Uma Aula

Por Elton Luiz Valente

Assisti hoje a uma aula memorável, digna da pós-graduação (aliás, todas as aulas deveriam ser assim, não só da pós-graduação). Foi ministrada pelo Professor Carlos Ernesto Schaefer, do Departamento de Solos da UFV. Durou cerca de 3 horas e meia, sem contar o intervalo para almoço. Cito o nome dele com a devida autorização.

A aula, evidentemente, é impossível de ser reproduzida aqui. O “pano de fundo” foram as adaptações do gênero Homo aos solos e à paisagem. Mas a discussão foi muito além deste que, por si só, é um assunto digno de uma cadeira própria na Academia. A abordagem do Professor começou lá na Gondwana e foi parar no Homo sapiens tecnologicus

Lembrei-me do Geófagos durante toda a explanação, principalmente quando o Professor disse uma frase abordando um assunto que nos é muito caro, a ciência agregada à razão e ao bom senso:

“O Darwinismo causa alergia à nossa mente conservadora. Sabemos mais do Velho Testamento e do Criacionismo do que da origem e evolução do homem. A educação religiosa é plausível, mas fazer a letra do Criacionismo ser a verdade absoluta é um absurdo.”

Quisera eu que todas as pessoas, indistintamente, pudessem comungar deste pão e deste vinho, na mesa da razão e do bom senso.

Serra do Cipó

O Marcus Locatelli do blog Orquidofilia e Orquidologia está com uma série sensacional de posts que narram uma “expedição” sua e do Geófago Elton Valente à Serra do Cipó, em Minas Gerais. Muito bem escritos e com excelentes fotografias, os posts lembram as saudosas narrativas de viagem de exploradores europeus dos séculos XVIII e XIX. Os posts podem ser apreciados aqui, aqui e aqui. Ótima leitura.

Publicar ou perecer, considerações sobre (a ausência de) valores

Quando fazia graduação, lembro-me que uma preocupação recorrente entre estudantes e professores envolvidos com pesquisa era o fato de que boa parte das pesquisas feitas na universidade estava fadada a mofar nas estantes, como dizíamos. Pouco do que era feito por nós chegaria a beneficiar a vida de alguém. Essa era nossa principal preocupação e nós éramos um punhado de ideologistas pensando nos rumos da agricultura e do ambiente no semi-árido nordestino. Hoje, quase nada tem chance de mofar nas prateleiras. Tudo é publicado ou, no mínimo, “publicável”, embora muito pouco seja lido e menos ainda aplicado praticamente. Um ingênuo poderia achar que provavelmente mais resultados de pesquisa estariam “chegando à mesa” dos cidadãos. Tenho minhas dúvidas quanto à linearidade desta correlação.
Uma das características típicas de nossa sociedade liberal é o egoísmo extremo. É verdade que hoje se publica muito, mas a impressão que se tem é que os pesquisadores muitas vezes publicam artigos para impressionar outros pesquisadores. O mesmo valor que outrora se dava a uma árvore genealógica enfeitada de títulos nobiliárquicos, hoje se dá a um currículo pesado de títulos de artigos. O público leigo talvez desconheça a existência de uma entidade quase sagrada entre a classe acadêmica chamada Currículo Lattes. O Currículo Lattes é um fetiche, é quase sagrado. O número de trabalhos publicados é exibido orgulhosamente, como noutros tempos se exibiam cicatrizes de batalhas. O artigo científico, referido preferencialmento pelo termo adequado na língua litúrgica, o paper, é a óstia sagrada no altar dos montadores de currículo.
Assim como a hipocrisia é a imitação vulgar das virtudes, a ânsia de publicar tornou-se uma distorção equivocada da competência: publica-se, em muitos casos, “para fazer currículo”, não porque se esteja interessado em criar uma obra acadêmica consistente, ou se queira contribuir para o avanço da Ciência. Aliás, consistência está em geral completamente ausente nos currículos fabricados, com trabalhos em todas as áreas imagináveis e o único avanço almejado é o de cargos.
Os valores estão distorcidos ou ausentes porque aqueles que os deveriam ensinar já não o fazem: pelo menos quatro professores universitários aconselharam-me a não levar em conta preocupações com qualidade e relevância do trabalho, isso seria o de menos importância, antes atrapalharia. O importante, segundo eles, seria publicar, o que quer que seja. Invariavelmente deram o exemplo de algum professor, íntegro e preocupado com qualidade, mas com o currículo tênue. A mensagem tornava-se aí bem clara: a honestidade intelectual vista como entrave ao avanço profissional. Pelo contrário, sobressai mesmo aquele que aconselha aos orientados escrever de qualquer jeito, os revisores que melhorem o estilo. E se perguntam onde nasce a corrupção, como se esta fosse gerada espontaneamente. Não é à toa que a palavra “elite” tem tão má reputação entre nós. A pretensa elite, que deveria dar o tom moral da sociedade, o exemplo a ser imitado, adota os padrões comportamentais mais vulgares.
Essa questão, creio, não se resume a uma tendência equivocada mas inconsequente da classe acadêmica. É um sintoma grave do vazio moral, ético, de todos os segmentos da sociedade. É a ditadura da mediocridade estendendo sua garra ao suposto bastião da qualidade e da meritocracia. É a intrusão da superficialidade, do marketing pessoal vazio onde deveria reinar o pensamento complexo, a introspecção contemplativa, a discussão relevante e enriquecedora. A estupidez angaria adeptos entre a auto-proclamada intelectualidade, entre as mentes pensantes.
Ao contrário do que eu idealizava (e idealizo), a academia parece não ter mais interesse em formar sábios, mas montadores de currículo. De tal forma, professores, que saí frustrado de minha pós-graduação, e não sou o único, porque ao invés de ter publicado muito, estudei e pensei muito, mas estudar e pensar não engordam currículo. Nem escrever blogs.

