Um desafio – Parte final: Aquecimento global antropogênico ou não? Uma questão ainda sem resposta.

Por motivos pessoais e profissionais precisei me afastar do Geófagos nos últimos dias. O tempo foi bom pois pude aprofundar um pouco mais nas questões referentes ao aquecimento global antropogênico. Os estudos foram bem proveitosos, entretanto, as conclusões que tirei foram um tanto quanto desanimadoras. Além de ver novamente o documentário que deu origem a essa série de posts, pude ler o “A fraude do esfeito estufa” de Kurt G. Bluchel, alguns artigos e também alguns capítulos de livros textos sobre Geologia e Climatologia. Resolvi encerrar logo esse assunto. Colocarei aqui minhas opiniões sobre argumentos de ambos os lados, favoráveis e contra a teoria.
Para início de conversa os links do documentário são esse, esse, esse, esse, esse, esse e esse. Estou colocando somente os links do vídeo por dois motivos, quais sejam: (1) para não sobrecarregar o post e; (2) porque fui alertado sobre os riscos de inserir vídeos produzidos por grandes canais sem autorização dos mesmos.
Confesso que alguns dados me impressionaram. Deixando de lado algumas convicções pessoais e assumindo verdadeiros os dados apresentados nas fontes consultadas, observei claramente a forte influência da forçante natural no aquecimento global. Observando as curvas de CO2 x temperatura e Atividade Solar x temperatura, exibidas no documentário, isso fica evidente. As segundas se correlacionam de maneira muito mais satisfatória do que as primeiras. Essas curvas, mostradas na figura 1, exibem dados relativos ao último século. A curva com dados simulados dos últimos 600000 anos, como pode ser visto na terceira parte do documentário, também apresenta uma boa correlação.
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Figura 1: Curvas CO2 x temperatura e Atividade solar x temperatura.
O argumento que fenômenos de aquecimento e resfriamento globais estão constantemente ocorrendo também é verdadeiro. A suposta entrada do globo em uma era natural de aquecimento também o é. Observe na figura 2 que o comportamento do clima ao longo do tempo geológico é cíclico e está relacionado à formação e desagregação de supercontinentes. O período de separação e amalgamação é quente, enquanto que períodos de junção e de estabilidade do supercontinente são marcados por eras glaciais. O final dos períodos quentes são acompanhados de uma queda brusca na temperatura e uma mini-glaciação e posterior elevação da temperatura durante um curto período de tempo. As causas desse comportamento ainda são desconhecidas e antecedem a era glacial propriamente dita (um elevado período de frio intenso). Caso o clima esteja seguindo seu curso normal, de acordo com o modelo proposto pelo geólogo australiano J. J. Veevers, estamos na ascenção, quase inicial, da curva que representa uma era interglacial quente. Esse período quente, segundo previsões, deve durar alguns milhares ou dezenas de milhares de anos. A nova era glacial é esperada para algo por volta de oitenta milhões de anos. É importante frisar que cada ciclo dura aproximadamente 400 milhões de anos e, a figura 2, refere-se aos três últimos ciclos correspondentes aos supercontinentes Rodínia (1 bilhão de anos), Pannótia (600 milhões de anos) e Pangea (250 milhões de anos), conforme mostrado na figura 3.
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Figura 2: Modelo proposto por Veevers para explicar a variação climática ao longo dos últimos 1,1 bilhão de anos. Fonte: Decifrando a Terra.
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Figura 3: Três últimos supercontinentes ao longo da evolução do planeta. Fonte: Decifrando a Terra.
Por outro lado, parece-me que os adeptos ao aquecimento global não antropogênico por vezes “esquecem” que o clima é resultado da combinação de diversos fatores e não apenas da atividade solar ou de outros fatores isolados. Além de variações na atividade solar, a composição da atmosfera (gases estufa por exemplo), alterações nas posição e níveis de continentes e oceanos, níveis dos mares e causas extra-terrenas, entre outros, também influem sobremaneira. Por exemplo, de nada adianta um elevado aporte de radiação de onda curta solar se não houver gases estufa suficientes para reter as radiações longas (infravermelhas) refletidas pela superfície do planeta.
Outras afirmações, como a temperatura deveria ser mais alta na alta troposfera do que na baixa troposfera entram em conflito com colocações dos próprios cientistas entrevistados. Eles criticam o IPCC por basear seus relatórios na simulação por modelos. Mas essas afirmações também são baseadas em modelagem. Logo, por uma questão de coerência, ela não deveria ser levada em consideração por eles.
Quanto ao CO2 aumentando posteriormente à temperatura, é uma questão válida, mas não fundamental. Em uma rápida corrida de olho nos gráficos, observei alguns períodos cuja temperatura eleva-se antes dos níveis de CO2 e outros que esses últimos antecedem a temperatura. É uma questão óbvia, uma vez que são fenômenos intimamente interligados. Por exemplo, um aumento na temperatura significa menor difusão de CO2 no grande reservatório dele, os mares. Consequentemente, maiores teores de CO2 serão liberados para a atmosfera. Além disso, também maiores níveis de decomposição de matéria orgânica podem ser alcançados, elevando o aporte atmosférico de dióxido de carbono. Já o efeito estufa, eleva a temperatura por meio da maior absorção de raios infravermelhos por gases estufa.
Já algumas outras afirmações dos não adeptos à teoria podem ser classificadas, minimamente, como esdrúxulas. Imaginem que pérolas como o elevado aporte de CO2 pode ser a solução para a fome mundial pois favorece a fotossíntese ou não haverá extinção de espécies devido ao aquecimento global e sim, favorecimento das mesmas, foram encontradas por mim durante a pesquisa. Fato é que, se as condições permanecerem ótimas, a fotossíntese realmente é favorecida por incrementos nos níveis de CO2. No entanto, o processo é mais complexo que isso e dependente de outros fatores. Por exemplo, quando pensamos em produção vegetal para fins agrícolas, também devemos lembrar da necessidade de nutrientes, disponibilidade hídrica, controle de pragas, entre outras. E grande parte dessas questões estão ligadas ao clima, portanto, tem que se considerar também quais as mudanças deido ao aumento dos níveis de gases estufa. Quanto à não existência de extinção de espécies, é melhor nem comentar.
Por outro lado, os defensores do aquecimento global antropogênico devem ser menos dogmáticos. Tratar quem critica a teoria como se fossem pecadores julgados por tribunais de inquisição católicos só trará malefícios à ciência. A discussão é saudável e, quase sempre, leva a conhecimentos mais avançados do que os iniciais. Filosoficamente, é plenamente possível que o efeito estufa realmente leve a significativas elevações das temperaturas médias mundiais, com as significativas mudanças por ele provocado. Entretanto, não acredito que tenhamos dados significativos para provar a real significância de tal efeito. O que é evidente, pois nos outros ciclos climáticos ao longo do tempo geológico não tinhamos o fator homem para verificarmos sua parcela de culpa. Modelos são sim falhos e refletem os dados de entrada, isso é óbvio. Antes de utilizar-se modelos de previsão, é necessário ter dados suficientes para suportá-los e calibra-los. Ou seja, a discussão deve continuar para esclarecer quais os efeitos da ação antrópica sobre o clima e, mais que isso, qual a intensidade dos fenômenos que virão.
Entretanto, acredito que a discussão pura e simples, sem ações prévias, é perda de tempo. O consenso quanto ao aquecimento global e seus efeitos existe. Veja que eu disse consenso quanto ao aquecimento global, não especificando a origem do mesmo. O que não há é um consenso sobre a origem desse aquecimento, se é antrópica ou natural. Acredito na combinação de ambos. Admitindo o consenso, não seria mais óbvio reduzir a vulnerabilidade da população aos efeitos advindos das mudanças climáticas e, ao mesmo tempo, discutir-se a origem e intensidade dos fenômenos que virão? Além disso, a discussão, se as emissões são ou não antropogênicas, principalmente levando-a para sentidos duvidosos como a defesa da sociedade industrial, é desnecessária. Afinal, se ainda não tem-se uma conclusão concreta sobre a participação dos “gases estufa” sobre o aquecimento do planeta, já tem-se informações suficientes sobre aspectos toxicológicos relacionados à poluição atmosféricas. Não obstante, invocar aspectos como a pobreza dos países africanos para justificar a continuidade dos meios de produção atuais me parece uma falta de ética e de humanidade tremenda. Não foi durante a própria sociedade industrial que as desigualdades mundiais aumentaram? Pergunte a um etíope, queniano ou somaliano comum se o século de desenvolvimento industrial trouxe benefícios. A resposta nem precisa ser dada.
Agora para aqueles que ainda duvidam da capacidade da vida em ocasionar grandes mudanças no planeta, sugiro estudarem um pouco o tempo geológico e as mudanças ao longo dele. Por exemplo, a modificação proporcionada pela fotossíntese, transformando uma atmosfera tipicamente redutora em outra fortemente oxidante e as consequências de tudo isso. O oxigênio é, inclusive, tido por alguns autores como o primeiro grande poluente devido às mudanças que ele proporcionou e às extinções ocorridas. E do surgimento da fotossíntese já se foram 2,7 bilhões de anos. Sugiro também ver o tempo geológico em um ano, proposto por Gradstein & Ogg (1996) e exibido em sua versão “aportuguesada” no livro Decifrando a Terra, de Teixeira et al. (2003). Para ter-se idéia da magnitude das mudanças proporcionadas pela sociedade, se transportarmos os acontecimentos ao longo do tempo geológico, toda a sociedade industrial cabe no último segundo do fictício ano.
Enfim, independente da origem devemos combater aspectos que tornam a sociedade atual mais vulneráveis aos efeitos do aquecimento global. A discussão deve continuar e ser levada em termos científicos e não na defesa de interesses, sejam eles ambientalistas ou industriais.
Carlos Pacheco

