A agricultura familiar no Brasil

Maria Thereza Macedo Pedroso
Pesquisadora da Embrapa Hortaliças

A FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura) deliberou ser este o “Ano internacional da agricultura familiar” e o governo brasileiro vem organizando diversos eventos destinados a ressaltar sua importância social e econômica. Como a expressão “agricultura familiar” foi fortemente institucionalizada e, assim, utilizada por quase todos, o que significa exatamente? O senso comum parece aceitar que sempre teria sido um conjunto social sem nenhum desafio de definição, sugerindo talvez uma referência aos “pequenos produtores” e apontando para as famílias rurais com menos recursos, inclusive no tocante ao acesso à terra.

Em 2011, publiquei sob o selo da Embrapa, como coautora, um longo artigo intitulado “Agricultura familiar: é preciso mudar para avançar”. Nesse estudo, demonstrou-se que, de fato, inexiste um conceito correspondente e, portanto, também não há uma “teoria da agricultura familiar”. Pelo contrário, argumentou-se que no Brasil a expressão resultou especialmente da mobilização sindical e da ação de mediadores políticos, animados por visões particulares, por eles desejados, sobre o desenvolvimento das regiões rurais. Desta forma, sem surpresa, pois movida por razões especialmente políticas, a institucionalização da expressão agricultura familiar (em 1995) ignorou ser a agricultura uma atividade que é, primeiramente, econômica.

Excetuado o critério de “administração do estabelecimento” (pela família), os outros preceitos legais, ao contrário, não são econômicos. Segundo o estipulado pela Lei nº 11.326 (2006), “(…) considera-se agricultor familiar e empreendedor familiar rural aquele que pratica atividades no meio rural, atendendo, simultaneamente, aos seguintes requisitos: (I) não detenha, a qualquer título, área maior do que quatro módulos fiscais; (II) utilize predominantemente mão-de-obra da própria família (…); (III) tenha renda familiar predominantemente originada de atividades econômicas vinculadas ao próprio estabelecimento ou empreendimento.” Daí a pergunta: por que esses critérios não se prenderam estritamente à natureza econômica das atividades agropecuárias?

O primeiro requisito diz respeito ao tamanho do estabelecimento. Em todo o país, são limites que podem comportar atividades produtivas muito distintas, englobando desde subconjuntos totalmente integrados a mercados, como certos tipos de produção de hortaliças, a outros casos de famílias com rendas muito baixas e vivendo em relativa pobreza, ainda que detentoras de áreas maiores.

O segundo critério sugere que se utilize “predominantemente mão-de-obra da própria família”. Mas, por que esses produtores não poderiam contratar trabalhadores? Se existem inúmeras empresas que são familiares, em outros ramos produtivos que não a agricultura, mas contratam muitos trabalhadores assalariados, por que somente os pequenos produtores rurais não poderiam fazê-lo, à medida que suas atividades cresçam e, assim, mais trabalhadores são necessários ao processo produtivo? De fato, a justificativa para esta exigência, na origem da lei, é meramente política. A razão é uma teoria de exploração social que é parte de algumas tradições teóricas das Ciências Sociais, normalmente perspectivas anticapitalistas. Sob tal orientação, são teorias que demonizam “os patrões” do mundo rural e, por via de consequência, defendiam (e defendem) que o mundo rural deve ser ocupado somente por propriedades familiares, nas quais os membros da família sejam, também, os próprios trabalhadores, não existindo assim a exploração do trabalho assalariado.

Confrontada, contudo, com as realidades das regiões rurais, onde a contratação de trabalhadores externos ocorre amiúde, a saída encontrada foi incorporar o “predominantemente” sugerido na Lei, abrindo uma janela para a contratação “esporádica” de um pequeno número de assalariados rurais por parte dos pequenos produtores. Mas, um critério que nem remotamente foi motivado por qualquer justificativa econômica.

Finalmente, o terceiro requisito estipulado é ainda mais excêntrico ao prever que a adjetivação “familiar”, na prática, estabeleça um teto para o nível de ganho das famílias rurais, pois a “(…) a renda familiar [precisa ser] predominantemente originada de atividades econômicas vinculadas ao próprio estabelecimento”. A justificativa para este critério não se sustenta sob nenhum argumento econômico. As experiências de sociedades onde a agricultura mais se desenvolveu indicam, pelo contrário, que as famílias rurais ampliaram as suas chances de prosperidade exatamente quando alguns de seus membros diversificaram suas atividades, seja o trabalho rural não agrícola ou aquele fora das regiões rurais, embora continuassem residindo com a família no estabelecimento. Em praticamente todas as situações, o trabalho fora da propriedade tem sido uma forma de complementação de renda essencial à manutenção da propriedade rural. Como explicar este preceito tão estranho no caso brasileiro?

A hipótese apresentada no artigo citado para explicar este esdrúxulo terceiro critério é que sua inserção deve-se ao imaginário religioso imperante em áreas rurais. Em especial, entre os dirigentes sindicais e operadores políticos que estiveram presentes na formulação da ideia sobre agricultura familiar na primeira metade da década de 1990. Suas visões de mundo sempre mantiveram um ideal de sociedade rural que continha tonalidades idílicas de preservação de comunidades integradas por pequenos produtores dedicados à produção do autoconsumo e “protegidos” da ação dos mercados.

