A insustentabilidade dos “manejos sustentáveis”

O texto a seguir nos foi gentilmente enviado pelo amigo Marcus Vinicius Locatelli, autor do blog Orquidofilia e Orquidologia.
“Está na moda difundir e defender a exploração ‘sustentável’ dos recursos naturais, tais como florestais e pesqueiros.
Com o ‘sustentável’ depois de ‘manejo’ subentende-se que por meio de práticas racionais ter-se-á um tempo de vida útil tendendo ao infinito dessas atividades, pois elas causariam sempre o mínimo de impacto possível e este seria sempre compensado de alguma forma. Há mesmo quem imagine que algumas destas práticas não causam impacto nenhum.
A impressão que tenho, é que esse pessoal do governo, aprovando leis, e de ONGs, andaram matando algumas aulas referentes à ecologia.
A Ecologia a que me refiro vai muito além das palavras de ordem e do ‘conhecimento’ meramente panfletário de pseudo-ecologistas estereotipados, refiro-me à ecologia como uma ciência que trata das complexas interações de todos os componentes do meio ambiente.
A definição clássica de ecologia é o ‘estudo das interações dos seres vivos entre si, e o meio abiótico que os cerca’.
Da mesma forma, quando falo ou penso em agronomia, refiro-me à agronomia de ponta, uma ecologia aplicada aos agroecossistemas, uma vez que trata de obter as melhores produtividades por meio da otimização dos insumos aplicados, usando informações de biologia de plantas (genética, anatomia e fisiologia vegetal), biologia de espécies adventícias, biologia e atributos abióticos (dos quais muitos são intensamente afetados pelos organismos edáficos) do solo, bem como as informações sobre o clima.
Voltando ao tema principal do post, as aulas às quais os ditos eco-dogmáticos parecem ter faltado foram as de fertilidade do solo (que é a tecnologia baseada em conhecimentos básicos de ecologia) e seleção natural das espécies.
A relação entre fertilidade do solo, o tipo de vegetação e sua resiliência e a fauna local, é velha conhecida dos que não têm pena de usar o cérebro.
Nos sistemas de exploração ‘sustentáveis’ (os leitores verão por que insisto em manter as aspas) na Amazônia, por exemplo, há exportação (perda) de quantidades enormes de nutrientes minerais, especialmente os de baixa ou nenhuma mobilidade como o Ca, junto com a madeira para os países da Europa, Ásia e EUA.
As florestas tropicais exuberantes como as Matas Atlântica e Amazônia, desenvolvidas sobre solos altamente intemperizados dos trópicos de uma maneira geral, dependem de forma vital da ciclagem biogeoquímica do sistema. Quando há queda de material vegetal ao solo a decomposição do mesmo libera os nutrientes imobilizados na matéria orgânica, os quais são reabsorvidos pela vegetação. Nestes solos, praticamente não existem mais minerais primários. Estes minerais são aqueles diretamente herdados das rochas que originaram os solos, e sua decomposição (intemperismo, principalmente químico) libera os nutrientes necessários à nutrição vegetal. Assim, ao contrário de solos de regiões onde o intemperismo químico é pouco intenso (regiões áridas e semi-áridas do mundo), a vegetação das regiões tropicais depende muito da ciclagem de nutrientes e da presença da matéria orgânica no solo.
O que fazer quanto ao déficit cada vez maior entre nutrientes exportados, junto às toras de mogno, e os nutrientes mantidos para a ciclagem no sistema? Jogar uma colherinha de adubo depois para compensar?
O buraco é mais embaixo, para se responder estas perguntas seriam necessárias muitas investigações acerca disso, mas uma coisa é certa, os nutrientes exportados não estão sendo compensados. No futuro isto poderá ser um problema ecológico de grandes proporções.
Agora evolutivamente falando, o princípio da seleção natural é, simplificadamente, de que os organismos cujas características são mais adequadas à sobrevivência no meio terão mais chances de se reproduzir a passarem seus genes adiantew
Nos manejos ‘sustentáveis’ de florestas nativas, são feitos a priori levantamentos com o objetivo de demarcarem as árvores aptas ao corte, estas, a partir de certo tamanho, usualmente com um diâmetro mínimo de tronco à 1,2, ou 1,3 m acima do solo.
Ora, estão derrubando e matando justamente as que deveriam ser preservadas como matrizes, as árvores que sobreviveram a muitas moléstias, a princípio com os ‘melhores genes’ dentre a espécie para serem passados às próximas gerações.
E quanto aos peixes com tamanho mínimo de abate, ocorre a mesma coisa: os maiores estão sendo abatidos com a conivência da lei, embora haja uma quantidade máxima de espécimes a serem abatidos por pescador, época de proibição de pesca e tudo mais, ainda cada vez mais genes merecedoramente sobreviventes estão indo embora.
Uma das justificativas para o estabelecimento destes valores de tamanhos mínimos para a derrubada de árvores, ou abate de peixes, é o fato de os indivíduos já terem potencialmente se reproduzido ao menos uma vez, por certo tamanho e idade adquirida, e terem deixado descendentes.
Seus genes foram teoricamente passados adiante então, mas com a segregação dos cruzamentos, ter-se-á indivíduos mais aptos, e menos aptos que seus progenitores.
O que se espera? Mais aptos em relação aos menos aptos na descendência, ou justamente o contrário?
Se o contrário estiver ocorrendo, não estaríamos na contra mão da seleção natural? Tudo isso me parece uma evidência clara que quem devia fazer leis sobre organismos deveria ter conhecimento profundo sobre biologia, no mínimo.”

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Discussão - 5 comentários

  1. Italo M. R. Guedes disse:

    Cara Isis,
    Isto também nos irrita muito, aliás, esta é uma das razões de existir do Geófagos: tentar desmistificar certos assuntos que a ditadura do politicamente correto trata como intocáveis, e para isto usamos ciência de verdade e não panfletos recheados com palavras de ordem e pré-conceitos idiotas como “comida frankenstein (frankenfood)” ou o intolerável “brincar de deus”. Não somos pagos para ser simpáticos (aliás, não somos pagos).

  2. Isis disse:

    O que mais me irrita nessa história toda é justamente ver as pessoas – estudadas, sabe? – falando o que não entendem, difundindo conceitos erroneamente. O pior é que se você tenta argumentar, esse povo fala que é um anti-ecológico. Ah sim… rs

  3. Italo M. R. Guedes disse:

    Caro Paulo Sérgio,
    Não temos ainda um grupo de discussão próprio, a não ser os comentário que você pode deixar aqui nos posts, e esteja mais do que convidado a fazer isto, assim como ler os posts.

  4. Paulo Sergio da Silva disse:

    Olá Italo, gostaria de participar do seu grupo de discussão, mas não encontrei como fazer isso.
    Abraço

  5. Cláudio Espeschit disse:

    Aí, pega-se água poluida do rio São Francisco e joga no solo do Nordeste…
    Meleca, como diria o Marcus: ” o buraco é mais embaixo”.
    Quem vai pagar esta conta? Gerações futuras, isto é certo.

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