B body

Um cirurgião torácico, muito bom por sinal, me chamou para um café. Normalmente reservado, contou que não tinha problemas de saúde exceto pelo fato de que dormia mal. Ao me ver interessado, ele começou a desfiar histórias de alguns pacientes que, pensava, ao proceder de maneira incorreta, de alguma forma os havia prejudicado. Depois, contou que acordava frequentemente durante a noite e ficava pensando nos casos recentes que havia operado. Será que se fizesse isso ou aquilo, não seria melhor? Talvez essa técnica ou outra… E que aquela confabulação toda lhe tirava o sono e o dia seguinte era terrível e cafeínico. E ao dizer isso, abriu os braços para a xícara apoiada no balcão como que a justificar aquele que seria talvez o sétimo ou oitavo cafezinho do dia. Tal situação se agravara recentemente. Tomou o restante da xícara de café e raspou o açúcar do fundo com a colherinha que depois levou à boca como um micro-picolé. Assim, desse jeito, cercou-se de um ar pueril e frágil em franco contraste com alguém capaz de extirpar minhas costelas. Eu ri.

Ele não. Suspirou e disse que uma semana atrás, numa noite de terça-feira, dormira “anormalmente” bem. E sonhara, coisa que há muito não acontecia. Entretanto, era agora a lembrança do sonho que não lhe saía da cabeça. Eu perguntei se poderia contá-lo e ele disse que sim, quem sabe eu o poderia ajudar a interpretar?

Sonhou que estava à cabeceira de um cadáver parcialmente dissecado e que mostrava os órgãos internos a um grupo de alunos. Dizia para observarem as estruturas do coração com suas câmaras e a irrigação característica. Mostrava os vasos e vias aéreas do hilo pulmonar com sua disposição arbórea. Mostrava os pulmões com a antracose característica dos fumantes e dos moradores urbanos. De repente, ao chegar ao abdome, disse que não poderia prosseguir e ao virar o rosto do cadáver, viu que o corpo não era outro senão ele mesmo. Sentiu-se mal, percebeu que estava sonhando e fez aquele esforço característico em acordar, despertando suado e taquicárdico.

Disse que contou o sonho a uma paciente e que ela o interpretou como sendo uma demarcação dos limites daquilo que ele poderia fazer. Ao chegar ao abdome, território fora de sua especialidade basicamente restrita ao tórax, ele teve que interromper a aula. Eu concordei mas achava que havia algo mais. O fato de ser ele o examinado talvez deixasse transparecer uma possível reflexão crítica de seus próprios atos. Talvez, o mais interessante seja que para um cirurgião – alguém que “pensa” com as mãos – uma reflexão crítica venha a se concretizar como uma “auto-autópsia”. (Antes de me esquartejarem por essa aberração, lembremos que o significato original de autópsia é “ver com os próprios olhos”, o que, ao menos em parte, justifica a superposição dos termos. A expressão no título é provocativa e descaradamente apelativa ;)).

Ele pensou e me perguntou o que fazer com essas dúvidas que o atormentavam. A cada dia que passava, mais pacientes ele operava e mais dúvidas ele tinha. Percebi que esse era um daqueles momentos capitais nos quais é preciso resistir à violenta tentação de uma consolação barata qualquer. Evitar aquilo que já foi chamado de solicitude inautêntica por restringir a liberdade de escolha do outro. Fiz duas coisas, então. A primeira foi lhe dar boas vindas ao meu mundo. A segunda foi disparar o bordão: “Quem mandou não estudar!”.

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