Ciência do Solo: Muito além de uma Ciência Agrária.

Em recente discussão, nós, autores do Geófagos, decidimos por uma “volta à fazenda”, conforme proposto pelo Ítalo. Trocando em miúdos, resolvemos voltar o foco para nossa origem, a Ciência do Solo. Para selar essa volta, acredito eu, não há nada melhor que um texto que introduza o leitor ao assunto, mostrando o quão abrangente é essa ciência e que, ao contrário do que costumeiramente se vê e entende, ela abrange uma gama de assuntos que se estendem muito além das Ciências Agrárias.
Piaget diz que a multidisciplinaridade se faz presente quando “a solução de um problema torna necessário obter informação de duas ou mais ciências ou setores do conhecimento sem que as disciplinas envolvidas no processo sejam elas mesmas modificadas ou enriquecidas”. Pois bem, acredito que a ciência do solo se enquadra bem nesse conceito.
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Foto de um perfil de solo – LATOSSOLO VERMELHO-AMARELO Distrófico húmico do Parque Nacional do Caparaó (MG)
Ao contrário da visão tradicional e da “neoclássica” de Ciência do Solo, acredito que ela possui sim uma multidisciplinaridade nata, bastante evidente em uma análise crítica bem fundamentada. Tal multidisciplinaridade fica também evidente quando recorre-se aos primórdios dela, quando Dokuchaev descreveu o solo como um corpo natural dinâmico, cuja dinâmica depende de uma interação de fatores como relevo, ação da biota, clima e tempo. Desses, alguns são fatores ativos, passivos e controladores que são representados, respectivamente, pela biota e clima, tempo e relevo.
A ciência do solo é uma Geociência, principalmente, quando do campo da Pedologia. Afinal, estudar um corpo formado ao longo de centenas ou milhares de anos não nos remete ao estudo do Tempo Geológico e das muitas modificações sofridas pela esferas terrestre ao longo de sua evolução? Estudar os depósitos minerais lateríticos não nos remete à Geologia Econômica? Existem processos sedimentares sem antes haver intemperismo e pedogênese? Enfim, as respostas são claras.
Ela também é uma Ciência Agrária. O exemplos mais claros são, sem dúvida, as interações solo-planta e suas consequências. É o aspecto que tem ficado mais evidente ao longo do tempo, principalmente, devido ao viés agrícola predominante ao longo de sua evolução. Esse já foi deixado subentendido por Heródoto, Teofrasto, Crescentius, etc… Essa íntima relação e a evolução da Ciência do Solo, como um todo, é que permite a exploração agrícola de terras antes consideradas inapatas ao uso agrícola, como o cerrado brasileiro, por exemplo.
Ciências básicas como Química, Física e Biologia também fornecem importantes ferramentas para a evolução desse jovem ramo da ciência. Outras não tão básicas, como a Mineralogia, por exemplo, também o fazem. O equilíbrio químico e as relações da macro, meso e microfauna do solo são bases para estudos do intemperismo e da pedogênese, sobretudo em regiões tropicais úmidas.  A resistência mecânica das rochas é importante fator naquelas áridas e também nas geladas. A resistência de um solo aos processos erosivos está intimamente relacionada com suas características físicas e também com a mineralogia de suas argilas. A fertilidade ou toxicidade de um solo dependem não somente dos teores de nutrientes presentes, mas também de sua especiação. A mineralogia também está frequentemente ligada à maior ou menor disponibilidade de nutrientes, elementos e substâncias tóxicas. A qualidade e a quantidade de recursos hídricos subterrâneos também são fortemente dependentes da qualidade do solo, ou seja, do conjunto de fatores químicos, físicos, biológicos e mineralógicos dos solos.
Obviamente, esses exemplos não esgotam a multidisciplinaridade dessa ciência. Entretanto, eles representam bem como a Ciência do Solo vai muito além de uma Ciência Agrária. O viés agrícola foi sem dúvida o que deu sustentação ao crescimento desta como ciência, sua importância é inquestionável, mas a visão estritamente agrária dessa ciência não mais é a sua realidade.
A expansão e o amadurecimento da Ciência do Solo podem ser vistos em trabalhos recentes. Questões relacionadas à gênese, uso e a ocupação do solo têm sido atualmente reconhecidos como importantes vertentes econômicas, como importantes reservatórios e sequestradores de carbono, como fundamentais para a vida em ambientes hostis como Antártica (por exemplo, pelo transporte através de correntes marinhas do fósforo adsorvido em óxidos férricos Australianos), meio de suporte para crescimento de matérias primas energéticas, como as dos biocombustíveis, entre outras. Mas muito além disso, não tem-se perdido o foco de questões sempre presentes nas discussões, entre elas e, talvez a mais importante, a segurança alimentar (aqui incluídos aspectos qualitativos e quantitativos da produção de alimentos).
Carlos Pacheco

