Sou Luciana Christante, paulistana e são-paulina, farmacêutica não-praticante,
neurocientista interrompida, jornalista clandestina. Vejo muita beleza na ciência,
mas acho que, sem história, ela perde um pouco a graça. Tenho olhos também para a
arte, porque não suportaria uma vida 100% racional. Aqui em Efeito Adverso
escrevo sobre o admirável e o incômodo, o sublime e o bizarro, o viés e o revés,
o óbvio e o obscuro disso que se costuma chamar a aventura do conhecimento,
sempre com a certeza de que o faço precariamente.
(No alto, Flayed Angel, de Jacques Gautier d'Agoty, 1746)
"Sempre serei como um menino para tantas coisas, mas um desses guris que
desde o começo carregam consigo o adulto, de maneira que quando o
monstrinho chega verdadeiramente à idade do adulto ocorre que, por sua
vez, carrega consigo o menino, e no meio do caminho se dá uma
coexistência poucas vezes pacífica de pelo menos duas aberturas para o
mundo." - Julio Cortázar
Aqui vai um trecho da reportagem publicada na revista deste mês sobre os astrócitos, um tipo de célula cerebral para o qual ninguém dava muita bola, mas que, nos últimos dez anos, vem desbancando o protagonismo dos neurônios nas ciências do cérebro.
Já tem gente falando numa tal hipótese astrocêntrica do processamento cognitivo. Segundo eles, ondas de cálcio trafegando pela rede de astrócitos poderiam explicar a consciência. Os neurônios que se cuidem!
As células em formato de estrela [os astrócitos] também estão organizadas numa imensa e complexa rede, mas, diferentemente dos neurônios, não produzem potenciais de ação, ou seja, não são eletricamente excitáveis (e, portanto, passavam invisíveis pelos métodos da eletrofisiologia). Mas já se acredita que elas também transmitam, processem e integrem informações, devido a sua alta sensibilidade ao glutamato. Toda vez que esse neurotransmissor é liberado na fenda sináptica, os astrócitos respondem com um aumento súbito da concentração de íons cálcio no seu citoplasma.
Essas ondas de cálcio atravessam a célula e atingem outras extremidades dela. O astrócito, então, libera glutamato, que, por sua vez, pode influenciar os neurônios que estão nas redondezas, explica Alfredo Pereira Jr. Os cientistas supõem que, com esse mecanismo, os astrócitos podem determinar se os neurônios vão entrar em processo de potenciação ou depressão - que está intimamente associado à formação de memórias.
"Os modelos disponíveis de sinapse tripartite apoiam a hipótese de que o astrócitos seriam o componente que definiria se um determinado estímulo vai ser lembrado ou esquecido", especula o pesquisador de Botucatu. Descobertas como essa têm atraído o interesse de neurocientistas ligados à ciência cognitiva, como Pereira Jr., para quem os astrócitos parecem estar envolvidos com funções cognitivas consideradas superiores, como memória e consciência.
Várias evidências reforçam essa ideia, como o aumento da complexidade da rede de astrócitos na escala evolutiva; o fato de ganharmos astrócitos ao longo da vida (e não perdermos, como ocorre com os neurônios); sua abundante presença no córtex, a camada externa do cérebro ligada ao processamento cognitivo e emocional; e, por fim, a capacidade dessas células de monitorar (ou "escutar", como dizem os cientistas) simultaneamente a atividade de muitos neurônios. Cada astrócito pode se conectar a mais de 100 mil sinapses.
Mente duplicada?
Estudos sobre os novos astros do cérebro em papéis como memória e consciência ainda são teóricos, mas algumas especulações são audaciosas. Existe até uma hipótese astrocêntrica, segundo a qual a rede de astrócitos seria uma espécie de cópia da rede neuronal, instante a instante, mas codificada numa outra linguagem. Enquanto os neurônios "conversam" por meio de descargas elétricas, os astrócitos se comunicariam através das descargas de ondas de cálcio.