É preciso portanto, mudar a lei brasileira da “agricultura familiar”. É preciso reconhecer com urgência que a agricultura é uma atividade econômica e, assim, estabelecer critérios correspondentes para delimitar este conjunto social, abandonando os requisitos que, acima discutidos, não se aplicam às realidades rurais. Assim, a expressão agricultura familiar passará a ter um significado concreto e não, como ocorre no Brasil, especialmente ideológico.

Ainda uma reflexão sobre agricultura sustentável

Em um mundo de opiniões simplificadas e superficiais, a palavra sustentabilidade tem sido abusada e aplicada sem análises mais aprofundadas. Todos querem um mundo mais sustentável, uma sociedade mais sustentável, uma agricultura sustentável. Todos querem isso e parecem  pensar que fazer ou não fazer algo sustentavelmente é uma questão de vontade, individual ou coletiva. Assim, quanto a agricultura, o consumidor bem informado e preocupado com os rumos  do mundo parece ter a impressão  que a agricultura não é sustentável porque o agricultor não quer. O ser ou não ser sustentável se torna uma medida quase moral – quem é sustentável é bom, quem não é, é mau. Serão as coisas assim tão simples?

O consumidor de hortaliças, desejoso de uma alimentação mais saudável, preocupa-se com os relatos de uso excessivo de agrotóxicos na produção olerícola e ressente-se dos maus produtores ambiciosos que assim atrapalham seu estilo de vida. A impressão que se tem é que banham as hortaliças mesmo por maldade, por se recusarem a ser sustentáveis. Por que se utilizam agrotóxicos? Por muitas razões, entre outras porque o consumidor exige hortaliças de aparência perfeita, sem injúrias, sem mordidas ou raspaduras de insetos. Além disso, dado que o consumidor exige que o alimento chegue em sua mesa a um preço baixo, para conseguir algum lucro o agricultor deve ter escala, produzir muito. Qualidade visual e quantidade, duas das razões para o uso de agrotóxicos e adubos químicos de alta solubilidade, duas exigências do mercado – e quem é o mercado?

Há clara percepção de que os produtos da agricultura orgânica apresentam menor risco químico, mas pela escassez de variedades realmente adaptadas a esse sistema de manejo e de insumos em quantidade suficiente, a produção nesse tipo de sistema é menor do que no convencional – com menor oferta, os preços são mais altos, é uma lei mercadológica básica. Os produtos podem ser mais limpos, mas apenas uma minoria pode pagar. O consumo médio de hortaliças no Brasil ainda é muito pequeno, estamos ainda na etapa de convencer a população a comer mais esses produtos, não chegamos na fase em que se pode esperar que o consumidor pague caro por isso.

Periodicamente os meios de comunicação alardeiam a notícia de que uma vez mais análises demonstraram que há resíduos de agrotóxicos não registrados em hortaliças. O que não se divulga é que para muitas hortaliças há um número muito pequeno de produtos químicos registrados apenas para citar um exemplo, até há pouco tempo, para a cultura da mandioquinha-salsa, o único produto registrado era um herbicida. Isso significa que se um produtor de mandioquinha-salsa tivesse algum problema de fungos ou insetos em sua cultura, ou ainda que se dispusesse a utilizar fungicida ou inseticida da quantidade indicada, obedecendo rigorosamente os prazos de carência, ele estaria agindo erradamente, visto que não havia fungicidas ou inseticidas registrados para uso naquela cultura.

Sustentabilidade não é um conceito simples, nem as visões do que vem a ser sustentabilidade necessariamente são as mesmas. A pesquisa científica e o diálogo sem preconceitos são urgentemente necessários para que a agricultura seja realmente mais sustentável e para que a crescente população mundial possa se alimentar melhor. A discussão mutuamente surda, baseada em visões maniqueístas do “outro lado” têm na verdade esvaziado o diálogo e conduzido o que deveria ser uma reflexão científica e técnica para um campo muito mais próximo da discórdia religiosa ao redor de dogmas irreconciliáveis, o que é um absurdo inaceitável.

Nova coleção busca atrair a atenção das crianças para as hortaliças

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Katia Marsicano (03645 MTB-DF)  
Embrapa Informação Tecnológica

Qual foi a mãe que, um dia, não precisou se desdobrar para convencer o filho a comer pelo menos um pouquinho de salada na hora do almoço? Um pedacinho de tomate que fosse… Ou uma folhinha de alface. Chuchu, berinjela, pepino, quiabo e chicória, então, nem adianta tentar, caso contrário é choro e birra na certa. Entre as hortaliças, só a famosa batatinha do fast food parece ter vez no cardápio infantil.

Pensando em mudar essa realidade e provar que nem tudo está perdido, a pesquisadora Milza Moreira Lana, da Embrapa Hortaliças (Brasília ,DF), resolveu apostar no desafio de conquistar a atenção da garotada, e acaba de lançar a coleção Hortaliças para crianças. São três volumes ilustrados, com linguagem simples e direta, como um diálogo entre amigos – tudo para desmitificar a imagem, a princípio pouco atraente, das hortaliças e transformá-las em algo que, além de alimentar, pode até divertir. Por quê não?

