A Rainha e o Sexo
Luiz Max Fagundes de Carvalho,
Setor de Epidemiologia de Doenças Infecciosas, UFRJ.
O sexo faz parte de nossas vidas de diversas e profundas formas. Ao mesmo tempo em que gera a vida, é alvo das mais acirradas polêmicas nos âmbitos moral e ético. Em diversas culturas é tido como um ritual, um evento divino em que homem e mulher se tornam um só para trazer ao mundo um novo ser humano. É visto nos animais como um instinto inexorável na busca do objetivo último da existência: a perpetuação da espécie.
A idéia de sexo está diretamente associada à reprodução. Contudo, nem sempre sexo resulta em reprodução. Se considerarmos que é preciso que o número de indivíduos aumente ao final do processo reprodutivo, nem sempre há reprodução quando há sexo. Bactérias e ciliados praticam uma modalidade de sexo não reprodutivo, na medida em que apenas trocam material genético. No entendimento da biologia moderna, o sexo é a atividade caracterizada pelo intercâmbio de material genético entre indivíduos. Há seres que se reproduzem sem este intercâmbio, isto é, apenas dividindo-se (reprodução assexuada), outros misturam material genético durante a reprodução (reprodução sexuada).
Esquema do sexo em bactérias, também chamado conjugação (fonte: Wikimedia Commons)
Observando a natureza, porém, constatamos que o sexo é de longe a forma de reprodução mais disseminada entre os seres vivos atuais. Isso é espantoso, já que o sexo é um processo oneroso para o indivíduo que o pratica como forma de reprodução. Para entender porque, imaginemos que uma fêmea pode gerar sozinha um filho – que terá todos os seus genes –, ou contribuir com metade de seus genes para a formação de um novo indivíduo. Se concordarmos que o “objetivo” da fêmea é passar o maior número de genes para a próxima geração, a melhor opção se torna óbvia. A fêmea que escolher gerar um filho com apenas metade de seus genes pagará o custo dobrado pela opção sexual¹.
A sua quase universalidade, a despeito da desvantagem intrínseca, sugere que o sexo tem de concederalguma vantagem valiosa àqueles que o usam. Mas qual? Várias teorias foram desenvolvidas para explicar o aparente paradoxo do sexo. Uma delas argumenta em favor da seleção de grupo. De acordo com essa teoria, grupos que realizassem reprodução sexuada teriam vantagem na competição com outros, na medida em que evoluiriam mais rapidamente – e se extinguiriam menos -, já que teriam maior diversidade genética.
O argumento apesar de coerente não é convincente. Isso porque há diversos seres, como afídeos, plantas e rotíferos que podem se reproduzir tanto sexuada quanto assexuadamente. Desta forma, o sexo tem de ser vantajoso para o indivíduo, do contrário uma população que realizasse apenas reprodução sexuada seria facilmente invadida por variantes que se reproduziriam assexuadamente, aumentando a freqüência dos genes destes últimos nas gerações seguintes. Como se pode perceber, a seleção de grupo no sexo não constitui uma estratégia segura a longo prazo, isto é, não é uma estratégia evolucionariamente estável².
Outras duas teorias procuram mostrar as vantagens do sexo. São elas: a teoria mutacional do sexo e a hipótese da Rainha Vermelha (ou Rainha de Copas), cunhada por Leihg Van Valen em 1973, que foi a inspiração para o título deste texto. A teoria mutacional – proposta por Kondrashov em 1988 – diz que a vantagem do sexo para as fêmeas a curto prazo seria a de diminuir o número de mutações deletérias na prole. Essa tese é convincente, porém apenas quando assumimos que a taxa de mutações deletérias é alta. Infelizmente os dados quanto a essas taxas ainda são conflitantes³. Além disso essa hipótese deixa no ar a dúvida de como seres assexuados lidam com o acúmulo de mutações deletérias*.
A explicação mais sólida para o sexo vem do estudo da coevolução antagônica entre parasitas e hospedeiros. Essa perspectiva se encaixa exatamente num ponto que ainda não analisamos: a influência do ambiente no processo evolutivo. Se o ambiente fosse pouco variável não haveria justificativa para o sexo porque a variabilidade genética que ele traz não constituiria uma vantagem sensível. Porém, se o meio estivesse em constante e rápida transformação, faria sentido combinar uma parte do genoma com um parceiro para aumentar as possibilidades de adaptação e sobrevivência da prole. A segunda situação é que mais se aproxima da realidade, e na maior parte dos ecossistemas o elemento mais variável são os parasitas.
Por serem, em sua maioria, estrategistas r, os parasitas tem ciclos de vida curtos e altas taxas de replicação, o que acelera sua evolução. Isso faz deles um elemento extremamente variável do ambiente e força seus antagonistas (os hospedeiros) a modificarem constantemente suas defesas. Numa relação bilateral, o aperfeiçoamento dos sistemas de defesa dos hospedeiros força os parasitas a se modificarem para infectar seus alvos. O tempo de replicação do parasita pode ser bem menor que o do hospedeiro, portanto este ultimo precisa ter opções de rápida variabilidade: o sexo.
Como numa corrida armamentista, cada adversário impõe ao outro condições desafiadoras para a próxima geração. Como conseqüência, temos o equilíbrio entre as taxas evolutivas de parasitas e hospedeiros – exemplo disso é o ajuste do relógio molecular de vírus aos de seus hospedeiros4 -, criando uma espécie de “esteira rolante” evolutiva, em que os participantes correm sem nunca saírem do lugar. E é dessa peculiaridade que vem o nome Rainha Vermelha: do livro de Lewis Caroll, Alice Através do Espelho em que a rainha de copas diz a Alice: “aqui neste país Alice, você precisa correr o máximo que puder para permanecer no mesmo lugar…”.
