Terras pretas de índio: monturos arqueológicos

Meu amigo Guilherme Resende Corrêa, geógrafo e mestrando em Solos e Nutrição de Plantas, apresentou ontem um seminário sobre seu assunto de tese: a descrição e classificação dos solos arqueológicos amazônicos conhecidos como Terras Pretas de Índio ou Terras Pretas Arqueológicas. Segundo as evidências mais fortes, estes solos foram formados ao longo de séculos em locais de antigas povoações indígenas amazônicas, muitas contendo milhares de habitantes. Nos locais onde estes antigos brasileiros jogavam os resíduos orgânicos e não orgânicos formaram-se estes solos de alta fertilidade que contrastam com os solos quimicamente pobres do entorno. Muitas destas terras pretas são usadas hoje para a agricultura dos caboclos amazônicos e em geral são muito procuradas devido a sua riqueza em matéria orgânica e em elementos básicos (cálcio e magnésio) e fósforo. Alguns cientistas, brasileiros e estrangeiros, envolvidos na pesquisa destes solos têm recentemente feito estudos sobre a viabilidade de se tentar imitar os processos que levaram à formação destes solos arqueológicos para formar solos similares atualmente, alguns visando uma agricultura mais sustentável na Amazônia, outros pensando na possibilidade de se seqüestrar carbono. Nesta última linha destaca-se o cientista americano Johannes Lehmann que no último dia 10 de maio publicou na Nature o artigo “A handful of carbon” justamente propondo a “produção em massa” de terras pretas com o intuito de se seqüestrar carbono para aliviar o efeito estufa. Atualmente estou lendo os artigos do autor nesta linha e logo pretendo postar minhas opiniões aqui no Geófagos. Para concluir, gostaria de lembrar que no sertão nordestino é comum plantar-se principalmente milho e feijão no monturo das casas sertanejas, prática eternizada na música “O jumento é nosso irmão” de Luiz Gonzaga, que é exatamente o local onde os sertanejos eliminam os resíduos domésticos e a preferência por estes locais se deve exatamente pela maior fertilidade e possivelmente maior retenção de água. Sem saber, estes camponeses têm feito o que hoje se chama de ecossystem engineering, engenharia de ecossistemas, formando solos que no futuro talvez venham a ser chamados de Terras Pretas de Sertanejos.

Sobre (de)formadores de opinião e aquecimento global

Em um artigo de 15 de maio passado em seu blog Ciência em Dia, o jornalista Marcelo Leite comenta um artigo do dia anterior do jornal inglês The Independent sobre desmatamento e aquecimento global. O que me chamou a atenção no post do Sr. Marcelo Leite foi sua frase final comentando a foto de capa da reportagem: “E o Independent meio que pisou na bola, ao ilustrar sua capa com a foto de um pátio de serraria, pois aquela pilha de madeira não passa de um monte de carbono (biomassa) que não está contribuindo para o aquecimento global nem como causa oculta.” Creio que a melhor política para não se falar asneiras é não dar opiniões sobre o que se não conhece. Ao contrário do que muitos pensam, inclusive o bloguista em questão, a questão do desmatamento como causa de aquecimento global não se resume na retirada da madeira ou na queima da mata. Mesmo quando não se queima, o desmatamento expõe o solo aos agentes erosivos, água e vento, principalmente a primeira em climas tropicais úmidos. Mas porque o solo é importante neste caso, já que se está falando em aquecimento global? Bem, estima-se que a quantidade de carbono contida em toda a vegetação terrestre é de cerca de 550 Pg (petagramas, um petagrama corresponde a um trilhão de quilogramas ou 1.000.000.000.000.000 de gramas), já a estimativa para os solos é de cerca de 1600 Pg, considerando-se apenas o primeiro metro a partir da superfície. A retirada da cobertura vegetal acelera os processos de oxidação da matéria orgânica do solo, principalmente a decomposição microbiana, contribuindo para o aquecimento global, já que a decomposição de material orgânico libera CO2 e CH4 (gás carbônico e metano). Algúem poderia argumentar que nem todo o material orgânico do solo é decomposto, uma parte é perdida por erosão. Verdade, mas esta parte perdida por erosão poderá ser depositada em corpos d’água (represas, por exemplo) e sofrer uma decomposição parcial por falta de oxigênio e produzir metano, que também é um gás de efeito estufa só que 23 vezes mais potente que o gás carbônico. A perda da matéria orgânica do solo, quer por decomposição quer por erosão, entre outras coisas contribui para a degradação física e química do solo, ao desestabilizar a estrutura do mesmo e diminuir a capacidade de retenção de água e nutrientes, afetando a capacidade de recuperação do ecossistema. Não me parece que The Independent tenha “pisado na bola” nem de longe, o que não pode ser dito acerca dos comentários do Sr. Marcelo Leite.