De mudança novamente

Não há ainda seis meses que me mudei de Minas Gerais para Pernambuco e já me preparo para nova mudança e, desta vez, posso anunciar com todos os dentes à mostra: estou empregado!! Adeus sombra tenebrosa do desemprego, adeus bolsas. Acabo de ser chamado para assumir um cargo de pesquisador na Embrapa Hortaliças, em Brasília-DF. Fiz o concurso em 2006, mas como fiquei classificado em segundo lugar, só agora fui chamado. Assumirei o cargo na área de Mudanças Climáticas Globais, sub-área Impactos dos Sistemas Produtivos Sobre Mudanças Climáticas. A estadia na UFRPE foi muito enriquecedora, as pessoas, tanto docentes quanto discentes, ensinaram-me muito. Agradeço à turma de Matéria Orgânica do Solo por terem agido como dóceis cobaias para este professor incipiente e ao Professor Clístenes Nascimento pela confiança e amizade. Comecemos agora uma nova etapa.

Será o fim da “meritocracia” brasileira?

Honestamente, venho me decepcionando cada vez mais com os rumos tomados pelo país. Digo isto pelos diversos acontecimentos recentes. É juiz mandando prender e o supremo mandando soltar. É presidente do supremo condenando uso de algemas (ora, daqui a pouco pra conduzir um acusado à cadeia terá que se pedir por favor, faça-me rir) e agora, a aprovação da lei que destina 50 % das vagas das universidades públicas para estudantes “carentes”. Antes de mais nada, já prevendo polêmica com relação a esse tema, gostaria de dizer que posso falar à vontade de tal pois frequentei durante toda minha vida escola pública, nunca tendo estudado em uma particular.
Ao meu ver, o sistema vestibular era um dos poucos que ainda contemplavam o mérito do cidadão em detrimento de outras formas de seleção. Entra quem demonstra mais capacidade. Um critério objetivo, onde a subjetividade passa longe. Ao contrário, nas seleções de pós-graduação ou para professores de universidades federais, a “articulação” do sujeito tem-se tornado, muitas vezes, mais importantes do que a capacidade do mesmo. Nesses últimos casos, cada vez mais tem-se percebido que a “máfia das publicações” tem ganhado espaço. O ato de se colocar nomes em diversas publicações, variando-se a posição do autor, mesmo que ele não tenha participado do trabalho, tem sido cada vez mais comum. Cito um caso que presenciei a pouco tempo atrás. Um sujeito, somente com graduação, possuía em seu currículo participação em 34 artigos científicos. Ora bolas, ou esse cara é um novo gênio ou algo está errado! No sistema de vestibular isso não existe. Quem sabe mais passa. Como diriam os jovens de hoje, isso é FATO!
Obviamente quem foi submetido a uma boa educação leva vantagem. No entanto, jovens que passaram por uma educação de menor qualidade, como é o caso de muitas escolas públicas, podem sim correr atrás. Diversos são os exemplos existentes. Para isto, tem que se dedicar, sem preguiça. Mas não é o que vem acontecendo no sistema educacional brasileiro. Não poder reprovar um aluno que não demonstrou capacidade durante o ano é o absurdo dos absurdos. Isso é fomentar a falta de compromisso em função de pseudo-melhorias. A média nacional do ENEM de, cerca de 42 % na prova objetiva, já diz tudo. O “analfabetismo funcional” é a moda do momento. Mas quais são as razões dessa nova moda? Não é a falta de qualidade do ensino? Então não seria mais sensato criar condições adequadas para a educação? As respostas são óbvias. Métodos de melhoria do ensino têm que ser implementadas sim, no entanto, a cobrança para com os estudantes também tem que existir. A prova da “preguiça” é a linguagem da internet dos jovens. A busca pelo caminho mais curto e mais fácil são sempre mais atraentes do que aquela pelo caminho correto. A falta de compromisso dos estudantes atuais é impressionante.