A rainha puxa Alice na incansável corrida para não sair do lugar. (fonte: Wikimedia Commons)
A hipótese da Rainha Vermelha não foi formulada para explicar o sexo, mas sim o comportamento de curvas de sobrevivência de várias espécies expostas a parasitas. William D. Hamilton (1936-2000) explicou que isto podia ser decorrente do potencial de variação genética introduzida pela reprodução sexuada, mesmo com o custo dobrado que ela representa. Ele então juntou fatos que apoiassem sua teoria e formulou modelos matemáticos que apoiassem a hipótese da dinâmica da Rainha Vermelha. Várias de suas publicações mostram fortes indícios de que a luta para escapar à virulência dos parasitas pode ter mesmo dados origem ao sexo.
Desde Hamilton, muitos trabalhos foram publicados mostrando evidencias experimentais da hipótese da Rainha Vermelha, tanto da perspectiva dos parasitas como dos hospedeiros. Joachim Kurtz5, por exemplo, publicou uma revisão em que mostra a dinâmica evolucionária entre tênias, copépodes (um tipo de crustáceo) e o esgana, um peixe parente do cavalo-marinho. No artigo, Kurtz mostra que ovos de tênia gerados por fecundação cruzada têm maior poder infeccioso. Ora, a tênia é hermafrodita, o que significa que pode se reproduzir assexuadamente. Mas como o autor mostra, os ovos competem pelo hospedeiro (apenas um tipo é encontrado infectando o mesmo indivíduo), o que significa que a tênia que se reproduza sexuadamente levará vantagem sobre as outras e aumentará sua prole.
Existem também trabalhos que mostram existir seres que realizam reprodução sexuada apenas quando estão infestados de parasitas. A forte evidência experimental posiciona o efeito Rainha Vermelha para explicar o surgimento do sexo. È bom que se diga, no entanto, que nada está definido e que a literatura sugere que a teoria mutacional pode ser válida em alguns casos. Desta maneira, uma explicação mais completa para um assunto tão complexo quanto a origem e a distribuição taxonômica do sexo talvez deva levar em conta a multifatorialidade.
A evolução do sexo tem sido um quebra-cabeças (e uma dor de cabeça!) para os biólogos há tempos e essa história ainda promete ainda encher muitos livros.
Luiz Max é microbiologista (UFRJ), assistente estatístico no Centro Panamericano de Febre Aftosa (OPAS/OMS), onde pesquisa como aplicar toda sorte de métodos matemáticos e estatísticos aos problemas das ciências da vida. Seus principais interesses científicos são Evolução Molecular, Redes Complexas e Estatística Espacial. Nas horas vagas gosta de não fazer nada, treinar judô e ficar com a namorada. Perfil no ResearchGate (em inglês).
Leituras Recomendadas
O blog Rainha Vermelha, traz dois textos muito bons sobre o assunto e ainda ótimos textos sobre temas diversos relacionados à biologia celular e molecular. O texto Parasitas, evolução e sexo, também é uma boa leitura para quem quiser a visão mais leve e descontraída do genial Sergio Pena. Para os mais técnicos recomendo dois textos de Hamilton: Sexual reproduction as an adaptation to resist parasites (A Review) e Sex against virulence: the coevoluton of parasitic diseases.
* Existe uma teoria, a catraca de Muller, que propõe a acumulação irreversível de mutações deletérias nos genomas assexuados. Essas mutações, no entanto, acabam sendo eliminadas através de processos de recombinação.
Referências
1- Lewis, W.M. in The Evolution of Sex and its Consequences. Birkhauser Verlag, Basel, Switzerland, 1988.
2- Dawkins, C.R. O Gene Egoísta. 2ed. São Paulo, Companhia da Letras, 2007.
3- Ridley, M. Evolution.3ed. Porto Alegre, Artmed, 2006.
4- Villareal, L.P. Viruses and The Evolution of Life. 1ed. Washington, ASM Press, 2005.
5- Kurtz, J. Sex, parasites and resistance – an evolutionary approach. Deutsche Zoologische Gesellschaft 106 (2003) 327-339.
Alea jacta est*
É a porta dos (pós-graduandos) desesperados!

Li o tão aclamado livro de Leonard Mlodinow, The Drunkard’s Walk (Penguin Books, adaptado para o português como O Andar do Bêbado, Ed. Jorge Zahar).
Fim de jogo


Rindo de que ou de quem?

Memorial à Ivar Lovaas: Como nasce – e cresce – uma ciência.

Este post é uma tradução, autorizada pelo autor, de dois comentários à nota de falecimento do Professor Ivar Lovaas, pioneiro da Análise do Comportamento Aplicada e um dos maiores pesquisadores e difusores do Método ABA para o tratamento de pessoas com autismo e outros déficits cognitivos.
Ole Ivar Lovaas nasceu na Noruega, mas desenvolveu seus trabalhos na UCLA (University of California in Los Angeles), onde fundou um centro para tratamento de autistas: o The Lovaas Institute. Foi um dos maiores pesquisadores do autismo e responsável pelo desenvolvimento de um dos métodos mais bem sucedidos e recomendados (inclusive pela Associação Médica dos EUA) para a reinserção social e adaptação de pessoas com autismo. O texto a seguir é de autoria do Professor James T. Todd, do Departamento de Psicologia da Eastern Michigan University, e foi publicado originalmente em resposta a um comentário de uma leitora no Autism Blog, de Lisa Jo Rudy, no dia 4 de agosto deste ano – dois dias depois da morte de Lovaas. Republico aqui, traduzido, o que acho a mais concisa e objetiva explicação de como as descobertas experimentais de vários cientistas se acumulam e se completam para dar suporte a tecnologias que melhoram a vida das pessoas.
