Um livro é uma commodity?

O que é o bom gosto? É possível cultivá-lo ou é inato? Será necessário estudar um tratado de Estética ou há como desenvolver ao longo de uma vida um senso do bom gosto? Não é inato, não é próprio de uma classe apenas, não é nem mesmo exclusivo a tradições culturais eruditas – há bom gosto na cultura popular, embora não na descartável cultura de massas, é minha impressão suassuniana.

Existe algum preconceito nessa visão, de que não pode haver bom gosto na cultura de massas? Não confundamos cultura popular com cultura massificada. Uma tem a ver com a expressão artística não erudita do povo, com a apropriação e, por assim dizer, adaptação das formas de expressão artística por indivíduos ou movimentos de bom gosto vindos do povo. Quem duvidaria do extremo bom gosto e da sofisticação de versos como estes de Patativa do Assaré:

“Canto as fulô e os abróio

Com todas coisa daqui:

Pra toda parte que eu óio

Vejo um verso se bulí.

Se as vêz andando no vale

Atrás de curá meus male

Quero repará pra serra,

Assim que eu óio pra cima,

Vejo um diluve de rima

Caindo inriba da terra.”

São versos de uma força evocativa admirável, sem falar na perfeição métrica e na habilidosa escolha das palavras. Patativa pegou o rude e arcaico dialeto sertanejo, mais apropriado a ameaças e juras de morte, na visão confortavelmente estereotipada, e fez com ela poesia de primeira categoria.Prefiro muito mais seus poemas em sertanejo do que os que escreveu em português padrão, que não era sua língua real, artificiais, formulaicos e sem espontaneidade.

Por outro lado, pode haver mau gosto na arte erudita. Vladimir Nabokov detestava a obra de Dostoievski (mas a conhecia profundamente), principalmente do Crime e Castigo, por considerá-lo confuso e de mau gosto. Nesse caso, não sei se era um julgamento estético ou um preconceito de classe. A São Petersburgo onde o aristocrata Nabokov viveu era muito diferente da São Petersburgo descrita por Dostoievski. Os verões da família Nabokov, por exemplo, eram passados em ricas propriedades rurais distantes da multidão vulgar e da inquietação política da capital da Rússia sob os Czares. Duvido que o jovem Vladimir tivesse jamais sentido “aquele peculiar mau cheiro de verão tão conhecido de cada petersburguense sem condição de alugar uma casa de campo” de que se queixa o nervoso Raskólnikov.

Paradoxalmente, mesmo o mau gosto é gosto e como Ariano Suassuna se queixava, o mal da cultura de massa é a ausência de gosto, ou melhor, é a ditadura do gosto médio, pior do que o mau gosto. Nabokov não negava que Dostoievski era um artista, embora o considerasse um artista do mau gosto e Suassuna, em sua Iniciação à Estética, fala mesmo de artistas que preferem fazer uma Arte do Feio. Os produtos da cultura de massa são outra coisa, são comércio, não arte. Para mim, isso fica explícito e claro na expressão “best seller”, o que vende melhor – não se faz referência à qualidade artística, mas à capacidade de vender.

George Orwell entendeu bem, em seu 1984, o “espírito” da cultura de massas ao descrever os livros produzidos por máquinas novelizadoras no Departamento de Ficção do temido Ministério da Verdade, livros que “não passavam de artigos que tinham de ser produzidos, como botinas ou compotas”, volumes que “só têm seis enredos, que são misturados e adaptados”, produtos para o entretenimento dos “proles”. Aliás, o livro, na cultura de massas, deixa de ser uma obra de arte e passa a ser mais um produto da poderosa e onipresente indústria do entretenimento, como séries de televisão, novelas e matérias do Jornal Nacional.

Em um dos trechos de 1984 transcritos acima, os livros são comparados a artigos banais como cadarços e geleias. Na tentativa de deixar mais clara minha tese, gostaria de transcrever o original em inglês: “Books were just a commodity that had to be produced, like jam or bootlaces.” Não vou discutir a pequena infidelidade da tradução de Wilson Velloso. Quero na verdade me deter um pouco na palavra “commodity” do original. No dicionário de inglês que uso em meu celular, commodity é definida como “an article of trade or commerce, especially a product as distinguished from a service”.

Um livro, ao ser definido como commodity, não passa de “um artigo de negociação ou comércio”, não diferente de uma tonelada de soja ou uma carga de açúcar. E assim as músicas de Apocalypso, a maior parte dos filmes holywoodianos, a Veja, copos de plástico e guardanapos de papel. E talvez as personalidades que se formam consumindo todo esse lixo cultural.

Cultivo protegido ou plasticultura?

Agricultura protegida e plasticultura são a mesma coisa? Nas regiões tropicais, como o Brasil, sim. O cultivo sob ambiente protegido surgiu no norte da Europa, no século XVII, com as orangeries, construídas por grandes Casas aristocráticas com o objetivo de ter, no clima frio setentrional, disponibilidade das doces frutas tropicais ou subtropicais, como as laranjas, que deram nome às estruturas. Eram feitas de vidro que, ao capturar a radiação infravermelha no interior das estruturas, criavam o efeito estufa e permitiam calor suficiente para se cultivar. Isso deu origem à ainda hoje florescente agricultura protegida de países como a Holanda.

Dois fatores foram essenciais para o avanço do cultivo protegido em escala comercial no mundo e, particularmente, nos trópicos. O primeiro foi o entendimento das necessidades nutricionais das plantas e as formas sob as quais os nutrientes são absorvidos – isso tornou possível técnicas como a fertirrigação e a hidroponia. O segundo fator foi o desenvolvimento, na década de 30 do século XX, de filmes de polietileno, possibilitando a substituição do vidro pelo plástico.