“A acelerada urbanização no Brasil impede que as crianças tenham contato com a produção de alimentos e por isso não conseguem reconhecer muitas frutas e hortaliças em seu estado natural”, conta a pesquisadora. “E como elas não conhecem, não têm interesse em consumir”. Para se comunicar com o universo infantil, Milza lembra que foi preciso usar um estilo de texto e um visual atraentes, que encantassem o olhar dos pequenos. “Eu não queria um livro de estórias em que a hortaliça fosse humanizada, mas um livro sobre como é a hortaliça de verdade”, afirma. “Eu queria um livro técnico para crianças e esse foi o maior desafio: equilibrar o caráter realista do texto e das imagens com o universo lúdico”.

Segundo a pesquisadora da Embrapa, outros fatores também pesaram no processo de criação dos livros. “O carinho e o respeito que tenho pelo alimento, quando coloco uma salada no prato e quando vou à feira são muito importantes, porque penso na quantidade de conhecimento e de trabalho que resultou naquele alimento, quantas pessoas trabalharam para que ele chegasse ao mercado”, comenta. “Acho que conhecer as plantas é uma grande aventura tão divertida quanto filme de super-herói”.

Tomate e maçã 
Além dos aspectos nutricionais das hortaliças, os textos procuram aproximar as crianças do alimento, com referências ao dia a dia da família. O tomate, por exemplo, é lembrado como o principal ingrediente do catchup e dos molhos, mas também pode virar suco, geleia e, claro, fazer parte de diversos tipos de salada e sopas. “Tomate é tão gostoso que dá para comer como se fosse uma maçã”, sugere o livro.

Com a coleção, os leitores têm a oportunidade de saber como as hortaliças nascem e se desenvolvem, aprendem a realizar experiências de plantio em casa e ainda têm à mão uma seção de curiosidades científicas, jogos de adivinhação e até receitinhas fáceis e econômicas para incluir no cardápio, como a do bolinho de folha de beterraba.

Mas engana-se quem pensa que apenas as hortaliças mais comuns foram as escolhidas para a publicação. Espécies como a mandioquinha-salsa, a abóbora, o feijão-vagem e a taioba também ganharam espaço, como forma de mostrar às crianças e suas famílias que é importante variar os pratos e criar novas combinações com as conhecidíssimas cenoura, batata e tomate.

Para ser lida em casa, como qualquer outro livro de história, a coleção também pretende despertar o interesse da criança em aplicar o conhecimento apreendido quando for ao mercado ou quando fizer suas refeições com a família. Na escola, as publicações podem ser usadas como material de apoio nas aulas relacionadas com o tema ciência e alimentação.

A coleção Hortaliças para crianças é resultado da parceria editorial entre a Embrapa Hortaliças e a Embrapa Informação Tecnológica (Brasília,DF), e já está disponível na Livraria Embrapa. Cada volume custa R$ 15,00 e pode ser adquirido pelo site www.embrapa.br/livraria, pelo telefone (61) 3448 4236, ou pessoalmente na livraria, localizada no Parque Estação Biológica, W3 Norte (final), Brasília-DF.

Hortaliças orgânicas só podem ser produzidas com sementes orgânicas?

Carlos Alberto Lopes, pesquisador da Embrapa Hortaliças

Uma das formas mais eficientes de disseminação de patógenos de plantas, em especial a longas distâncias, é por meio de sementes contaminadas (infestadas e/ou infectadas). Por isso, para oferecer garantia de seu produto, as grandes empresas fazem alto investimento na produção e no controle de qualidade das sementes que comercializam. Na produção, levam em conta uma série de medidas preventivas de controle fitossanitário, como a escolha de local de plantio, a época de plantio, o tipo de irrigação, o monitoramento constante de pragas e as pulverizações preventivas, dentre outras. E, para dirimir dúvidas quanto à sanidade da semente produzida, utilizam técnicas modernas e sofisticadas, inclusive moleculares, conscientes de que, ao adquirir a semente “sadia”, o produtor evita importante fonte de inóculo inicial no sistema produtivo, ou seja, elimina o “patógeno” do triângulo representativo da doença: patógeno, hospedeiro e ambiente. Assim, cumpre-se o preceito epidemiológico de que, sem patógeno, não há como a doença se instalar e causar danos.

Na realidade, qualquer semente pode estar contaminada com algum patógeno, mesmo tendo sido produzida por firma idônea e mesmo que tenham sido seguidas todas as boas práticas agrícolas, inclusive com aplicação de agrotóxicos. Isso porque, em algumas situações, patógenos podem não causar sintomas visíveis nas plantas (infecção latente) na ocasião em que passam por inspeções visuais em campos de produção de sementes. Além disso, mesmo que sintomas venham a aparecer, eles podem passar despercebidos quando em baixa incidência, devido à dificuldade de coleta de amostras representativas do lote e limitações dos testes de detecção atualmente disponíveis.

