As fezes não morrerão de sede

Alguém já parou para pensar que absurdo é usar-se água limpa em abundância para transportar dejetos humanos para a rede de esgotos quando milhões de pessoas sequer têm o suficiente para beber? Este é o tipo de questão que vem naturalmente ao longo da leitura de um excelente artigo publicado na Scientific American Brasil de setembro (não estou ganhando nada pelo marketing), escrito pelo engenheiro ambiental americano Peter Rogers, sob o título “Preparando-se para enfrentar a crise da água”. Li o artigo ontem a noite, após a publicação deste post, mas fiquei feliz em encontrar trechos como este: “E a escassez se tornará mais comum em parte porque a população do mundo está aumentando. Uma parcela está ficando mais rica – aumentando assim a demanda – sem contar que a mudança climática global está ampliando a aridez e reduzindo as reservas em muitas regiões”. Mas o autor não se satisfaz em apenas desfiar informações – ele faz sugestões, algumas das quais o cidadão médio acharia bem antipáticas: “Estabelecer preços mais altos para a água está (…) quase no topo da minha lista de prescrições.” Nasci e cresci numa das regiões mais secas do semi-árido nordestino (Patos, na Paraíba), sei exatamente o que é escassez de água e quão frustrante é ver sociedade e governo agindo quase anualmente como se períodos de seca fossem uma anormalidade, um desvio do esperado. Aprendi quase no berço a economizar água de toda forma possível, nos pequenos hábitos, como desligar o chuveiro enquanto me ensaboava ou a torneira enquanto escovava os dentes. Tive oportunidade de morar numa região em que a água é um recurso abundante (Viçosa, Minas Gerais) e pude ver como meus hábitos econômicos surpreendiam e muitas vezes faziam rir aqueles para quem escassez de água era algo muito remoto e possivelmente exagerado, coisa de Jornal Nacional para ganhar audiência. Sinceramente creio que se mudanças drásticas nos hábitos da sociedade não forem adotadas, atitudes antipáticas terão que ser tomadas ou o mundo real baterá rudemente às nossas portas. Aos que têm acesso aos Periódicos da Capes e desejem se aprofundar no assunto, recomendo o excelente artigo Water Use, escrito por Peter H. Gleick, no Annual Review of Environment and Resources de 2003.
Ítalo M. R. Guedes

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Discussão - 6 comentários

  1. Babalu disse:

    Concordo com vc.
    As fezes ñ morrerão de sede….
    Com tantas pessoas que não tem água pra beber e tomar banho!
    As pessoas tb usam a mangueira pra “VARRER” as calçadas como disse o Igor.
    Poderiam reutilizar a água.
    A água que vc toma banho não está muito suja para ser jogada fora.Essa água deve ser reutilizada como descarga (é lógico que deve ser tratada, mas pode ser usada para descarga).
    SALVEM O PLANETA TERRA. NÃO DESCARTE A ÁGUA ATOA!!!

  2. Igor Santos disse:

    é a famosa “vassoura hidráulica”…

  3. geofagos disse:

    Nem eu. E lavar calçadas com mangueiras, como se fosse terapia ocupacional?

  4. geofagos disse:

    Carlos,
    Sem dúvida, e não apenas a urina, mas também as fezes. O citado artigo na SciAm fala desta possibilidade, citando um caso concreto. Comentei sobre a necessidade futura de reutilizar os dejetos humanos como fonte de nutrientes agrícolas no seguinte post:
    http://lablogatorios.com.br/geofagos/2008/05/28/adubo-comida-e-fezes-urbanas/

  5. Igor Santos disse:

    Eu já projetei, mas nunca cheguei a testar, um sistema de descarga que usaria a água do chuveiro e das torneiras.
    Pelos meus cálculos, seria água suficiente.
    E escovar os dentes com a torneira ligada é uma das piores aberrações do mundo, nunca entendi como alguém consegue fazer isso.

  6. Carlos Hotta disse:

    Será que seria viável coletar a nossa urina e usar como fertilizante, talvez depois de algumas alterações químicas?

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