Emissões de metano crescem após uma década de estabilidade

O metano, assim como outros gases poluentes, experimentou um aumento significativo nas suas emissões após as duas revoluções industriais. Nos últimos dois séculos, estima-se que os teores atmosféricos desse gás dobraram. Não obstante, é necessário lembrar que esse também é um dos chamados gases do efeito estufa e que, qualitativamente, apresenta-se com um efeito poluente cerca de 21 vezes mais intenso que o dióxido de carbono. Sua produção está ligada, principalmente, à degradação anaeróbica da matéria orgânica. Essa, por sua vez, pode-se dar por meio de lagoas e lagos, tratamento anaeróbico de esgotos domésticos e industriais, aterros sanitários, emissões industriais, áreas alagadas, atividades agropecuárias, se destacando a produção de arroz e de gado (trato intestinal de ruminantes é um grande emissor de metano), entre outros.
Apesar do aumento registrado nos últimos séculos, a última década foi de relativa estabilidade nos níveis de metano atmosféricos. Cientistas atribuíam tal fato a presença de uma atmosfera altamente oxidante, em que, quando em contato com o metano emitido, seria capaz de oxidá-lo parcialmente a monóxido de carbono ou totalmente a dióxido de carbono (sendo essa última a situação mais comum). Entretanto, um estudo publicado pela revista Geophysical Review Letters mostra que os níveis atmosféricos de metano sofreram brusco aumento em 2007, mostrando que o período de estabilidade dos níveis desse gás pode ter acabado.
Como o metano apresenta maior capacidade de provocar o chamado efeito estufa que o dióxido de carbono, o aumento em seus níveis é extremamente preocupante para a comunidade internacional. A recente estabilidade dos níveis desse gás haviam deslocado as atenções para as emissões de dióxido de carbono, que, por sua vez, apresentavam um aumento nas emissões sensivelmente maiores que as do metano. No entanto, essa situação tomou um rumo diferente após a divulgação do estudo realizado pelos cientistas Matthew Rigby e Ronald Prinn, do Instituto Tecnológico de Massachusetts.
Uma possível explicação dada pelos autores do trabalho é a redução de radicais livres atmosféricos, o que a tornaria menos capaz de oxidar o metano a gases mais estáveis em condições oxidantes, como o dióxido de carbono. Entretanto, a hipótese mais provável é que esse fato esteja ligado ao aumento das temperaturas na região da Sibéria. Essa elevação, que ocorreu durante todo o ano de 2007,  pode ter provocado maior atividade bacteriana, que, por sua vez, aumentaria a degradação de matéria orgânica por via anaeróbia e consequentemente as emissões de metano para a atmosfera. As consequências ambientais de tal fato estão ligadas à maior intensidade dos chamados “efeitos estufa”, com um possível maior aumento nas temperaturas globais e mais intensas consequências das mudanças climáticas.
Mais uma vez percebe-se como as ações humanas estão interligadas, provocando sensíveis alterações até mesmo em “fenômenos naturais”. Ainda pode-se perceber que esses efeitos podem ser cíclicos, com alterações provocando um “efeito dominó”, atingindo diversos outros níveis dos ecossistemas terrestres. As alterações de temperatura chegaram à Sibéria, e o aumento da mesma lá, pode provocar mudanças climáticas cá, graças ao aumento do metano atmosférico que, ainda segundo a pesquisa, se deu em todo o planeta, apesar de ter-se concentrado no hemisfério Norte.
Carlos Pacheco

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Discussão - 8 comentários

  1. manuel disse:

    Caros Carlos e Ítalo
    A propósito de metano,seja-me permitido deixar aqui um muito pouco do muito que sobre ele se sabe. ´
    É o gás dos pântanos,o perigoso grisu das minas de carvão. Ele é produzido pela decomposição anaeróbia de matérias orgânicas,via reacções de oxidação-redução,por transferência
    de electrões. São várias as suas fontes,nelas se incluindo as “wetlands”,os arrozais,os sedimentos das barragens,o estômago dos ruminantes,o “gut” das térmitas,o “permafrost”.
    Como marerial fóssil,o gás natural,esteve impedido de desempenhar papel activo no ciclo do carbono.É que estava lá muito bem guardado nas profundezas. Vindo à luz do dia e sendo combustado,para o que são necessárias altas temperaturas,como as das faíscas,repõe-se CO2,à semelhança do que acontece com outro material da mesma família fóssil.
    E pronto,Carlos e Ítalo. Muito boa saúde e muito bom trabalho.

  2. hdg disse:

    O que vcs acham da afirmação do Dr. Luis Carlos Molion, que diz que o metano está em um estado de saturação? Como o metano ficou estável por quase uma década se o rebanho de gados aumenta assustadoramente? Não é uma crítica e sim , uma dúvida.

  3. geofagos disse:

    Não é o que dizem os relatórios do IPCC. A verdade é que os dados ainda são controversos, no entanto, a maior parte deles levam a um aumento da temperatura. A longo prazo, alguns cenários levam a elevação, principalmente no hemisfério sul e um cenário mais estável, talvez até com queda da temperatura no norte. Os dados estão aí para serem analisados e discutidos. Ninguém é dono da verdade e a discussão é que alimenta a ciência. Ser estudioso do meio ambiente é muito diferente de ser um simples ambientalista. Do mesmo modo criticar trabalhos ambientais sem fundamentação científica leva ao mesmo quadro de radicalismo que os ambientalistas possuem. A generalização não leva a lugar algum, ao contrário, a discussão sim. Portanto, vamos à discussão.

  4. Ecotretas disse:

    Se as emissões estão subindo, porque estão baixando as temperaturas???
    Ecotretas
    http://ecotretas.blogspot.com

  5. João Carlos disse:

    Notinha jocosa: quando eu era estudante do primário, costumavam dizer que “a única coisa que não se aproveita do boi, é o berro”. Como é que, até agora, não apareceu ninguém com uma trapizonga qualquer para coletar os flatos do gado e transformá-los em gás combustível?…

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