O lixo nosso de cada dia

Semanas atrás falei da embalagem do meu creme que tinha um design sofrível, agora resolvi pesquisar sobre a política de resíduos sólidos pós consumo das principais marcas de cosméticos que eu conheço, que é o que nos sobra depois que o produto acaba. Os resíduos sólidos da cadeia produtiva podem até ser responsabilidade minha também como consumidora, mas pouco posso interferir nela. Resolvi ver o que as empresas falam de residuos sólidos sem eu precisar ler o relatório de sustentabilidade.

residuos

Fonte: https://flic.kr/p/e4PYUh

Nívea

A Nívea foi a primeira “vítima” por 2 motivos: 1- falei dela no post sobre o design ruim da embalagem e 2- apareceu um post patrocinado deles na TL do meu twitter, se eles estão pagando pra fazer propaganda em rede social, vamos ver se esse canal realmente funciona para conversar com o consumidor (mais um teste além do ambiental). Ai perguntei pelo twitter sobre a política de resíduos sólidos da Nivea e recebi esse link como resposta: http://www.nivea.com.br/Sobre-nos/beiersdorf/Responsabilidade-Ambiental

Bom, sobre o destino das embalagens pós consumo só li blablabla, nada concreto que me convence da real preocupação deles, um “apoiamos o projeto tal que se preocupa com esse assunto” e só. Ai perguntei no twitter novamente se eles sabiam qual a porcentagem de embalagem são recicladas, estou no aguardo da resposta.

Unilever

Ai resolvi pesquisar outras… Joguei no Google o nome da empresa e as palavras resíduos sólidos, depois de uns cliques no site deles achei esse link no site da Unilever: http://www.unilever.com.br/sustainable-living-2014/waste-and-packaging/

Achei mais interessante pois eles têm metas estabelecidas sobre reciclar embalagens: “aumentar as taxas de reciclagem e recuperação, em média, em 5% até 2015 e em 15% até 2020 nos nossos 14 principais países” e apresentaram o seguinte dado: “Aumento de 7% nas taxas de reciclagem e recuperação em 2013, superior ao Índice de Reciclagem e Recuperação médio de 2010, registrado nos nossos 14 principais países.” Legal, mas  o quanto desse 7% é no Brasil? E vamos combinar que 7% numa operação em 14 países é quase pífio.

P&G

Com a busca no Google P&G e residuos sólidos (ou qualquer coisa parecida com isso) cheguei nesse link: http://www.pg.com/pt_BR/sustentabilidade/sustentabilidade_ambiental/index.shtml

O plano é bastante audacioso “Nossa Visão, anunciada em 2010, inclui: (…) Usar 100% de materiais renováveis ​​ou reciclados em todos os produtos e embalagens. Depositar zero de consumo e resíduos de fabricação em aterros sanitários.” Mas não falam quando pretendem atingir a meta, ah, mas é a visão, não é uma meta, pode ser que nunca atinjam seja só um alvo a se atingir… Ainda tem um “saiba mais sobre a nossa visão de longo prazo”, mas não tem link nenhum redirecionando pra lá. Também não ficou claro pra mim se no consumo e resíduos de fabricação inclui embalagens pós consumo.

Descobri por acaso que eles tem um projeto com uma empresa chamada Wise Waste que criaram a partir de embalagens recicladas um display para um dos produtos deles em supermercados. Aliás o trabalho da Wise Waste é bem interessante, saiba mais aqui. Mas no site da empresa mesmo só tem aquelas metas megalomaníacas sem nada muito prático.

Natura

Mandei um twitt e não recebi resposta 2 dias depois, procurando no google achei vários links para os relatórios anuais da empresa 2009 (acho q seja pois só tinha dados até 2008), 2012, 2013. Não é o que que esperava achar, principalmente da Natura. As informações são vagas e sem nenhuma meta clara, no relatório de 2014 fala que “A Natura está elaborando um plano de logística reversa, que tem como principal objetivo estruturar um modelo de gestão capaz de transformar resíduos em oportunidades de novos negócios. Este plano tem previsão de lançamento ainda no ano de 2014.” Eu esperava mais da Natura, muito mais…

Avon

Mandei um twitt e não recebi resposta 2 dias depois.