Em 1948, o Professor Emery Myers Emmert, da University of Kentucky, usou pela primeira vez um filme de polietileno como cobertura de uma estufa, em substituição ao vidro. O advento do polietileno de baixa densidade substituindo o vidro possibilitou, por sua vez, o surgimento e a adoção crescente da agricultura em ambiente protegido nos trópicos. O plástico ainda permite a criação do efeito estufa, mas em menor intensidade do que o vidro. Nas regiões mais quentes e úmidas do mundo, a agricultura protegida é realizada por outras razões que simplesmente a proteção contra o frio. Aqui, o objetivo é proteger as culturas, principalmente hortaliças e ornamentais, da chuva, do vento, da luminosidade excessiva, das pragas e doenças.

Em grande parte do Brasil, a chuva em excesso é grande inimiga da produção de hortaliças. É necessário lembrar que nesse tipo de produção, o que conta não é apenas a quantidade produzida, mas também a qualidade, inclusive visual, do que se produz. As intempéries, assim como insetos e microrganismos, podem afetar negativamente a qualidade física e organoléptica das hortaliças.

Tanto sob estruturas protegidas quanto em campo aberto, a utilização de mulches plásticos tem aumentado. O objetivo principal é o controle de plantas invasoras – com a cada vez mais intensa urbanização da população brasileira, falta gente para trabalhar no campo e soluções que demandem pouca mão de obra têm ganhado popularidade.

A cobertura plástica sobre o solo impede o crescimento das espécies invasoras ao impedirem que a luz do sol chegue às mesmas e ao mesmo tempo em que diminui a necessidade de mão de obra, previnem o uso de herbicidas. Vale ressaltar ainda que essas coberturas podem auxiliar na economia de água, diminuir as variações de temperatura e até mesmo ajudar a controlar insetos praga, visto que plásticos de cor branca parecem confundir os insetos e impedir que cheguem às plantas cultivadas.

A produção de hortaliças é uma alternativa atraente para o produtor rural em termos de geração de renda, embora seja reconhecidamente uma atividade de maior risco do que outros tipos de cultivos, principalmente pela maior vulnerabilidade a problemas de fitossanidade, desordens fisiológicas e condições climáticas. Além dos efeitos deletérios sobre a produção, a qualidade do produto pode também ser comprometida.

O cultivo de hortaliças sob ambiente protegido pode ser considerado um passo adiante na tendência de se manejar o ambiente do agroecossistema visando minimizar as condições potencialmente estressantes que pudessem comprometer a produção agrícola. Além de melhorar o controle sobre disponibilização de nutrientes e água e de prevenção ao ataque de pragas e patógenos, o cultivo protegido introduz algum controle também sobre o microclima ao modificar mais ou menos drasticamente a temperatura, a umidade e a luminosidade.

Uma das principais finalidades do cultivo protegido moderno é o plantio das culturas, normalmente hortaliças, em períodos (ou locais) em que as condições climáticas não são adequadas ao cultivo não protegido. Nestes períodos, a oferta dos produtos no mercado é mais baixa e sua cotação mais elevada. Além das questões climáticas e mercadológicas, o plantio de hortaliças em ambientes protegidos pode evitar ataques de pragas e patógenos, reduzindo a aplicação de produtos químicos biocidas, embora no cultivo em solo a incidência de doenças possa ainda ser um problema se práticas culturais tais como a rotação de culturas não forem convenientemente adotadas.

Hortaliças e inflação

As hortaliças têm sido acusadas de contribuírem para o aumento da inflação, em grande parte devido à sazonalidade de oferta e de preços ao longo do ano, ou seja, por grandes variações nos preços dependendo da quantidade de oferta dos produtos hortícolas de acordo com as estações. Isso parece acontecer particularmente com as espécies tomate, cebola, batata, cenoura e alface. Essas espécies não são produzidas em todas as regiões do Brasil em todas as épocas do ano. Na verdade, boa parte das hortaliças que em geral consumimos são originalmente de climas temperados ou frios e ainda não estão bem adaptadas a condições realmente tropicais, quentes e úmidas. Por uma série de razões, ainda não se consegue produzir satisfatoriamente  tomate, cenoura e batata na região Amazônica, por exemplo.

Até o início da década de 80 do século XX, as variedades de cenoura plantadas no Brasil eram exclusivamente variedades chamadas “de inverno”, as quais produziam exclusivamente no Sul do país. Com o desenvolvimento e lançamento da variedade Brasília, primeira variedade de cenoura dita “de verão”, resistente a condições mais quentes, esta olerícola deixou de ser uma espécie raramente vista nas mesas e nos pratos brasileiros, houve um decréscimo nas variações sazonais de oferta da mesma e os preços também deixaram de variar tanto. Aliás, a tropicalização de várias espécies agrícolas é uma das causas do sucesso da agricultura brasileira. O que poderia ser feito para diminuir o impacto da variação sazonal? Do ponto de vista técnico, tenho algumas ideias, que gostaria de explorar aqui.

Em primeiro lugar, acredito que o que foi feito para a cenoura deveria ser feito, se possível, também para outras culturas. A tropicalização de espécies agrícolas não é uma tarefa fácil e não se limita a inserir tolerância a altas temperaturas. Junto com altas temperatura e umidades vêm as doenças, principalmente fúngicas e bacterianas. Para hortaliças, não há possibilidade de tropicalização sem resistência ou pelo menos tolerância a doenças. Um grande desafio para a produção de solanáceas, como tomate e pimentão, na região Norte do Brasil, é a presença praticamente ubíqua de uma bactéria, a Ralstonia solanacearum, que causa a murcha bacteriana, nos solos daquela região.