Na minha opinião, é preciso apertar o cerco contra a falta de compromisso. Mas isso só faz sentido quando se oferece condições decentes de ensino. Leis assistencialistas como a de cotas infelizmente acabam mascarando as deficiências do estado. Não venho observando propostas para banir essas deficiências. O assistencialismo tem que dar lugar a políticas efetivas de educação básica. E, além disso, tem que se lembrar que a educação também passa pela formação do cidadão, coisa que parece ter sido esquecida nos últimos tempos. Não fugindo do assunto, também tem que se lembrar de um princípio constitucional básico, o da igualdade. Afinal de contas, essas políticas de cotas não diferenciam os cidadãos? Na minha opinião sim.
Carlos Pacheco

Judeus nos sertões

Em minha adolescência, a curiosidade natural pelas origens, conjugada com a leitura entusiasmada da Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, levaram-me a pesquisar a genealogia da minha família junto a parentes mais velhos do sertão paraibano. A genealogia, junto com a heráldica, tornou-se por um bom tempo um hobby muito querido, a que dediquei muitas horas boas. O doutorado infelizmente interropmpeu isto, mas ficou o interesse.
Em minha pesquisas mais de uma vez encontrei referência à presença de cristãos-novos, ou marranos, na ascendência de muitas famílias sertanejas, inclusive a minha. Estes cristãos-novos eram judeus portugueses e espanhóis, sefaraditas, convertidos à força no início da idade moderna na Península Ibérica. Muitos, apesar da conversão superficial, mantinham em segredo práticas da antiga religião e eram chamados de judaizantes. Com a colonização das Américas, muitos fugiram para cá e uma quantidade expressiva parece ter se deslocado o mais para o interior possível, procurando os sertões, terras onde a mão firme da Inquisição dificilmente alcançaria. Apesar de o catolicismo se ter tornado a religião da maioria dos descendentes destes judeus conversos, uma quantidade notável de rituais de origem claramente judaica persistiu em muitas comunidades sertanejas.
Depois de ler em um jornal que um rabino americano identificara costumes claramente judeus em um lugarejo no extremo oeste do Rio Grande do Norte, a fotógrafa Elaine Eiger e a jornalista Luize Valente tiveram a idéia de fazer um documentário sobre as práticas judaicas mantidas por diversas famílias do sertão nordestino. Surgiu daí o interessantíssimo “A Estrela Oculta do Sertão“. Li esta semana um artigo na revista Smithsonian, “The ‘Secret Jews’ of San Luis Valley”, que me mostrou algo óbvio e em que no entanto nunca tinha pensado muito: a presença de descendentes de judeus sefarditas em todo lugar onde houve colonização ibérica e a possibilidade de se comprovar geneticamente o que talvez não passasse de lendas ou tradições mal contadas.
Uma equipe de médicos americanos, discutindo sobre a incidência incomum de um tipo agressivo de câncer de mama em mulheres de origem hispânica do sul do estado do Colorado, na fronteira com o Novo México. Ao contactar uma oncologista de Nova Iorque, Ruth Oratz, pedindo conselhos sobre o caso, ela disse de forma enfática “Estas pessoas são judias, não tenho dúvidas”. Este tipo de câncer é causado por uma mutação observada quase que exclusivamente em descendentes de judeus do centro e leste da Europa. Claro, estas mulheres são hoje católicas, mas sua genética denuncia que são descendentes de cristãos novos que procuraram o sertão dos Estados Unidos. Por sorte, a Inquisição não dispunha da tecnologia de screening genético.