“O Behaviorismo, como uma filosofia específica da ciência, foi inicialmente desenvolvido por John B. Watson nas primeiras décadas do século XX. O principal objetivo de Watson era tratar o comportamento objetivamente, usando as técnicas da ciência natural. O comportamento dos organismos é o resultado natural de sua história genética e interacional. Uma abordagem completa do comportamento pode ser encontrada na análise completa desses fatores. Watson nunca desenvolveu completamente muitos aspectos críticos do seu Behaviorismo, apenas apontou a necessidade de uma maior sofisticação na abordagem, antes de entrar para a carreira publicitária. A devoção de Watson ao condicionamento pavloviano e a rejeição qualificada da Lei do Efeito, de Edward Thorndike (que descrevia os efeitos de recompensas e punições) deixou sua formulação sem os princípios comportamentais necessários para dar conta, minimamente, dos comportamentos mais complexos. Os equívocos sobre determinados aspectos de sua teoria metafísica, especialmente na análise do comportamento privado – como o pensamento – levaram muitas pessoas a ver o seu Behaviorismo como irremediavelmente mecanicista e superficial, apesar de haver maior profundidade do que é aparente em uma primeira leitura. Há muitos outros nomes associados ao Behaviorismo precoce, tais como Albert Weiss e Knight Dunlap, cujas idéias foram, de certa forma, mais completamente desenvolvida do que as de Watson. Faltava-lhes a verve retórica de Watson, e suas opiniões agora vêm até nós, em grande parte, como informações históricas incidentais. Ao considerar as contribuições de Watson para a Psicologia, é melhor ignorar totalmente o parágrafo obrigatório e superficial que vemos nos capítulos iniciais dos livros de introdução à Psicologia, e mesmo em Histórias da Psicologia de nível um pouco superior. Ao contrário do que essas obras podem levar a crer, suas reais contribuições ajudaram a estabelecer a Psicologia como uma disciplina acadêmica distinta da Filosofia e da Biologia, e a tornar a observação objetiva do comportamento o dado padrão em toda a Psicologia (mesmo em áreas como a psicologia cognitiva, que não estendem a objetividade para a teorização), ajudando no estabelecimento do condicionamento pavloviano como base dos tratamentos para transtornos de ansiedade.
Começando em 1920, e continuando até a sua morte em 1990, BF Skinner ampliou e elaborou as formulações de Watson, legando-nos o “Behaviorismo Radical” que nós associamos a ele até hoje. (“Radical”, aqui, significa “raiz” ou “fundamental”, e não “extremo”.) Basicamente, a abordagem de Skinner abrange todos os comportamentos, incluindo a parte dos comportamentos que é privada ao indivíduo, tais como sentir e sonhar, e trata-os como eventos reais e objetivos existentes no tempo e no espaço. (Sim, pensar, sentir e sonhar estão dentro do escopo do sistema de Skinner, não importa o que os textos introdutórios dizem). Nesse sentido, Skinner concorda com Watson: o comportamento é o que surge quando histórias genéticas e ambientais de um organismo se encontram com os eventos atuais. A Análise do Comportamento consiste em encontrar, na história do organismo, os eventos que se relacionam ordenadamente com o comportamento presente. Skinner, é claro, enfatizou a importância do “condicionamento operante”, essencialmente uma versão muito mais sofisticada da Lei do Efeito de Thorndike. Tanto o condicionamento pavloviano, quanto o condicionamento operante estavam, então, disponíveis para descrever uma quantidade surpreendente de comportamentos dos organismos, que podiam ser previstos e controlados com uma precisão tipicamente associada com as hard sciences. A enorme variabilidade nos dados dos comportamentos, previamente proveniente de estudos com labirintos e outras técnicas, foi transformada em curvas muito suaves e regulares, demonstrando a realidade das “leis do comportamento”. Hoje em dia, nós associamos o trabalho de Skinner com ratos e pombos, especialmente na área de “esquemas de reforçamento”, em que diferentes padrões de recompensas produzem importantes efeitos comportamentais. Mas, a partir desta formulação, dezenas de milhares de experiências sobre os princípios básicos do comportamento vieram à luz. A contingência de três termos de Skinner, popularmente concebida e simplificada em “antecedente-comportamento-consequência”, é uma ferramenta analítica de extraordinário poder, especialmente em sua versão mais tecnicamente sofisticada. As variáveis responsáveis por praticamente qualquer episódio especificamente definido de comportamento podem ser descobertas através da análise. Também é uma maneira altamente eficaz de estabelecer comportamentos novos: reforçe o comportamento requerido, e você tem grande probabilidade de ter mais do mesmo. (Às vezes, é mais fácil falar do que fazer!) Claro, não podemos esquecer as contribuições culturais de Skinner, implorando-nos para perceber – com livros como o tão incompreendido Beyond Freedom and Dignity (1971), e o essencial Ciência e Comportamento Humano (1953) – que muitos dos problemas que enfrentamos hoje, como sociedade, advêm do nosso próprio comportamento. Para resolver esses problemas é necessária uma ciência do comportamento efetiva. Para uma descrição mais completa do pensamento e das teorias de Skinner, eu recomendo começar pelo livro Ciência e Comportamento Humano, disponível no site da Fundação BF Skinner. E, para uma visão mais técnica, embora ainda amplamente acessível, ler os artigos da Edição Especial da American Psychologist, de novembro de 1992. A leitura do “best of” de Skinner, recolhidos no livro Cumulative Record seria um excelente passo seguinte.
Quanto à Análise do Comportamento Aplicada (Applied Behavior Analysis, ou a conhecida sigla ABA), Lovaas não a inventou. Pode-se argumentar que Skinner a inventou, ao menos conceitualmente, em seu romance de 1948, Walden Two. A contribuição especial de Lovaas foi mostrar que é possível, com a aplicação integral e intensiva de princípios da teoria da aprendizagem, tratar efetivamente, e de forma eficaz, o autismo como um todo, em um número considerável de indivíduos, ou ao menos levar melhorias substanciais para aqueles que não alcançam totalmente os benefícios do tratamento. Por “eficaz” e “substanciais” entende-se que cerca de metade das crianças submetidas às intervenções ABA obtêm desempenho dentro dos limites “normais” em certos testes padrão. Em termos práticos, isso significa que essas crianças são capazes de frequentar a escola sem apoio especial. Antes que Lovaas fizesse isso, já havia provas científicas suficientes que mostravam que a ABA podia ser utilizada efetivamente para aspectos específicos de autismo.