Estando a semente contaminada com um patógeno, o risco de a doença que ele causa vir a se manifestar é variável, e será maior quanto mais suscetível for a cultivar e mais favorável for a condição ambiental. Por exemplo, sob clima quente e chuvoso, somente uma semente de tomate infectada com Clavibacter michiganensis subsp. michiganensis ou de repolho infectada com Xanthomonas campestris pv. campestris em um lote de 10.000 sementes é suficiente para provocar uma epidemia de cancro-bacteriano e podridão-negra, respectivamente. Assim, o produtor de alimentos, inclusive o de orgânicos, não pode abrir mão da sanidade da semente sob a pena de perder um robusto componente do controle: a supressão do inóculo inicial, ou seja, o patógeno no triângulo da doença.

Fato é que um importante aliado na produção de plantas isentas de doenças, em especial aquelas causadas por patógenos transmitidos pelas sementes, é o controle químico, principalmente por meio de fungicidas, muitos deles com alta eficácia quando aplicados de maneira e momento corretos. Poisso, se a produção de semente de boa qualidade fitossanitária em sistema convencional de cultivo já é tarefa difícil, na agricultura orgânica torna-se ainda mais complexa. Portanto, para garantir a mesma sanidade das sementes, há necessidade de o produtor “orgânico” compensar a ausência do controle químico pela adoção muito mais rigorosa das outras medidas preconizadas no controle integrado.

O aspecto complicador dessa situação é que, em países de clima tropical, como o Brasil, boa parte das medidas alternativas ou complementares ao controle químico são consideradas inviáveis em certas regiões de produção, seja por isolamento inadequado de outras lavouras, ambientes úmidos, correntes de vento desfavoráveis, solos argilosos, vegetação nativa hospedeira de patógenos e vetores etc. Assim, mesmo que muitas medidas de controle sejam executadas dentro das boas práticas culturais, existe um grande risco de ocorrência de doenças nas plantas e, consequentemente, nas sementes, levando-se em conta que as mesmas rígidas normas dos sistemas convencionais sejam seguidas nos sistemas orgânicos.

É bom lembrar que o princípio básico da agricultura orgânica, que é a possibilidade de conviver com a presença de patógenos e admitir pequenos danos na lavoura, não é tolerado para a produção de sementes. Sob o ponto de vista epidemiológico do controle eficaz, diferentemente do que pode ocorrer com a parte vegetativa da planta, a semente tem que ser sadia… e ponto final. O produtor, certamente, não admitirá arriscar a contaminação da sua lavoura e da sua área de produção pelo plantio de lotes suspeitos de sementes.

Feitas essas colocações, fica a pergunta, que pode ser subsídio a uma discussão mais ampla “do ideal e do possível” para a agricultura orgânica: Onde reside “pecado” maior: Utilizar sementes que tenham sido produzidas fazendo uso de produtos de baixa toxicidade humana  e que poderiam até ser analisadas para tolerância de resíduos? Ou correr o risco de não ter disponível um insumo (sementes genuinamente orgânicas) ou tê-lo caro e/ou desprovido de garantia e confiabilidade necessárias, visto que podem comprometer os sistemas de produção de alimentos orgânicos?

A Câmara Temática da Agricultura Orgânica, na sua última reunião de 2013, se posicionou com maturidade ao revisar a Instrução Normativa (IN) nº 46, de 6 de outubro de 2011, que proibia, a partir do dia 19 de dezembro de 2013, a utilização de sementes e mudas tratadas, permitindo apenas o uso de sementes orgânicas. Nesta reunião, a Câmara propôs a revogação do prazo desta obrigatoriedade dada à escassez de sementes orgânicas para atender ao processo de certificação da cadeia produtiva. Prevaleceu a autoridade no assunto e o bom senso do Dr. Rogério Dias, coordenador de Agroecologia do Ministério da Agricultura (Mapa):  “Se as normas forem muito complexas, desestimulam os produtores. Este esforço da Câmara consiste em enxugar e adaptar a legislação à realidade”.

Como sugestão para o estabelecimento de normas para a produção orgânica: 1) estender o uso atual de sementes convencionais, como atualmente permitido, porém aprovando sementes com baixo resíduo de agrotóxicos (empresas interessadas se encarregariam das análises de resíduos) ; 2) a médio prazo, normatizar o uso de alguns produtos químicos de baixa toxicidade, de ação exclusivamente de contato e facilmente biodegradados no solo para a proteção da lavoura destinada à produção de “semente orgânica”; 3) prospectar áreas e regiões  que possibilitem os candidatos a produtores de “sementes verdadeiramente orgânicas” (este termo não é apropriado, mas compreensível no contexto) se organizem para terem as respostas quanto à viabilidade técnica e econômica de produção, além da capacidade de atender a demanda nacional.

A revolta da pequena burguesia

Em parte fui treinado e em parte treinei a mim mesmo para ter uma perspectiva histórica mais ampla, a tentar entender as questões atuais vasculhando a genealogia dessas mesmas questões – de onde vêm, a quais questões passadas se ligam, a quais questões maiores se filiam? Acredito piamente nas palavras de Otto Maria Carpeaux, “As vozes proféticas do passado ensinam-nos a interpretar a nossa situação.” Em tempos de Twitter, quando tudo deve ser dito em cento e quarenta caracteres, ninguém quer se dar ao trabalho de olhar o passado para interpretar o presente – o presente vive-se, o presente surge por geração espontânea, o presente é a última trend do Facebook, #aspalavrasmaiscitadas. Não há mais passado: há mal escritos e porcamente estudados livros de História.