Um postizinho para desagradar

Uma certa classe de intelectuais brasileiros adora tudo que vem dos States. Tecnologias e ideologias. Ignora ou prefere ignorar que temos uma herança intelectual própria, possivelmente mais rica porque mais “incluinte”. Nomes como o grande Mário Schenberg, físico teórico de primeira linha, além de crítico de arte respeitado e erudito. Um homem de idéias originalíssimas e de quem se pode dizer tudo, menos que foi dogmático. Reconheceu, como outros, que muito diferente da religiosidade fetichista é a espiritualidade. Schenberg sem dúvida faz parte desta linhagem de grandes homens entre a qual se incluem Da Vinci, Newton e Jung, aliás muito admirados por Schenberg. Homens que não se ativeram ao monotonismo vulgar de uma única idéia como salvação de mundo. Souberam integrar aspectos divergentes da herança cultural humana, ocidental e oriental, mesclando-os e criando formas próprias de pensamento, extremamente originais. Estes homens são o mais próximo, em minha opinião, do arquétipo do Sábio. Parece que nossos tempos não comportam mais este tipo de intelectuais, cientistas-artistas e, no caso de Da Vinci, artistas-cientistas. Importamos agora esta macaquice gringa, o profeta ateu, o monotemático “cientista”, bem entre aspas. Há já por aí dedicados apóstolos, clamando à internet a dureza de pensamento dos infiéis que não conseguem entrever a Verdade, tão óbvia e tão própria deles. Só eles entendem que os outros estão errados, só eles detêm a verdade. É incrível como não reconhecem no próprio discurso os mesmos argumentos utilizados pelos religiosos dogmáticos que criticam tanto. Trocamos Schenberg por Dawkins & Myers. Ainda que fosse por Gould & Sagan. Não, muito conciliadores, muito pouco americanos, pouco dogmáticos. O que se quer é uma guerra santa, não um diálogo. Antes que desabonem minhas opiniões por minha ignorância, sei bem que Dawkins é inglês, mas faz parte da mesma cultura atéia neopuritana. Cool?

Religião ambientalista

Tenho verdadeiro horror à discussão superficial, à unanimidade dogmática e desinformada. O que aprendi, infelizmente não na escola, nem mesmo na universidade, mas lendo Gould, Sagan, Asimov e mesmo Dawkins, foi que o pensamento científico era e é a melhor saída para a rigidez mental típica da mentalidade bidimensional, sem profundidade. Apesar de não me incluir entre os ateus militantes, na verdade classificando-me mais como um agnóstico conciliador, tenho bem em mente que o pensamento religioso não raro dificulta ou impossibilita a discussão de temas mais controversos, pois se baseia na fé, na crença inabalável. A ciência, idealmente, se deveria guiar por dados. Idealmente. Tento ter em todos os aspectos da vida um pensamento, se não completamente cético, o mais crítico possível. Sigo assim os “preceitos” do genial Mário Schenberg, para quem o intelectual deveria manter uma distância crítica em relação às próprias crenças. Vejo, no entanto, que não são raras as pessoas que aceitam alguns fatos, ainda que cientificamente comprovados até o presente, como artigos de fé. Aceitariam estes fatos como verdadeiros, mesmo que a ciência não lhes desse o aval. Este tipo de atitude tem sido comum nas discussões relativas às mudanças climáticas e aos organismos geneticamente modificados.

Vejam bem, isto não invalida os fatos, invalida o modo de encarar a realidade destas pessoas. Li recentemente um post no De Rerum Natura em que se citava um trecho de discurso do recentemente falecido escritor Michael Crichton que achei bem interessante. O autor do post, o físico português Carlos Fiolhais, apesar de não fazer muitos comentários, foi duramente criticado por alguns leitores, aparentemente pela simples razão de não ter criticado Crichton. Desprezo este tipo de patrulhamento ideológico.