A ABA ainda era bastante jovem quando Lovaas usou o método pela primeira vez para tentar criar um tratamento global para o autismo, na década de 1960. Mas, antes de Lovaas, começando na década de 1950, o trabalho reconhecido como ABA foi aplicado a todos os tipos de problemas de comportamento, tipicamente em pessoas com deficiência de desenvolvimento e esquizofrenia e geralmente em laboratórios e instituições. Grandes programas dedicados à Análise Comportamental Aplicada, como o Departamento de Desenvolvimento Humano e Vida Familiar (Department of Human Development and Family Life, HDFL) da Universidade do Kansas, foram estabelecidos na década de 1960. O HDFL é hoje o Departamento de Ciências do Comportamento Aplicadas. O Journal of Applied Behavior Analysis foi fundado em 1968, quase 20 anos antes de Lovaas publicar seu artigo seminal, em 1987, “Tratamento comportamental e funcionamento educacional e intelectual normal em jovens crianças autistas” (Behavioral Treatment and Normal Educational and Intellectual Functioning in Young Autistic Children), no Journal of Consulting and Clinical Psychology. Assim, ao contrário de praticamente todos os “tratamentos” para o autismo de que temos ouvido falar, ABA não é um novo “método” esperando alguém para fazer um estudo e descobrir se ele funciona em tudo. Intervenções ABA para problemas específicos de comportamento foram baseadas diretamente em princípios descobertos e comprovados em laboratórios comportamentais. Intervenções ABA abrangentes são construídas à partir de tratamentos mais direcionados, que já demonstraram eficácia. ABA não está esperando para entrar em todas as revistas científicas, ela vem de todas as revistas científicas. A pergunta típica não é o quanto a intervenção irá funcionar – esta é a parte fácil – mas se esta pode ser efetivamente aplicada no mundo real, com todas as complicações que o mundo real traz.
Mas, antes de Lovaas, não havia sido estabelecida ainda a possibilidade de efetivamente tratar o autismo como um todo através da criação de um programa abrangente de intervenções ABA. Agora, o termo ABA é muitas vezes incompreendido como significando apenas o que Lovaas fez – sua “terapia de tentativa discreta”, por exemplo – mas “ABA” realmente significa muito mais. O que é ABA? Citando livremente algo que eu escrevi para uma outra finalidade, podemos definir como ABA:
“O uso sistemático de princípios de aprendizagem cientificamente estabelecidos, técnicas de condicionamento comportamental e modificações ambientais relacionadas para criar terapias baseadas em evidências, comprovadamente eficazes e humanas, com o objetivo principal de estabelecer e reforçar habilidades de vida independente, socialmente funcionais e importantes.“
Na prática, uma análise comportamental aplicada utiliza técnicas baseadas na teoria da aprendizagem para modelar comportamentos novos e importantes em indivíduos com determinados excessos ou déficits comportamentais. Intervenções realizadas por analistas do comportamento geralmente incluem os seguintes componentes:
• Uma análise baseada em dados funcionais das condições responsáveis pelo comportamento problema.
• Objetivos e metas de tratamento específicos e verificáveis.
• Um plano bem definido usando os princípios da teoria de reforço para atender as metas e objetivos.
• Uma coleta de dados contínua para mostrar que a intervenção foi realmente a responsável pelos ganhos do tratamento.
• Um plano para garantir a generalização e a manutenção dos ganhos do tratamento.
• Medidas para garantir a validade social dos objetivos e metas do tratamento, e para assegurar que todos os envolvidos possam contribuir de forma substancial e construtiva para a melhoria de suas habilidades ao máximo de sua capacidade.
Eliminar a automutilação e ensinar habilidades acadêmicas para crianças com autismo, restabelecer habilidades de vida independente em pessoas com lesões cerebrais, treinar hábitos de higiene adequados em crianças com enurese, melhorar o atendimento médico a pessoas doentes, estabelecer hábitos de estudo eficazes em crianças em situação de risco, reduzir os hábitos repetitivos como a mania de roer unhas e a tricotilomania e reforçar o comportamento social adequado em pessoas com déficits de habilidades sociais são ilustrativos, mas não esgotam a gama de problemas de comportamento endereçados aos analistas do comportamento aplicados. Há, é claro, e sopa de letrinhas das coisas que realmente são – fundamentalmente – ABA, ou derivadas dela: Treino por Tentativas Discretas (Discrete Trial Training, TDT), Treino de Resposta Pivotal (Pivotal Response Training, PRT), Intervenção Comportamental Precoce Intensiva (Early Intensive Behavioral Intervention, EIBI), Modelo Denver, Apoio Comportamental Positivo (Positive Behavior Support, PBS) e muitos outros. Tem incomodado, ultimamente, os constantes esforços por parte dos promotores de algumas dessas coisas em tentar passá-las como não sendo ABA, ou como não sendo em grande parte baseadas em ABA, mas como algo completamente diferente. Olhe sob o capô: se é de alguma forma eficaz com autismo, você irá encontrar algum tipo de gestão de contingências em funcionamento.
Nomes associados aos esforços iniciais em construir a ABA incluem Paul Fuller, Nathan Azrin, Teodoro Ayllon, Donald Baer, Sidney Bijou, Todd Risley, Jack Michael, Montrose Wolf, Charles Ferster, Kurt Salzinger, Israel Goldiamond, e muitos outros. Aqueles que conhecem um pouco da história recordarão o primeiro esforço sistemático para aplicar ABA ao autismo por Mont Wolf, Todd Risley e Hayden Mees: “Aplicação de princípios do condicionamento operante à problemas comportamentais de uma criança autista” (Application of Operant Conditioning Principles to the Behaviour Problems of an Autistic Child) publicado em março de 1964 no Behaviour Research and Therapy. Eu acho que um bom lugar para encontrar uma visão abrangente da moderna ABA é no excelente livro de Cooper, Heward e Heron, Análise Aplicada do Comportamento (Applied Behavior Analysis). Alguns elementos da ABA também estão contidos na referida edição da American Psychologist, de novembro 1992. No entanto a ABA é um campo enorme, com uma história que remonta, se incluirmos a pesquisa básica, a bem mais de 100 anos. Assim, é impossível para um único livro para captar tudo.
