Esse post é parte da Blogagem Coletiva de comemoração aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. O tema dessa semana é Fazer Ciência, minha vida de cientista. Hoje quem escreve é Gracielle Higino, doutoranda em Ecologia e Evolução na UFG.

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cientista

 

Imagine como se sente uma criança que adora ciência ao ver na TV como os cientistas conseguiram fazer crescer algo com o formato de uma orelha humana nas costas de um rato. Talvez você tenha sido uma destas crianças, certo? Pois é, este foi o momento exato em que eu decidi que seria cientista. O engraçado é que eu não me interesso tanto assim por orelhas humanas, ou mesmo por ratos; eu sempre adorei Ecologia (lembro nitidamente da aula na primeira série em que aprendi sobre o ciclo da água e entendi por que chove). Só que esse episódio do rato não tinha a ver com minhas perguntas preferidas: foi ali que eu vi como a ciência pode alcançar feitos incríveis, e eu queria que todo mundo percebesse isso. Talvez isso as fizesse acreditar que qualquer pessoa pode conquistar coisas incríveis, com o método certo.

Foi assim que me tornei ecóloga teórica com uma grande paixão por divulgação científica. Hoje estou fazendo doutorado em Ecologia e Evolução e sempre me metendo em projetos paralelos de comunicação científica e ciência aberta. Eu me dedico bastante a estes projetos porque eu acredito que a ciência pode empoderar todos nós, e estou sempre tentando convencer meus colegas a embarcarem comigo nessas aventuras. Então eu vou contar aqui como é essa minha vida de cientista um pouco menos tradicional. Vamos lá?

Bom, pra começar, desde 2014 sou pós-graduanda (com um intervalo aí no meio de pesquisa independente). Isso quer dizer que eu faço parte de uma categoria de trabalhadores que quase ninguém entende muito bem como funciona. Nossos direitos, deveres e verbas passeiam entre o Ministério da Educação e o da Ciência e Tecnologia. A gente assiste a aulas, apresenta trabalhos, faz matrícula, paga meia entrada no cinema. A gente também dá aulas, tem contrato de dedicação exclusiva, produz a maior parte do conhecimento e desenvolvimento tecnológico do país. Porém, não temos férias, aposentadoria, adicional de insalubridade, e só recentemente conseguimos licença maternidade.

Isso também significa que eu estou naquela janela da vida em que eu tenho que explorar todo o meu potencial, tentar botar pra funcionar todos os meus planos A, B e C pra ter como me sustentar depois do doutorado sem depender de concurso ou bolsas de pós-doc (cada vez mais raras). E também é nesta fase que eu tenho que desenvolver a cientista que eu quero ser nos próximos anos, e isso, definitivamente, não inclui somente a minha tese.

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Por isso a minha rotina inclui, por exemplo, um clube de revisão de preprints, porque quero exercitar a capacidade de analisar criticamente os artigos, sabendo identificar o que eles têm de bom e no que podem melhorar. Sem contar o benefício ENORME pra ciência que é a revisão de preprints, né, mores? Os preprints são artigos científicos completos que seus autores consideram prontos, mas que precisam de discussão e maturação antes da submissão à publicação em uma revista. Às vezes a revisão pela qual esse artigo passa enquanto é um preprint já adianta bastante o processo de publicação, fazendo toda a pesquisa andar mais rápido.

Minha rotina também tem uma parte significativa dedicada à divulgação científica de alguma forma. Ano passado, toda sexta-feira à tarde eu escrevia algum texto, lia artigos sobre o assunto, atualizava a página do LEQ ou do TheMetaLand (meus labs ❤) no Facebook, ou ajudava algum colega com suas tarefas relacionadas à DC. Este ano eu mudei esse dia da DC para as quartas, que eram os dias em que me reunia com o pessoal do Mozilla Open Leaders e trabalho no meu projeto aberto, o IGNITE. O Mozilla Open Leaders é um programa de treinamento de líderes de projetos abertos, aqueles em que tudo é transparente e a liderança é descentralizada, do jeitinho que eu gostaria que funcionasse o meu futuro laboratório. O MOL me ajudou a pensar de um jeito diferente na divulgação científica, na minha carreira e na minha pesquisa. Também foi durante o MOL que eu aprendi ferramentas de gerenciamento de projetos que eu estou aplicando na minha tese com um plano de auto-mentoria.

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No meio disso tudo eu estudo como as espécies se organizam no espaço, do ponto de vista continental, e por quê. Quero entender o que tem nos locais em que as espécies estão que fazem elas estarem lá, ou o que tem nos locais onde elas não estão que fazem elas não estarem lá. Outro dia eu encontrei um texto (que infelizmente eu não sei quem escreveu) que descreve exatamente o que eu faço no meu dia-a-dia:

“[…] eu faço mundos que não são reais em computadores. Nestes mundos não-reais, eu faço muitos, muitos animais não-reais e faço eles brigarem muitas, e muitas, e muitas vezes. Então eu vejo quais animais brigaram mais. É muito legal.”

Esta é parte da minha pesquisa. Só que nos meus mundos não-reais, estas brigas geram agrupamentos de espécies ou buracos sem espécies. Uma espécie empurra a outra mais pro cantinho, ou uma faz a outra sumir, todo esse tipo de coisa.

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Quando eu era criança, lá naquela época em que eu vi o ratinho com a orelha nas costas, eu queria crescer e ter um emprego em que eu pudesse responder perguntas, e sabia que este seria um trabalho infinito, porque as respostas de vez em quando acabam, mas as perguntas não. E esta é a minha vida de cientista hoje: respondendo perguntas que nunca acabam.

gracielleGracielle Higino, doutoranda em Ecologia e Evolução na UFG, escreve no blog Hipótese Nula e toca o projeto IGNITE de treinamento em divulgação científica.

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