A ideia foi proposta em 2002 no Journal of Physiology pelo americano James M. Robertson, que curiosamente não é um acadêmico e dirige a empresa Artificial Ingenuity (de sistemas de inteligência artificial), em Phoenix, Arizona. Para ele, "a sinapse é o penúltimo passo no processamento de informação. O estágio final, que leva à consciência, à formação de memórias e a outras funções do córtex, ocorreria dentro da rede astrocitária cortical, depois que a informação é transferida para os receptores dos astrócitos em cada sinapse tripartite."
Traduzindo para uma linguagem leiga, é como se os astrócitos estivessem escutando tudo o que os neurônios falam, captassem e integrassem essas informações para gerar a consciência. Há quem diga que os limitados progressos das redes de inteligência artificial decorram da ausência de elementos que simulem os astrócitos.
Sedutora, a hipótese astrocêntrica espera comprovação experimental. Até agora as ondas de cálcio só foram observadas em astrócitos isolados, cultivados in vitro. Não se sabe se, in vivo, elas se propagam pela rede atravessando os sincícios, as fusões de membranas que conectam um astrócito a outro. Ao contrário do impulso elétrico dos neurônios, as ondas de cálcio precisam de um meio físico para passar de um astrócito para outro. A limitação para comprovar isso é metodológica.
Em artigo de março de 2009 no Journal of Biological Physics (numa edição inteiramente dedicada à glia), Pereira Jr. expõe um modelo biofísico que poderia explicar a proposta de Robertson. Testá-lo na vida real implica o emprego de novas tecnologias, como a microscopia fluorescente de dois fótons (que permite enxergar o tecido vivo com mais profundidade), combinada com a marcação dos receptores de cálcio e a engenharia genética de proteínas astrogliais, enumera o autor. Desafios para um futuro próximo. A resposta para a pergunta mais antiga e essencial da neurociência - se existe uma sede material da consciência - talvez seja encontrada, quem diria, fora dos neurônios.
Alguma ideia de quem é o distinto senhor aí embaixo? Tenho a impressão de já tê-lo visto. Altas chances de ser um nome ligado à psiquiatria ou à neurologia. Qualquer pista será bem-vinda. Obrigada.
Em muitas das 206 ilustrações de "Fritz Kahn - Man Machine", organizado por Uta e Thilo von Debschitz, (SpringerWienNewYork, 2009), o coração é uma bomba, os nervos são cabos telefônicos, os rins são destilarias. Na linguagem visual de Kahn, baseada em metáforas e analogias que espelhavam o progresso tecnológico da primeira metade do século 20, cada órgão é uma eficiente linha de produção e o organismo todo, um palácio industrial.
"O homem como um palácio industrial", em "Das Leben des menschen" (A vida do homem), de 1924.
Kahn despontou como science writer durante a República de Weimar, o período entre as duas guerras no qual a Alemanha teve seus anos dourados de desenvolvimento técnico e industrial. Em 1933, com a chegada dos nazistas ao poder e a consequente perseguição aos judeus, o médico viu seus livros serem queimados e algumas de suas ilustrações usadas em publicações a serviço do Terceiro Reich.
Depois de vagar um tempo pela Europa, Kahn emigrou para os Estados Unidos em 1941, no que contou com a ajuda de uma carta enviada por Albert Einstein ao consulado americano em Lisboa (fác-símile na pág. 51). Uma vez na América, foi logo incorporado a um mercado editorial que já vinha explorando o então emergente nicho de livros de ciência e medicina para o grande público.
Kahn não desenhava, mas tinha uma imaginação visual prolífica. Para por suas ideias no papel, ele mantinha equipes de ilustradores profissionais (donos dos mais diversos estilos), em grande parte desconhecidos porque não costumavam assinar as ilustrações. O próprio Kahn só começou a imprimir nelas o "fk" depois de ter seu trabalho pirateado mundo afora.