A perda de Lovaas, em si, é uma ocasião de grande tristeza para os seus amigos e colegas. Mas suas contribuições vivem em suas obras e nas obras de seus alunos. Aqueles dentre nós que vieram depois aspiram imitar seu modelo e, assim, talvez, contribuir com uma fração do que ele fez para ajudar pessoas com autismo a conseguir muito mais independência e dignidade do que era possível antes do trabalho de Lovaas mostrar como poderia ser feito.”
Síntese de proteínas: um épico no nível celular*


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- Sim, estou em vias de terminar meu doutorado. E passei praticamente do meio do mês de julho ao meio do mês de agosto inteiro terminando a redação da tese.[1]
- Devo defender a tese no
fim de setembromeio de outubro desse ano. E sim, haverá uma festa. Uma grande festa. - O esquema é o seguinte: resolvi escrever a tese em um arquivo único, para não ter que ficar juntando capítulos e recolocando citações cruzadas depois, nos 48 do segundo tempo. Então, dentro de cada dia trabalhando na tese, à medida que ia acrescentando conteúdo eu salvava uma nova versão com a data daquele dia, e.g., tese_salgado_20100814.doc.
- Dentro de um mesmo dia de trabalho, cheguei a salvar várias “versões” diferentes da tese, nomeando-as de a a z, e.g., tese_salgado_20100822c.doc; tese_salgado_20100822d.doc; tese_salgado_20100822e.doc e por aí vai…
- O gráfico que apresento acima, então, mostra o quanto o tamanho do arquivo tese_salgado.doc, representado pelas bolinhas vazias (o), cresceu durante os dias em que
fiquei terminando a tesea tese terminou comigo. - Que fique claro: eu não escrevi a tese em menos de trinta dias. Isso é humanamente pouco provável[2]. Mas de fato possuía vários relatórios, artigos e resumos escritos, além de praticamente todas as tabelas, figuras e esquemas prontos. Foi só um ctrl+C e ctrl+V (do meu próprio material, lógico) do dia 24 de julho ao dia 23 de agosto de 2010, acertando o encadeamento de ideias dos resultados que obtive durante quatro anos e meio de
dedicação integral à academiapenhora da minha alma. - Possuo quatro back-ups físicos e um on-line contendo todas essas versões de arquivos .doc em dias diferentes. E, logicamente, esses back-ups todos estão em locais diferentes. Viu, caro provedor de hospedagem?
Do modelo à realidade?

Primeiro vieram os astrônomos, observando os movimentos dos corpos celestes e coletando dados. Em segundo lugar vieram os matemáticos, inventado a notação matemática para descrever os movimentos e ajustar os dados. Em terceiro vieram os técnicos, fazendo modelos mecânicos para simular aquelas construções matemáticas. Em quarto vieram gerações de estudantes, que aprenderam sua astronomia a partir dessas máquinas. Em quinto vieram cientistas, cuja imaginação estava tão ofuscada por gerações de tal aprendizado que de fato acreditam que era daquele modo que os céus se comportavam. Em sexto vieram as autoridades, que defendiam o dogma estabelecido. E assim a raça humana foi induzida a aceitar o Sistema Ptolomaico por cerca de um milênio.


Auld lang syne*… (3)
| Canção do exílio | |
| Minha terra tem palmeiras Onde canta o sabiá, As aves que aqui gorjeiam Não gorjeiam como lá. Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores, Nossos bosques têm mais vida, Nossas vidas, mais amores. Em cismar sozinho à noite, |
Minha terra tem primores Que tais não encontro eu cá; Em cismar – sozinho, à noite - Mais prazer encontro eu lá, Minha terra tem palmeiras Onde canta o sabiá. Não permita deus que eu morra |
| (Gonçalves Dias in Primeiros Cantos) | |
Disclaimer: Sei que o ideal seria
se pudesse oferecere referências melhores – se não de material de
primeira mão, ao menos de artigos acadêmicos que analisaram tais
documentos ou, no máximo, de livros-textos da área -, mas acabei usando
como atalho, para esta série sobre os países participantes da Copa 2010,
referências terciárias – e que nem dizem respeito diretamente à questão
etimológica. Em muitos casos, a Wikipedia (anglófona, claro) foi
utilizada como material para consulta incial (procurei verificar por
fontes independentes mais confiáveis). Então fiquem ainda mais atentos
para o fato de que as informações podem não ser suficientemente acuradas
(eufemismo para incorreção).
República da Coreia (kor. 대한민국 大韓民國 Daehan-minguk) ou Coreia do Sul. Naturalmente, partilha boa parte de sua história com a Coreia do Norte, da qual se separou em consequência dos primórdios da Guerra Fria entre a URSS – com os soviéticos influenciando a porção norte e os EUA, a porção sul. Situação definida até hoje após o armistício que suspendeu a Guerra da Coreia. kor. 한 Han “coreano” deve estar ligada à raiz coreana com significado de “grande, líder” (talvez ligado ao mongol khan). Após a queda dos gojoseon, os coreanos organizaram-se em uma confederação denominada 삼한 samhan (“três han”). Apesar da dinastia chinesa Han ter se aventurado em território coreano, não deve ser a origem da denominação sul-coreana do país e do povo. [1]
Estados Unidos da América (ing. United States of America). Os nativos americanos chegaram ao território dos atuais EUA provavelmente da Ásia – em uma ou mais ondas – através do estreito de Behring (descoberto à época do último glacial). A data é disputada entre 12.000 e 40.000 anos a.C. ou até mais. Em 1513, o espanhol Ponce de León aportou na região da Flórida. Franceses também estabeleceram colônias. Os ingleses fixaram-se na Virgínia em 1607. Em 1776, as treze colônias inglesas declararam independência. Política expansionista levou à compra da Louisiana da França, ao extermínio de nações indígenas a Oeste e à Guerra Mexicano-Americana, com anexação de vasto território do Texas à Califórnia. O Alaska foi comprado dos russos. O Havaí foi incorporado depois que residentes americanos e europeus derrubaram a monarquia local no fim do séc. 19. Os estadunidenses são também conhecidos por americanos e eles frequentemente denominam seu país como America. América foi a denominação dada a todo o continente do Novo Mundo pelo cartógrafo germânico Martin Waldseemüller em 1507, em homenagem ao cartógrafo e explorador florentino Américo Vespúcio – o primeiro a perceber que o que hoje conhecemos como América do Sul não fazia parte da Ásia como se pensava até então. [2, p. 24-5.]
