Mais um ano de fiascos…

O ano vai chegando ao fim e, com ele, carregamos uma sensação de frustração. Assim como já havia acontecido em Johannesburgo, na rio + 10, mais uma conferência ambiental termina como um verdadeiro fiasco. Dias de muito blá blá blá e no final, nada. Como bem disse o presidente Lula, só mesmo um “anjo do céu ou um sábio” para iluminar as cabeças dos líderes mundiais e fazer com que os mesmos tomem decisões sensatas, deixando de pensar um pouco no dinheiro e lembrando-se que existem coisas tão importantes quanto para serem levadas em consideração no ato de decidir sobre o futuro da humanidade.
Ao meu ver grande parte da falta de decisões tomadas também tem a ver com a falta de consenso sobre o tema aquecimento global. Muito já escrevi, aqui mesmo, no Geófagos, que acredito num outro rumo das discussões sobre o tema, enfocando o problema em si e não APENAS discutindo as suas causas. A discussão das causas, aliás, é uma necessidade para que haja argumentos e dados suficientes para subsidiar políticas de combate ao fenômeno. Entretanto, na atual circustância, acredito ser muito mais sensato nos preocuparmos principalmente com as consequências do fato para com a espécie humana. Aparentemente, antropogênico ou não, o aquecimento está aí e é irreversível e, portanto, é necessário nos adaptar a esse novo cenário.
Outro fato que em nada auxilia na elaboração de políticas adequadas é o catastrofismo de alguns. Após a COP 15 tenho ouvido a todo momento leigos e até mesmo especialistas dizendo sobre o pedido de socorro do planeta Terra. O planeta não pede socorro, nós é que pedimos. Nossas atitudes não afetarão as estruturas da Terra e sim, as condições nos mantêm nela. Deixemos de nos imaginar como o “centro do universo”, deixemos de ser nacisistas, pois, somos apenas parte de um grande sistema. Volto a dizer que, provavelmente, nós seremos um dia extintos e o planeta, provavelmente continuará por aqui, assim como após a extinção de várias outras espécies mais famosamente representadas pelos dinossauros há 65 milhões de anos atrás.
Em setembro desse ano um artigo denominado “A safe operating for humanity” procurou listar alguns ítens e seus limites que seriam necessários para manutenção da espécie humana no planeta. O autor ainda argumenta que durante o holoceno, por aproximadamente 10000 anos, as condições do planeta se mantiveram estáveis, permitindo o desenvolvimento da humanidade. Porém, a partir da revolução industrial o homem criou condições específicas que levaram à quebra dessa estabilidade. Essa nova era foi denominada de Antropoceno e é caracterizada principalmente pela grande interferência do homem no meio natural, levando a um desequilíbrio de consequências ainda discutíveis, mas, ao que tudo indica, extremamente danosas para a continuidade de diversas espécies, inclusive a nossa.
A lista de processos vitais à sobrevivência humana no planeta é: mudanças climáticas, poluição química, cargas de aerossóis atmosféricos, perda de biodiversidade, mudanças no uso da terra, uso global das águas, ciclos do fósforo e do nitrogênio, declínio do ozônio estratosférico e acidificação dos oceanos. O autor cita ainda que, em pelo menos três desses processos já ultrapassamos os limites planetários, é o caso das mudanças climáticas representadas pelos teores de CO2 atmosféricos, da taxa de perda de biodiversidade e da quantidade de Nitrogênio removido da atmosfera para uso humano.
Ao citar esse trabalho e os processos vitais nele listados, quero voltar a uma velha questão que há muito também tenho discutido. Os problemas ambientais são muito mais complexos do que parecem. Eles não se resumem ao desmatamento amazônico ou ao aquecimento global. Existem outras questões, talvez mais complexas e de soluções mais difíceis que constantemente são ignoradas pelos grandes meios de comunicação. Desviar o foco para apenas um ou dois problemas nos leva a esquecer os demais. Abranger demais a discussão, tornando-a não objetiva, também é uma forma de desviar o foco e não discutir-se outras questões de suma importância.
Portanto, que tal tornarmos as discussões sobre questões ambientais mais objetivas? Que tal começarmos a buscar as adaptações necessárias ao novo cenário que há por vir e focarmos na resolução de problemas solucionáveis? Que tal tornarmos a discussão mais científica e menos política?
Enfim, gostaria de desejar a todos um ótimo ano novo e que tenhamos um ano com discussões mais objetivas e proveitosas que nos anos anteriores.

