Inibidores Seletivos de Recaptação da Serotonina. Para maiores explicações, ver o texto.

É exatamente esse carregador que a fluoxetina impede de trabalhar (seta longa na figura). Com isso, a quantidade de serotonina na fenda é bem maior, além de seus efeitos se prolongarem por mais tempo. “Desde sua aprovação em 29 de Dezembro de 1987 pelo Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos e de sua indicação para o tratamento da depressão no início de 1988, o Prozac tem sido o antidepressivo mais prescrito do mundo”, diz o um dos descobridores em uma mini-revisão comemorativa dos 20 anos da primeira publicação. Chamada de “pílula da felicidade”, o Prozac revolucionou a forma de tratar transtornos do humor e foi uma das drogas mais prescritas mesmo entre medicações analgésicas e aquelas utilizadas para controle da pressão arterial.

Parecia então, que a Hipótese da Serotonina Baixa satisfazia uma série de condições e as medicações que aumentavam seu nível no sistema nervoso tratavam estados depressivos de maneira eficaz. Entretanto, alguns achados eram ainda difíceis de explicar. Por exemplo, a cocaína e as anfetaminas são potentes inibidores da recaptação da serotonina e não ajudam nada no tratamento da depressão. Outro fato a ser elucidado é que os ISRS aumentam os níveis de serotonina em questão de minutos ou, no máximo, horas, mas o efeito antidepressivo ocorre apenas dias ou mesmo semanas após o início da medicação. Por que esse atraso? Há, ainda, alguns dados que sugerem que o nível de serotonina tecidual está aumentado e não diminuído, como se pensara.

Essas e outras questões intrigaram pesquisadores que começaram a entender que o modelo da Serotonina Baixa era insuficiente para dar conta de todos os fenômenos envolvidos no mecanismo de ação dos ISRS. Por isso também, práticas que visam a suplementação de triptofano (o aminoácido principal necessário à síntese da serotonina) ou da própria serotonina, seja na forma sintética ou pela ingestão de alimentos reconhecidos como fontes do neurotransmissor, são meros “chutes” baseados em uma hipótese bastante frágil.

Há muito venho dizendo algumas de nossas melhores respostas à questões médicas como estas vêm de modelos que levam em consideração a evolução da espécie humana. Geralmente, são explicações simples e bastante abrangentes, que se estendem a outros aspectos da vida dos seres humanos. Aqui parece não ter sido diferente. Muito mais que confiar em uma única molécula como a responsável pelo prazer e pela felicidade, a realidade de nossa biologia parece contar uma história bem diferente. Essa história é a que tentaremos esboçar no próximo post.

Referências Bibliográficas

ResearchBlogging.orgWong, D., Bymaster, F., & Engleman, E. (1995). Prozac (fluoxetine, lilly 110140), the first selective serotonin uptake inhibitor and an antidepressant drug: Twenty years since its first publication Life Sciences, 57 (5), 411-441 DOI: 10.1016/0024-3205(95)00209-O

ResearchBlogging.orgAndrews, P., Bharwani, A., Lee, K., Fox, M., & Thomson, J. (2015). Is serotonin an upper or a downer? The evolution of the serotonergic system and its role in depression and the antidepressant response Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 51, 164-188 DOI: 10.1016/j.neubiorev.2015.01.018

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