Procurando no Google não achei NADA relevante. No site da empresa tem uma seção de responsabilidade social, nada sobre meio ambeinte. Falam de teste em animais, mas absolutamente NADA do ponto de vista ambiental e resíduos sólidos… Decepção monstra.

Conclusões

Escolhi essas empresas pois consumo produtos delas e como são empresas que fazem parte do business as usual esperava números sobre o assunto, só 1 me apresentou números concretos sobre a preocupação com a geração de resíduos e posterior descarte, as outras tratam o assunto de forma superficial, pelo menos aos olhos do consumidor leigo que resolve descobrir por si só o que as empresas fazem/pensam sobre o assunto. Uma delas até ignora o assunto. Ou simplesmente resolveu não contar pra ninguém o que faz sobre o assunto. Se alguma empresa dessas quiser entrar em contato comigo para esclarecer melhor suas preocupações sobre os temas resíduos sólidos pós consumo, logística reversa, etc estou super aberta para ouvir e saber mais, o importante mesmo é tornar pública suas práticas, o consumidor agradece, isso chama-se transparência. #ficaadica

A princípio pensei em ligar nos atendimentos ao consumidor de cada uma delas para perguntar sobre o assunto, mas esse processo é tão chato que eu desisti, mas talvez seja mais eficaz que esse post, mas se você quiser fazer isso segue o número dos telefones de cada uma das empresas, acho que pode surtir mais efeito e ainda dá pra testar o quanto elas dão de importância para a preocupação do consumidor.

Nivea – 0800-77-64-832

Unilever – 0800-707-7512

P&G – 0800 701 5515

Natura – 0800.115.566

Avon – 0800 7082866

Se alguém conhecer alguma empresa de bens de consumo não duráveis que nasceu pensando no ciclo completo de vida de seus produtos me avise, pois eu até hoje não vi nenhuma.

Embalagem reprovada

Não, esse não é um blog de beleza ou produtos do gênero. É um blog de meio ambiente e sustentabilidade e mesmo sendo assim eu não uso só produtos orgânicos, ditos ecológicos e amigos do meio ambiente, ainda não atingi esse patamar de vida, até por que não acredito na maioria dos produtos que se proclamam assim, todos tem problemas.

E hoje usando um creme  da Nivea fiquei super preocupada com o que vi, é um creme para o rosto com embalagem do tipo bisnaga que é um exemplo do que não deveria ser feito. Segue a foto do produto.

2014-10-23 16.49.50

Eis que não saia mais creme da bisnaga quando eu apertava, isso já devia estar assim há uma semana pelo menos, mesmo eu batendo para sair mais. Hoje cansada de tentar tirar o máximo da bisnaga fiz o que faço com praticamente 100% dos produtos que uso e chegam no fim, peguei uma tesoura e abri a bisnaga no meio e veja a minha surpresa (clique a imagem para ver melhor):

2014-10-23 16.50.03

É! Tinha creme pra caramba lá dentro ainda, olhando bem, acho que consigo usar esse “resto” por mais uma semana ou mais! Como eu disse, to acostumada a fazer isso com TODOS os meus produtos que chegam ao fim (uma amiga até me diz q isso é coisa de pobre, não ligo) e eu nunca tinha visto sobrar tanto creme ainda dentro da bisnaga depois que aparentemente o creme tivesse acabado, fiquei chocada e fiquei me perguntando se essa “perda” é calculada na hora de colocarem o volume/peso do produto da embalagem, eu comprei 50ml, mas será que eu consegui usar os 50ml do produto? Será que existe alguma norma para isso?