Curso sobre Sistema Brasileiro de Classificação de Solos

O Instituto Agronômico de Campinas está realizando o Curso on-line Sistema Brasileiro de Classificação de Solos: Implicações Agrícolas e Não Agrícolas (versão 2006).
Este curso, com 16 aulas e carga horária de 90 horas é realizado pela INTERNET tendo início uma semana após sua inscrição. Para maiores detalhes acesse:
http://www.iac.sp.gov.br/classolos

Silício em plantas I

As plantas acumulam silício majoritariamente como opala-A (SiO2.nH2O) ou opala biogênica, na forma de corpos silicosos ou fitólitos, embora algum silício seja encontrado também sob a forma de cadeias oligoméricas. A palavra “fitólito” é uma união dos termos gregos significando “planta” e “pedra”, sendo assim pedras produzidas por plantas, modernamente biominerais. Como foi dito acima, são predominantemente compostos de sílica, embora possam conter impurezas em maior ou menor grau, e suas dimensões são semelhantes às da fração silte do solo (tamanho variando entre 0,002 e 0,05 mm). As deposições de sílica biogênica (fitólitos) nos vegetais podem ocorrer em folhas, sementes, frutos, raízes e madeira, dentro das células ou na parede celular. As principais acumuladoras de silício e produtoras de fitólitos são as gramíneas, mas outras famílias de monocotiledôneas e algumas dicotiledôneas também acumulam quantidades expressivas de sílica e algumas morfologias de fitólitos são únicas o bastante para possibilitar a identificação das plantas produtoras no nível de família e às vezes de gênero. Esta possibilidade tem sido extremamente útil para arqueólogos e paleontologistas. Os primeiros têm sido auxiliados na identificação de atividades agrícolas pretéritas bem como na identificação dos períodos e locais de domesticação de uma série de espécies vegetais pela identificação de fitólitos em sítios arqueológicos. O uso de fitólitos por paleontólogos já foi discutido aqui.
A presença de silício nas plantas, pelo fato de a fase sólida do solo ser basicamente composta por minerais de alumínio e silício, seria esperada apesar de não ser necessariamente inevitável. O alumínio também está presente em praticamente todos os solos e apesar disto um número muito grande de espécies vegetais possuem mecanismos de exclusão de alumínio, por ele ser em geral tóxico às plantas, principalmente em solos ácidos. Apesar de o silício ser o segundo elemento mais abundante na crosta terrestre, sua contribuição na composição química dos organismos é relativamente pequena, enquanto o carbono, quimicamente muito semelhante ao silício, mas cuja abundância é muitíssimo menor, é o principal componente dos seres vivos.
Na solução do solo, abaixo de pH 9, o silício se encontra principalmente na forma de ácido silícico neutro (H4SiO4 ou Si(OH)4), aparentemente única forma absorvida pelas plantas. A concentração de Si nas folhas da liteira (manta orgânica) em solos de florestas tropicais varia de 0,05 a 25 mg/g de matéria seca.

O que é sustentabilidade na agricultura?