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Discussão - 8 comentários

  1. Ótimo texto.

    Me desculpem ressucitar aqui.

    Este blog é sempre gostoso de ler (e estou lendo e relendo da frente para trás como um viciado), com saudades da Pedologia. Desde que vim para a UnB percebi que a Geografia aqui, muito diferente da minha origem da USP, vê com horror os solos… Parece que é uma sujeirinha ou apenas o meio onde voçorocas por si só surgem, como entes separados.

    eu ia comentar mais profundamente, mas se o Queiroz Neto (se for ele mesmo) já comentou, eu não sei o que mais poderia dizer.

    (Não o imagino lendo blogs, mas imagino ele falando isso no laboratório da fflch)

  2. Zé Queiroz Neto disse:

    Carissimos Italo Guedes (ideia inicial), Carlos Pacheco (texto enxuto, necessário), Manoel (que ameaçou abrir o baú): que bom ouvir vocês dizerem que a ciência do solo (em minúscula?) existe; porque ela existe se não há uma ciência da água, do ar? Mas há a Geociência, que seria a mãe de todas e de todos, inclusive “nóis”. As outras são decorrentes? Gostei das ciancices (de ciência) para apelidar os filhotes da Geociência – seriam as geociências, são várias, inclusive a dos solos, a da água, a do ar, e todas as outras.
    Porém eu trabalhei na articulação das rochas com o relevo, com a vegetação, com o ar e a água, articulação que me parece ser feito pelos solos. O meu baú tem várias coisas, seguramente não está tão cheio quanto o de vocês. A volta a Ciência do Solo (em maiúscula ?) proposta pelo Italo/Carlos (quem?) parece-me saudável, inclusive no sentido de desmitifica-la de adjetivos que só servem para mascara-la.
    Do meu lado vou em frente (em tempo – de quem é a belissima foto, que nos mostra como a cobertura pedológica tem que ser encarada?)
    Zé Queiroz Neto (José Pereira de Queiroz Neto)

  3. Pois é Ítalo,
    foi sorte minha passar pelo Parque do Caparaó quando eles estavam reformando as vias de acesso e eis que esse perfil estava a mostra. Caso queira posso enviar essa foto e outras que aqui tenho pra você.
    Até.

  4. Ítalo M. R. Guedes disse:

    Carlos, belo texto. Você entendeu bem o espírito das mudanças. Bonito perfil, que você mostrou.

  5. manuel disse:

    Caro Carlos
    Como tenho escrito,mais do que uma vez,sou eu,e só eu,que tenho de agradecer, pela vossa muita generosidade de estar aqui a mostrar a mim mesmo que ainda estou vivo.Ainda penso,logo…
    A propósito ainda do seu compreensivo e desafiante texto,só mais uma palavrinha. Foi uma sorte Dokuchaev não nascer em Portugal.Sabe qual era a expressão que nós usávamos,quando por lá andei na cartografia dos solos? Simplesmente esta-cada cavadela,sua minhoca. Era a rocha,o material originário,o factor determinante,na variedade de perfis. Cheguei a ter na minha frente,em cada face de uma cova,um perfil. As aflições,para, na fotografia aérea,desenhar a linha separatória de duas unidades. A saída,bastas vezes,era a artimanha do complexo.
    Desculpe mais esta recordação de há mais de meio século. Como vê,é para vos estar muito agradecido. É como que uma ressurreição.
    Saúde e muito bom trabalho,que a variedade,a biodiversidade,não dão para descansar. E ainda bem,senão era uma sensaboria.