O abandono da História conduz-nos inexoravelmente à ausência de lastros institucionais e culturais, tornamo-nos, como povo, uma massa sem forma, moldável por quem tiver mais força. Não é sem alguma consequência que se adota dogmaticamente o relativismo histórico, cultural e moral – o que em dose moderada desabona os preconceitos, em dose excessiva pode levar um povo a perder sua identidade, extinguir valores sem criar outros que os substituam. Chegamos a um ponto, que considero excessivo, em que um povo que se orgulha de sua História e de suas instituições é inapelavelmente chamado de fascista. Vivam as minorias e somente as minorias! O relativismo absolutista está nos levando ao niilismo – não valorizamos nem respeitamos nada.

Niilismo político. Os comentaristas de política, todos com agenda ideológica comprometidíssima, sublinharam à vontade a pouca receptividade dos manifestantes recentes às bandeiras políticas – culpou-se a descrença nos governantes e representantes, a revolta contra a corrupção, a decepção com os partidos. Foi tudo isso, mas isso tudo sempre existiu no Brasil e em toda manifestação sempre houve bandeiras, o que houve agora? Qual foi a ruptura claramente histórica que nos levou a essa intransigência que alguns, sempre prontos a julgamentos tão profundos quanto um pires, já adjetivaram de fascista?

Houve a ascensão do Partido dos Trabalhadores ao poder. Alguém já se perguntou como se sentem os que acreditam no fim do mundo no dia seguinte à data prevista, o mundo continuando como está? Imaginemos então o sentimento desse mesmo grupo de crentes depois de uma segunda previsão não realizada e de uma terceira, considerando-se que esse grupo tenha alguma capacidade de pensamento crítico. Acredito que dessa forma se sente boa parte da população desse país após três governos petistas de que se esperou muito. A essa parcela da população, majoritariamente classe média trabalhadora, chamarei aqui de pequena burguesia e acho que não cometo um erro histórico grave.

Não nego nem desvalorizo as realizações desses três mandatos, não pretendo diminuir a importância dos programas de transferência de renda, a inserção internacional do Brasil, os incentivos a ciência e tecnologia, a criação de universidades, a geração de empregos. Mas não consigo ignorar os pactos políticos espúrios, não admito que se justifique hipocritamente o apoio aos Sarneys, a Maluf, a Collor de Mello, a Renan Calheiros em nome da governabilidade. Por mais que eu tente, não consigo acreditar que boa parte dos grandes nomes do Partido dos Trabalhadores não se rendeu e se beneficiou do tráfico de influências e da corrupção. Para mim, a rendição aparentemente tão fácil do PT ao “sistema” foi o último tijolo no muro do niilismo político dos manifestantes de junho e julho de 2013.

Boa parte das aspirações pós ditadura militar permaneceram no discurso tão inflamado quanto vazio. Onde ficou a educação básica pública e de qualidade? Onde o fim das oligarquias nos moldes de Sarney? Em que esquina da História ficou esquecido o combate à corrupção? Por que, apesar de pagar impostos altíssimos, tenho que pagar, caro, a escola e a saúde de meus filhos? Por que, mesmo querendo andar no metrô, sou virtualmente obrigado a comprar um carro e consumir combustível fóssil? Passamos a publicar cada vez mais artigos científicos, mas nossas análises ainda são feitas em equipamentos importados. Mesmo que boa parte de meu salário vá para o governo financiar uma segurança pública decente, tenho medo de andar nas ruas.

Minhas dúvidas poderiam permanecer dúvidas, mas quando a presidente, pressionada, resolve promover pactos para apaziguar as ruas, pergunto-me, “então não sabia que isso tudo estava por ser feito? Pior, então nada estava sendo feito para resolver esses problemas? Se não fossem as manifestações e o temor de que a multidão se transformasse em turba, tudo permaneceria como estava? Pactos?

Aqui volto ao que disse atrás sobre relativismo histórico, cultural e, acima de tudo, moral. Isoladamente, aquele parágrafo estaria melhor colocado num texto neoconservador, mesmo num texto, digamos, fascista. Não é o caso. Os que acreditaram no Partido dos Trabalhadores acharam é que era chegada uma nova era de democracia política associada à austeridade no trato da coisa pública. Não acho descabido dizer que se esperava um novo tom moral no país, que a política, ou melhor, os políticos se veriam obrigados a ser mais éticos. Talvez surgisse até mesmo uma elite política, nos moldes da que desejava Joaquim Nabuco, que ditasse os rumos morais do povo, pelo exemplo. Ideologicamente liberal, a nova elite política desconstruiu os valores julgados conservadores mas, em termos morais, não construiu nada. Criou, isso sim, um vazio, um nicho vazio que pode ser ocupado por qualquer coisa, inclusive, sim, simpatias neofascistas.

Os manifestantes agem como niilistas, parece-me, não por opção, mas por ser o que lhes restou de crenças: nihil, nada. Clamam por austeridade, justamente, mas se continuarem a receber nada, acabarão aceitando a autoridade, quem sabe até o autoritarismo.