O sucesso do cultivo não se limita à disponibilidade e à escolha de cultivares adequadas. Todo o sistema de produção deve estar adaptado às condições climáticas, de solo e mesmo culturais regionais. Há algum tempo presenciei um agricultor de Manaus que adquirira estufas israelenses e tentava produzir alface dentro das mesmas. A temperatura média certamente superava o conforto térmico da espécie e as plantas de alface rapidamente pendoavam, mesmo as de variedades com alguma adaptação ao calor.

Embora no exemplo anterior a escolha de estruturas protegidas não tenha sido adequada, não há dúvidas de que a garantia de disponibilidade mais homogênea de hortaliças ao longo do ano passa pela adoção mais ampla do cultivo em ambiente protegido. Aliás, uma das razões por que se migra para a agricultura protegida é a possibilidade de se produzir quando e onde normalmente não seria possível. Ainda há lacunas no conhecimento e na disponibilidade de tecnologias de controle ambiental para uma maior disseminação do cultivo protegido em regiões tropicais como boa parte do Brasil, mas já há equipes trabalhando intensamente no assunto.

A concentração da agricultura protegida ao redor de centros urbanos, maiores consumidores de hortaliças, torna possível a aproximação dos centros produtores e dos centros consumidores, diminuindo as perdas devidas ao transporte inadequado de longas distâncias. As perdas pós-colheitas certamente têm um papel importante na oferta de hortaliças e consequentemente nos preços. Para algumas espécies, no Brasil, as perdas após a colheita chegam a 40%, por uma série de razões. Ainda na fazenda há perdas, principalmente por armazenamento inadequado – poucas são as propriedades com casas de embalagem (packing houses) ou estruturas de refrigeração. O próprio padrão exigido dos produtos é causa de perdas em alguns casos. Estima-se, por exemplo, que pelo menos 20% da cenoura produzida na região do Alto Paranaíba, em Minas Gerais, perdem-se no campo simplesmente porque não exibem o padrão de tamanho e grossura exigidos pelo mercado.

Perdas pós-colheita são um problema extremamente complexo. As causas das perdas, não apenas de hortaliças, são várias. Perde-se nas propriedades, perde-se no transporte em estradas de má qualidade, em caminhões sem refrigeração, com acondicionamento inadequado. Perde-se quando o produtor “tomba” ou transfere seu produto de suas caixas, não raro de madeira, para as caixas de comerciantes nas centrais de abastecimento, onde as hortaliças via de regra permanecem sem refrigeração até irem para os supermercados, onde igualmente se perde pelo empilhamento excessivo nas prateleiras, que continuam sem refrigeração.

Enfim, há muito o que se fazer, em termos de pesquisa, mas principalmente em termos de transferência de tecnologia e de subsídios públicos. Vários atores devem conversar harmoniosamente – Ministérios da Fazenda, da Agricultura, do Desenvolvimento Agrário, do Planejamento, instituições de pesquisa e de extensão rural, agências de fomento. O setor de produção de hortaliças se ressente da ausência de estatísticas confiáveis e atualizadas – dados econômicos, mas também geográficos e de produção, para que se possa planejar racionalmente a produção.

Programa “Conexão Ciência” sobre cultivo de hortaliças em ambiente protegido.

A agricultura familiar no Brasil

Maria Thereza Macedo Pedroso
Pesquisadora da Embrapa Hortaliças

A FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura) deliberou ser este o “Ano internacional da agricultura familiar” e o governo brasileiro vem organizando diversos eventos destinados a ressaltar sua importância social e econômica. Como a expressão “agricultura familiar” foi fortemente institucionalizada e, assim, utilizada por quase todos, o que significa exatamente? O senso comum parece aceitar que sempre teria sido um conjunto social sem nenhum desafio de definição, sugerindo talvez uma referência aos “pequenos produtores” e apontando para as famílias rurais com menos recursos, inclusive no tocante ao acesso à terra.

Em 2011, publiquei sob o selo da Embrapa, como coautora, um longo artigo intitulado “Agricultura familiar: é preciso mudar para avançar”. Nesse estudo, demonstrou-se que, de fato, inexiste um conceito correspondente e, portanto, também não há uma “teoria da agricultura familiar”. Pelo contrário, argumentou-se que no Brasil a expressão resultou especialmente da mobilização sindical e da ação de mediadores políticos, animados por visões particulares, por eles desejados, sobre o desenvolvimento das regiões rurais. Desta forma, sem surpresa, pois movida por razões especialmente políticas, a institucionalização da expressão agricultura familiar (em 1995) ignorou ser a agricultura uma atividade que é, primeiramente, econômica.

Excetuado o critério de “administração do estabelecimento” (pela família), os outros preceitos legais, ao contrário, não são econômicos. Segundo o estipulado pela Lei nº 11.326 (2006), “(…) considera-se agricultor familiar e empreendedor familiar rural aquele que pratica atividades no meio rural, atendendo, simultaneamente, aos seguintes requisitos: (I) não detenha, a qualquer título, área maior do que quatro módulos fiscais; (II) utilize predominantemente mão-de-obra da própria família (…); (III) tenha renda familiar predominantemente originada de atividades econômicas vinculadas ao próprio estabelecimento ou empreendimento.” Daí a pergunta: por que esses critérios não se prenderam estritamente à natureza econômica das atividades agropecuárias?

O primeiro requisito diz respeito ao tamanho do estabelecimento. Em todo o país, são limites que podem comportar atividades produtivas muito distintas, englobando desde subconjuntos totalmente integrados a mercados, como certos tipos de produção de hortaliças, a outros casos de famílias com rendas muito baixas e vivendo em relativa pobreza, ainda que detentoras de áreas maiores.