Inglaterra (ing. England). País membro do Reino Unido (ao lado da Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales). Restos de hominídeos datam de 700.000 a.C., e desde o fim do último glacial tem sido ocupado por populações humanas. Diversas tribos celtas habitaram a ilha, ocupada pelo Império Romano no ano 43 d.C e permacendo até 410. Em 1066, Guilherme, o Conquistador, liderou a conquista normanda – o que determinou a influência da língua francesa na língua inglesa, de origem germânica. Várias dinastias se sucederam no trono: Valois, Plantagenetas, Tudor… Um breve período republicano liderado por Cromwell se sucedeu entre a deposição de Carlos I em 1653 e a restauração da monarquia em 1660 com a ascenção de Carlos II. Em 1707, com o Ato da União, formalizou o tratado com a Escócia, criando o Reino Unido. Desde então, a Inglaterra é governada por monarquia parlamentarista do Reino Unido. Ing. England vem do ing. méd. Englonde, Yngelonde < ing. ant. Englaland “terra dos anglos” (em oposição aos saxões), Os anglos eram uma tribo germânica da região de Angeln da península da baía de Kiel no Mar Báltico (área atualmente em território alemão) < Angel, Angul, literalmente ângulo, pelo formato. [3]
Estados Unidos Mexicanos (esp. Estados Unidos Mexicanos) ou México. A região é habitada desde pelo menos 21.000 a.C. Diversas civilizações floresceram antes da chegada dos espanhois: olmecas, maias e, principalmente, astecas. No séc. 16, Cortés destruiu o império asteca, estabelecendo o domínio espanhol. Em 1813, foi declarada a independência, reconhecida pela coroa espanhola em 1821. Diversas formas de governo foram estabelecidas, inicialmente Império e posteriormente República. Uma vasta área do Texas à Califórnia foi perdida com o resultado da Guerra Mexicano-Americana. O nome do país é uma referência à sua principal cidade e capital Cidade do México. A origem do nome da cidade é debatida. Alguns autores atribuem ao nahuatl Mextli, nome de uma divindade, significando Mēxihco “morada de Mextli”. Outros, que viria de mētztli (“lua”) e xictli (“umbigo, centro”), isto é, “centro da Lua” ou “centro do lago Lua”. [4]
República do Chile (esp. República de Chile). As planícies chilenas são ocupadas desde pelo menos o fim do último glacial. Eventualmente o povo Mapuche desenvolveu-se, resistindo às investidas incas. Em 1520, o navegador português Fernão de Magalhães atravessou o estreito de Magalhães. A conquista espanhola foi completada por Pedro de Valdivia, sendo anexado ao Vice-Reino do Peru. Em 1818, conquistou a independência. A origem do nome do país tem múltiplas versões. Em uma delas, teria sido derivado do nome inca para o vale do Aconcágua: Chili, por sua vez, originado do nome de um cacique: Tili. Uma das mais correntes é a de que provém do mapuche: chilli (“onde a terra termina”). [5, p. 44]
República Eslovaca (eslovaco: Slovenská Republika) ou Eslováquia. Artefatos arqueológicos de cerca de 270.000 a.C. atestam a antiguidade da ocupação da área. Celtas, romanos, tribos germânicas já controlaram a região. Povos eslavos chegaram ao local no século 5 d.C. O Império Morávio formou-se e desintegro-se no séc. 9. O território foi incorporado pelo Reino da Hungria. Após a Primeira Guerra, com a região da Morávia e da Boêmia, surgiu a Tchecoeslováquia. Em 1993, a união se dissolveu, havendo a separação entre a República Tcheca e a República Eslovaca. O nome se refere ao povo eslovaco < eslovaco Slovák e tem a mesma origem do nome dos eslovenos.
Japão (jap. 日本国, にっぽん ou にほん Nihon-koku ou Nippon-koku). O arquipélago é habitado desde pelo menos 30.000 a.C. Diversos reinos dividiram o território, unificado durante o período Nara no séc. 8. O poder alternou-se entre o imperador, os senhores feudais e o chefe do exército (xogum). Em 1867, a restauração Meiji, trouxe novamente o poder para a mão do imperador. Política expansionista levou a conquistar territórios na China, parte da ilha Sacalina do Império Russo, a Coreia e Taiwan. Na Segunda Guerra expandiu seu império por vasta área do Pacífico. Mas foi derrotada pelos aliados e teve seu território bombardeado por dois artefatos atômicos. Uma monarquia parlamentarista constitucional foi imposta pelos EUA. O caracter 日 ni “sol” e 本 hon “origem, verdade, livro”. O nome Japão vem do nome chinês dado ao país, registrado por Marco Polo como Cipangu ou Zipangu, e através do malaio Jepang, registrado por comerciantes portugueses no séc. 16. (Alguns autores, no entanto, consideram que os próprios japoneses teriam dado nome ao país. No séc. 7, descontentes com a denominação 倭 Wa dada pelos chineses, teriam criado onome Jih-pen. [6, p. 15])
República Portuguesa ou Portugal. A região é habitada desde talvez uns 1,2 milhão de anos atrás, com a chegada dos primeiros hominídeos à Europa. Substituindo os neandertais (ou talvez se misturando com eles), os homens modernos ocuparam a região. Diversas tribos germânicas entre visigodos, ostrogodos, suevos e outros após a queda do Império Romano formaram
vários reinos cristãos independentes. Após a Reconquista, expulsando os mouros da península ibérica, o rei Alfonso 3o, de Leão, condeceu o condado de Portucales ao então duque galego Vímara Peres. Em 1095, declarou independência do Reino de Leão. Entre 1580 e 1640, constituiu com o Reino da Espanha a União Ibérica, sob uma única coroa. Entre 1808 e 1821, fugindo de Napoleão, a coroa portuguesa estabeleceu-se no Rio de Janeiro no vice-reino do Brasil. A partir de 1910 estabeleceu-se o republicanismo como forma de governo. Portugal vem de Portucales (através da forma Portugale), do latim Portus Cale, nome romano para a região do rio Douro. A denominação Cale é debatida. Alguns apontam para o grego καλλις kallis (“belo”) – os gregos estabeleceram colônias na região. Outro que viria do celta – antigos habitantes locais – cale ou cala, que significaria “porto” (e Portugal teria origem em um pleonasmo). [7, p. 55 e 215.]