Muito se tem falado ultimamente sobre agricultura sustentável (inclusive aqui no Geófagos) mas uma definição clara do que vem a ser sustentabilidade tem em geral faltado. Há por parte de quem lê uma noção vaga de que sustentável é qualquer prática ambientalmente correta, mas o que isto quer dizer? Haverá alguma forma de se mensurar a sustentabilidade de práticas agrícolas? Para tentar esclarecer este assunto, lanço mão de um artigo publicado em 1995 pelo cientista do solo inglês T. M. Addiscott com o título de “Entropy and sustainability” no volume 46 do European Journal of Soil Science.
As definições clássicas de sustentabilidade da agricultura geralmente levam em consideração os aspectos ambientais, econômicos e sociais, como a acima citada, enfatizando a manutenção dos recursos ambientais, a viabilidade econômica e a justiça social. Sem dúvida é um conceito abrangente. Addiscott no entanto propõe uma abordagem termodinâmica de sustentabilidade que leva em conta apenas o fator ambiental mas é extremamente útil na análise de áreas sob processo de deterioração dos meios físico e biológico.
Segundo Addiscott, realiza-se trabalho termodinâmico quando energia na forma de calor é transferida de uma fonte a alta temperatura para um dreno a baixa temperatura. Trabalho dinâmico contínuo, dessa forma, requer reservatórios isotérmicos efetivamente infinitos a temperaturas altas e baixas, que são garantidos à biosfera pelo sol e pelo espaço sideral respectivamente. Durante a realização deste trabalho a energia flui do sol para o espaço sideral e se produz entropia, mas o trabalho realizado nos processos na superfície da Terra pode levar a consideráveis aumentos na ordem e assim diminuir a entropia numa escala local. Além dos processos que permitem a ordenação também há processos desordenadores numa escala local.
Em termos biológicos, a fotossíntese permitindo a formação de substâncias complexas de alto peso molecular a partir de moléculas simples tais como CO2, H2O e NH3 é o melhor exemplo de processo ordenador; por outro lado, são exemplos de processos desordenadores a respiração, a oxidação da matéria orgânica do solo, a destruição de agregados do solo. A sustentabilidade da agricultura depende da manutenção de um equilíbrio entre ordem e desordem (processos que diminuem ou aumentam a entropia do agroecossistema).
Para um dado conjunto de forças, ou obstáculos, um ecossistema amadurecerá durante um período de tempo até um determinado equilíbrio dinâmico, geralmente representado por uma vegetação clímax. O solo inicialmente é um dos fatores que determinam a direção na qual o ecossistema amadurece mas ele (o solo) permanece como parte do ecossistema e é modificado durante o processo de amadurecimento.
Se o sistema é perturbado, a analogia termodinâmica sugere que os fluxos no sistema agirão no sentido de contrabalançar a perturbação e restaurar o equilíbrio dinâmico e o solo sem dúvida está envolvido neste processo. Surgem então duas questões essenciais no entendimento da sustentabilidade de agroecossistemas:
1- Quanto tempo um ecossistema leva para voltar ao equilíbrio dinâmico após uma perturbação?
2- Pode haver uma perturbação catastrófica da qual resulte a impossibilidade de o sistema voltar ao equilíbrio dinâmico?
Para a primeira pergunta a resposta é que o tempo de recuperação do estado original dependerá da magnitude da perturbação. Quanto à segunda pergunta, em teoria pode haver um tal evento – a perturbação resultando em uma condição distante demais do equilíbrio dinâmico ou a perda de um fator de um fator essencial à manutenção do potencial biológico, geralmente um ou mais atributos do solo (fauna, matéria orgânica, fertilidade natural) ou a própria perda do solo por erosão.

Ciência…do Solo?

Há talvez uns dois anos um professor me perguntou se eu achava existir um certo estigma cultural em relação à Ciência do Solo, algo como um certo preconceito por parte de cientistas de outras áreas, e se este estigma não seria da mesma linhagem do preconceito que existe também em relação a agricultores, aos que cultivam o solo, geralmente taxados de matutos, caipiras, jecas, primitivos. Parece-me que um certo desdém pela agricultura e pelo agricultor tem raízes antiquíssimas na civilização ocidental e cristã. No Velho Testamento, o cruel e pouco razoável deus dos hebreus desprezou a oferta do agricultor Caim, preferindo o sacrifício de animais que lhe oferecia o pastor (pecuarista) Abel, despertando os ciúmes e finalmente o ódio homicida do primeiro. Consta que este conflito mitológico inicial simboliza a preferência do deus JHVH, ou a natural preferência dos hebreus de então, por um estilo de vida mais simples, nômade, pastoril, representado por Abel, em detrimento de um modo de vida sedentarizado, necessário para a prática das atividades agrícolas e que possibilitou a formação dos primeiros ajuntamentos humanos que dariam origem à Cidade (civitas, donde civilização). Assim, a agricultura é não só o fundamento mas a própria fundação da civilização. Por ser fundação, o que está no início, o que é antigo, nossa era pós-moderna abomina, rejeita. Talvez o progresso material da civilização ocidental, que proporcionou e proporciona quantidades nunca vistas de riqueza e conforto acompanhados de sofisticação cultural, faça com que se sinta um certo desprezo, alguma vergonha até, daquele início mais humilde, como os novos ricos em geral se envergonham das humildes origens, muitíssimas vezes agrárias, chegando a negá-las, ou como os bons cristãos se recusam a admitir descenderem de formas de vidas pretensamente inferiores, talvez geofágicas. Concluo que da mesma forma, a “big science”, plena de recursos informacionais, matemáticos, computacionais e metodológicos, prestes a desvendar os segredos universais e de ganhar o próximo milhão, talvez se sinta constrangida em reconhecer como igual e irmã a humilde Ciência (?) do Solo, em que ainda se pega (e a este verbo empresto uma carga emotiva, amorosa) na terra, onde no lugar de colisores de partículas, usam-se ainda martelos, trados e enxadas, quintessência do primitivo. Enfim, mesmo na prática científica, muitas vezes pouco importa a importância e relevância do que se faz se a aparência externa não é o que se espera ou o que está na moda.