Uma breve introdução à gênese dos solos…

A ciência do solo é relativamente recente, datada do século XIX, quando o geólogo russo Dokuchaev elaborou seus pilares. Os solos, até então vistos como “restos” de decomposição das rochas e que, consequentemente, apresentavam grande relação com o corpo rochoso de origem, passaram a ser entendidos como corpos dinâmicos, com características e propriedades próprias, cuja relação com o material originário dependeria de todos os aspectos relacionados à sua formação, refletindo os fatores a ela relacionados e o modo como eles se interagem. Entende-se por fatores de formação dos solos aqueles que, de alguma forma, são capazes de atuar de maneira significativa na pedogênese. Já os processos de formação dos solos podem ser entendidos como o modo de atuação desses fatores.
A lista de fatores de formação dos solos até hoje estudadas não é fruto apenas dos estudos de Dokuchaev, mas também de outros importantes estudiosos, como o suíço Jenny. Segundo esses autores, os solos podem ser entendidos como função de cinco fatores de formação, quais sejam, material de origem, tempo, relevo (topografia), clima e organismos. Esses fatores refletem muito bem a relação da pedosfera com as outras esferas planetárias (geosfera, hidrosfera, atmosfera e biosfera) e, podem ser divididas em fatores ativos, passivos e controladores.
Entende-se como fatores ativos de formação dos solos aqueles que, de alguma forma, atuam sobre o material de origem fornecendo ou exportando matéria, além de gerar energia. São aqueles fatores que ativamente atuam na pedogênese e que, isoladamente, mais contribuem para a mesma. Clima e organismos são os melhores exemplos de fatores ativos.
Os fatores passivos, por sua vez, são aqueles que não fornecem ou exportam matéria, ou ainda, não geram energia. Dentre os fatores acima referidos, material de origem e tempo são classificados como tais.
Já o relevo atua como agente controlador da pedogênese. Apesar de não atuar diretamente, ele pode definir menores ou maiores graus de desenvolvimento do perfil. De modo geral, relevos acidentados favorecem a erosão em detrimento da pedogênese, favorecendo então a formação de um solo menos desenvolvido, que guarda relação estreita com o material originário. Já relevos suaves e planos favorecem a ocorrência de processos como a lixiviação, levando a taxas elevadas de pedogênese e, consequentemente, gerando solos mais maduros.
Nos próximos posts, detalharei, um por um, os fatores de formação dos solos aqui citados. Procurarei também, à medida do possível, mostrar as implicações práticas de tais fatores.
Até a próxima…

Voltando às origens…

Após um longo tempo afastado, estou de volta. Diversos afazeres nesses últimos tempos me afastaram do Geófagos e agora chegou a hora do retorno. Antes de voltar definitivamente resolvi dar uma olhada nos históricos de publicações do blog e, como já imaginava, percebi que nos útlimos tempos nos dedicamos, talvez demasiadamente, à “ciência do solo aplicada” e até outras ciências, sobretudo àquelas ligadas ao ambiente. Entretanto, pouco nos dedicamos à “ciência do solo básica”, extremamente importante para o entendimento de questões aplicadas e também um dos principais objetivos do Geófagos, que é o de divulgar a ciência do solo para outros segmentos sociais além da academia. Iniciarei, portanto, uma volta às origens, iniciando com posts relacionados à gênese dos solos, chegando, no final dessa saga, às principais classes de solos segundo o Sistema Brasileiro de classificação e suas principais características. Evidentemente, principal enfoque será dado aos solos comumente encontrados em ambientes tropicais úmidos e, sobretudo, naqueles predominantes no território brasileiro.
Os solos à muito deixaram de ser considerados apenas como um resultado de desgate de rochas. Desde a visão do geólogo russo Dokuchaev, no século XIX, que eles passaram a ser entendidos como um corpo natural, com propriedades próprias, resultados de interações entre as diversas esferas do planeta (geosfera, biosfera, atmosfera, a própria pedosfera, etc…) através do tempo. Comumente considera-se como fatores de formação dos solos o material de origem, clima, organismos, relevo e tempo. A interação desses fatores determina os processos gerais de formação e, a predominância de um ou mais processos gerais, determina os processos específicos que deram origem a determinado tipo de solo.
O próximo post será dedicado a conceituar gênese do solo, enfocar a importância do seu estudo e exemplificar maneiras de estudá-la. Posteriormente, detalhamentos desses fatores e processos serão dados em outros posts.
Até a próxima…