Pelo que ouço e leio, Crichton era cético em relação ao aquecimento global pelas atividades humanas. Minha impressão é de que as evidências científicas demonstrando a realidade das mudanças climáticas são muito fortes e expressei isto inúmeras vezes aqui no Geófagos e em outros fóruns de discussão. Na verdade, vejo este blog como um embrião de think tank cujo objetivo principal é pensar estratégias de enfrentamento ou convivência com estas mudanças. Não investiria tanto tempo nisto se não pensasse que as mudanças climáticas são reais. Tendo dito isto tudo, confesso que procurei ler o tal discurso de Michael Crichton e não nego, é um material muito bem escrito, pergunta questões bastante relevante e toca num problema que me preocupa muito: o ambientalismo como religião. Aliás, este é o título do discurso – Environmentalism as religion.

O trecho que Fiolhais transcreveu e que eu traduzo é o seguinte: “Hoje, uma das mais poderosas religiões no Mundo Ocidental é o ambientalismo. O ambientalismo parece ser a religião predileta dos ateus urbanos. (…) Há um Éden inicial, um paraíso, um estado de graça e unidade com a natureza, uma queda em desgraça para um estado de poluição como resultado de se ter comido da árvore do conhecimento, e como resultado de nossas ações há um dia do juízo vindo para nós todos. Somos todos pecadores da energia, fadados a morrer, a não ser que busquemos a salvação, chamada agora de sustentabilidade. A sustentabilidade é a salvação na igreja do ambiente. Da mesma forma que a comida orgânica é sua comunhão, aquela hóstia livre de pesticidas que as pessoas direitas com as crenças certas ingerirão.” E por aí continua ele, num tom que me pareceu equilibrado, embora cético, clamando ao final por uma ciência do ambientalismo no lugar de uma religião do ambientalismo. Não vi uma palavra em seu texto que o condenasse.

Não tenho dúvida que a questão das mudanças climáticas, assim como outras questões de interesse ambiental, tem não raro adotado a retórica religiosa onde seria mais apropriada a objetividade da feia prosa científica. Eu mesmo já fiz isso, e não deveria ter feito. Não sou o único. Em um artigo recente para a revista Prospect Magazine, o filósofo Edward Sidelski reclama por uma necessidade de se resgatarem valores morais quase extintos e diz tradução minha: “É fácil rir do ambientalismo radical. Suas projeções climáticas são duvidosas e mesmo que sejam exatas, não fica claro como um punhado de entusiastas podem reverter o apocalipse que se aproxima. Mas isto não é o importante. O movimento verde pode falar a língua da ciência, mas o que realmente o move é um imperativo ético. É uma tentativa de criar uma sociedade em que algumas escolhas são reconhecidamente melhores que outras, em que a natureza é vista como um obstáculo aos desejos irresponsáveis. Em resumo, é uma religião – uma religião sem Deus.” E vai além, comparando as comunidades orgânicas aos antigos monges beneditinos. O tom aqui é francamente favorável aos ambientalistas radicais, mas diz a mesma coisa que Crichton. Mas as palavras de Sidelski sugerem que o conhecimento científico por si só não é suficiente para despertar um comportamento ético, para guiar uma moral sem a necessidade de religião, o que acho no mínimo discutível.

O ambientalismo tornou-se um sucedâneo de religião, com dogmas inquestionáveis, inimigos da religião (Crichton), uma divindade maléfica (o sistema, as indústrias), infiéis, hereges e toda a profusão de maniqueísmo mal-disfarçado. Eu fico com Crichton: "… no fim, a ciência oferece a única saída para além da política. E se permitirmos a politização da ciência, estamos perdidos. Entraremos uma versão internet do período das trevas".