O segundo critério sugere que se utilize “predominantemente mão-de-obra da própria família”. Mas, por que esses produtores não poderiam contratar trabalhadores? Se existem inúmeras empresas que são familiares, em outros ramos produtivos que não a agricultura, mas contratam muitos trabalhadores assalariados, por que somente os pequenos produtores rurais não poderiam fazê-lo, à medida que suas atividades cresçam e, assim, mais trabalhadores são necessários ao processo produtivo? De fato, a justificativa para esta exigência, na origem da lei, é meramente política. A razão é uma teoria de exploração social que é parte de algumas tradições teóricas das Ciências Sociais, normalmente perspectivas anticapitalistas. Sob tal orientação, são teorias que demonizam “os patrões” do mundo rural e, por via de consequência, defendiam (e defendem) que o mundo rural deve ser ocupado somente por propriedades familiares, nas quais os membros da família sejam, também, os próprios trabalhadores, não existindo assim a exploração do trabalho assalariado.

Confrontada, contudo, com as realidades das regiões rurais, onde a contratação de trabalhadores externos ocorre amiúde, a saída encontrada foi incorporar o “predominantemente” sugerido na Lei, abrindo uma janela para a contratação “esporádica” de um pequeno número de assalariados rurais por parte dos pequenos produtores. Mas, um critério que nem remotamente foi motivado por qualquer justificativa econômica.

Finalmente, o terceiro requisito estipulado é ainda mais excêntrico ao prever que a adjetivação “familiar”, na prática, estabeleça um teto para o nível de ganho das famílias rurais, pois a “(…) a renda familiar [precisa ser] predominantemente originada de atividades econômicas vinculadas ao próprio estabelecimento”. A justificativa para este critério não se sustenta sob nenhum argumento econômico. As experiências de sociedades onde a agricultura mais se desenvolveu indicam, pelo contrário, que as famílias rurais ampliaram as suas chances de prosperidade exatamente quando alguns de seus membros diversificaram suas atividades, seja o trabalho rural não agrícola ou aquele fora das regiões rurais, embora continuassem residindo com a família no estabelecimento. Em praticamente todas as situações, o trabalho fora da propriedade tem sido uma forma de complementação de renda essencial à manutenção da propriedade rural. Como explicar este preceito tão estranho no caso brasileiro?

A hipótese apresentada no artigo citado para explicar este esdrúxulo terceiro critério é que sua inserção deve-se ao imaginário religioso imperante em áreas rurais. Em especial, entre os dirigentes sindicais e operadores políticos que estiveram presentes na formulação da ideia sobre agricultura familiar na primeira metade da década de 1990. Suas visões de mundo sempre mantiveram um ideal de sociedade rural que continha tonalidades idílicas de preservação de comunidades integradas por pequenos produtores dedicados à produção do autoconsumo e “protegidos” da ação dos mercados.

É preciso portanto, mudar a lei brasileira da “agricultura familiar”. É preciso reconhecer com urgência que a agricultura é uma atividade econômica e, assim, estabelecer critérios correspondentes para delimitar este conjunto social, abandonando os requisitos que, acima discutidos, não se aplicam às realidades rurais. Assim, a expressão agricultura familiar passará a ter um significado concreto e não, como ocorre no Brasil, especialmente ideológico.

Ainda uma reflexão sobre agricultura sustentável

Em um mundo de opiniões simplificadas e superficiais, a palavra sustentabilidade tem sido abusada e aplicada sem análises mais aprofundadas. Todos querem um mundo mais sustentável, uma sociedade mais sustentável, uma agricultura sustentável. Todos querem isso e parecem  pensar que fazer ou não fazer algo sustentavelmente é uma questão de vontade, individual ou coletiva. Assim, quanto a agricultura, o consumidor bem informado e preocupado com os rumos  do mundo parece ter a impressão  que a agricultura não é sustentável porque o agricultor não quer. O ser ou não ser sustentável se torna uma medida quase moral – quem é sustentável é bom, quem não é, é mau. Serão as coisas assim tão simples?

O consumidor de hortaliças, desejoso de uma alimentação mais saudável, preocupa-se com os relatos de uso excessivo de agrotóxicos na produção olerícola e ressente-se dos maus produtores ambiciosos que assim atrapalham seu estilo de vida. A impressão que se tem é que banham as hortaliças mesmo por maldade, por se recusarem a ser sustentáveis. Por que se utilizam agrotóxicos? Por muitas razões, entre outras porque o consumidor exige hortaliças de aparência perfeita, sem injúrias, sem mordidas ou raspaduras de insetos. Além disso, dado que o consumidor exige que o alimento chegue em sua mesa a um preço baixo, para conseguir algum lucro o agricultor deve ter escala, produzir muito. Qualidade visual e quantidade, duas das razões para o uso de agrotóxicos e adubos químicos de alta solubilidade, duas exigências do mercado – e quem é o mercado?

Há clara percepção de que os produtos da agricultura orgânica apresentam menor risco químico, mas pela escassez de variedades realmente adaptadas a esse sistema de manejo e de insumos em quantidade suficiente, a produção nesse tipo de sistema é menor do que no convencional – com menor oferta, os preços são mais altos, é uma lei mercadológica básica. Os produtos podem ser mais limpos, mas apenas uma minoria pode pagar. O consumo médio de hortaliças no Brasil ainda é muito pequeno, estamos ainda na etapa de convencer a população a comer mais esses produtos, não chegamos na fase em que se pode esperar que o consumidor pague caro por isso.

