Produtos ecológicos, selos verdes…

 

Existe alguma definição de produto ecológico para eu entender o que um produto de fato tem de diferente para se declarar assim?

Vez ou outra vejo por ai as pessoas falando de produto ecológico. Que todos devemos comprar produtos ecológicos, que o produto tem um diferencial ecológico e portanto seria melhor que os outros ou perguntam até quanto eu estaria disposta a pagar por um produto ecológico.

Com a ajuda de um colega de internet achei esse artigo (em inglês) “O valor do consumidor no projeto sustentável”. O artigo tenta ilustrar como o valor adicional pode encorajar o desenvolvimento de produtos sustentáveis (com menor impacto ambiental e menores custos externos), o artigo se refere especificamente a móveis. O que mais me interessou nesse artigo foi saber o que eles consideravam como menor impacto ambiental e custos externos. Para isso eles submeteram os produtos (e toda a sua produção) a 3 métodos: Avaliação do ciclo de vida (Life Cycle Assessment-LCA), Custo do ciclo de vida (Life Cycle Costing – LCC) and Contingent Valuation (CV) (não encontrei uma tradução que me convencesse).

Vou tentar explicar o que eu entendi de cada um desses métodos. O LCA identifica e quantifica a energia, os materiais e os poluentes produzidos, essa avaliação vai ao longo de toda a vida do produto que inclui: extração e processamento da matéria-prima, manufaturamento, distribuição, uso, reciclagem e disposição final. O modelo usa um inventário de ciclo de vida composto por vários bancos de dados (queria saber se todos os produtos que se declaram ecológicos tem um inventário desses). Alguns dos dados coletados por eles sobre a fabricação dos móveis foram: descrição do processo de fabricação; fluxo dos materiais usados em todos os estágios do processo incluindo descrições e quantidades; consumo de energia durante o processo de fabricação; e quantidades finais dos resíduos gerados (emissões atmosféricas, efluentes e resíduos sólidos).

O método LCC considera todos os custos que ocorrem durante o ciclo de vida completo do produto. Eles podem ser divididos em 2 categorias: Custos internos e custos externos. Custos internos é a soma dos custos  de que uma companhia tem responsabilidade, como o pagamento de seus funcionários e custos externos (ou custos sociais) são custos que as companhias não são necessariamente responsáveis, como a poluição do ar por conta da emissão de poluentes na fabricação de seus produtos.

O Contingent Valuation é um método que testa a disponibilidade dos consumidores a pagarem por determinado serviço ecológico, por exemplo eles pesquisam entre as pessoas o quanto elas estariam dispostas a pagar para manter uma floresta. No caso do artigo eles usaram esse método para medir o quanto as pessoas estariam dispostas a pagar a mais por um produto com menor impacto ambiental.

Juntando tudo isso acho que deu pra perceber que pra eles chegarem a conclusão de que os consumidores estão dispostos a pagar mais por produtos com menor impacto ambiental não foi assim tão simples.

 

itatiaia 047 Produto ecológico pra mim é esse moranguinho silvestre que ninguém plantou, é orgânico e depois que eu comi não deixou resíduos.

O que eu quero mostrar é que para chamar um produto de ecológico ou ter um selo verde ou ser sustentável muita coisa em toda a vida do produto é levada em consideração. Economizar água na produção, tratar os efluentes, usar materiais reciclados, como fazer a distribuição dos produtos, pensar na melhor maneira de extração da matéria-prima ou ainda pensar em como esse produto deve ou pode ser reciclado depois de usado são algumas das ações que devem ser consideradas para tentar fabricar um produto com menor impacto. E quando eu listo cada uma dessas ações não estou dizendo que a preocupação deve ser uma OU outra a preocupação deve ser em todos esses aspectos e mais um tantão de outros. Eu já disse, Ser sustentável é difícil, acredite. Então, como qualquer ser humano sabe que cumprir todas essas tarefas beira o impossível não me diga que seu produto é ecológico, que tem selo verde e bla bla bla. Dizer que se comprometeu a usar de maneira responsável os recursos hídricos, consumir energia elétrica de forma consciente e descartar corretamente o lixo ou reaproveitar materiais pré consumo para a produção de escova de dente não faz do seu produto sustentável, isso beira a obrigação de qualquer empresa que quer continuar existindo nesse mundo e não joga dinheiro pela janela. As mudanças que foram feitas em um dos seus produtos pode fazê-lo um pouco melhor que os outros, pode representar o seu interesse pelo tema, mas não pense que isso é o melhor que pode ser feito, acredite, não é.

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Discussão - 6 comentários

  1. Ricardo disse:

    Estes dias ouvi de um conhecido jornalista aqui de São Paulo dizer: “Se você não quer mudar nada, diga que vai mudar o mundo”. Nesta palestra ele defendia, a meu vez de forma muito clara, simples e correta, que, se a meta é impossível, as pessoas usam esta dificuldade como desculpa para acabar sem fazer nada. O que muda o mundo é a soma das pequenas atitudes individuais que, somadas, ganham a força, importância e dimensão para fazer as mudanças ocorrerem, de forma gradual, crescente e segura.
    É a soma de cada um de nós, como consumidores de produtos, de votos, quem tem o poder para decidir que futuro nós queremos. Veja o que está ocorrendo agora mesmo no Egito #em um movimento iniciado, acredite, via twitter#. Lembre-se do que ocorreu com grande marca de artigos esportivos que, após boicote dos consumidores, teve que mudar toda sua estrutura #alegadamente exploratória# de produção na Ásia.

  2. Bruno disse:

    O termo usado em “economês-tupiniquim” para contigent valuation é valoração contingente mesmo. Há uma área dentro da Economia Ambiental, derivada da economia neoclássica, específica para tal.
    Abs

  3. Kim disse:

    Geladeira por R$ 300 é um frigobar… Uma pequena e boa tá por R$ 700.

  4. Kim disse:

    Como exatamente eles medem “o quanto as pessoas estariam dispostas a pagar a mais por um produto com menor impacto ambiental”? Se você perguntar na rua, todos falariam que topam pagar a mais, e até bastante a mais – imagine um sabonete comum por R$ 0,80 e outro “ecológico” por R$ 1,20, um aumento aceitável de 50%. Agora, trocar uma geladeira comum por R$ 300 por uma “ecológica” por R$ 450 já não parece o mesmo.
    Ainda, perguntar na rua é uma coisa, e a prática outra. Ao responder ao pesquisador são todos bonzinhos e corretos, mas na prática o comportamento seria outro. Eles fizeram alguma experiência esperta para impedir esse viés de entrevista?
    Até, e muito bom post!

  5. Claudia Chow disse:

    Olá Daniel, muito obrigada pelo seu comentário.
    O local onde eu comi esse moranguinho não existe tratamento de esgoto, o sistema usado é o de fossa séptica, portanto ele voltou a natureza sem gerar nenhum resíduo mesmo.
    Acho que a palavra não é ser chato, é ser atento, existe um ciclo de vida dos produtos a ser levado em conta e ele não termina a partir do momento que ele nao me pertence mais.

  6. Daniel disse:

    Muito bom seu texto, é exatamente esse tipo de visão que falta na maioria das pessoas, inclusive dos meus colegas e professores de Engenharia Ambiental, que deveriam estudar esse tipo de coisa.
    E, só pra constar, seu moranguinho vai deixar resíduo também, assim que você evacuar. E esse resíduo vai ter que ser tratado pela rede pública de esgoto antes de reintegrado na natureza, o que também gera um custo, ínfimo, mas existente (é, temos que ser chatos XP )
    Parabéns pelo texto

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