As ilustrações do livro dos irmãos von Debschitz mostram, entretanto, que Kahn não se restringiu ao universo das plantas industriais. Em muitas outras ele procurou mostrar os detalhes do corpo humano em cenas cotidianas, como na imagem abaixo, de 1939.
As cinco mais importantes rotas da medula espinhal com suas funções demonstradas por um jogador de futebol (1939)
Já em "Travel experiences of wandering cell", de 1924, ele narra a aventura de uma célula por intrigantes paisagens do corpo humano. O traço refinado do artista produziu estas duas ilustrações (que estão entre as minhas preferidas).
"Travel experiences of a wandering cell - In the valley of the flesh wound", de "Life of man" (1924)
"Travel experiences of a wandering cell - On top of the nasal conchae inside de nose", de "Life of man" (1924)
As imagens imaginadas por Kahn e executadas por sua equipe estão cheias de excessos, porém. Como escreveu um revisor do American Quartely Review of Biologysobre "Man in structure and function" em 1943: "O aspecto mais notável da publicação consiste nas 461 ilustrações bem reproduzidas, muitas das quais são altamente imaginativas e a maioria tem um raro grau de detalhe. Às vezes, porém, o desejo de originalidade atingiu extremos absurdos" (pág. 15). O preço dessa obsessão foi a perda de precisão e incorreções do ponto de vista biológico. Alguns o criticavam por isso, entre eles seu próprio filho, ao qual o ginecologista replicou uma vez: "Elas [as ilustrações] podem estar erradas, mas assim é mais fácil de entender!" (pág. 37).
Fritz Kahn era um homem inquieto, bem-humorado e intempestivo. Todos os assuntos o interessavam -- escreveu sobre o átomo, a vida sexual, a natureza, a cultura jadaica, a questão palestina e suas viagens. Também foi um homem de sorte. Depois de uma operação para retirar um tumor do cérebro, foi um dos poucos sobreviventes do desabamento de um hotel em Agadir, Marrocos, onde excursionava em 1960, quando um forte terremoto atingiu a cidade. Saiu de lá sem ferimentos graves.
Arquitetura da digestão, de "Man in structure and function", de 1943
O trabalho de Kahn aos poucos foi esquecido, embora suas imagens nunca tenham parado de circular pelo mundo, especialmente pela internet. À medida que a tecnologia se renovou e a ciência e a medicina se especializaram cada vez mais, suas comparações ficaram obsoletas e perderam o sentido. Com uma visão holística do ser humano e da natureza, ele criticou a "compartimentalização" do paciente e imaginou, em 1925, o médico do futuro como um burocrata em frente a um painel de controle.
The doctor of the future, 1925
É a primeira vez que obra de Kahn é reunida em livro. Sempre estranhei a escassez de informação sobre ele na internet (na Wikipedia não há verbete em inglês ou alemão, embora haja em português, curiosamente). Além das imagens, o livro conta com dois bons capítulos de texto, um ensaio e um perfil. Um pôster grande da ilustração "O homem como um palácio industrial" acompanha o volume.
A autoria é do casal de irmãos alemães Uta e Thilo Von Debschitz, que sem saber conviveram com os descendentes do médico alemão por mais 20 anos, antes de descobrir, em meados de 2008, de quem se tratava. Uta é arquiteta, escritora freelancer e curadora de projetos em cultura e saúde em Berlim; Thilo é designer e editor de arte e trabalha com publicidade em Wiesbaden.
Exposição na Charité
Além do livro, o trabalho rendeu uma exposição que acontece entre janeiro e abril no Museu de História de Medicina de Berlim, da Universidade Charité, que assim inaugura o calendário de comemoração dos 300 anos que a instituição completa em 2010. A Charité é um dos maiores centros de pesquisa médica do mundo, de onde já saíram nada menos que oito prêmios Nobel, entre eles Emil von Behring (1901), Robert Koch (1905) e Paul Ehrlich (1908).