Referências
[1] Lee,K.-B. & Yi, K.-B. 1984. A new history of Korea. Harvard University Press. 474 pp.
[2] Channing, E. 2008. A short history of the United States. BiblioBazzar. 452 pp.
[3] Websters New World College Dictionary. 3rd ed.
[4] Palacios, E.J. 1922. De dónde viene el nombre de México, México- Tenochtitlan-Aztlán?
[5] Encina, F.A., and Leopoldo Castedo (1961). Resumen de la Historia de Chile. vol. 1. 4a. ed. Zig Zag.
[6] Cannon, G.H. & Warren, N.W. 1996. The Japanese contributions to the English language [...] Harrassowitz Verlag. 257 pp.
[7] Charnock, R.S.1859. Local etymology [...] Houlston & Wright. 325 pp.
*Título de poema escocês de Robert Burns de 1788. Esc. Auld lang syne
= ing. old long since = port. há muito muito tempo.
Auld lang syne*… (2)
| Trem das Onze | |
| Não posso ficar] [nem mais um minuto com você Sinto muito amor, mas não pode ser Moro em Jaçanã, Se eu perder esse trem Que sai agora as onze horas Só amanhã de manhã. |
Além disso mulher |
| Letra e música: Adoniran Barbosa. | |
Disclaimer: Sei que o ideal seria
se pudesse oferecere referências melhores - se não de material de
primeira mão, ao menos de artigos acadêmicos que analisaram tais
documentos ou, no máximo, de livros-textos da área -, mas acabei usando
como atalho, para esta série sobre os países participantes da Copa 2010,
referências terciárias - e que nem dizem respeito diretamente à questão
etimológica. Em muitos casos, a Wikipedia (anglófona, claro) foi
utilizada como material para consulta incial (procurei verificar por
fontes independentes mais confiáveis). Então fiquem ainda mais atentos
para o fato de que as informações podem não ser suficientemente acuradas
(eufemismo para incorreção).
Mas não tá cedo ainda?
Comunidade da Austrália (ing. Commonwealth of Australia). Os primeiros habitantes da região devem ter chegado entre 42.000 e 48.000 anos atrás - talvez por porções descobertas de terras durante o último glacial, quando o nível do mar era bem mais baixo do que atualmente. Os primeiros europeus avistaram e aportaram na ilha em 1606. Em 1770, James Cook mapeou parte da costa australiana e a reclamou para o Império Britânico. Em 1942, mas com efeito retroativo a 1939, a Austrália desvinculou-se constitucionalmente do Reino Unido. O nome vem do latim australis ("do sul" < auster "vento sul"; curiosamente, a base é a raiz proto-IE *aus- "brilhar a aurora", que se conecta com a noção de "oriente", como no ing. east) e a designação Australia foi oficialmente adotada pelo Almirantado Britânico em 1824. Os holandeses, naturalmente, tinham outro nome para a ilha-continente: Nova Holanda. [1]
República da Sérvia (sérvio Република Србија, Republika Srbija). Outro país surgido da fragmentação da Iugoslávia. Por volta do séc. 14, houve um Império Sérvio, mas conquistado pelos otomanos e depois pelos austro-húngaros. Após a Primeira Guerra, reuniu-se às demais nações eslavas austrais formando os estados iugoslavos. Com as várias guerras sangrentas de separação após o colapso da URSS, a união dissolveu-se. O próximo da província separatista é Kosovo, de maioria muçulmana albanesa. “Sérvio” > sérvio Срби, Sbri provavelmente se liga à base proto-IE *ser- “vigiar, proteger”. Acredita-se que as primeiras menções nos registros ocidentais aos sérvios seja de Plínio, o Velho, e de Ptolomeu, referindo-se aos Serboi, tribo sármata do cáucaso (embora outras interpretações seja que Serboi sejam os sorábios da Lusácia germânica ou aos sirácios do Mar Negro – a possibilidade de “sérvio” não ser um nome de origem eslava leva à especulação de que os sérvios – e os croatas – não sejam de origem eslava [2, pp: 56-7]).
