Asclépio HCFMUSPCortesia do acervo do Museu Histórico da FMUSP

 

Em frente à porta principal do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, cravada no meio do jardim defronte ao hospital, está a estátua de Asclépio (ou Esculápio). Quem entra no prédio, raramente nota a imagem. Quem sai, quase nunca percebe tratar-se de uma escultura bastante incomum. Normalmente, Asclépio é representado sentado ou apoiado em seu bastão onde se enrodilha uma serpente. Na estátua do Hospital das Clínicas, ele segura ervas medicinais na mão direita e seu famoso bastão com a mão esquerda, erguendo as duas com o olhar voltado ao céu, como que a implorar algo a alguém. Suas pernas estão quase a dobrar-se, dando a impressão de que está prestes a cair de joelhos. Não lembro de ter visto outra imagem do deus da Medicina nessa postura. Nesse momento, talvez seja oportuno, portanto, relembrar a lenda de Asclépio de quem tanto falamos e esclarecermos a simbologia por trás do mito.

A lenda de Asclépio encontra-se principalmente em Hesíodo e Píndaro[1], mas também em inúmeros outros escritos. As narrativas, por sua vez, são um pouco diferentes. Aqui a versão dada por Sigerist, baseada no poema de Hesíodo (700 a.C.)[2]

No lago de Boebe, na Tessália, a bela donzela Coronis, filha de Flégias, famoso por seus cavalos, estava lavando os pés quando foi surpreendida por Apolo e dele se enamorou. Coronis ficou grávida desse encontro mas seu pai já a havia prometido para Ísquio, seu primo. Ela aceitou casar-se com ele mas no dia do matrimônio, um corvo, uma ave branca, contou o ocorrido para Apolo que estava em Delfos. Tomado pela cólera, ele transformou o corvo em negro pássaro amaldiçoando-o e, enquanto matava Ísquio, enviou sua irmã Ártemis para matar Coronis e suas aias com suas terríveis flechas douradas. Ao morrer, Coronis revelou que esperava um filho de Apolo. Nesse momento, o deus délfico tenta em vão salvá-la de seu destino a Hades, mas consegue apenas liberar o pequeno Asclépio de seu ventre e dar-lhe a vida. O deus délfico levou a criança a Quíron, o sábio centauro curandeiro do monte Pelion. Quíron cuidou do menino que aprendeu o ofício de seu protetor tornando-se ele próprio um grande médico. Porém, acometido pela hybris, começou a ressuscitar mortos com o que Hades queixou-se a Zeus que, por sua vez, desferiu-lhe um raio, matando-o.

Píndaro (~500 a.C.) conta a lenda um pouco diferente. Ainda segundo Sigerist, Píndaro acha que Coronis não é a inocente donzela a quem Apolo seduziu e que casou-se com seu primo por ordem de seu pai. Para ele, “o erro de seu coração foi levar a pura semente do deus ao altar, sem o conhecimento de seu pai” em decorrência de “ter se deitado com um estrageiro da Arcádia”. Píndaro não menciona o corvo e adiciona o fato de que Asclépio teria ressuscitado Hipólito por dinheiro referindo-se ao médico como alguém que amava o ganho. Platão, na República Livro III, 408b, refere que Píndaro escreve que Asclépio foi “corrompido pelo ouro”. Nesse sentido, tanto ele como sua mãe, Coronis, – julga Píndaro – tiveram o mesmo destino: pagar por seus erros com a própria vida.

De qualquer maneira, parece que a estátua de Asclépio, da forma como está posicionada à frente da entrada principal do Hospital das Clínicas, tem, pelo menos, duas interpretações completamente opostas. Uma na qual ele oferece suas técnicas de cura a Zeus, as ervas e o bastão com a serpente, mostrando subserviência mas ao mesmo tempo insinuando maestria em sua arte de curar, como o jogador que aponta os céus após fazer um gol. Outra, a mim mais oportuna e coerente, sugere uma súplica do deus da Medicina para que Zeus não o matasse com os raios ciclópicos. Se a morte de Asclépio ocorreu por ultrapassar os limites de sua arte e romper com os preceitos éticos que a regiam, quem sabe o autor da obra não estaria a nos fazer uma sutil advertência sobre o futuro da profissão? Ao surpreender o deus da medicina em posição humílima defronte ao hospital onde a pratico e ensino, momentos antes de ser fulminado pelos raios divinos como pena para sua hybris, não posso deixar de pensar que esse suplicante Asclépio também esteja pedindo por nós, seus modernos e jactantes seguidores, esquecidos de nossas origens e, principalmente, de nossos erros.

[1] Para uma revisão completa sobre o mito de Asclépio, ver Edelstein, E.M. & Edelstein, L. Asclepius – a collection and interpretation of the testimonies. Johns Hopkins Press: Baltimore, 1945.

[2] Sigerist, HE. A History of Medicine: Early Greek, Hindu, and Persian medicine. Vol II. Oxford University Press, 1961, p 52.

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