(E pensar que eu vou perder isso, logo em Berlim, que eu amo.)
Para quem quiser saber mais, links diversos.
# O livro: Fritz Kahn - Man Machine, Uta e Thilo von Debschitz, SpringerWienNewYork, 2009, 56 dólares, bilíngue (inglês e alemão).
Digamos que meu "esporte" predileto é fazer trilha. E sou daquele tipo para quem quanto mais difícil, longa, íngreme, fechada, escorregadia etc, tanto melhor, mais divertido. As muito fáceis me decepcionam. Felizmente já pude me enfiar em muita mata por aí, em sua maioria pedaços mais ou menos próximos de Mata Atlântica. Nunca estive num deserto e das dunas que conheci não tenho saudades. Me sinto melhor na umidade (se não fosse humana, talvez pudesse ser um anfíbio). Mas caminhar em meio às imensas, áridas montanhas andinas próximas a Santiago foi uma experiência diferente, inesquecível e que me faz querer voltar à cordilheira. Recomendo a todos que curtem esse tipo de programa e vão passar pela capital chilena (é um passeio de um dia). Para deixar registrada aqui essa viagem (e salvar este blog da paralisia), quatro fotos abaixo e o restante no Flickr (com mais informações).
Foram mais de duas horas atravessando a zona sul de São Paulo, sob céu instável, rumo à borda austral da cidade -- uma área de mananciais e floresta muito pouco conhecida dos paulistanos. Ao longo do percurso, a cidade vai revelando outras fisionomias, sem dúvida mais verdes, mas também mais pobres. Para chegar até o "fundão", como é conhecido o lugar, cruzamos os distritos de Parelheiros e Marsilac, que formam a mais extensa e menos povoada subprefeitura do município - com 353 km2 e cerca de 110 mil habitantes, é onde a maior cidade da América Latina tem seu pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).
Acompanhávamos o biólogo Leo Ramos Malagoli em uma de suas incursões ao Núcleo Curucutu, um dos oito núcleos do Parque Estadual da Serra do Mar, para estudar a população de sapos, rãs e pererecas que vive naquela porção particular de Mata Atlântica. (Eis nossa pauta do "Estudo de Campo" da edição de fevereiro.)
Quatro dias antes, São Paulo entrara em colapso com o transbordamento do rio Tietê. E a água podre que inundou por dias o Jardim Pantanal, na zona leste da capital, é um triste exemplo do que acontece quando a ocupação urbana desordenada avança sobre os cursos d'água. Esse é um dos principais motivos, aliás, pelo qual os anfíbios anuros são os vertebrados mais ameaçados pelo "desenvolvimento" das cidades. Como precisam tanto da terra quanto da água (limpa), sua existência fica muito difícil, para não dizer inviável, uma vez rompida a conexão entre estes dois habitats. Lá no Curucutu, eles estão mais protegidos, pelo menos por enquanto. Mas com o aumento da temperatura do planeta esperado até o fim do século 21, a perspectiva para esses pequenos seres úmidos, em sua maioria minúsculos e simpáticos, não é animadora.
Uma semana depois de enfiarmos as galochas nas trilhas escorregadias do Curucutu em busca de nossos saltitantes personagens, as negociações da COP-15 fracassaram de forma constrangedora. O presidente Lula falou bonito e foi aplaudidíssimo, mas esqueceu de mencionar como as gigantescas reservas de petróleo e gás descobertas na Bacia de Santos -- o pré-sal -- se encaixam nos planos brasileiros de combate ao aquecimento global. Como bem escreveu o jornalista George Monbiot no caderno Aliás, do Estadão, no domingo passado, "os combustíveis fósseis asseguraram ao macaco universal uma expansão além de seus sonhos paleolíticos. Por um momento, um momento maravilhoso, limítrofe, eles nos permitiram viver em abençoada insensatez (...) Os homens irados sabem que essa idade de ouro acabou; mas não conseguem encontrar as palavras para as restrições que odeiam." A propósito, depois de ter publicado uma reportagem sobre o pré-sal em novembro, a revista voltará ao tema petróleo em fevereiro.