Agora imagina quantos desses cremes não são vendidos no mundo e quantas são as pessoas que fazem isso que eu faço? Você consegue imaginar a quantidade de produto que poderia muito bem ser utilizado que é simplesmente jogado fora? Será que testes de eficiência de embalagem não são feitos? Será por isso que esses cremes são tão caros, porque jogamos boa parte deles fora por causa de embalagens mal feitas?

Pra mim é simplesmente inadmíssivel em tempos que se falam de eficiência energértica, escassez de recursos naturais, diminuição da miséria e afins a gente jogue fora produtos que custaram energia, recursos e dinheiro por conta de embalagens ruins. Nivea, seu produto é bom, mas não passou no teste mínimo de usabilidade da embalagem, desperdício é feio e eu não pretendo mais comprar esse produto de vocês. Lamento,  melhorem o design da sua embalagem, isso é insustentável.

A embalagem, o lixo e o ciclo de vida

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Acho que aqui no blog nunca critiquei as embalagens de plástico de origem vegetal, então chegou a hora de falar. Plásticos que são de origem vegetal e não são biodegradáveis não tem meu apoio.

O “bioplástico” mais famoso e falado que tem é o da Braskem, feito de cana-de-açúcar, tá, ótimo, origem renovável e o destino dele qual é? O lixão da cidade, o córrego, o bueiro… E ai? Que vantagem Maria leva? Ah, o plástico é reciclável… Convenhamos, a grande maioria dos plásticos são recicláveis, o problema não é ele ser ou não reciclável e sim, ele ir de fato para a reciclagem. Acho que ele seria muito mais útil se fosse biodegradável, tipo, depois de 3 meses ele já está reintegrado ao ambiente. E não falo de micropartículas de plástico que ficarão lá eternamente, eu falo de decomposição que contribua e agregue alguma coisa ao solo, se é que isso seja possível.

Uma dúvida de ignorante, será que na hora da reciclagem esse plástico de origem vegetal se integra totalmente ao plástico de origem fóssil? Pois afinal, quando você compra algum objeto de plástico e manda-o pra reciclagem você não sabe qual a origem dele e na hora que mistura todos os tipos de plásitco não atrapalha na reciclagem? Eu sei que cor de vidro é uma coisa séria, assim como a cor do plástico na hora da reciclagem e a origem do plástico alguém já sabe? Se ele for examente igual ao plástico de origem fóssil você já sabe o que acontece quando ele não vai pra reciclagem, né?

Há algumas semanas a Pepsico lançou sua embalagem ecológica dizendo que são 100% recicláveis, tá, até onde eu sei todas as garrafas PET também são, mas isso nunca garantiu que 100% delas fossem recicladas e será que se eu mandar essas garrafas pra reciclagem junto com as PET convencionais vai ter algum problema?

Não entendo com tanto blablabla de sustentabilidade as empresas ainda estão pensando ainda só de um lado da questão. É bom lembrar que agora temos a Política Nacional de Resíduos Sólidos que resposabiliza todos pelos resíduos gerados, será que só agora vão se dar conta que olhar só a origem do produto ou da embalagem já não é mais suficiente?

Sugiro para as empresas que ao invés de ficar gastando dinheiro em como fazer produtos e embalagens com matéria-primas renováveis e alternativas por que não pensam em tentar reciclar, reutilizar ou abolir embalgens? Que tal venda de sorvete, refrigerante e bolachas a granel? Quando eu vejo essa ausência de inovação que fará com que as pessoas mudem de fato seu comportamento para um mundo mais sustentável eu quase desacredito na sustentabilidade, eu chego a acreditar que quando as empresas falam desse assunto é, de fato, apenas marketing. Vejo que ninguém quer mudar comportamento, o máximo que fazem é mudar a matéria-prima e continuam fazendo o resto tudo igual. De verdade o mundo não vai ser melhor e mais sustentável se ao invés de continuar consumindo milhares de escovas de dente, garrafas ou copos de plástico de origem fóssil, a partir de agora o plástico for de origem renovável. Resolver só um lado da equação não resolve o problema, a vida do produto não acaba depois que você o joga fora.