Na Amazônia, pela primeira vez

Isso mesmo, estou na Amazônia pela primeira vez. Bem, não exatamente no meio da floresta – estou em Manaus. Cheguei hoje à tarde e meu organismo aos poucos se recupera do cansaço e do fato de estar aparentemente duas horas atrasados. Meu dia hoje durará exatamente 26 horas. Por enquanto ainda não vi nada que possa classificar como tipicamente amazônico, apenas suei algo como o volume de água que consumo em dois dias, provavelmente.
Terça feira devo atravessar um trecho do Rio Negro em direção a Iranduba, onde há um polo de produção de hortaliças sob cultivo protegido. Alguem talvez se pergunte o porquê de se utilizar ambiente protegido aqui – basicamente para aproveitas o “efeito guarda chuva”, as estufas costumam ficar abertas dos lados, permitindo a circulação do ar e evitando as temperaturas excessivamente altas.
Estou aqui para dar um curso. Vim falar sobre manejo de solos, cultivo protegido e fertirrigação, em ordem decrescente de domínio do assunto. Os alunos serão principalmente agrônomos extensionistas, dos mais variados locais do estado do Amazonas. Acho que será uma experiência muito interessante.

Mudanças climáticas, produção agrícola e qualidade de hortaliças – Blog Action Day

As mudanças climáticas, em decorrência do aumento na concentração dos gases de efeito estufa na atmosfera, devem afetar a agricultura de várias e possivelmente imprevisíveis maneiras. Mudanças nos valores de temperatura média e na distribuição de chuvas podem mesmo já estar influenciando padrões de localização regional de certas espécies cultivadas.
Como a fotossíntese depende tanto da interceptação da luz quanto da absorção de dióxido de carbono, alguns pesquisadores hipotetizam que o aumento da concentração de CO2 atmosférico poderia causar aumento na produção de algumas espécies agrícolas, principalmente aquelas que utilizam a rota fotossintética C3, embora o aumento concomitante de temperatura possa ser danoso a estas mesmas espécies.
Além da migração dos cultivos, há evidências convincentes de que a qualidade da matéria orgânica vegetal produzida em um mundo sob maiores concentrações de CO2 atmosférico também mudaria. A maior disponibilidade de dióxido de carbono para a fotossíntese poderia favorecer a produção de compostos ricos em carbono, tais como lignina e polifenóis. Teores mais altos de lignina provavelmente afetariam de alguma forma a palatabilidade do material vegetal.
Pelo que se tem pesquisado, em climas tropicais o que se prevê são aumentos de temperatura e da freqüência de chuvas torrenciais, ambos aspectos que devem afetar diretamente a qualidade de hortaliças As conseqüências disto para a produção de hortaliças, por exemplo, em que a qualidade do produto importa tanto ou mais que a quantidade produzida, seriam enormes. Afetados seriam também a susceptibilidade a pragas e doenças, qualidade pós-colheita, o valor nutricional das hortaliças.
Apesar da existência de informações acerca dos possíveis efeitos das mudanças climáticas globais sobre a produção de hortaliças, muito do conhecimento gerado está ainda disperso e não coordenado, dificultando uma visão de conjunto que possibilitasse o planejamento não apenas de demandas de pesquisa ainda não atendidas, mas até mesmo de medidas futuras visando a segurança alimentar nacional em termos de produção de hortaliças.