Segundo Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, lastro é “tudo quanto se mete no porão do navio para lhe dar estabilidade”. O incrédulo e amargurado manifestante não tem mais lastros, morais, culturais, históricos. É um homem desenraizado, brinquedo nas mãos da grande mídia e do grande comerciante. Não conhece o passado, não acredita no futuro e o presente não lhe agrada. O valor que conhece é o do dinheiro, que aliás não tem. É instável e se torna inflamável.

Os petistas históricos, os petistas ideológicos parecem não entender bem o que está acontecendo já que, para eles, o processo está fluindo, as minorias estão sendo empoderadas, o bolsa família diminui, se não corrige, a cruel desigualdade de renda, constroem-se universidades nos rincões mais distantes, enfim, os despossuídos já têm alguma perspectiva de sair do abismo. A confusão dos petistas históricos vem de um equívoco – quem elegeu Lula pela primeira vez não foram eles, eles sempre votaram em Lula e não foram suficientes para o eleger. Lula foi eleito por uma multidão de insatisfeitos, em boa parte uma pequena burguesia moderadamente conservadora decidida a dar um voto de confiança sob a esperança de que seus impostos fossem melhor gastos, de que se combatesse a corrupção, o país crescesse e se desenvolvesse, de que se recuperasse a austeridade. Aspirações perfeitamente legítimas e perfeitamente traídas. Pactos?

Tendo votado em Lula, e mesmo talvez em Dilma, e ciente de que sem seu voto ele não teria sido eleito da primeira vez, a pequena burguesia atualizou sua desconfiança pré-Lula em ódio pós-Lula. O conservadorismo moderado, na decepção amarga e impotente, transforma-se em severo conservadorismo e, nos piores casos, flerta com o fascismo. E a coisa retroalimenta-se: o burguês amuado realmente não vê o bolsa família como uma medida de distribuição de renda mais democrática, ele a vê como uma mais demagógica distribuição de sua renda e considera que a massa, antes joguete das oligarquias, vota agora no PT porque foi comprada. Mas a corrupção prospera, as estradas, a educação, a saúde são péssimas, os impostos são altos. Se as aspirações dessa imensa pequena burguesia continuarem sem ser atendidas, parece-me, continuarão as manifestações e corre-se o risco de que se transformem em revolta.

 

Por que gosto de ficção científica mas não de críticos literários

Acabei de ler Blood Meridian, de Cormac McCarthy, livro sobre o qual não vou falar agora. É o segundo livro que li desse autor, o primeiro tendo sido A Estrada (The Road), sobre o qual quero falar um pouco. Comprei A Estrada meio desconfiado porque não conhecia o autor e porque sabia que já tinham feito um filme baseado no mesmo. Pensei – deve ser a típica excrescência literária americana moderna, o livro escrito para ser um filme de sucesso. Nada. O livro é soberbo. A Estrada é tão bem escrito e intenso que ainda não consegui fazer a releitura, um trabalho de artista maduro, com um domínio espantoso da técnica, criando um sonho ficcional quase tátil.

Quis imediatamente saber mais sobre o autor e descobri que é considerado um dos maiores autores vivos norte-americanos, já quase um clássico. Harold Bloom, o Stephen Jay Gould da crítica literária, considera McCarthy um verdadeiro artista. Que é isso! Fiquei entusiasmado, a crítica literária mainstream americana louvando os méritos literários de um escritor de ficção científica! Harold Bloom, o Harold Bloom, animado com o cara, já o achando um gênio…Aí encontrei um texto esclarecedor.

Assim como Steve Jobs, parece que os críticos literários, ou alguns, criam ao redor das obras que apreciam um campo de realidade distorcida. Porque apesar de eu ter lido A Estrada com meus próprios e cansados olhos de SF aficionado e ter reconhecido nesse livro uma ficção científica inequívoca e de primeira qualidade, os profissionais da crítica literária fizeram questão de deixar bem claro que A Estrada ficção científica não é. É uma fábula pura, senhores. É, como disse um mais idiota, “um épico lírico de horror”, o que quer que isso signifique. Uma história ambientada em um mundo pós-apocalíptico onde ocorreu algum tipo de catástrofe ambiental, não é ficção científica, somos informados.

O problema, parece-me, é que Cormac McCarthy, antes de The Road, era já um escritor mainstream consagrado, elogiado por Harold Bloom, não escreveria, não poderia escrever ficção científica. “Se ele escreve um livro magistralmente elaborado que qualquer forma pensante de vida classificaria como science fiction, deveríamos nós críticos de estabelecida reputação reavaliarmos nossa impressão sobre o gênero?”. Não. A realidade é nada sutilmente distorcida – a ficção científica de McCarthy não é ficção científica, é… é… é “a mais pura fábula, é um épico lírico de horror.” Aaaargh.

