Mudanças climáticas e segurança nacional. I: O caso do semi-árido

Um assunto de certa urgência vem preocupando as cabeças pensantes no mundo: a humanidade, por meio dos governos nacionais, terão capacidade de lidar com catástrofes naturais resultantes das mudanças climáticas globais? Pensando em âmbito mais local, terá o Brasil algum tipo de planejamento para superar ou minimizar os efeitos destas ainda parcialmente hipotéticas catástrofes? A forma mais lógica de se avaliar o preparo brasileiro é considerar-se o que tem sido feito neste país para se enfrentar crises geradas por fenômenos naturais catastróficos. Para deixar bem claro o quão despreparado o Brasil se encontra frente a estes problemas, claro que o primeiro exemplo a ser citado é o dos episódios recorrentes e bastante previsíveis de seca na área semi-árida da região Nordeste brasileira. Ora, uma série de previsões sugerem que nos trópicos poderá haver uma extensa semi-aridificação advinda das mudanças climáticas. O Brasil tem no Nordeste um por assim dizer laboratório tanto para prever as condições futuras de partes de seu território quanto uma oportunidade desperdiçada de aplicar medidas de grande alcance para reverter os efeitos desta eventual semi-aridificação. Entretanto, age-se no Brasil, em relação às secas, como os usuários contumazes de maconha, que têm a memória de curto prazo e o raciocínio crítico severamente comprometidos. Os episódios de seca são vistos como eventos absolutamente novos e cuja previsão fora impraticável. As consequências desastrosas repetem-se a cada ciclo, comprometendo o desenvolvimento da região e dando a impressão aos habitantes que não há como se precaver nem conviver harmoniosamente com a seca. Se houver seriedade e entendimento entre vontade política, educação da população e aplicação eficaz de tecnologias existentes, há como conviver harmoniosamente com o deserto, como bem mostra Israel. Para mim parece claro que há técnicas e tecnologias já desenvolvidas que permitiriam a conviência razoavelmente tranquila com a estiagem longa. Mas não só isso. As coisas devem deixar de ser feitas com amadorismo, como se não houvesse história, como se toda pesquisa fosse a primeira, como se as instituições, principalmente governamentais, ocupadas com a região tivessem que começar a pensar nas soluções a partir do zero: há necessidade absoluta de continuidade e apartidarismo. É necessário mapear-se com o máximo de detalhes possível as áreas em que se prestam técnicas de coleta e manutenção de água, como barragens subterrâneas, que permitam a existência de uma pequena agricultura viável. Há que se informar que as áreas que se prestam a perímetros irrigados são mínimas e devem se localizar principalmente em áreas sobre material geológico sedimentar, mais poroso e cujas águas ofereceriam um menor risco de salinização e assim mesmo, fazer-se uma grande campanha, talvez usando até a lei, para que se usem técnicas de irrigação de alta eficiência e que minimizem as perdas, como o gotejamento. É necessário uma dose grande de realismo quanto a existência de áreas que simplesmente não se prestam à agricultura, nem mesmo a pequena e familiar, devido entre outras coisas ao alto coeficiente de variação da média pluviométrica, à pequena profundidade dos solos, localizadas quase sempre sobre material geológico cristalino, como granitos e gnaisses, cujas águas subterrâneas apresentam grande potencial de salinização se usadas para irrigação, inda mais quando associadas a solos pouco profundos. E, para mim talvez o mais importante, mudar o perfil da região, ganhar dinheiro produzindo ciência, transformar boa parte do semi-árido em um novo Vale do Silício, deixar para trás as histórias dramáticas de safras perdidas e animais mortos de sede. Tudo isso pode ser feito a partir da conscientização que a seca é para sempre, a região não se tornará úmida.  A se continuar no ritmo que se encontra, as coisas tendem a piorar: a extinção gradual e irresponsável da caatinga só tenderá a agravar a situação de calamidade.

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Discussão - 3 comentários

  1. Italo M. R. Guedes disse:

    Caro Professor Osame,
    Estamos mais do que interessados em fazer parte do Anel de Blogs Científicos. Infelizmente só hoje vi sua mensagem, parece que não serei mais o primeiro, mas tudo bem. Tem toda a permissão para nos adicionar na lista de links, e o que pudermos fazer para divulgar o projeto, entusiasticamente faremos.
    Grande abraço,
    Ítalo

  2. osame kinouchi disse:

    Caro Ítalo,
    Vi sua carta na SciAm.
    Por coincidência estamos inaugurando semana que vêm o Anel de Blogs Científicos (ABC) patrocinado pelo Laboratório de Divulgação CIentífica do DFM-FFCLRP-USP.
    Estaremos convidando todos os blogueiros brasileiros (e de lingua portuguesa) a participar do Anel.
    Se você quiser ser o primeiro (!), cadastre-se no:
    http://dfm.ffclrp.usp.br/ldc/
    (A pagina está meio carregada, iremos colocar um visual mais clean futuramente). O portal ABC ainda está sendo organizado, mas será lançado semana que vem.
    Se você me autorizar, eu já pedirei ao nosso webmaster para colocar um link para o Geófagos no ABC.
    Abraços,
    Osame
    Prof. Dr. Osame Kinouchi
    Departamento de Física e Matemática
    Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras
    Av. Bandeirantes 3900, CEP 14040-901
    Universidade de São Paulo
    Fone +55 16 3602-3779
    BLOG: http://www.comciencias.blogspot.com
    BLOG2: http://www.coffeecomletras.blogspot.com

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