Periodicamente os meios de comunicação alardeiam a notícia de que uma vez mais análises demonstraram que há resíduos de agrotóxicos não registrados em hortaliças. O que não se divulga é que para muitas hortaliças há um número muito pequeno de produtos químicos registrados apenas para citar um exemplo, até há pouco tempo, para a cultura da mandioquinha-salsa, o único produto registrado era um herbicida. Isso significa que se um produtor de mandioquinha-salsa tivesse algum problema de fungos ou insetos em sua cultura, ou ainda que se dispusesse a utilizar fungicida ou inseticida da quantidade indicada, obedecendo rigorosamente os prazos de carência, ele estaria agindo erradamente, visto que não havia fungicidas ou inseticidas registrados para uso naquela cultura.

Sustentabilidade não é um conceito simples, nem as visões do que vem a ser sustentabilidade necessariamente são as mesmas. A pesquisa científica e o diálogo sem preconceitos são urgentemente necessários para que a agricultura seja realmente mais sustentável e para que a crescente população mundial possa se alimentar melhor. A discussão mutuamente surda, baseada em visões maniqueístas do “outro lado” têm na verdade esvaziado o diálogo e conduzido o que deveria ser uma reflexão científica e técnica para um campo muito mais próximo da discórdia religiosa ao redor de dogmas irreconciliáveis, o que é um absurdo inaceitável.

Nova coleção busca atrair a atenção das crianças para as hortaliças

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Katia Marsicano (03645 MTB-DF)  
Embrapa Informação Tecnológica

Qual foi a mãe que, um dia, não precisou se desdobrar para convencer o filho a comer pelo menos um pouquinho de salada na hora do almoço? Um pedacinho de tomate que fosse… Ou uma folhinha de alface. Chuchu, berinjela, pepino, quiabo e chicória, então, nem adianta tentar, caso contrário é choro e birra na certa. Entre as hortaliças, só a famosa batatinha do fast food parece ter vez no cardápio infantil.

Pensando em mudar essa realidade e provar que nem tudo está perdido, a pesquisadora Milza Moreira Lana, da Embrapa Hortaliças (Brasília ,DF), resolveu apostar no desafio de conquistar a atenção da garotada, e acaba de lançar a coleção Hortaliças para crianças. São três volumes ilustrados, com linguagem simples e direta, como um diálogo entre amigos – tudo para desmitificar a imagem, a princípio pouco atraente, das hortaliças e transformá-las em algo que, além de alimentar, pode até divertir. Por quê não?

“A acelerada urbanização no Brasil impede que as crianças tenham contato com a produção de alimentos e por isso não conseguem reconhecer muitas frutas e hortaliças em seu estado natural”, conta a pesquisadora. “E como elas não conhecem, não têm interesse em consumir”. Para se comunicar com o universo infantil, Milza lembra que foi preciso usar um estilo de texto e um visual atraentes, que encantassem o olhar dos pequenos. “Eu não queria um livro de estórias em que a hortaliça fosse humanizada, mas um livro sobre como é a hortaliça de verdade”, afirma. “Eu queria um livro técnico para crianças e esse foi o maior desafio: equilibrar o caráter realista do texto e das imagens com o universo lúdico”.

Segundo a pesquisadora da Embrapa, outros fatores também pesaram no processo de criação dos livros. “O carinho e o respeito que tenho pelo alimento, quando coloco uma salada no prato e quando vou à feira são muito importantes, porque penso na quantidade de conhecimento e de trabalho que resultou naquele alimento, quantas pessoas trabalharam para que ele chegasse ao mercado”, comenta. “Acho que conhecer as plantas é uma grande aventura tão divertida quanto filme de super-herói”.

Tomate e maçã 
Além dos aspectos nutricionais das hortaliças, os textos procuram aproximar as crianças do alimento, com referências ao dia a dia da família. O tomate, por exemplo, é lembrado como o principal ingrediente do catchup e dos molhos, mas também pode virar suco, geleia e, claro, fazer parte de diversos tipos de salada e sopas. “Tomate é tão gostoso que dá para comer como se fosse uma maçã”, sugere o livro.

Com a coleção, os leitores têm a oportunidade de saber como as hortaliças nascem e se desenvolvem, aprendem a realizar experiências de plantio em casa e ainda têm à mão uma seção de curiosidades científicas, jogos de adivinhação e até receitinhas fáceis e econômicas para incluir no cardápio, como a do bolinho de folha de beterraba.

Mas engana-se quem pensa que apenas as hortaliças mais comuns foram as escolhidas para a publicação. Espécies como a mandioquinha-salsa, a abóbora, o feijão-vagem e a taioba também ganharam espaço, como forma de mostrar às crianças e suas famílias que é importante variar os pratos e criar novas combinações com as conhecidíssimas cenoura, batata e tomate.

Para ser lida em casa, como qualquer outro livro de história, a coleção também pretende despertar o interesse da criança em aplicar o conhecimento apreendido quando for ao mercado ou quando fizer suas refeições com a família. Na escola, as publicações podem ser usadas como material de apoio nas aulas relacionadas com o tema ciência e alimentação.

A coleção Hortaliças para crianças é resultado da parceria editorial entre a Embrapa Hortaliças e a Embrapa Informação Tecnológica (Brasília,DF), e já está disponível na Livraria Embrapa. Cada volume custa R$ 15,00 e pode ser adquirido pelo site www.embrapa.br/livraria, pelo telefone (61) 3448 4236, ou pessoalmente na livraria, localizada no Parque Estação Biológica, W3 Norte (final), Brasília-DF.

Hortaliças orgânicas só podem ser produzidas com sementes orgânicas?