Emissões de metano crescem após uma década de estabilidade

O metano, assim como outros gases poluentes, experimentou um aumento significativo nas suas emissões após as duas revoluções industriais. Nos últimos dois séculos, estima-se que os teores atmosféricos desse gás dobraram. Não obstante, é necessário lembrar que esse também é um dos chamados gases do efeito estufa e que, qualitativamente, apresenta-se com um efeito poluente cerca de 21 vezes mais intenso que o dióxido de carbono. Sua produção está ligada, principalmente, à degradação anaeróbica da matéria orgânica. Essa, por sua vez, pode-se dar por meio de lagoas e lagos, tratamento anaeróbico de esgotos domésticos e industriais, aterros sanitários, emissões industriais, áreas alagadas, atividades agropecuárias, se destacando a produção de arroz e de gado (trato intestinal de ruminantes é um grande emissor de metano), entre outros.
Apesar do aumento registrado nos últimos séculos, a última década foi de relativa estabilidade nos níveis de metano atmosféricos. Cientistas atribuíam tal fato a presença de uma atmosfera altamente oxidante, em que, quando em contato com o metano emitido, seria capaz de oxidá-lo parcialmente a monóxido de carbono ou totalmente a dióxido de carbono (sendo essa última a situação mais comum). Entretanto, um estudo publicado pela revista Geophysical Review Letters mostra que os níveis atmosféricos de metano sofreram brusco aumento em 2007, mostrando que o período de estabilidade dos níveis desse gás pode ter acabado.
Como o metano apresenta maior capacidade de provocar o chamado efeito estufa que o dióxido de carbono, o aumento em seus níveis é extremamente preocupante para a comunidade internacional. A recente estabilidade dos níveis desse gás haviam deslocado as atenções para as emissões de dióxido de carbono, que, por sua vez, apresentavam um aumento nas emissões sensivelmente maiores que as do metano. No entanto, essa situação tomou um rumo diferente após a divulgação do estudo realizado pelos cientistas Matthew Rigby e Ronald Prinn, do Instituto Tecnológico de Massachusetts.
Uma possível explicação dada pelos autores do trabalho é a redução de radicais livres atmosféricos, o que a tornaria menos capaz de oxidar o metano a gases mais estáveis em condições oxidantes, como o dióxido de carbono. Entretanto, a hipótese mais provável é que esse fato esteja ligado ao aumento das temperaturas na região da Sibéria. Essa elevação, que ocorreu durante todo o ano de 2007,  pode ter provocado maior atividade bacteriana, que, por sua vez, aumentaria a degradação de matéria orgânica por via anaeróbia e consequentemente as emissões de metano para a atmosfera. As consequências ambientais de tal fato estão ligadas à maior intensidade dos chamados “efeitos estufa”, com um possível maior aumento nas temperaturas globais e mais intensas consequências das mudanças climáticas.
Mais uma vez percebe-se como as ações humanas estão interligadas, provocando sensíveis alterações até mesmo em “fenômenos naturais”. Ainda pode-se perceber que esses efeitos podem ser cíclicos, com alterações provocando um “efeito dominó”, atingindo diversos outros níveis dos ecossistemas terrestres. As alterações de temperatura chegaram à Sibéria, e o aumento da mesma lá, pode provocar mudanças climáticas cá, graças ao aumento do metano atmosférico que, ainda segundo a pesquisa, se deu em todo o planeta, apesar de ter-se concentrado no hemisfério Norte.
Carlos Pacheco

Rapidinha: O sopro de esperança chamado Obama

Quando ainda em campanha, o então candidato Barack Obama assumiu alguns compromissos que, se cumpridos, efetivamente constituirão uma nova conjuntura mundial sócio-ambiental. Resta saber se o referido candidato e agora, presidente eleito da nação mais poderosa do mundo, terá força e vontade política suficientes para colocar em prática essas promessas, ou, se mais uma vez, teremos nossa esperança de um mundo mais “sustentável” perdida ralo a fora.
Tais promessas estão transcritas no site www.ambientebrasil.com.br como seguem abaixo:
1) Reduzir as emissões de carbono dos EUA em até 80% até 2050 e ter um papel mais forte e positivo na negociação do tratado global que irá dar continuidade ao Protocolo de Kyoto;
2) Dobrar o apoio financeiro para reduzir pela metade a extrema pobreza até 2050 e contribuir para a luta contra o HIV/AIDS, a tuberculose e a malária;
3) Somente negociar novos tratados comerciais que contenham proteções trabalhistas e ambientais para os países envolvidos
4) Investir US$ 150 bilhões nos próximos 10 anos em energias renováveis e colocar 1 milhão de carros elétricos nas ruas até 2015.
Carlos Pacheco

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