Embalagens

Recebi esse mail e achei muito interessante, será que alguma Cia aérea está pensando a respeito? E não são só as Cias aéreas, as Cias de ônibus estão igualzinhas, utilizando até as mesmas marcas dos produtos. Uma dessas marcas por exemplo até hoje ainda mantém as gorduras trans nos seus produtos, provavelmente suas vendas para as cias de ônibus e aéreas são tão maiores que a dos consumidores normais que ela nem se preocupou com esse detalhe. E geralmente os viajantes não pensam muito antes de aceitarem os “lanchinhos”.

Segue o mail… Com autorização do seu autor para a publicação, sintam-se livres para reprodução…

Amigos/as

Compartilho com vocês uma mensagem que acabo de enviar a uma
companhia aérea. Como aguardo a resposta, vou omitir o nome da
empresa e a marca dos produtos mencionados.

Prezado Sr.

No dia 27/09/2007 viajei por esta companhia de Fortaleza a Curitiba,
com conexão em Brasília. Num dos trechos foi servido um café da
manhã. Gostaria de ponderar alguns detalhes acerca das embalagens e
dos conteúdos.

O conjunto se compunha de:
* 1 embalagem plástica quadriculada;
* 1 bandeja plástica transparente para acondicionar os demais itens;
* 1 embalagem plástica transparente para acondicionar uma faca
plástica e um guardanapo;
* 1 embalagem plástica para acondicionar duas torradas (15 gr.de
alimento);
* 1 embalagem plástica para acondicionar uma bolacha recheada (30 gr.
de alimento);
* 1 embalagem plástica para acondicionar um cubinho de requeijão (20
gr. de alimento);
* 1 embalagem plástica de um potinho de marmelada (15 gr. de
alimento);

Ao todo foram 80 gramas de alimento e 7 embalagens plásticas, somadas
a uma faquinha plástica, um copo plástico e um guardanapo de papel.

Abrindo-se o conjunto das embalagens em uma superfície plana e
colocando-as uma ao lado da outra podemos formar com essas embalagens
e recipientes uma espécie de quadrado, medindo 50 cm por 45cm.

Para ficarmos apenas nos itens plásticos, deixando de lado a área do
guardanapo de papel, temos uma superfície de quase meio metro
quadrado de lixo gerado por passageiro para a ingestão de 80 gramas
de alimento.

Ora, de janeiro a março do ano passado (2006) esta companhia
transportou 5,55 milhões de passageiros. Se esse nível se mantivesse
(não sei se o foi ou foi superado) até o final do ano, ela teria
transportado 22,2 milhões de passageiros. Mas como em muitos vôos há
escalas e conexões e o serviço de bordo é repetido, o número de
lanches servidos seria bem maior que 22 milhões. E igualmente a
superfície de lixo plástico gerada.

Mas considerando que cada passageiro fosse servido apenas uma vez,
independentemente das escalas e conexões, e que o meio metro quadrado
de plásticos de cada um fosse colocado um ao lado do outro, formando
uma espécie de passarela de meio metro de largura, teríamos uma
trilha de 11 milhões de metros de comprimento ou, o que dá no mesmo,
de 11.000 quilometros. Como a costa brasileira mede 9.198 km –
considerando todos os recortes do litoral – o lixo plástico gerado em
um ano pela companhia permitiria formar uma passarela acompanhando
toda a costa do país e ainda sobraria quase dois mil quilometros!

Se considerarmos ainda que o diâmetro equatorial da Terra é de 12.756
km, com as embalagens plásticas do serviço de bordo descartadas pela
companhia em 14 (quatorze) meses seria possível concluir uma
passarela de embalagens plásticas abertas que daria uma volta
completa no planeta. Isso considerando apenas um serviço de bordo por
passageiro, como detalhado acima, sem contar os serviços de bordo das
escalas e conexões.

Ao final dessas considerações, a minha pergunta é muito simples: não
é possível encontrar uma solução mais ecológica para embalar 80
gramas de alimento?

Atenciosamente,

Euclides André Mance
[email protected]

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