Lã

“O tempo é o tecido da vida”

Antonio Cândido

Descendente de italianos que enriqueceram no Brasil, aos vinte anos de idade casou-se com o estudante de Agronomia que conheceu num baile de debutantes e que viria a lhe proporcionar um padrão de vida ainda melhor que a casa dos pais. Aos trinta, duas filhas, um marido bondoso, empregados e uma casa em ordem para cuidar. A vida doméstica entremeada por viagens, cursos de culinária, mais viagens, cursos de cerâmica e eis que, entre uma viagem e outra, aprendeu a fazer tricô. E crochê. A sensação de tecer fios e convertê-los em algo útil e belo foi transformadora; não sabia bem explicar o porquê. Aulas caras com professoras exclusivas que “não aceitavam qualquer aluna, não!”. Só por indicação, e isso apenas depois de saber a qual família pertenciam as ansiosas pretendentes. Havia uma professora, muito exigente, que com a unha comprida do dedo mínimo costumava desfiar uma tarde inteira de trabalho só porque um ponto errado, lá atrás, deixara uma irregularidade no tecido. Ficou sabendo que, à época, a melhor lã que se vendia no Brasil era a de Petrópolis e lá ia ou, mais comumente, as mandava buscar. No Chile, enquanto a família esquiava, ela comprava lã. Na Argentina, nada de roupas feitas, apenas a mais pura lã para fazer mantas. Em Praga, enquanto procuravam cristais, ela arrematava um lote de lã de carneiro para pullovers e saias destinados às filhas em um comércio qualquer, fazendo com que todos a esperassem desenhar e explicar com gestos o que queria ao sorridente vendedor de traços árabes. E foi assim que adquiriu o hábito de comprar novelos de lã. De cores, tamanhos, espessuras e texturas diferentes para os mais variados fins. Aos quarenta, colecionou novelos como quem coleciona boas lembranças. Aos cinquenta, guardou-os num grande armário. Aos sessenta, não os viu. Aos setenta, mudou-se para um grande apartamento e, em nome de uma nova e premente organização domiciliar, mandou fazer lindas caixas para guardar os novelos em um lugar especialmente reservado num novo e espaçoso closet de madeira clara, sem portas. Claro.

Aos setenta e três, levou um enorme susto. Entrou no closet e teve a horrível sensação de que tinha novelos demais. Tomou de uma caixa aleatoriamente e ao abri-la, viu quatro enormes novelos azul-turquesa. Londres! Destinados a um colete para o marido. Abriu outra, uma profusão de cores onde predominava o bordô e derivados de vermelho e amarelo. Buenos Aires, colchas para as meninas. Outra, verdes-água, azuis-marinhos, tons de laranja. Paris, meias. Petrópolis, saias. Boston, cachecóis. Carmins, rosas, casacos, lilases, marrons, blusas. Sua cabeça começou a girar. Sentiu uma vertigem sufocante ao defrontar-se com tudo aquilo de um só golpe: combinar memoriosos novelos, peças de vestuário negligenciadas e a nesga de tempo que ainda julgava dispor, conjurava seu passado glorioso, seu presente cru e seu futuro incerto em uma armadilha metafísica. O passado dos lugares e momentos felizes medido nas tranças dos coloridos novelos cedia vez à negação do presente, pois a mera existência dos novelos era o reconhecimento de uma ausência que só dela dependia para persistir. O futuro também não lhe reservava melhor sorte, minguado e exíguo, ocupado das doenças e nas coisas da idade. Nem se tratava de perceber – como, aliás, se percebe com frequência – que o tempo passara demasiadamente rápido. Não. O pavor provinha do extravagante estado de desorientação no interior do qual já não era possível distinguir passado, presente e futuro. O passado ao mesmo tempo em que presentificava-se nos novelos revolvidos, não lhe permitia escolhas futuras tangíveis; souvenires representativos de uma época feliz cruzavam eras para lhe trazer um futuro que ela sabia não viria em tempo algum. Teve falta de ar e o coração acelerou.

A agnosia temporal durou minutos que ela não interpretou como eternidade: a flecha do tempo resolvera andar em círculos. Com dificuldade, moveu sua mão direita e abriu a gaveta onde estavam os pares das longas e grossas agulhas de crochê tunisiano acariciando-as com os dedos nodosos e macios. Só então notou no chão do closet o colorido dos novelos e das inúmeras caixas abertas em uma desordem quase impressionista. Suspirou. Pôs os óculos na ponta do nariz e alcançou um dos grandes e espessos novelos azul-turquesa. Tirou o papel que o cinturava e puxou um metro de reluzente lã inglesa, passando-a pela nuca. Sentou-se na beirada do pufe e, com movimentos precisos, pespegou uma fieirada de pontos-meia. Lembrou que os pontos emprestavam às cores dos fios uma outra dignidade. Teceu outra fileira. E outra. Sorriu ao ver o novelo transmutando-se em um quadrilátero simples apenas pelo esforço de suas mãos. O fio, trançado àquela maneira, também tinha outro tato, pois o milagre geométrico do crochê consiste em transformar linhas em planos permitindo à palma das mãos deslizar sobre uma superfície macia onde antes havia apenas a sensação bidigital do comprimento. A substância do crochê parece também conter algo mesmo da natureza do tempo já que se, por um lado, quanto mais complicado é o ponto, mais fio ele gasta para existir, por outro, a vida talvez possa ser entendida como a conversão da linha contínua do tempo na extensão de uma colcha que chamamos vulgarmente de “mundo”. Assim configurada, tal colcha talvez sirva para tornar suportável a sensação de linearidade existencial e nos preservar de sua passagem inconsequente e sem sentido. Ou, quem sabe, até para nos revelar em suas irregularidades essa impertinente e mordaz insensatez que, vez por outra, costumamos desfiar com a unha comprida do remorso…

Aquietou-se, de fato, imersa em sua atividade. A respiração tomou o ritmo pachorrento dos que nela não se atêm. E então, lentamente, a cada fileira de pontos, o passado, o presente e o futuro desvencilharam-se uns dos outros e retomaram seus lugares nas lindas caixas especialmente reservadas a eles. A agulha de crochê, como uma varinha de condão, ordenou desejos, arrependimentos, saudades e projetos, atribuindo a tudo o sentido apropriado. E apenas depois disso – em verdade, tão somente após a decifração temporal que só as atividades cotidianas e simples têm o poder de celebrar ou, no mais das vezes, ocultar, se assim julgar conveniente o nosso relógio existencial -, apenas após isso então, ela pôde voltar a envelhecer em paz.

 

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