Ok, é Natal. E para relaxar e desejar um boa virada de ano, um videozinho com trechos da trilha que fizemos no Curucutu. Como ainda era dia, poucos sapinhos davam as caras, embora sua presença já pudesse ser ouvida.
Lançando mão do velho truque da auto-reciclagem de matérias, aqui vai uma curtinha e curiosa que saiu na revista de outubro. Para quem um dia se perguntar quantas espécies de bactérias há no mundo. Milhares, milhões, bilhões?
Eu também não tinha a menor ideia até começar a pesquisar o assunto. Mas fiquei besta mesmo foi de saber que a taxonomia dos reinos biológicos mudou. Há algumas décadas. Não sei quanto a vocês, mas eu sou do tempo do reino Monera, que era o único reino procarioto, representado pelas bactérias. Agora tem umas tais de arqueas, seres unicelulares bissextos que não são procariotos nem eucariotos, e que acabaram dando origem a outro reino (no box).
Uma nova área de pesquisa, a metagenômica, mostra que o mundo microscópico tem uma biodiversidade sem precedentes, além de um papel importante para a manutenção dos ecossistemas
Há mais micro-organismos entre a terra e os mares do que sonha nossa vã biologia. Com o perdão de William Shakespeare pela paráfrase ao seu clássico pensamento, a frase é a melhor tradução da biodiversidade desse universo - gigantesco, porém desconhecido. Bem, sonhava. Um novo mecanismo de análise genética conhecido como metagenômica está revelando o tamanho desse mundo.
Desde que o holandês Anthony van Leeuwenhoek usou pela primeira vez um microscópio para observar material biológico, em 1674, a Microbiologia classificou cerca de 5 mil espécies de bactérias - muito menos do que se pode esperar de seres que vivem neste planeta, como habitantes originais, há pelo menos 3,5 bilhões de anos. "A Microbiologia clássica sempre trabalhou focada numa única espécie, cultivada em laboratório", afirma Darío Abel Palmieri, do Laboratório de Biotecnologia Vegetal da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp em Assis.
Com a metagenômica, explica, tornou-se possível estudar espécies que não se deixam cultivar em placas de Petri e estufas - a esmagadora maioria. Em 1g de solo, por exemplo, já foram identificadas geneticamente cerca de 1 milhão de espécies de bactérias, das quais no máximo 1% sobrevivem isoladas e fora de seu habitat. Outra vantagem do método é permitir a análise simultânea do DNA de todos os micro-organismos de uma amostra ambiental, diz o pesquisador.
Ferramentas poderosas
Trazendo tecnologias avançadas de genômica e bioinformática, a metagenômica vem transformando os laboratórios de Microbiologia nos últimos dez anos. Sua principal ferramenta é o sequenciamento do tipo shot-gun (traduzido como "a tiros de cartucheira"), usado pela primeira vez em grande escala pelo geneticista e empresário americano Craig Venter, em 1998 - quando a Celera, seu conglomerado, entrou numa ambiciosa concorrência com o consórcio público que coordenava o Projeto Genoma Humano.
O segredo do shot-gun sequencing é bombardear o DNA intensa e aleatoriamente, para depois sequenciar muitos fragmentos curtos ao mesmo tempo, com mais rapidez e menos custo. Depois é preciso remontar o quebra-cabeça para cada espécie, antes de partir para análises mais específicas, gene a gene. As duas etapas são de alta complexidade e seriam impensáveis sem o uso de poderosos algoritmos da bioinformática.
Especialistas estimam que pode haver mais de 10 milhões de espécies de bactérias. Mas eles não parecem preocupados com a classificação taxonômica de tantas novas conhecidas; o que os interessa é a diversidade genética das populações. E ela já é muito superior ao que se imaginava,como demonstrou o próprio Venter com uma expedição científica ao Atlântico Norte entre 2004 e 2006.