Carlos Alberto Lopes, pesquisador da Embrapa Hortaliças

Uma das formas mais eficientes de disseminação de patógenos de plantas, em especial a longas distâncias, é por meio de sementes contaminadas (infestadas e/ou infectadas). Por isso, para oferecer garantia de seu produto, as grandes empresas fazem alto investimento na produção e no controle de qualidade das sementes que comercializam. Na produção, levam em conta uma série de medidas preventivas de controle fitossanitário, como a escolha de local de plantio, a época de plantio, o tipo de irrigação, o monitoramento constante de pragas e as pulverizações preventivas, dentre outras. E, para dirimir dúvidas quanto à sanidade da semente produzida, utilizam técnicas modernas e sofisticadas, inclusive moleculares, conscientes de que, ao adquirir a semente “sadia”, o produtor evita importante fonte de inóculo inicial no sistema produtivo, ou seja, elimina o “patógeno” do triângulo representativo da doença: patógeno, hospedeiro e ambiente. Assim, cumpre-se o preceito epidemiológico de que, sem patógeno, não há como a doença se instalar e causar danos.

Na realidade, qualquer semente pode estar contaminada com algum patógeno, mesmo tendo sido produzida por firma idônea e mesmo que tenham sido seguidas todas as boas práticas agrícolas, inclusive com aplicação de agrotóxicos. Isso porque, em algumas situações, patógenos podem não causar sintomas visíveis nas plantas (infecção latente) na ocasião em que passam por inspeções visuais em campos de produção de sementes. Além disso, mesmo que sintomas venham a aparecer, eles podem passar despercebidos quando em baixa incidência, devido à dificuldade de coleta de amostras representativas do lote e limitações dos testes de detecção atualmente disponíveis.

Estando a semente contaminada com um patógeno, o risco de a doença que ele causa vir a se manifestar é variável, e será maior quanto mais suscetível for a cultivar e mais favorável for a condição ambiental. Por exemplo, sob clima quente e chuvoso, somente uma semente de tomate infectada com Clavibacter michiganensis subsp. michiganensis ou de repolho infectada com Xanthomonas campestris pv. campestris em um lote de 10.000 sementes é suficiente para provocar uma epidemia de cancro-bacteriano e podridão-negra, respectivamente. Assim, o produtor de alimentos, inclusive o de orgânicos, não pode abrir mão da sanidade da semente sob a pena de perder um robusto componente do controle: a supressão do inóculo inicial, ou seja, o patógeno no triângulo da doença.

Fato é que um importante aliado na produção de plantas isentas de doenças, em especial aquelas causadas por patógenos transmitidos pelas sementes, é o controle químico, principalmente por meio de fungicidas, muitos deles com alta eficácia quando aplicados de maneira e momento corretos. Poisso, se a produção de semente de boa qualidade fitossanitária em sistema convencional de cultivo já é tarefa difícil, na agricultura orgânica torna-se ainda mais complexa. Portanto, para garantir a mesma sanidade das sementes, há necessidade de o produtor “orgânico” compensar a ausência do controle químico pela adoção muito mais rigorosa das outras medidas preconizadas no controle integrado.

O aspecto complicador dessa situação é que, em países de clima tropical, como o Brasil, boa parte das medidas alternativas ou complementares ao controle químico são consideradas inviáveis em certas regiões de produção, seja por isolamento inadequado de outras lavouras, ambientes úmidos, correntes de vento desfavoráveis, solos argilosos, vegetação nativa hospedeira de patógenos e vetores etc. Assim, mesmo que muitas medidas de controle sejam executadas dentro das boas práticas culturais, existe um grande risco de ocorrência de doenças nas plantas e, consequentemente, nas sementes, levando-se em conta que as mesmas rígidas normas dos sistemas convencionais sejam seguidas nos sistemas orgânicos.

É bom lembrar que o princípio básico da agricultura orgânica, que é a possibilidade de conviver com a presença de patógenos e admitir pequenos danos na lavoura, não é tolerado para a produção de sementes. Sob o ponto de vista epidemiológico do controle eficaz, diferentemente do que pode ocorrer com a parte vegetativa da planta, a semente tem que ser sadia… e ponto final. O produtor, certamente, não admitirá arriscar a contaminação da sua lavoura e da sua área de produção pelo plantio de lotes suspeitos de sementes.

Feitas essas colocações, fica a pergunta, que pode ser subsídio a uma discussão mais ampla “do ideal e do possível” para a agricultura orgânica: Onde reside “pecado” maior: Utilizar sementes que tenham sido produzidas fazendo uso de produtos de baixa toxicidade humana  e que poderiam até ser analisadas para tolerância de resíduos? Ou correr o risco de não ter disponível um insumo (sementes genuinamente orgânicas) ou tê-lo caro e/ou desprovido de garantia e confiabilidade necessárias, visto que podem comprometer os sistemas de produção de alimentos orgânicos?

A Câmara Temática da Agricultura Orgânica, na sua última reunião de 2013, se posicionou com maturidade ao revisar a Instrução Normativa (IN) nº 46, de 6 de outubro de 2011, que proibia, a partir do dia 19 de dezembro de 2013, a utilização de sementes e mudas tratadas, permitindo apenas o uso de sementes orgânicas. Nesta reunião, a Câmara propôs a revogação do prazo desta obrigatoriedade dada à escassez de sementes orgânicas para atender ao processo de certificação da cadeia produtiva. Prevaleceu a autoridade no assunto e o bom senso do Dr. Rogério Dias, coordenador de Agroecologia do Ministério da Agricultura (Mapa):  “Se as normas forem muito complexas, desestimulam os produtores. Este esforço da Câmara consiste em enxugar e adaptar a legislação à realidade”.