Efeitos das mudanças climáticas na produção de hortaliças

Com o apoio do Fundo de Amparo à Pesquisa do Distrito Federal – FAP/DF, a Embrapa Hortaliças vai estimular as discussões a respeito da necessidade de a pesquisa em hortaliças incluir a perspectiva do aquecimento global. Com esse objetivo, a Unidade promove no dia 20 de novembro o workshop “Efeitos das Mudanças Climáticas na Produção de Hortaliças“, que discutirá os desafios que as mudanças globais vão impor a este segmento da pesquisa agrícola.
Para o pesquisador Ítalo Guedes, um dos coordenadores do workshop, embora já existam pesquisas relacionadas ao assunto, as informações ainda estão um pouco esparsas. Segundo ele, a expectativa é que o evento possa auxiliar os pesquisadores, e outros envolvidos na pesquisa e produção de hortaliças, a terem uma visão mais completa sobre o que tem sido feito e o que ainda está por fazer. “Falta uma concepção mais clara sobre isso, e a ideia de promover uma discussão em torno da questão de como as mudanças climáticas afetam, ou poderão afetar, a produção de hortaliças pode ajudar os nossos pesquisadores a desenvolverem os seus projetos de pesquisa dentro dessa nova realidade”, associa Ítalo.
Ele evoca o fato de a agricultura ser altamente dependente dos fatores climáticos, o que a torna bastante vulnerável à mudança global do clima, além de poder atuar também como provedora de gases que provocam o efeito estufa. Por outro lado, a adoção de práticas agrícolas sustentáveis, como o plantio direto, práticas agroecológicas, rotação de culturas, manejo racional da adubação e da irrigação, entre outras, podem não apenas diminuir a emissão de gases de efeito estufa, mas também fazer com que a agricultura sequestre carbono, mitigando os efeitos das mudanças climáticas globais. Ítalo informa que esses serão alguns dos tópicos que vão compor a pauta de discussões durante o workshop, que “vai chamar a atenção e visualizar os pontos mais vulneráveis na produção de hortaliças”.
Têm presença confirmada no evento os pesquisadores Eduardo Assad, da Embrapa Informática Agropecuária (Campinas-SP), que coordenou nacionalmente, de 1993 a 2007, o Zoneamento Agrícola de Riscos Climáticos do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), e Clyde Fraisse, da Universidade da Flórida e integrante do grupo de pesquisa que estuda os impactos das mudanças climáticas na produção agrícola naquela região dos Estados Unidos.
Durante o encontro, qualificado pelo pesquisador como “uma semente para futuras discussões”, a perspectiva é incluir na pauta da produção de hortaliças essa preocupação, que já ganhou espaço quando se refere às grandes culturas. No Brasil, principalmente. “Nos Estados Unidos e na Europa, a produção agrícola e seus efeitos nas alterações climáticas vêm sendo discutidos desde a década de 90, enquanto que entre nós os debates ainda são pontuais”. Na sua avaliação, quer seja em outros países, quer seja no Brasil, as mudanças, em maior ou menor grau, talvez sejam inevitáveis, e é fundamental que a Embrapa participe – e até mesmo incentive – de toda discussão em relação aos efeitos das alterações climáticas sobre qualquer setor da produção agrícola.
Vez das hortaliças
Articulador do workshop, o chefe-geral e pesquisador da Embrapa Hortaliças, Celso Moretti, lembrou que o evento enquadra-se no rol de atividades propostas no seu plano de trabalho, explicitado quando da escolha para a chefia da Unidade, em 2008. “A primeira dessas ações previa justamente a expansão da base tecnológica e o avanço na fronteira do conhecimento, e as mudanças climáticas, com as decorrentes discussões e estratégias, se inserem neste contexto”, observou. Na sua opinião, o Brasil não tem sido omisso nesta questão, apesar das queimadas e dos desmatamentos que permanecem na ordem do dia: os esforços direcionados à produção de combustível não fóssil são exemplos das contrapartidas do País, frente às medidas que estão sendo discutidas no mundo inteiro para minimizar/neutralizar os efeitos das mudanças climáticas. Segundo ele, a agricultura encontra-se no meio dessa guerrilha, mas até certo ponto. “Existem iniciativas nessa área, porém o foco maior tem sido direcionado às grandes culturas – soja, café, cana-de-açúcar, entre outras -, e como elas podem afetar e serem afetadas pelas alterações do clima”, exemplifica. Moretti defende a ampliação dessas discussões, tendo em vista a produção de alimentos de uma maneira geral. Sem excluir as hortaliças, naturalmente. “Os riscos do aquecimento global à produção de hortaliças podem até ser maiores do que para outros alimentos, guardadas as devidas proporções”, sustenta o pesquisador, para quem esta será a pedra de toque do workshop.
Informações sobre o evento: [email protected]
Anelise Macêdo – MTb 2749/DF
Assessoria de Imprensa
Área de Comunicação e Negócios (ACN)
Embrapa Hortaliças