Nas águas do mar dos Sargaços (no meio do oceano) foram encontradas cerca de 1.800 espécies de micro-organismos, o que resultou na identificação de mais de 1,2 milhão de genes codificadores de proteína - dez vezes mais que o catalogado nas maiores bases de dados de proteínas da época.
Abundantes e ubíquas
Além de ampliar a compreensão sobre a filogênese das formas primordiais de vida, o instrumental metagenômico vem revelando a importância da microbiota nos ciclos geológicos (carbono e nitrogênio, por exemplo) e no equilíbrio dos ecossistemas, devido a sua abundante e ubíqua presença nos solos, na água, na fauna e na flora.
"Podemos conhecer a representação de cada espécie, família ou gênero na população de um determinado ambiente, saber se esta proporção muda ao longo do tempo e em função da ação humana", explica Eliana Gertrudes de Macedo Lemos, especialista em metagenômica de solos da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Unesp em Jaboticabal.
Também na biotecnologia, a metagenômica traz a possibilidade de acesso a gigantescas bibliotecas de genes, de onde podem sair muitas proteínas e, sobretudo, enzimas com grande potencial na agricultura e na remediação de danos ambientais, por exemplo. "O conjunto gênico da microbiota de um ambiente é capaz de revelar quais vias metabólicas estão em ação, se ela está envolvida com processos de ciclagem de um dado nutriente, como nitrogênio e fósforo. Ou se é capaz de degradar poluentes, como petróleo, fertilizantes, metais pesados", enumera Eliana.
As indústrias química, farmacêutica e alimentícia estão atentas às oportunidades que o sequenciamento do genoma coletivo da microbiota, o microbioma, pode abrir num futuro próximo.
BOX - O inóspito reino das arqueas
A metagenômica tem renovado o interesse pelas arqueas, organismos procariotos sobre os quais ainda se sabe muito pouco, porque é muito difícil cultivá-los em laboratório, explica Darío Abel Palmieri, da Unesp em Assis. Estes seres unicelulares são comumente encontrados em lugares inóspitos -- muitos quentes, salinos ou sulfurosos, como os gêiseres (foto: Así fotografió Zaratustra). Antigamente eles eram conhecidos como arqueobactérias, quando então pertenciam ao reino Monera, que era o único reino procarioto. Mas a taxonomia mudou. Nos anos 1970, concluiu-se que as arqueas são tão diferentes das bactérias e dos eucariotos que mereciam ter um reino só para si. Atualmente os procariotos são representados pelos reinos Bacteria e Archaea.
O escritor peruano Mario Vargas Llosa faz uma tocante defesa da literatura na edição deste mês da revista Piauí. Entenda-se por literatura os romances, os contos e a poesia. (Todo o resto, inclusive os ensaios, a divulgação científica e a autoajuda estão fora, na argumentação do autor.)
Essa leitura quase me fez chorar. De alegria e de tristeza, como eu disse outro no dia no Twitter (e alguém me pediu pra explicar).
De alegria porque me senti acolhida e menos culpada. Sim, porque, (não é fácil confessar) apesar de trabalhar como jornalista de ciência, tenho muita dificuldade para ler livros sobre o assunto, a menos que seja por obrigação profissional. Só assim encontro motivação para vencer as páginas. Eu sei que esse tipo de leitura certamente melhoraria meu background, digamos assim, me facilitando o ofício. Mas é que sempre me assola a sensação de que a vida é breve, e de que ainda não consegui ler toda a obra de Cortázar, de Kafka, de Beckett, de Onetti, de João Cabral. E nem sequer cheguei a Faulkner, a Machado de Assis (que merece releitura depois do trauma escolar) etc etc, um milhão de etc, sem falar em alguns clássicos e tantos outros contemporâneos.
