Anthropological blues
Em 2000, li um texto do antropólogo Roberto DaMatta intitulado O ofício do etnólogo, ou como ter “anthropological blues”, e por ele cheguei a pensar em desistir de tudo para estudar antropologia.
Jamais vou me perdoar por ter me desfeito daquela cópia xerocada do capítulo do livro A aventura sociológica (Zahar, 1978). Mais tarde conheci alguns antropólogos que me confessaram ter escolhido essa área por causa deste texto.
Como é fácil perceber, para a sorte das ciências sociais, não me tornei uma antropóloga, nem sequer tentei, mas nunca mais um texto de DaMatta passou por mim despercebido.
Sua coluna no Estadão de hoje fala do desastre do voo 447 da Air France, mas vai muito além disso. DaMatta chama a atenção para a contradição entre ordem e progresso, curiosamente estampada na bandeira brasileira, mas que não deixa de ser uma crença universal, ou pelo menos ocidental – e sou tentada a colocar esse artigo na minha gaveta de “efeitos adversos da inovação tecnológica”. Eis o último parágrafo:
O trágico voo 447 leva-me a repensar a equação entre progresso e sofrimento. A questionar a linearidade tradicional, essencializada em lógica e tida como natural, segundo a qual o progresso inevitavelmente ordena; a razão produz controle; e a união entre progresso e racionalidade acabaria com a dor do mundo. Fé difícil de abraçar hoje em dia, quando não são religiões ou ideologias anticapitalistas, mas um óbvio desastre ecológico que mostra como a ideia de progresso sem limites tem legalizado a destruição do planeta. Curioso observar como numa dezena de anos a tecnologia, que consagrava a dominação dos outros povos pelo Ocidente iluminado, passou de remédio a veneno. E como um trágico acidente nos traz de volta a vida representada como um real, embora esquecido, vale de lágrimas. Basta viver a incerteza para reavivar a nossa fragilidade e expor uma imensa nostalgia daquele pensamento selvagem recheado de deuses e magia que era a prova mais cabal de trevas, primitivismo e ignorância.
O texto completo pode ser lido aqui.
A patela, o pilar e o karatê acidental
Tudo durou menos de um minuto. Nós na padaria Santa Ifigênia, que fica debaixo do edifício Copan, centro de São Paulo, tomando um lanche com café, protegidos pelo toldo por cuja fresta entrava de vez em quando o vento gelado de uma tarde dominical de inverno – um pouco mais frio do que os dos últimos anos.
Animada por um bonito pedaço de bolo no prato de T., avancei rumo à sobremesa. Para alcançar o setor de guloseimas do estabelecimento, em vez de fazer o caminho usual e mais longo, preferi um espaço estreito, mas suficiente para minha silhueta, entre um pilar e um suporte que prendia aquele tipo de fita que costuma demarcar filas de bancos e aeroportos. Havia bem aí um degrau, a ser subido. Ao dobrar a perna esquerda para superá-lo, num erro estúpido de cálculo enfiei o meio do joelho bem na quina do pilar. Pegou em cheio a patela. Nunca senti uma dor tão lancinante.
Impossível gritar uma vez que havia perdido o fôlego. O passo seguinte foi reflexo e num instante o degrau ficou para trás. Curvei-me, apoiada na vítima e tentando ser discreta, enquanto à minha volta as pessoas hesitavam entre bolos, bombas de chocolate e rabanadas. Latejava. Muito mais a alma do que o joelho. Se durasse mais, nem sei o que podia acontecer, talvez desmaiasse. Não saí mancando, porém. Em compensação, o apetite evaporou. A visão escureceu, como sempre quando a pressão cai subitamente.
Aposto que estava pálida. Sobrou, entretanto, um mínimo de lucidez para não voltar à mesa de prato vazio, e nele depositei com pressa a menor coisa que encontrei, uma espécie de empada doce, com um morango envernizado em cima.
O mal-estar ia cedendo e rapidamente, para meu espanto. Na breve fila para registrar a iguaria na minha conta, apalpei mais uma vez o pobre coitado temendo por avaria mais séria, afinal com joelho não se brinca. Com um prato cheio de coxinhas e quibes nas mãos, o senhor depois de mim, que eu desconfiava mesmo ter acompanhado meu agudo sofrimento, perguntou-me se estava doendo, com aquela cara de quem já sabe a resposta. “De um jeito que nunca vi”, confessei, ainda meio zonza. “Isso aí é um golpe de karatê. Isso acaba com uma pessoa.” Agora me arrependo de não ter perguntado o nome do golpe.
A., C. e T. só perceberam que algo não ia bem quando se depararam com a empada de morango solitária no prato branco, o que não correspondia à disposição com que eu os deixara momentos antes.
Estranhamente, ao lhes explicar o acidente, a patela já havia retornado ao seu silêncio habitual e obediente. A caminhada até o metrô, e deste até a casa, se deu na ausência total de sinal qualquer de dor, tampouco me obrigou a alterar os passos. Que sorte. Um joelho danificado é quase sempre um pesadelo, ainda mais nessa época fria do ano, não muito amiga das articulações em geral. A gente anda décadas e décadas com a mesma carcaça e não conhece as sensações que ela é capaz de deflagrar.
Espero que tenha sido a primeira e última vez que certas terminações nervosas que fielmente recobrem minha patela esquerda tenham cumprido sua função. Tudo por causa de um instante de distração, no qual me autoinfligi um duro golpe de karatê, com a colaboração de uma quina de uma padaria debaixo do edifício Copan numa tarde de domingo de inverno paulistano. Ainda não consigo acreditar que saí ilesa.