Que a terra mostre meus erros

Alguns fiéis leitores do Geófagos, além de fiéis comentadores são quase colaboradores permanentes. O Sr. Manuel, um agrônomo português que sempre nos honra com relevantes comentários, narrou há pouco um caso interessante ocorrido certamente durante sua atuação profissional: uma generalizada deficiência do micronutriente maganês em videiras de certa região portuguesa em solos em que a falta deste nutriente não seria esperada.
Coincidentemente, durante o curto período em que trabalhei em uma empresa de adubos no interior de Minas Gerais, observei, em um pomar de laranjeiras, o claro sintoma foliar de falta de ferro, um outro micronutriente metálico, em um solo em que talvez fosse mais lógico encontrar excesso de ferro. Apesar da distância geográfica, das diferenças entre espécies e solos, em ambos os casos o agente causador da falta dos dois micronutrientes nestas folhas foi o mesmo: o calcário.

Sintoma de deficiência de manganês em planta ornamental:

Manganês.jpg

Sintoma de deficiência de ferro em cafeeiro:

Ferro.jpg
Alguem mais atento aos fatos da agricultura estranhará o que disse, afinal o calcário não é em geral utilizado como um melhorador das condições químicas do solo? Verdade, mas como afirma o dito popular, até os remédios podem ser venenos, dependendo da dose. O calcário, majoritariamente composto de carbonato de cálcio (CaCO3) é largamente utilizado em solos ácidos de regiões tropicais para corrigir a acidez e, principalmente, tornar indisponível o íon alumínio (Al3+), extremamente tóxico à maioria das plantas e muito solúvel sob condições de baixo pH, como nos Latossolos dos Cerrados. Basicamente, a reação que leva à correção da acidez do solo é a seguinte:
CaCO3 + H2O = Ca2+ + HCO3 + OH-
O íon OH-, hidroxila, além de reagir com os íons H+, diminuindo a acidez, reagem também com o alumínio, da seguinte forma:
Al3+ + 3OH- = Al(OH)3
O hidróxido de alumínio (Al(OH)3) é bastante insolúvel, ficando o alumínio assim numa forma pouco disponível para as plantas, anulando seu efeito tóxico. Mas as hidroxilas não são seletivas, não reagem apenas com o alumínio – podem reagir também com outros cátions metálicos que não são tóxicos ou até mesmo com nutrientes:
Fe3+ + 3OH- = Fe(OH)3
Mn2+ + 4OH- = MnO2 + 2H2O + 2e-
Tanto o hidróxido de ferro quanto o óxido de manganês são insolúveis, tornando estes dois nutrientes indisponíveis às plantas e causando os sintomas de deficiência. Isto é comum em plantios onde a calagem (aplicação agrícola do calcário) é feita de forma incorreta, em excesso, em geral porque não se faz a análise química do solo para a correta recomendação da calagem. Foi exatamente isso o que ocorreu no pomar de laranjeiras ao qual me referi acima: um agrônomo inexperiente ou descuidado recomendou a aplicação de calcário “no olho”, por adivinhação, e recomendou em excesso. O pH do solo subiu demais e o micronutriente ferro ficou indisponível às plantas, na forma insolúvel de hidróxido de ferro.
No caso das videiras do senhor Manuel, apesar de o calcário também ter sido o “culpado”, a história foi um tanto diferente e curiosa. Dou a palavra ao agrônomo português:
“O solo,aparentemente,tinha,porém,manganésio para dar e vender,assim se pode dizer. Só que estava muito pouco disponível. Coisas que acontecem quando sucedem outras coisas. E o que tinha acontecido? Anos atrás, as estradas eram de macadame calcário. A passagem de carros e carretas levantava nuvens de poeira calcária,que o vento dominante se encarregava de ir depositando,sobretudo, numa das bermas. E calcário a mais faz das suas e,neste caso particular,levou o manganésio a um estado muito menos solúvel.”
Como se costuma dizer nas escolas de agronomia, os médicos têm uma clara vantagem sobre os agrônomos: seus erros são encobertos pela terra. Os erros dos agrônomos, a terra mostra.