  6. geofagos disse:

    Caro Manuel,
    Voltar às origens é sempre bom. Confesso que estou extremamente feliz com a decisão inicialmente proposta pelo Ítalo e, posteriormente, acatada por nós. Procurei escrever um texto bem geral, mostrando aspectos por tantas vezes esquecidos ou mesmo desconhecidos. Um texto que também seja provocativo. O nosso objetivo é deixar a Ciência do Solo mais acessível aos leigos. É torná-la conhecida, que pelo menos saibam que ela também existe. Que não pensem que as ciências são somente as Químicas, Biologias e Físicas da vida. Não, as ciências são muito mais que isso. Assim como a Ciência do Solo é muito mais que apenas uma ciência agrária e que, por trás dela, há uma incontável base fornecida por outras ciências. E que também pode-se utilizá-la em outras áreas como a antropologia, como bem citado por você.
    Enfim, é isso.
    Agradeço de novo sua colaboração no Geófagos e desejo-lhe o dobro de tudo que me desejou.
    Abraços,
    Carlos Pacheco

  7. manuel disse:

    Caro Carlos
    Não sei por onde começar,pode crer.Só me ocorrem ciancices.Agora,é que eles me arranjaram a bonita,como se diz por cá.Ciência do Solo. Li o seu compreensivo texto e reli. E perguntei a mim mesmo. O que é que eles querem? E sabem do que é me lembrei, entre outras coisas? De uma partida que um dia estive para pregar,mas de que me arrependi a tempo.Estava eu a ouvir a intervenção num debate. O orador falava de hemiceluloses,falava. E eu,atrevido,quero saber a fórmula estrutural delas,de que já me tinha esquecido,ou não sabia,não me lembro. Só me lembro é dos olhos de pavor da criatura. Arrependi-me logo. Desculpe,faça de conta que eu não estou cá. De resto,era outra coisa que eu queria,mas,olhe,já me esqueci. Uma vergonha minha.
    Mas voltando ao seu compreensivo texto. Prometo,se me deixarem,que vou lá ao baú desencantar meia dúzia de coisas que lá tenho.Para já,em relação ao corpo formado ao longo de muitos anos,lembro-me que em determinada altura,ao examinar o perfil de um solo agropédico(é assim que se diz?),o que eu encontrei de pedaços de telha,de tejolo,talvez do tempo dos árabes,ou dos romanos,ou dos godos,eu sei lá? Relativamente perto,dei com o perfil dum solo derivado de um quartzodiorito,em que a primeira camada,arenosa fina,não tinha nada a ver com o que estava lá por baixo,devendo ser atribuída aos sedimentos de um antigo lago que,em tempos,andaria por ali.
    Da Ciência do Solo,lembro-me de alguma coisa,em especial da fertilidade do solo,essa coisa complicada,na altura,mas parece-me que ainda hoje,pelas espreitadelas que tenho feito. E a propósito,vou transcrever o que Richard Bradfield(1961) apresentou por ocasião do 25ºaniversário da Sociedade Americana da Ciência do Solo:”Parece-me que não podemos deixar de concluir que a razão de continuarmos a investigar e a reinvestigar certos aspectos da fertilidade do solo está em que ainda não sabemos predizer com confiança o que acontecerá em cada caso particular ,pois há muitos parâmetros envolvidos que não somos ainda capazes de identificar ,medir ou interpetrar.
    Mas que partida,Carlos. Fico-me por aqui,que já não é sem tempo.
    Desculpe,se aqui chegou,mas,vocês,para desafiar estão por aí. Quem é que pode resistir? Só um santo,o que eu não sou,não tenho culpa.
    Muita saúde e muito bom trabalho,que,sem ele,como é que se vai identificar,medir ou interpretar?

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