Esse post é parte da Blogagem Coletiva de comemoração aos 10 anos do ScienceBlogs Brasil. O tema dessa semana é Ciência e Política. Hoje quem escreve é Rodrigo Mayer, pós-doutorando em Sociologia Política na UFSC.

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Nas últimas décadas, muito se tem falado e escrito sobre o populismo. Seu uso se refere tanto a lideranças e partidos à direita (Trump, Le Pen, entre outros) quanto à esquerda (Chávez, Podemos, etc.) do espectro político que se opõe as estruturas de poder vigentes. A origem do termo remete a expansão da participação popular na arena política, fato que foi utilizado por diversas lideranças (Perón e Vargas, são os maiores exemplos na América Latina) para se opor as forças dominantes de seu período e construir uma relação simbólica com a população e, assim, legitimar seu poder (WEFFORT, 1989).

Durante as décadas de 1950 e 1960 o termo caiu em desuso e foi retomado na década de 1980, para se referir a Frente Nacional francesa. Apesar de possuírem representantes à esquerda, os novos populistas são comumente identificados como conservadores, ou seja, as estratégias populistas não se restringem a apenas uma ideologia. Como consequência do processo de profissionalização dos partidos políticos e a maior fluidez das identidades, os novos populistas focam em diversas camadas sociais, porém mantém a característica essencial do populismo que é retirada de sua legitimidade através de vínculos emotivos com o povo e se auto intitularem defensores da população.

Embora muito utilizada, a definição de populismo ainda é vaga e pode se referir tanto as lideranças originárias do processo de modernização na América Latina quanto a líderes de outras regiões que buscam extrair seu poder por meio da relação direta com o povo descontente com os rumos da política.

Mas afinal, o que é o populismo? Essa não é uma pergunta fácil de responder, pois o fenômeno pode ser definido como uma espécie de ideologia, uma forma de governo ou como um fenômeno social (CERVI, 2001). Em comum, as três definições argumentam que o populismo se refere a construção de uma relação simbólica entre o líder e parte da população através de um apelo contrário as elites, isso é, a construção de um discurso de “nós”, a população, contra setores privilegiados (CANOVAN, 1999; LACLAU, 2013).

O relacionamento com o povo – que também é pouco teorizado – é a principal fonte de legitimidade da liderança populista. Ela, não apenas discursa em seu nome, como também fala em devolver o poder ao povo. A definição deste se encontra repleto de significados, que podem ser mais gerais – como nacionalismo versus estrangeiros, população contra a elite, etc. – bem como mais específicos, como representações de etnias e culturas (CANOVAN, 1999; LACLAU, 2013). O líder, neste caso, não é apenas o auto intitulado porta voz das aspirações populares, mas também o que melhor sabe o que é bom para o povo. Por fim, esse relacionamento pode ser interpretado de duas formas: a) positivo: o líder é tido como um indivíduo que lê as demandas da população e trazê-las para a arena política e; b) negativa: em que a população é estigmatizada e considerada como incapaz de perceber apelos demagógicos e de participar do processo eleitoral. É importante notar que a visão positiva trata basicamente de características pessoais das lideranças, enquanto a negativa, carrega uma certa dose de elitismo ao considerar a população inapta a participação na esfera política

A emergência de movimentos populistas se encontra intimamente relacionada com a insatisfação e problemas com os resultados das democracias. No primeiro momento, na América Latina, o crescimento destes movimentos veio acompanhado com problemas decorrentes do processo de modernização (passagem de uma sociedade urbana para rural, baixa qualidade dos empregos, intensas migrações e, concentração do poder econômico em poucas mãos) (DI TELLA, 1997). Em um segundo momento, o populismo emana da insatisfação com as promessas não cumpridas pelos regimes democráticos (aumento de desigualdades econômicas e sociais, crise de representação, corrupção, etc. e a exclusão da população do centro do poder decisório (CANOVAN, 2004). Como alternativa a esses problemas, os populistas propõem o uso de mecanismos de democracia direta (consultas, plebiscitos, referendos) ou apelar ao povo, de modo a se sobrepor as instâncias decisórias institucionais.

Portanto, o populismo, apesar de muito citado, é um fenômeno ainda pouco teorizado nas ciências sociais (e na ciência política, em particular). O fenômeno, de modo sintético, trata basicamente da construção de uma relação simbólica entre uma liderança do tipo carismático e uma parcela da população em oposição a grupos que são identificados como portadores de privilégios.

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Rodrigo Mayer, Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Paraná, mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná, doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, pós-doutorando em Sociologia Política na UFSC.

 

Referências bibliográficas

CANOVAN, M. Trust the people! Populism and the two faces of democracy. Political studies, vol.47, n.1, p.2-16, 1999.

CANOVAN, M. Populism for political theorists? Journal of political ideologies, vol.9, n.3, p.241-252, 2004.

CERVI, E. As sete vidas do populismo. Revista Sociologia e Política, n.17, p.151-156, 2001.

DI TELLA, T. Populism into the twenty-first century. Government and opposition, vol.32, n.2, p. 187-200, 1997.

LACLAU, E. A razão populista. São Paulo: Três Estrelas, 2013.

WEFFORT, F. 1989. O populismo na política brasileira. 4ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989.

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