Enquanto como uma maçã

Há dias em que me torno ainda mais introvertido e contemplativo que o normal. Por gostar muito de ciência, por trabalhar como pesquisador, em geral meus devaneios dizem respeito ao lado científico dos mais mundanos eventos. Por recomendação médica, reduzi drasticamente meu consumo de doces e massas, de maneira que tenho aumentado o consumo de frutas em meus lanches ao longo do dia. Hoje, enquanto saboreava uma maçã, surpreendi-me considerando todo o trabalho agronômico provavelmente dispendido na produção daquela única fruta.
O devaneio científico começou ao observar umas pequenas rachaduras meio ressecadas, pouco visíveis ao olho não treinado, junto à depressão em que se insere a haste, no topo do fruto. Uma leve deficiência de boro, talvez, ou falta de água durante o crescimento do fruto, talvez ambos os problemas, talvez nenhum destes. Alguns frutos podem vir a ficar mal formados se houver problemas de polinização, por alguma razão.
A variedade de maçã que prefiro, do grupo Fuji, parece-me ser bastante doce. Imagino o árduo trabalho de seleção e melhoramento ao longo dos anos levando quem sabe a maiores taxas de fotossíntese ou, mais certamente, a uma maior alocação de açúcares para os frutos em detrimento de outras partes das plantas, estratégia comuníssima no melhoramento de quase todas as plantas cultivadas durante a história da agricultura.
Em minha infância sertaneja, poucos frutos eram tão inacessíveis quanto a maçã – distante e exótica, além de cara. Não há como não pensar no trabalho quase épico dos agrônomos responsáveis pela aclimatação desta cultura às condições brasileiras, as mudanças em termos de necessidades de temperatura, fotoperíodo, condições de solo, trabalho grandemente desconhecido. Aliás, este tipo de aclimatação, no Brasil, não é comum à macieira: uva, soja, trigo, espécies milenarmente cultivadas sob condições temperadas, transplantadas a condições subtropicais ou tropicais, não por meio de mágica ou milagre, mas pelo trabalho dedicado e árduo de agrônomos e agricultores brasileiros.
Tudo isso enquanto comia uma maçã.

