claviculasuperior

Da série “textos que eu gostaria de ter escrito” segue este. Créditos ao final.

“Clavícula?…” 

A palavra hesitante do calouro mais afoito rompe o silêncio nervoso e escorre pelas paredes de azulejo branco do anfiteatro do velho Instituto Anatômico, em resposta à primeira pergunta de um curso de Medicina de seis anos. Na véspera, o vetusto catedrático deixara na bancada de aço inoxidável esse osso singular, que há mais de trinta anos abre seu Curso de Introdução à Anatomia Humana, junto à pergunta, “Alguém pode identificar?” 

“Clavícula,” repete o calouro, agora mais seguro de si. 

“Clavícula, sim. Em latim, ‘pequena chave’. Algum dos doutores pode me explicar por que? Será pela semelhança do formato?…” 

À distância, os futuros médicos procuram ansiosamente alguma similitude formal entre aquele osso solitário e qualquer outra chave do seu cotidiano. Com um gesto magistral, generoso, o catedrático entrega-o aos jovens da primeira fila, que passam o objeto de mão em mão, entreolhando-se, céticos, envergonhados. 

“…Quiçá. Porém sabiam também os anatomistas clássicos que a clavículaé o primeiro osso a se formar no feto, e o último a se desvitalizar no cadáver. Portanto, a clavícula é a pequena chave que abre e fecha a vida.” 

O silêncio volta ao anfiteatro. Alguns calouros estão até com os olhos marejados. Mas é só o cheiro de formol nas paredes. Eles ainda vão se acostumar..

Retirado da tese de doutoramento de Christopher Robert Peterson, 1999 que pode ser acessada aqui.

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