Adubando o oceano com ferro

Semana passada foi publicado na revista Nature o trabalho “Effect of natural iron fertilization on carbon sequestration in the Southern Ocean” por uma equipe de pesquisadores franceses encabeçada por Stéphane Blain. O trabalho relata o efeito de uma fertilização (“adubação”) natural de uma parte do Oceano Índico entre a Austrália e a África do Sul sobre o crescimento de um conjunto de organismos autotróficos (que produzem o próprio alimento por meio de fotossíntese) oceânicas conhecido como fitoplâncton. Há já algum tempo se sabe que o fitoplâncton é responsável pela maior produção primária do planeta, ou seja, a maior parte da fotossíntese realizada na Terra é feita por estas algas microscópicas. A fotossíntese é o processo pelo qual os organismos autotróficos (incluindo aí as plantas) convertem substâncias inorgânicas como água e gás carbônico (CO2) em substâncias orgânicas (principalmente açúcares) utilizando como fonte de energia a luz do sol. É por causa da fotossíntese que nós animais conseguimos comer e existir e é também devido a ela o fato de se ter tanto cuidado hoje com o desmatamento. A destruição de organismos que fotossintetizam impedem que eles capturem o CO2, principal responsável pelo efeito estufa, e ainda por cima libera mais CO2 para a atmosfera. Como o fitoplâncton é o maior responsável pela fotossíntese no planeta, qualquer alteração neste pode ter efeito sobre o clima terrestre. O trabalho publicado na Nature mostra um grande aumento na quantidade de fitoplâncton devido à disponibilização do ferro naquela área. O ferro, como uma série de outros elementos químicos, é considerado um nutriente essencial às plantas e outros organismos autotróficos e sua ausência ou pequena disponibilidade limitam o crescimento vegetal. Desde que o pesquisador J. H. Martin implicou a disponibilidade de ferro nos oceanos com o decréscimo de temperatura na última glaciação (no artigo “Glacial-interglacial CO2 change: The iron hypothesis” publicado na Paleoceanography 5, 1–13 (1990)) muitos têm teorizado que uma mega-adubação dos oceanos com ferro poderia reverter o efeito estufa ao aumentar a fotossíntese fitoplanctônica (sinteticamente, causar-se-ia uma eutroficação planetária). Da mesma forma que o excesso de CO2 na atmosfera esquenta o clima, a falta deste pelo seqëstro na fotossíntese faria o clima esfriar. O trabalho de S. Blaine e colaboradores vem demonstrar que a fertilização natural do oceano com ferro e outros macronutrientes pode afetar significativamente o teor de gás carbônico na atmosfera e embora não aconselhem a fertilização artificial como remédio para o efeito estufa, fazem-nos meditar o assunto.