Nova Zelândia (ing. New Zealand, maori Aotearoa). Os primeiros habitantes devem ter sido polinésios, por volta de 1250 a.C. O primeiro europeu a chegar às ilhas foi o explorador holandês, Abel Tasman, em 1642, que as batizou de Staten Landt (“terras dos Estados Gerais (Holandeses)”). Mas o massacre impostos pelos maoris à tripulação fez com que nenhum europeu aportasse por lá até 1769, quando James Cook alcançou as ilhas em sua expedição. Vários tratados foram estabelecidos com os maoris, até que, em 1840, o Império Britânico clamou para si a autoridade sobre as terras. Em 1947, foi considerado um país independente dentro da Comunidade Britânica. O nome Nova Zeelandia foi dado por cartógrafos holandeses, em referência à província nederlandesa da Zelândia (ned. Zeeland “terras do mar”, por se tratar de um conjunto de ilhas e penínsulas). Aotearoa (“terra das longas nuvens brancas”) era o nome dado pelos maoris para a ilha Norte, atualmente se refere a todo o país. [3]
República Italiana (it. Repubblica italiana) ou Itália. A região é habitada desde pelo menos o Paleolítico. Uma longa história dos etruscos e do Império Romano de desenvolveu – estendendo-se por quase toda a Europa e adjacências. Fragmentando-se em vários estados, o país foi unificado somente no início do séc. 19. Não se conhece a etimologia do nome, mas se especula que esteja ligado ao osco Víteliú (“terra dos bezerros”, compare com a palavra “vitela”), essa interpretação é reforçada por ser o touro símbolo das tribos do sul da região. [4, p. 208]
Reino da Dinamarca (din. Kongeriget Danmark). Indícios de ocupação humana na área correspondente à Dinamarca europeia continental datam de 130.000 a 110.000 mil anos atrás. Durante os séc. 8 a 11, os exploradores e guerreiros vikings estenderam os domínios dinamarqueses até a América. Durante a Idade Média e a Era Moderna, Dinamarca, Noruega e Suécia estiveram unidos em várias ocasiões sob um único governo, na União Kalmar. Eventualmente a união se desfez. A origem e significado de Danmark é bastante debatida. Uma versão bastante comum é que dan significa “terras planas” (ligado ao al. Tenne “eira” e ing. den “caverna, covil”) e mark “floresta ou fronteira” (ligado ao ing. marsh “marca”), alguns ligam ao nome do primeiro rei Dan. [5, p. 152]
República de Côte d’Ivoire (fr. République de Côte d’Ivoire) ou Costa do Marfim. A região é habitada desde pelo menos o começo do Neolítico. Diversos reinos, incluindo muçulmanos, floresceram na área antes do domínio europeu, que chegaram em 1483. Em 1843, a França assumiu o controle na forma de protetorado. Em 1960, o país conseguiria sua independência.Como o nome sugere, um importante produto explorado durante a era colonial foi o marfim. Atualmente o comércio é ilegal, mas a população local de elefantes encontra-se seriamente ameaçada – talvez com pouco mais de 500 indivíduos somente. [6, pp: 177-80.] Ing. “Ivory” e fr. “ivoire” do lat. eboreus “de marfim” < ebur, ebor “marfim” < egíp. ‘b, ‘bw âbu “elefante, marfim”. “Marfim” < ár. عظم الفيل aẓm al-fīl, “osso de elefante” (de عظم aẓm, “osso”e فيل fīl, “elefante”). [7, p. 168.]
Confederação Suíça (al. Schweizerische Eidgenossenschaft, fr. Confédération Suisse, it. Confederazione Svizzera, romanche Confederaziun Svizra, lat.Confœderatio Helvetica). Habitantes humanos – neandertais – estão presentes na região desde cerca de 150.000 anos a.C. O território já esteve sob domínio dos francos, do Sacro Império Romano e de diversas casas reais como a dos Savoia e dos Habsburgo. Durante a Idade Média, vários cantões uniram-se em uma confederação. Nessa época várias vitorias em batalhas deram origem à fama do exército suíço – a Guarda Suíça. Em 1648, com o Tratado de Westfália, foi reconhecida a independência da Confederação Suíça em relação ao Sacro Império Romano e a condição de neutralidade nas guerras travadas entre os estados e nações europeias – neutralidade mantidade até os dias de hoje. Em 1798, a Suíça foi conquistada pelo exército napoleônico. Com a guerra entre a França e outras potências europeias: Rússia e Áustria, a Confederação readquiriu autonomia. Mas foi no Congresso de Viena de 1815 que a independência foi reconhecida e a neutralidade reenfatizada. “Suíça” vem do alemânico Schwiizer, referindo-se aos habitantes do cantão Schwyz, possivelmente relacionado ao Ant. Alto-Alemão suedan “queimar”. “Helvécia” e o lat. helvetica referem-se aos helvécios, tribo celta que, durante o Império Romano, ocupava o platô suíço, talvez ligado à raiz elw “muitos, ricos, numerosos”.
República de Honduras (esp. República de Honduras). Vários povos habitavam a região antes da chegada de Colombo às Américas. O principal foram os maias. Colombo aportou na costa hondurenha em 1502. Em 1821, obteve independência da Espanha em conjunto com outras regiões da América Central. Entre 1822 e 1838, integrou a República Federal da América Central. A origem do nome é alvo de disputadas. Em esp. honduras significa “profundezas”, e uma frase é atribuída a Colombo “Gracias a Dios que hemos salido de esas Honduras” ["Graças a deus saímos dessas profundezas"], mas não há registro de primeira mão. Uma explicação alternativa é que se ligaria ao leonense asturiano fondura “ancoradouro”. [8, p. 14.] Há um Rio Hondo (“rio fundo”) em Belize, não sei se teria alguma ligação com o nome. Até 1973, Belize era conhecida como Honduras Britânica, em oposição à Honduras Espanhola, que de
u origem à Honduras atual: que abarca a região oeste, que era conhecida como Higueiras até 1580, sendo Honduras reservada à região leste.
Referências
[1] Adamant Media. 2001. Early voyages to Terra Australis, now called Australia [...] Adegi Graphics. 343 pp.
[2] Fine, J.V.A. 1991. Early medieval Balkans [...] University of Michigan Press. 336 pp.
[3] Barber, L. 1989. New Zealand: a short history. California University. 252 pp.
[4] Herring, E. & Lomas, K. 2000. The emergence of states identities in Italy in the first millennium BC. University of London. 225 pp.
[5] Skovgaard-Petersen, K. 2002. Historiography at the court of Christian IV (1588-1648): [...] Museum Tusculanum Press. 454 pp.
[6] Blanc, J.J. 2007. African elephant status report 2007 [...] IUCN. 275 pp.
[7] Bassetto, B.F. 2001. Elementos de filologia românica. EdUSP. 380 pp.
[8] Tábora, J.M. 2002. Folklore y Turismo. Ed. Guaymuras. 143 pp.
*Título de poema escocês de Robert Burns de 1788. Esc. Auld lang syne = ing. old long since = port. há muito muito tempo.




