wpid-semaforo“Quando eu era pequeno, sentado atrás no carro, eu punha minha cara entre os bancos do motorista e do passageiro enquanto o observava mudar as marchas do carro e prestava atenção nos movimentos ligeiros de seus pés nos pedais. Por vezes, quando o semáforo estava vermelho e íamos nos aproximando dos carros parados, ele costumava estender a mão direita e, apertando os olhos negros e fundos, sussurrava palavras incompreensíveis que faziam com que o sinal abrisse e nós, apesar de diminuirmos a velocidade, continuavamos nossa viagem sem ter que parar por completo. Eu achava o máximo”. Continuou. “Depois de um tempo, comecei a notar que os intervalos entre o lançamento do ‘poder abridor de semáforos‘ e as luzes verdes eram variáveis e passei a pedir a ele que ‘fizesse‘ um ou outro semáforo aleatório abrir logo quando ele estava desprevenido. Ele dizia que não! Que não poderia ficar interferindo com a vida normal na Terra; que aquilo era um poder para ser utilizado apenas em algumas situações”. Suspirou profundamente e senti no sorriso pálido e no olhar esquivo, uma ponta de emoção soterrada agitar-se. “Com o tempo, passei a ocupar o banco da frente. Mesmo assim, às vezes, ele ‘fazia‘ alguns semáforos abrirem e ríamos. Quando ele ficou doente, a muito custo, consegui que me deixasse dirigir. Sentado no banco de passageiros e coberto com uma colcha espessa devido ao frio, certo dia, no inverno passado, ele levantou a mão ossuda na postura característica, apertou os olhos, franziu as sombrancelhas grisalhas e ‘abriu’ o sinal da avenida onde fica o hospital. Acho que foi a última vez”. Sorriu.

Eu e ele ficamos um tempo parados olhando para aquele homem sobre o leito. A cânula endotraqueal número 8,5 obedecia a curvatura do céu da boca descrevendo um arco e como uma minúscula e transparente tromba, unia-se ao filtro umidificador para finalmente conectarem-se ás mangueiras do ventilador mecânico por intermédio de uma peça Y azul escura. Os monitores cardíaco, do próprio ventilador e da máquina de diálise, de coloridos e tamanhos diferentes, emprestavam um ar tecno-tristonho ao quarto semi-escuro; neons blade-runnerianos que não faziam companhia apesar de sua constante presença. Ritmos e ruídos eletromecânicos, ásperos sons, abafavam as vozes humanas da equipe que lavorava fora do quarto. A vida ali era um silêncio de orgãos artificiais ruidosos.

Sob sedação contínua, suficiente para inibir seus reflexos respiratórios, ele permanecia em decúbito lateral direito, mas era preciso mudar sua lateralização de tempos em tempos de modo a não deixar que úlceras de pressão aparecessem sob as superfícies ósseas já bastante protuberantes. Parecia dormir, sem sinais de desconforto quaisquer. Suas possibilidades de melhora eram muito remotas. A equipe multidisciplinar da UTI havia optado por cuidados paliativos e pela priorização das medidas de conforto. Entretanto, os meios de suporte avançado ainda estavam lá em pleno funcionamento: a máquina de diálise, o ventilador mecânico, as drogas.. Nada havia sido retirado. Apenas suspenso, por tempo indeterminado, até ao menos que se decidisse com os familiares quais medidas tomar (ou não tomar). Morfina e hipnóticos eram administrados por intermédio de um catéter no braço direito, diretamente na veia cava e faziam seu papel pacificador. Enquanto conversávamos, a equipe de enfermagem entrou para higienizá-lo e mudar seu decúbito. Saímos e continuamos a conversa do lado de fora, observando a destreza do trabalho dos profissionais através da janela de vidro.

Em determinado momento, ao ser manipulado, o paciente fez uma careta e tossiu. Deitado agora em posição supina, moveu as pernas e os braços desajeitadamente. Um dos técnicos de enfermagem me dirigiu um olhar interrogativo e eu entendi que teríamos que aumentar as medicações sedativas. Fiz um sinal com a mão para que continuassem e que depois cuidaríamos disso. Ao saírem do quarto, a enfermeira me disse que ele estava movimentando as mãos e que poderia sacar inadvertidamente algum catéter ou tubo e que por essa razão, iria restringi-lo. O rapaz me olhou e eu expliquei que isso era um procedimento padrão; que se aumentássemos o nível de sedação, talvez não fosse necessário. A enfermeira saiu e entramos novamente no quarto.

Talvez pela mobilização do paciente, a máquina de diálise parou de girar suas quatro bombas independentes e uma pequena luz vermelha começou a piscar juntamente com um alarme sonoro, indicando algum tipo de obstrução ou mesmo aumento da pressão nas vias da circulação extracorpórea. “Esse ‘sinal’ poderia permanecer vermelho para sempre?”, me perguntou, sorrindo. Eu disse que sim. Que poderíamos interromper o procedimento dialítico assim que as conexões fossem trocadas, o que deveria ocorrer em 24 a 48 horas. Ele disse “Ok”.

Foi quando ele levantou a mão direita e eu corri para contê-lo, mas fui impedido pelo rapaz. Ele disse “Olhe! A posição da mão. Era assim que abria os faróis”. Observei o movimento, mas estava mais atento para a possibilidade dele arrancar algum dispositivo. Nada aconteceu. Sua mão direita caiu, pesada sob a cama, após apenas alguns segundos no ar. O rapaz me agradeceu e saiu rapidamente. Eu perguntei onde ele iria. Ele me justificou sua saída rápida com “Ele não vai mais interferir na vida aqui na Terra. Tenho que cuidar das coisas”.

O homem veio a falecer naquela mesma noite, no meu plantão. Em paz.

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