Sustentabilidade da agricultura no semi-árido brasileiro III

Ao se abordar agroecossistemas (os campos de cultivo considerados como unidades ecológicas) sustentáveis em climas semi-áridos não se pode ignorar a questão fundamental de como harmonizar o conceito de semi-aridez, que pressupõe variabilidade climática, com o conceito de sustentabilidade, que pressupõe estabilidade de produção. Geralmente se considera que um agroecossistema, independente de sua localização, deve possuir três qualidades: produtividade, estabilidade e sustentabilidade.
Produtividade não se resume ao potencial produtivo de plantas ou animais mas é conseqüência da interação dos componentes agrícolas, ambientais e sociais do agroecossistema. A estabilidade seria a confiabilidade do sistema (propriedade) em produzir em quantidades suficientes para a manutenção dos agricultores. Sustentabilidade por sua vez seria a manutenção de um determinado nível de produtividade quando o sistema é submetido a uma força desestabilizadora, e esse nível de produtividade deve ser mantido por um longo prazo. Assim, parece que o conceito de sustentabilidade não exclui a variabilidade (a força desestabilizadora) mas requer a habilidade do agroecossistema em manter um certo nível mínimo de produção ainda que “estressado”. Apesar de as três qualidades acima descritas serem altamente desejáveis em um sistema agrícola, podem eventualmente entrar em conflito.
Ao se considerar impactos ambientais negativos advindos de práticas agrícolas em ambientes semi-áridos é importante, além de medir e registrar a extensão da degradação ambiental, desenvolver-se e modificar-se sistemas de produção para que eles se adeqüem, mantenham e restaurem os recursos naturais do ambiente a ser trabalhado quer com agricultura quer com pecuária ou outras modalidades de exploração agrícola de forma imaginativa e inovadora alicerçando-se na pesquisa científica. É necessário avaliar quão adequadas são alternativas tecnológicas desenvolvidas em climas temperados (ainda que em condições de semi-aridez) às condições muito diferentes e adversas de climas semi-áridos tropicais.
Geralmente os pesquisadores concordam que para chegar a ser sustentável um sistema de produção agrícola introduzido em uma região deve tentar imitar da forma mais eficiente possível características do ecossistema original tais como produção de biomassa, ciclos biogeoquímicos, padrões de uso de água e nutrientes. Quando essas características ou outras do sistema de produção agrícola se distanciam muito do que acontecia no ecossistema original, surgem os problemas de insustentabilidade e deterioração ambiental.
O requisito básico e indispensável para a agricultura sustentável em áreas de caatinga parece ser o abandono definitivo de práticas de desmatamento e queimadas extensivas, passando a fixar a agricultura, isto é, explorar uma mesma área de solo por períodos prolongados, após a geração e adoção de tecnologias que o permitam.
Uma equipe de pesquisadores da Embrapa Caprinos capitaneada por J. A. Araújo Filho oferece uma proposta de manejo da caatinga que pode servir tanto para a manutenção da sustentabilidade da produção agrícola quanto ao melhoramento da produção pecuária. A caatinga arbórea nativa de valor forrageiro sofreria um rebaixamento de seu dossel (copa) para permitir o melhor aproveitamento pelos rebanhos. Um segundo passo seria o raleamento da vegetação arbóreo-arbustiva, com a retirada das espécies sem valor forrageiro, medicinal ou ambiental, o que permitiria, pela diminuição do sombreamento, uma maior contribuição do estrato herbáceo na produção de fitomassa com valor forrageiro. O enriquecimento da caatinga com espécies introduzidas, notadamente as com alto teor de proteínas e bem adaptadas às condições edafo-climáticas da região seria a terceira etapa deste sistema de manejo.

Produção de metano por plantas…Será?