Como sugestão para o estabelecimento de normas para a produção orgânica: 1) estender o uso atual de sementes convencionais, como atualmente permitido, porém aprovando sementes com baixo resíduo de agrotóxicos (empresas interessadas se encarregariam das análises de resíduos) ; 2) a médio prazo, normatizar o uso de alguns produtos químicos de baixa toxicidade, de ação exclusivamente de contato e facilmente biodegradados no solo para a proteção da lavoura destinada à produção de “semente orgânica”; 3) prospectar áreas e regiões  que possibilitem os candidatos a produtores de “sementes verdadeiramente orgânicas” (este termo não é apropriado, mas compreensível no contexto) se organizem para terem as respostas quanto à viabilidade técnica e econômica de produção, além da capacidade de atender a demanda nacional.

A revolta da pequena burguesia

Em parte fui treinado e em parte treinei a mim mesmo para ter uma perspectiva histórica mais ampla, a tentar entender as questões atuais vasculhando a genealogia dessas mesmas questões – de onde vêm, a quais questões passadas se ligam, a quais questões maiores se filiam? Acredito piamente nas palavras de Otto Maria Carpeaux, “As vozes proféticas do passado ensinam-nos a interpretar a nossa situação.” Em tempos de Twitter, quando tudo deve ser dito em cento e quarenta caracteres, ninguém quer se dar ao trabalho de olhar o passado para interpretar o presente – o presente vive-se, o presente surge por geração espontânea, o presente é a última trend do Facebook, #aspalavrasmaiscitadas. Não há mais passado: há mal escritos e porcamente estudados livros de História.

O abandono da História conduz-nos inexoravelmente à ausência de lastros institucionais e culturais, tornamo-nos, como povo, uma massa sem forma, moldável por quem tiver mais força. Não é sem alguma consequência que se adota dogmaticamente o relativismo histórico, cultural e moral – o que em dose moderada desabona os preconceitos, em dose excessiva pode levar um povo a perder sua identidade, extinguir valores sem criar outros que os substituam. Chegamos a um ponto, que considero excessivo, em que um povo que se orgulha de sua História e de suas instituições é inapelavelmente chamado de fascista. Vivam as minorias e somente as minorias! O relativismo absolutista está nos levando ao niilismo – não valorizamos nem respeitamos nada.

Niilismo político. Os comentaristas de política, todos com agenda ideológica comprometidíssima, sublinharam à vontade a pouca receptividade dos manifestantes recentes às bandeiras políticas – culpou-se a descrença nos governantes e representantes, a revolta contra a corrupção, a decepção com os partidos. Foi tudo isso, mas isso tudo sempre existiu no Brasil e em toda manifestação sempre houve bandeiras, o que houve agora? Qual foi a ruptura claramente histórica que nos levou a essa intransigência que alguns, sempre prontos a julgamentos tão profundos quanto um pires, já adjetivaram de fascista?

Houve a ascensão do Partido dos Trabalhadores ao poder. Alguém já se perguntou como se sentem os que acreditam no fim do mundo no dia seguinte à data prevista, o mundo continuando como está? Imaginemos então o sentimento desse mesmo grupo de crentes depois de uma segunda previsão não realizada e de uma terceira, considerando-se que esse grupo tenha alguma capacidade de pensamento crítico. Acredito que dessa forma se sente boa parte da população desse país após três governos petistas de que se esperou muito. A essa parcela da população, majoritariamente classe média trabalhadora, chamarei aqui de pequena burguesia e acho que não cometo um erro histórico grave.

Não nego nem desvalorizo as realizações desses três mandatos, não pretendo diminuir a importância dos programas de transferência de renda, a inserção internacional do Brasil, os incentivos a ciência e tecnologia, a criação de universidades, a geração de empregos. Mas não consigo ignorar os pactos políticos espúrios, não admito que se justifique hipocritamente o apoio aos Sarneys, a Maluf, a Collor de Mello, a Renan Calheiros em nome da governabilidade. Por mais que eu tente, não consigo acreditar que boa parte dos grandes nomes do Partido dos Trabalhadores não se rendeu e se beneficiou do tráfico de influências e da corrupção. Para mim, a rendição aparentemente tão fácil do PT ao “sistema” foi o último tijolo no muro do niilismo político dos manifestantes de junho e julho de 2013.

Boa parte das aspirações pós ditadura militar permaneceram no discurso tão inflamado quanto vazio. Onde ficou a educação básica pública e de qualidade? Onde o fim das oligarquias nos moldes de Sarney? Em que esquina da História ficou esquecido o combate à corrupção? Por que, apesar de pagar impostos altíssimos, tenho que pagar, caro, a escola e a saúde de meus filhos? Por que, mesmo querendo andar no metrô, sou virtualmente obrigado a comprar um carro e consumir combustível fóssil? Passamos a publicar cada vez mais artigos científicos, mas nossas análises ainda são feitas em equipamentos importados. Mesmo que boa parte de meu salário vá para o governo financiar uma segurança pública decente, tenho medo de andar nas ruas.

Minhas dúvidas poderiam permanecer dúvidas, mas quando a presidente, pressionada, resolve promover pactos para apaziguar as ruas, pergunto-me, “então não sabia que isso tudo estava por ser feito? Pior, então nada estava sendo feito para resolver esses problemas? Se não fossem as manifestações e o temor de que a multidão se transformasse em turba, tudo permaneceria como estava? Pactos?