Sete anos comendo terra

Há exatamente sete anos, enquanto fazia meu doutorado na Universidade Federal de Viçosa, resolvi criar um blog de divulgação científica que por diversas razões chamei de Geófagos. Escrevia na hora do almoço, para que ninguém pensasse que estava procrastinando, sem falar que a palavra “blog”, em nosso meio, ainda estava um tanto identificado com “diário on-line de adolescentes”. Mas o que eu queria fazer, sem ter o talento, era o que Steven Jay Gould fazia nas páginas da Natural History com sua coluna “This view of life”, demonstrar numa linguagem acessível ao leigo educado o quanto a ciência era fascinante e relevante para a vida de cada um.

A vantagem óbvia do blog é dar voz a quem não tem acesso à mídia ou às casas publicadoras. Não há nenhuma garantia de que alguém leia o que se escreve, mas só o poder escrever e publicar e deixar disponível para qualquer um que ali consiga chegar já é em parte suficiente e testemunha o poder democratizador da internet. Num blog de divulgação científica há, além do mais, uma liberdade de elaboração ao redor do conteúdo que o artigo científico não permite. Claro, a possibilidade de falar bobagem é maior, não há revisão por pares, mas há espaço também para insights mais ousados, maiores voos da imaginação.

As obrigações profissionais forçaram-me a ser bem menos assíduo do que eu gostaria. Os assuntos também têm mudado e, saído dos entusiasmos comuns à pós-graduação, o Geófagos, refletindo seu criador, tem se tornado mais reflexivo, filosófico, os interesses são mais amplos. Espero ainda poder escrever qualquer coisa útil nesse Geófagos, aproveitar essa aparente democracia da internet para, como gosto de dizer, combater ainda um pouco a ditadura da mediocridade e a expansão do obscurantismo. Que a força esteja com vocês.

Agricultura orgânica ganha páginas de almanaque infantil

HORTA E LIÇA - GIBI 4

 

Criado para incentivar o consumo de hortaliças pelo público infantil, o Almanaque Horta & Liça traz histórias em quadrinhos e diversos passatempos que aliam lazer e informação. A proposta é estimular entre os pequenos novos e bons hábitos – tanto o da leitura quanto o da alimentação saudável – e tudo isso com uma abordagem lúdica e descontraída.

Em sua quarta edição, a publicação, idealizada pela Embrapa Hortaliças (Brasília/DF), explica como funciona o sistema de produção orgânico à turminha do Zé Horta e da Maria Liça. Quem não vai gostar nada do assunto é a Marina, que se assusta com as minhocas no solo, mas isso até descobrir que os túneis cavados por elas são essenciais para a ventilação das raízes das plantas e para a infiltração da água da chuva.

Eles vão aprender que na agricultura orgânica o que vale é produzir sem prejudicar o meio ambiente, por isso, os produtos químicos são proibidos nesse sistema de cultivo. Assim, o modo de produção orgânica preserva a biodiversidade e garante uma salada mais saudável.

Embrapa & Escola
O almanaque Horta & Liça é distribuído para instituições de ensino e para as crianças que visitam a Embrapa Hortaliças por meio do programa Embrapa & Escola. Em 2012, mais de 1300 alunos de escolas da rede pública e privada conheceram a Unidade, os campos experimentais, as casas de vegetação e uma horta demonstrativa com produtos como alface, pimenta, berinjela, cebolinha, tomate, cenoura, entre outros.

De acordo com Orébio de Oliveira, responsável pelo programa na Unidade, o almanaque tem uma aceitação muito boa entre os pequenos. “Eles ficam felizes com o brinde e logo começam a folhear as páginas para ler as histórias e preencher os passatempos”, conta.

Ele ainda diz que a animação é tanta que o brinde tem que ser entregue no final para não atrapalhar o andamento da visita. Este ano, o período de visitação vai até novembro e as escolas interessadas podem fazer o agendamento pelo telefone (61) 3385.9110 ou [email protected]

 

Divirta-se!
Nos links abaixo, é possível conferir as aventuras do Zé Horta e sua turma.
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Paula Rodrigues (MTB 61.403/SP)
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Reflexão sobre o aparente anti-cientificismo de Ariano Suassuna

O aparente anti-cientificismo de Ariano Suassuna, expresso em alguns textos seus e entrevistas, me incomoda muito porque me parece uma das poucas instâncias em que o Mestre se rende ao estereótipo irrefletido e ao superficialismo de opinião. Em um texto de 1962, Suassuna admite que para ele “parecerá sempre antipático esse mundo frio e ameaçador” representado pelos “objetos, invenções e ideias da ciência moderna” porque pressente esse modelo de mundo “hostil à poesia e à vida”.

Suassuna, como outros artistas, assume o que só posso chamar de subjetivismo extremo, execrando qualquer forma de distanciamento analítico, de objetivismo frio, como um aspecto do cientificismo assustador e desumanizante. Penso que Ariano deve ter uma ideia muito vaga e distorcida do que é a Ciência e o fazer científico.

O preconceito desatualizado de que o cientista, em sua prática, “disseca” a natureza, carrega a própria herança do verbo dissecar – expor as entranhas do que está morto na busca do entendimento, como se a análise científica, em algum tipo de inversão sádica, causasse a morte do objeto de estudo. Nada se diz, nessa análise pobre e superficial, das vidas salvas pela compreensão dos cadáveres, embora isso não seja de todo relevante ao que quero dizer.

