Solos tropicais ou tropicalistas?

Um professor que admiro muito chamava-nos insistentemente a atenção sobre a peculiaridade dos solos formados sob condições tropicais úmidas frente aos solos que se formam sob climas temperados. Amante do embate de idéias, ele nos experimentava o espírito crítico perguntando se concordávamos com o que dizia. A tendência natural era a concordância. Pior, como bons brasileiros, tendíamos mesmo a ver aspectos especiais nos solos e na própria pedologia (estudo dos solos) do Brasil, mostrando aquela insegurança de que fala o historiador Evaldo Cabral de Mello, comum aos povos que tentam afirmar nacisistamente uma certa identidade que os distingue de todos os outros. Imune a estas veleidades, meu professor brincava “Não são todos filhos de Gaia?”, referindo-se ao modelo teórico idealizado pelo climatologista inglês James Lovelock que descreve a Terra como um grande organismo. Sim, todos são “filhos de Gaia”. Também creio que todas as evidências mostram a peculiaridade dos solos tropicais em relação aos solos temperados: a ação profunda da água como agente intemperizador, a participação exuberante dos organismos na gênese da estrutura dos solos, a permanência por longos períodos de tempo de mantos de intemperismo profundos permitindo a existência de solos muito espessos e antigos. Mas parece-me que o raciocínio inverso também é válido: em relação aos solos tropicais, os solos temperados também devem ser entidades peculiares, pois a ausência ou menor ação dos fatores citados, em regiões de clima temperado, não implicam a inexistência de solos nem que os solos porventura lá formados sejam piores ou menos interessantes que os de cá. Há solos lá, mas são diferentes, ou os fatores que lhes deram origem são algo distintos, ou os processos, sendo os mesmos, ocorrem em taxas diferentes. No entanto a Pedologia surgiu lá, primeiro na Rússia, com alguma influência na Alemanha e depois terminou de se desenvolver nos Estados Unidos. Os conceitos e ferramentas teóricas (para usar um termo querido aos das Humanidades, os paradigmas) da ciência pedológica nasceram lá em cima. Nós viemos depois, nós somos pobres, parece que por causa disto nós precisamos nos auto-afirmar, proclamando nossa peculiaridade. Realmente creio que fosse mais apropriado dizer que a Pedologia tropical (e a Ciência do Solo como um todo), por utilizar um referencial teórico e um arcabouço metotológico específico às condições tropicais, é uma entidade peculiar e distinta, mas não pior ou melhor, que a Pedologia de clima temperado. O paleontólogo e divulgador científico Stephen Jay Gould escreveu em um ensaio na Science em 2000 “For reasons that seem to transcend cultural peculiarities, and may lie deep within the architecture of human mind, we construct our descriptive taxonomies and tell our explanatory stories, as dichotomies or contrasts between inherently distinct and logically opposite alternatives“, (“Por razões que parecem transgredir peculiaridades culturais, e pode originar-se nas profundezas da arquitetura da mente humana, construímos nossas nomenclaturas descritivas e contamos nossas histórias explicativas, como dicotomias ou contrastes entre alternativas inerentemente distintas e logicamente opostas”, tradução minha). Quero crer que se Pernambuco tivera o mesmo papel cultural que a Grécia teve para a civilização ocidental e que São Paulo fosse hoje o que os EUA são, alguém lá para os nortes estaria fazendo o mesmo tipo de pergunta que hoje fazemos.

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Discussão - 3 comentários

  1. manuel disse:

    Caro Ítalo
    Mais uma vez aqui estou,desta,por via de um leitor,o FRANCISCO.
    É um assunto que muito me toca,pois cartografei solos por cerca de dois anos.
    Do seu texto, respigo três frases:
    1-“os solos temperados também devem ser entidades peculiares”
    2-“Há solos lá mas são diferentes…ou os processos,sendo os mesmos,ocorrem em taxas diferentes”
    3-“Os conceitos…nasceram lá em cima”
    Começemos pelo 3. Foi assim,aconteceu,talvez,em parte,pelo menos,por serem fortes as taxas. E nem seriam temperados,
    muito ao contrário.
    Quanto a 2 e 3,é isso,os solos são entidades particulares de cada sítio. Quanto a particularidade,são todos iguais.
    Para terminar,uma frase que por lá se dizia – Cada cavadela,sua minhoca. Cheguei a estar enfiado numa cova,com 4 perfis na minha frente,um,em cada lado. Era a rocha ali que pontificava,e rochas havia muitas,uma família delas.
    E pronto,Ítalo,muito obrigado por me trazer o passado,e também ao Francisco,o intermediário. Um abraço.

  2. FRANCISCO disse:

    acredito que seu material é muito bom e vai ajudar muita gente em concursos publicos brasil a fora

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