Em janeiro de 2006 os pesquisadores F. Keppler, J. T. G. Hamilton, M. Bra e T. Röckmann publicaram um artigo na revista científica Nature com o título “Methane emissions from terrestrial plants under aerobic conditions” em que divulgavam sua constatação de que plantas terrestres produziam e emitiam o gás metano. Como já abordei diversas vezes aqui no geófagos (por exemplo aqui e aqui), o metano (CH4) é um gás produzido por bactéria anaeróbicas (que vivem na ausência de oxigênio), presentes em regiões alagadas como pântanos e plantios de arroz irrigado, bem como no sistema digestivo de bovinos, ovelhas e cupins. Este gás, assim como o gás carbônico, está envolvido no aquecimento do planeta Terra, porém tem a capacidade de aquecer o planeta 23 vezes maior que o CO2. Até a publicação do trabalho de Keppler e colaboradores, ninguém suspeitava da produção de metano por plantas terrestres em ambientes aeróbicos (na presença de oxigênio). De acordo com aqueles pesquisadores, cada grama de material vegetal seco produziria entre 0,3 e 3 nanogramas de metano por hora (1 nanograma é igual a 1 grama dividido por 1 bilhão). Os valores parecem pequenos, mas se se leva em conta toda a massa dos vegetais no planeta as emissões totais de metano pelas plantas alcançariam de 60 a 240 milhões de toneladas métricas de metano por ano. Alguns jornalistas rapidamente ligaram as plantas (notadamente as florestas tropicais) ao aquecimento global, alguns até sugerindo a derrubada de matas como resolução do problema, claramente desconhecendo que o desmatamento emite uma quantidade enorme de CO2, possivelmente o maior responsável pelo efeito estufa. Qual não foi minha surpresa ao saber de um artigo na revista científica New Phytologist recém-publicado questionando os resultados do trabalho de Keppler e colaboradores. O novo trabalho tem como título “No evidence for substantial aerobic methane emission by terrestrial plants: a 13C-labelling approach”, por uma equipe de pesquisadores holandeses encabeçada por Tom A. Dueck. Os dados apresentados no novo trabalho invalidam a sugestão feita por Keppler et al. de que se reavaliassem os dados de emissão de metano por fontes naturais ao apresentar valores de emissão de CH4 por plantas terrestres de apenas 0,3% dos valores do trabalho anterior. Imagino que este debate de idéias (aliás muito salutar e exatamente o que diferencia a ciência de formas dogmáticas de visão do mundo) ainda renderá muito em termos de pesquisa e entendimento.

Sustentabilidade da agricultura no semi-árido brasileiro II

A perda da diversidade vegetal em regiões semi-áridas pode levar a uma diminuição da produtividade secundária, entendida como a capacidade da vegetação em manter herbívoros que dela se alimentam, causada pelo pastejo excessivo por uma pequena quantidade de espécies domesticadas, problema que se agrava em regiões onde a vegetação não evoluiu exposta a mamíferos herbívoros.
Uma questão a ser cuidadosamente ponderada quanto ao uso da vegetação nativa do semi-árido como pastagem é a constatação de que pastagens nativas em regiões áridas e semi-áridas severamente degradadas podem não voltar ao estado original mesmo quando abandonadas por décadas.
Há um modelo conceptual visando ordenar as etapas de degradação da vegetação nativa em ambientes áridos e semi-áridos pelo pastejo por animais domésticos: a primeira etapa da degradação é a mudança na estrutura etária das populações de plantas, onde espécies tóxicas ou de baixa palatabilidade têm sua densidade aumentada, enquanto plântulas de espécies forrageiras se tornam mais raras. O decréscimo na diversidade e produtividade da vegetação nativa é a segunda etapa do processo de degradação, seguida pela redução da cobertura vegetal perene. A última etapa é o deserto antrópico, em que toda a cobertura vegetal é perdida e os processos de erosão e salinização do solo são acelerados.
O pesquisador americano Stephen Gliessman afirma em seu livro Agroecologia que “a diversidade [ecológica] é, simultaneamente, um produto, uma medida e uma base da complexidade de um sistema – e, portanto, da sua habilidade de manter um funcionamento sustentável”. A importância de se manter não só a diversidade de espécies, mas também de nichos, de grupos funcionais no sistema é que a interação entre as populações proporciona o surgimento do que os ecólogos chamam de qualidades emergentes, possíveis apenas ao se atingir certa medida de diversidade, essenciais no estabelecimento da sustentabilidade em ecossistemas naturais e, acredita-se, na de agroecossistemas também.
Segundo Gliessman o manejo de um agroecossistema deve levar em conta as interações de toda a comunidade (conjunto de populações de espécies) aí presentes, bem como as interações entre as comunidades e o meio físico (ambiente), visto que “as práticas convencionais de manejo atuam principalmente nos níveis individual ou populacional” visando o controle rígido e a máxima homogeneização do sistema, eliminando as interações benéficas que pudessem contribuir à sustentação, porque “somente com alta diversidade poderá existir potencial para as interações benéficas”.
Não é opinião isolada que pouco há a se fazer no que tange à melhoria da sustentabilidade da agricultura ora praticada no semi-árido nordestino, de maneira que criatividade, espírito empreendedor e muita e boa ciência devem ser usados em conjunto não apenas para “encontrar soluções” mas antes de tudo para por em prática as soluções que indubitavelmente já existem.

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