Numa entrevista de Suassuna que li há alguns anos, ele comenta sobre a seleção natural e expressa sua desconfiança pelo Darwinismo porque o considera imperialista ou outra bobagem equivalente. É claro que o que ele desgosta é na verdade uma interpretação enviesada do Darwinismo feita por Ernst Haeckel e que racistas europeus convenientemente utilizaram para justificar o colonialismo e outras atrocidades. Desaprovar uma interpretação questionável de uma teoria científica consolidada é compreensível e aceitável. Tomar essa interpretação como a teoria em si e a partir daí fazer uma crítica de todo um ramo do conhecimento humano, com profundas implicações filosóficas e práticas é inesperado em um pensador do porte do criador de um Jesus preto.

O Ariano Suassuna que se aventura pelas altas e ousadas análises literárias e estéticas é meu dileto professor de alta cultura e bom gosto. Ao se arriscar a analisar a influência da Ciência na modernidade, ele quase parece um desses evangélicos criacionistas que assombram o espírito de Carl Sagan. Ou talvez, como ele já disse de outros assuntos, “opinião sobre isso propriamente eu não tenho, mas como vocês perguntaram, eu respondi.”

Publicar ou perecer, considerações sobre (a ausência de) valores – (re-publicando)

Quando fazia graduação, lembro-me que uma preocupação recorrente entre estudantes e professores envolvidos com pesquisa era o fato de que boa parte das pesquisas feitas na universidade estava fadada a mofar nas estantes, como dizíamos. Pouco do que era feito por nós chegaria a beneficiar a vida de alguém. Essa era nossa principal preocupação e nós éramos um punhado de ideologistas pensando nos rumos da agricultura e do ambiente no semi-árido nordestino. Hoje, quase nada tem chance de mofar nas prateleiras. Tudo é publicado ou, no mínimo, “publicável”, embora muito pouco seja lido e menos ainda aplicado praticamente. Um ingênuo poderia achar que provavelmente mais resultados de pesquisa estariam “chegando à mesa” dos cidadãos. Tenho minhas dúvidas quanto à linearidade desta correlação.

Uma das características típicas de nossa sociedade liberal é o egoísmo extremo. É verdade que hoje se publica muito, mas a impressão que se tem é que os pesquisadores muitas vezes publicam artigos para impressionar outros pesquisadores. O mesmo valor que outrora se dava a uma árvore genealógica enfeitada de títulos nobiliárquicos, hoje se dá a um currículo pesado de títulos de artigos. O público leigo talvez desconheça a existência de uma entidade quase sagrada entre a classe acadêmica chamada Currículo Lattes. O Currículo Lattes é um fetiche, é quase sagrado. O número de trabalhos publicados é exibido orgulhosamente, como noutros tempos se exibiam cicatrizes de batalhas. O artigo científico, referido preferencialmento pelo termo adequado na língua litúrgica, o paper, é a óstia sagrada no altar dos montadores de currículo.

Assim como a hipocrisia é a imitação vulgar das virtudes, a ânsia de publicar tornou-se uma distorção equivocada da competência: publica-se, em muitos casos, “para fazer currículo”, não porque se esteja interessado em criar uma obra acadêmica consistente, ou se queira contribuir para o avanço da Ciência. Aliás, consistência está em geral completamente ausente nos currículos fabricados, com trabalhos em todas as áreas imagináveis e o único avanço almejado é o de cargos.

Os valores estão distorcidos ou ausentes porque aqueles que os deveriam ensinar já não o fazem: pelo menos quatro professores universitários aconselharam-me a não levar em conta preocupações com qualidade e relevância do trabalho, isso seria o de menos importância, antes atrapalharia. O importante, segundo eles, seria publicar, o que quer que seja. Invariavelmente deram o exemplo de algum professor, íntegro e preocupado com qualidade, mas com o currículo tênue. A mensagem tornava-se aí bem clara: a honestidade intelectual vista como entrave ao avanço profissional. Pelo contrário, sobressai mesmo aquele que aconselha aos orientados escrever de qualquer jeito, os revisores que melhorem o estilo. E se perguntam onde nasce a corrupção, como se esta fosse gerada espontaneamente. Não é à toa que a palavra “elite” tem tão má reputação entre nós. A pretensa elite, que deveria dar o tom moral da sociedade, o exemplo a ser imitado, adota os padrões comportamentais mais vulgares.

Essa questão, creio, não se resume a uma tendência equivocada mas inconsequente da classe acadêmica. É um sintoma grave do vazio moral, ético, de todos os segmentos da sociedade. É a ditadura da mediocridade estendendo sua garra ao suposto bastião da qualidade e da meritocracia. É a intrusão da superficialidade, do marketing pessoal vazio onde deveria reinar o pensamento complexo, a introspecção contemplativa, a discussão relevante e enriquecedora. A estupidez angaria adeptos entre a auto-proclamada intelectualidade, entre as mentes pensantes.

Ao contrário do que eu idealizava (e idealizo), a academia parece não ter mais interesse em formar sábios, mas montadores de currículo. De tal forma, professores, que saí frustrado de minha pós-graduação, e não sou o único, porque ao invés de ter publicado muito, estudei e pensei muito, mas estudar e pensar não engordam currículo. Nem escrever blogs.

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