A tristeza vem do fato que motivou o ensaio de Vargas Llosa: os leitores de literatura estão em extinção, tudo leva a crer. E todos perdem com isso. Porque sem a boa literatura - que é aquela que sobra quando se subtrai toda a literatura de maisena (vocês me entendem) - resta um mundo "incivilizado, bárbaro, órfão de sensibilidade e pobre de palavra, ignorante e grave, alheio à paixão e ao erotismo". A boa literatura, prossegue Vargas Llosa, "diferentemente da ciência e da técnica, é, foi e continuará sendo, enquanto existir, um desses denominadores comuns da experiência humana, graças ao qual os seres humanos se reconhecem e dialogam, independentemente de quão distintas sejam suas ocupações e seus desígnios vitais, as geografias e as circunstâncias em que se encontram em suas conjunturas históricas que lhes determinam o horizonte".
Não é o caso, de forma alguma, de culpar a ciência e a técnica pelos males da humanidade, mas de reconhecer que, quando impera a especialização do conhecimento resultantes delas, o horizonte se enche de sombras.
Sobre a especialização, transcrevi um trecho do texto no post abaixo, mas recomendo fortemente a leitura de todo artigo.
"Vivemos uma época de especialização do conhecimento, causado pelo prodigioso desenvolvimento da ciência e da técnica, e da sua fragmentação em inumeráveis afluentes e compartimentos estanques. A especialização permite aprofundar a exploração e a experimentação, e é o motor do progresso; mas determina também, como consequência negativa, a eliminação daqueles denominadores comuns da cultura graças aos quais os homens e as mulheres podem coexistir, comunicar-se e se sentir de algum modo solidários.
"A especialização leva à incomunicabilidade social, à fragmentação do conjunto de seres humanos em guetos culturais de técnicos e especialistas, aos quais a linguagem, alguns códigos e a informação progressivamente setorizada relegam naquele particularismo contra o qual nos alertava o antiquíssimo adágio: não é necessário se concentrar tanto no ramo nem na folha, a ponto de esquecer que eles fazem parte de uma árvore, e esta de um bosque. O sentido do pertencimento, que conserva unido o corpo social e o impede de se desintegrar em uma miríade de particularismos solipsistas, depende, em boa medida, de que se tenha uma consciência precisa da existência do bosque. E o solipsismo - de povos ou indivíduos - gera paranóias e delírios, as deformações da realidade que sempre dão origem ao ódio, às guerras e aos genocídios. A ciência e a técnica não podem mais cumprir aquela função cultural integradora em nosso tempo, precisamente pela infinita riqueza de conhecimentos e da rapidez de sua evolução que levou à especialização e ao uso de vocábulos herméticos."
Em defesa do romance, Mario Vargas Llosa, em Piauí, edição de outubro de 2009.
As entranhas da matéria, a estrutura dos cristais, o empilhamento dos átomos. As imagens abaixo, obtidas por microscópios eletrônicos de alta resolução, foram gentilmente cedidas pelo professor Elson Longo, coordenador do Centro Multidisciplinar de Desenvolvimento de Materais Cerâmicos, formado por laboratórios da Unesp em Araraquara, da UFSCar, da USP e do Ipen.
Neles, nanocientistas literalmente cozinham substâncias inorgânicas, em diferentes condições de temperatura e pressão, para obter compostos com estruturas diferenciadas, dotadas de propriedades físicas de grande interesse industrial. É a revolução nanotecnológica, que mal começou.
Logo logo eu posto a reportagem sobre como trabalham esses pesquisadores. Por ora fica a degustação. Clique nas imagens para vê-las em maior tamanho (e se quiser saber de que composto se trata). A última é um aumento da anterior e, embora não seja tão bela, para mim é a mais impressionante: cada pontinho é um átomo.
ATUALIZAÇÃO 17/10/2009: aqui, o link para reportagem citada no parágrafo anterior.