Sustentabilidade, adubos e bosta urbana

No filme Waterworld, com o ator americano Kevin Costner como protagonista, a maior parte das terras emersas desapareceu (possivelmente por descongelamento de geleiras polares em uma Terra mais quente) a ausência de terras agricultáveis força os humanos a reciclarem seus mortos visando a reutilização dos nutrientes neles armazenados. Embora não ache a idéia de modo algum absurda, não creio que precisemos de atitudes como esta tão cedo.
Penso, no entanto, que a humanidade se defrontará com desafios semelhantes em um futuro próximo e soluções inovadoras serão necessárias. Para produzir alimentos para uma população crescente e manter os preços destes alimentos em níveis acessíveis, tem sido necessário fazer agricultura em grande escala. Para se conseguir produzir grandes quantidades de alimentos de origem vegetal a preços razoavelmente acessíveis, uma tarefa na verdade difícil, os agricultores tem feito uso de métodos que homogeneizem ao máximo os campos agrícolas, tornando o ambiente físico e químico o mais apropriado possível para que as espécies cultivadas expressem todo ou quase todo potencial genético. Entre outras técnicas, a adubação usando-se fertilizantes químicos de alta solubilidade se tornou o método mais usual de se disponibilizar nutrientes em quantidades adequadas aos cultivos.
Os adubos, ou fertilizantes, garantem a nutrição mineral das plantas cultivadas e a necessidade de seu uso advém do fato de que os solos possuem um estoque finito de nutrientes minerais. Uma vez exauridos estes estoques, faz-se necessária a aplicação de fertilizantes concentrados para a manutenção da produção agrícola. Os nutrientes minerais são absorvidos pelas raízes e então distribuídos para as várias partes do corpo da planta. Quando se colhe uma cultura agrícola, embora alguma parte da vegetação possa permanecer no campo de cultivo, e o ideal é que permaneça, devolvendo ao solo parte dos nutrientes absorvidos, através da decomposição do material orgânico, uma fração considerável, e em alguns casos majoritária, é retirada da área de cultivo e os nutrientes nestes produtos são irreversivelmente “exportados”.
O fato de estes nutrientes exportados não serem recuperados para as terras produtoras é uma das causas maiores da necessidade do uso de fertilizantes. Mas qual o problema de se usar adubos? Alguém mais ou menos familiarizado com o assunto pensaria logo na poluição das águas subterrâneas e estaria certo. Este problema, porém, pode ser contornado ou resolvido pela adoção de práticas adequadas de manejo da adubação. O grande problema é que as fontes de adubo são finitas e estão escasseando rapidamente. O cloreto de potássio, por exemplo, maior fonte de adubos potássicos, vem de depósitos minerais de evaporitos em países como China e Rússia, embora também haja alguma coisa no Brasil. As principais fontes de rocha fosfatada estão no norte da África e já se exaurem. Mesmo a uréia, produzida a partir do nitrogênio atmosférico, depende do petróleo para sua fabricação.
Utilizando uma frase querida aos eco-catastrofistas, este modelo é claramente insustentável. E quais as soluções para isso? Apesar de ver grande potencial na utilização de práticas como a rotação de culturas, o uso de adubos verdes, a agricultura de precisão, as técnicas de produção integrada, o plantio direto, a agricultura orgânica, acho que as alternativas do tipo Waterworld podem vir a ter algum papel no futuro.
Adotando um tom ironicamente profético, acredito que chegará um tempo, e não está longe, em que serão necessários cálculos para se retornar os nutrientes exportados aos campos de cultivo, talvez na forma de fezes tratadas e desidratadas ou, melhor ainda, compostadas, com ou sem calcário, uso de biossólidos (lodos de esgoto urbano e industrial) e outras. Quase toda a cenoura produzida na pequena cidade mineira de Rio Paranaíba, por exemplo, é vendida em São Paulo ou na distante Fortaleza. Dentro das cenouras vão preciosos nutrientes que jamais verão os solos de Rio Paranaíba novamente. Isto não pode continuar desta forma, definitivamente, não há sustentabilidade neste modelo. Se os moradores das grandes cidades, preocupados com o meio ambiente, confortáveis em encontrar um bode expiatório para a degradação no mundo, querem contribuir para uma agricultura sustentável, que nos devolvam a bosta! É necessário começar a pensar, ousadamente.

Zoneamento da cana de açúcar no “Discutindo Ecologia”

O ecólogo Luiz Bento, autor do ótimo blog Discutindo Ecologia, escreveu dois textos essenciais fazendo considerações sobre o recente projeto de Zoneamento Agroecológico da Cana de Açúcar no Brasil que podem ser lidos aqui e aqui. Uma boa discussão nos comentários já foi iniciada e ainda deve ir longe. Recomendo que leiam e participem da discussão.

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