Aqui volto ao que disse atrás sobre relativismo histórico, cultural e, acima de tudo, moral. Isoladamente, aquele parágrafo estaria melhor colocado num texto neoconservador, mesmo num texto, digamos, fascista. Não é o caso. Os que acreditaram no Partido dos Trabalhadores acharam é que era chegada uma nova era de democracia política associada à austeridade no trato da coisa pública. Não acho descabido dizer que se esperava um novo tom moral no país, que a política, ou melhor, os políticos se veriam obrigados a ser mais éticos. Talvez surgisse até mesmo uma elite política, nos moldes da que desejava Joaquim Nabuco, que ditasse os rumos morais do povo, pelo exemplo. Ideologicamente liberal, a nova elite política desconstruiu os valores julgados conservadores mas, em termos morais, não construiu nada. Criou, isso sim, um vazio, um nicho vazio que pode ser ocupado por qualquer coisa, inclusive, sim, simpatias neofascistas.

Os manifestantes agem como niilistas, parece-me, não por opção, mas por ser o que lhes restou de crenças: nihil, nada. Clamam por austeridade, justamente, mas se continuarem a receber nada, acabarão aceitando a autoridade, quem sabe até o autoritarismo.

Segundo Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, lastro é “tudo quanto se mete no porão do navio para lhe dar estabilidade”. O incrédulo e amargurado manifestante não tem mais lastros, morais, culturais, históricos. É um homem desenraizado, brinquedo nas mãos da grande mídia e do grande comerciante. Não conhece o passado, não acredita no futuro e o presente não lhe agrada. O valor que conhece é o do dinheiro, que aliás não tem. É instável e se torna inflamável.

Os petistas históricos, os petistas ideológicos parecem não entender bem o que está acontecendo já que, para eles, o processo está fluindo, as minorias estão sendo empoderadas, o bolsa família diminui, se não corrige, a cruel desigualdade de renda, constroem-se universidades nos rincões mais distantes, enfim, os despossuídos já têm alguma perspectiva de sair do abismo. A confusão dos petistas históricos vem de um equívoco – quem elegeu Lula pela primeira vez não foram eles, eles sempre votaram em Lula e não foram suficientes para o eleger. Lula foi eleito por uma multidão de insatisfeitos, em boa parte uma pequena burguesia moderadamente conservadora decidida a dar um voto de confiança sob a esperança de que seus impostos fossem melhor gastos, de que se combatesse a corrupção, o país crescesse e se desenvolvesse, de que se recuperasse a austeridade. Aspirações perfeitamente legítimas e perfeitamente traídas. Pactos?

Tendo votado em Lula, e mesmo talvez em Dilma, e ciente de que sem seu voto ele não teria sido eleito da primeira vez, a pequena burguesia atualizou sua desconfiança pré-Lula em ódio pós-Lula. O conservadorismo moderado, na decepção amarga e impotente, transforma-se em severo conservadorismo e, nos piores casos, flerta com o fascismo. E a coisa retroalimenta-se: o burguês amuado realmente não vê o bolsa família como uma medida de distribuição de renda mais democrática, ele a vê como uma mais demagógica distribuição de sua renda e considera que a massa, antes joguete das oligarquias, vota agora no PT porque foi comprada. Mas a corrupção prospera, as estradas, a educação, a saúde são péssimas, os impostos são altos. Se as aspirações dessa imensa pequena burguesia continuarem sem ser atendidas, parece-me, continuarão as manifestações e corre-se o risco de que se transformem em revolta.

 

Por que gosto de ficção científica mas não de críticos literários

Acabei de ler Blood Meridian, de Cormac McCarthy, livro sobre o qual não vou falar agora. É o segundo livro que li desse autor, o primeiro tendo sido A Estrada (The Road), sobre o qual quero falar um pouco. Comprei A Estrada meio desconfiado porque não conhecia o autor e porque sabia que já tinham feito um filme baseado no mesmo. Pensei – deve ser a típica excrescência literária americana moderna, o livro escrito para ser um filme de sucesso. Nada. O livro é soberbo. A Estrada é tão bem escrito e intenso que ainda não consegui fazer a releitura, um trabalho de artista maduro, com um domínio espantoso da técnica, criando um sonho ficcional quase tátil.

Quis imediatamente saber mais sobre o autor e descobri que é considerado um dos maiores autores vivos norte-americanos, já quase um clássico. Harold Bloom, o Stephen Jay Gould da crítica literária, considera McCarthy um verdadeiro artista. Que é isso! Fiquei entusiasmado, a crítica literária mainstream americana louvando os méritos literários de um escritor de ficção científica! Harold Bloom, o Harold Bloom, animado com o cara, já o achando um gênio…Aí encontrei um texto esclarecedor.

Assim como Steve Jobs, parece que os críticos literários, ou alguns, criam ao redor das obras que apreciam um campo de realidade distorcida. Porque apesar de eu ter lido A Estrada com meus próprios e cansados olhos de SF aficionado e ter reconhecido nesse livro uma ficção científica inequívoca e de primeira qualidade, os profissionais da crítica literária fizeram questão de deixar bem claro que A Estrada ficção científica não é. É uma fábula pura, senhores. É, como disse um mais idiota, “um épico lírico de horror”, o que quer que isso signifique. Uma história ambientada em um mundo pós-apocalíptico onde ocorreu algum tipo de catástrofe ambiental, não é ficção científica, somos informados.

O problema, parece-me, é que Cormac McCarthy, antes de The Road, era já um escritor mainstream consagrado, elogiado por Harold Bloom, não escreveria, não poderia escrever ficção científica. “Se ele escreve um livro magistralmente elaborado que qualquer forma pensante de vida classificaria como science fiction, deveríamos nós críticos de estabelecida reputação reavaliarmos nossa impressão sobre o gênero?”. Não. A realidade é nada sutilmente distorcida – a ficção científica de McCarthy não é ficção científica, é… é… é “a mais pura fábula, é um épico lírico de horror.” Aaaargh.

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