Esse post é parte da Blogagem Coletiva de comemoração aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. O tema dessa semana é Os blogs morreram? E para essa inauguração chamamos o amigo Roberto Takata para falar da morte, ou não, dos blogs.

Se você quiser participar acesse: http://bit.ly/SBBr10anos

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“O relato de minha morte foi um exagero.” Mark Twain 1897. [1]

Como já entrego no título, claro que os blogues não morreram. Basta constatarmos que você está lendo este texto em um.

Ok. Os blogues não morreram. Mas estão em risco de extinção em um futuro próximo? Aí é mais complicado de responder. Ao menos para os de ciência com autores brasileiros há alguns indícios nesse sentido. Como uma redução no padrão de atividade de uma amostra de 346 weblogs no estudo do qual tomei parte (Fig. 1). Ressalte-se, no entanto, que não é a única interpretação possível – pode ser que novos blogues (de ciências) estejam surgindo e o nosso levantamento não foi capaz de captá-los adequadamente. E pelo menos um estudo (com um número menor de “diários virtuais”) concluiu que estaria havendo um aumento.

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Figura 1. Variação do número de blogues de ciências ativos com autores brasileiros. Reproduzido de: Fausto et al. 2017.

Os blogues em geral – não nos restringindo aos de ciência em pt-br – aparentemente vão bem. No Worpress.com, a principal plataforma de blogues blogues* (isto é, tirando microblogues como o twitter; fotologues como o instagram ou Pinterest; videoblogues como muitos canais do YouTube; e plataformas de blogues que são mais um tipo de mídia social como o tumblr), o número total de postagens mensais vêm mantendo a tendência de crescimento desde o seu lançamento em 2005: de pouco menos de 600.000 postagens novas (25,6 milhões de pageviews) em outubro de 2006 a mais de 77 milhões de novos posts (20,7 bilhões de pageviews) em junho de 2018 (Fig. 2) (Uma cautela deve ser tomada, no entanto, já que se trata de números divulgados pela própria plataforma sem declaração de auditoria, e não um levantamento independente.)

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Figura 2. Variação do número de postagens dos blogues hospedados no WordPress.com ao longo do tempo. Fonte: WordPress.com.

Os blogues como formato de comunicação devem ainda continuar por vários anos com algum grau de influência (ainda que eventualmente setorial: para temas específicos ou para grupos específicos de pessoas). Verdade que isso é mais um desejo do que um prognóstico, especialmente para os de ciências. Se, de um lado, temos uma aparente crise na blogosfera cientófila brazuca independente (e mesmo internacional [vide nota 2]); de outro, talvez estejamos frente a um processo de institucionalização da divulgação científica através de blogues: em 2015 foi lançado o Blogs de Ciência da Unicamp e, em 2016, o portal UFRGS Ciência. De novo, mais um desejo do que um prognóstico, no entanto.

Embora atualmente na internet brasileira canais no YouTube – com centenas de milhares a milhões de views por episódio, como no caso do Manual do Mundo e do Nerdologia – e podcasts – com dezenas de milhares de ouvintes como o Dragões de Garagem ou o SciCast – tenham mais visibilidade, e várias iniciativas comecem a explorar outras mídias como o instagram, enxergo um papel importante dos blogues no ecossistema da comunicação pública de ciências online. Estes são plataformas que conseguem fazer a integração dessas outras mídias – por meio da incorporação (’embedding’) – e, melhor do que as demais, explorar a comunicação por meio do texto escrito. Por exemplo, equações são difíceis de serem exploradas em mídia de áudio, é possível de serem apresentadas em vídeo, mas explicações mais detalhadas podem ser prejudicadas pela dinâmica da narração de vídeos – no texto, as pessoas podem ir e voltar e saltar de modo mais eficiente; gráficos interativos podem ser facilmente inseridos nos blogues; e tendem a consumir menos banda (o que é um fator a se considerar quando uma fração significativa acessa via celular – se não houver um wi-fi disponível e confiável por perto, arquivos de áudio e vídeo podem esgotar rapidamente a franquia de dados). Textos também são mais maleáveis quanto à acessibilidade (ao menos de pessoas alfabetizadas) e, por enquanto, têm vantagens na indexação em mecanismos de busca, de tradução e mesmo de procura do próprio navegador. Boa parte das outras mídias têm limitações para o fornecimento de hiperlinks, especialmente para fora do site que hospeda o serviço, o que é facilmente integrado nos textos de blogues (na verdade, os links são parte do espírito blogueiro – para os leitores poderem se aprofundar, para indicar outros canais dignos de serem seguidos, para dar a fonte original…). E, possivelmente como característica principal, a produção e edição de texto também tende a ser muito fáceis e baratas do que uma boa edição de áudio e vídeo – facilitadas ainda pelo fato de a educação formal enfatizar a habilidade de escrita.

Algumas dessas vantagens poderão ser igualadas por áudios e vídeos na medida em que algoritmos se tornarem confiáveis em extrair os textos desses arquivos (permitindo, por exemplo, pular direto para trechos que falam diretamente de um termo ou assunto); outras, como links externos, dependem de alterações de políticas de serviço dos provedores (embora a tendência seja oposta, por exemplo, no facebook, que deseja manter os usuários em sua plataforma o máximo de tempo possível); mas o texto, em uma forma ou outra, tem resistido à prova do tempo.

Mesmo que os blogues blogues* não resistam às tendências atuais e futuras; os blogues nem tão blogues (como o tumblr, facebook, instagram e outros) que incorporem pelo menos alguma possibilidade de inserção de textos e explorar parte de suas vantagens devem continuar o legado. Ainda que isso seja mais desejo do que um prognóstico.

Nota:

*Blogues Blogues – blogs em formato clássico como WordPress e Blogspot

[1] A citação mais completa é:
“James Ross Clemens, a cousin of mine, was seriously ill two or three weeks ago in London, but is well now. The report of my illness grew out of his illness; the report of my death was an exaggeration.” Mark Twain, 31 de maio de 1897.
[“James Ross Clemens, um primo meu, esteve seriamente adoentado há duas ou três semanas em Londres, mas agora está bem. O relato de minha enfermidade surgiu a partir da enfermidade dele; o relato de minha morte foi um exagero.”]

[2] Como com o fechamento da versão original americana do ScienceBlogs – ATENÇÃO: o ScienceBlogs Brasil é um projeto independente e não foi afetado por essa decisão do grupo SEED.

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Neste instável mundo internético – do qual o cemitério de projetos da Google é um exemplo eloquente – não é qualquer empreitada que chega aos dois dígitos de translações terrestres.

Mais do que parabéns, devo dizer muito obrigado, ScienceBlogs Brasil, pelo belíssimo trabalho que tem feito nesta última década. Não apenas tem informado e conscientizado seus incontáveis leitores e fiéis fãs em relação a temas relacionados às ciências e dado visibilidade a tanto projetos e divulgadores incríveis; como inspirado um sem número de pessoas a seguirem a carreira científica e de comunicação de ciências. Um dos principais projetos de divulgação de uma das principais instituições brasileiras: o Blog de Ciências da Unicamp, é um filho espiritual direto dos SbBr.

Desejar longa vida aos SbBr é, assim, mais do que um cumprimento a todos os colaboradores – atuais e pregressos – e a comunidade de leitores que se formou em torno; é uma obrigação moral para alguém que aprecia e valoriza a cultura científica.

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Roberto Takata, entre outras coisas, escreve no Gene Repórter.

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