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Discussão - 10 comentários

  1. Priscilla Abrantes disse:

    Ótima matéria, vc foi bem claro e objetivo a cerca do tema, e isso acabou enriquecendo muito o desenvolvimento de suas idéias.
    Parabéns pela iniciativa, a leitura foi bastante produtiva!

    🙂

  2. Juliana disse:

    Bom dia! Estou fazendo um trabalho para a faculdade e precisava da segunda figura que voce achou no livro “Decifrando a Terra”. Poderia me dizer em que capitulo ela esta?
    Ótima a sua materia.. Thanks (:

  3. Um desafio parte final aquecimento global antropogenico ou nao uma questao ainda sem resposta.. Awful 🙂

  4. manuel disse:

    Caro Carlos
    Não tem nada que agradecer. Se há alguém que se tem de mostrar agradecido,e por razões óbvias,sou eu.
    Aproveito para mais uma achega,muito provavelmente desnecessária,porque já muito sabida. Têm de perdoar.
    Trata-se da anunciada Carbon World
    Doha 2009,marcada para Abril próximo. Os países do Gulf Cooperation Council preocupados com as emissões. Interessante,pelo menos.
    Era só isto. Desculpe mais este atrevimento.Muita saúde e muito bom trabalho. E,mais uma vez,muito agradecido pelo acolhimento.

  5. geofagos disse:

    Caro Manuel,
    Agradeço-lhe, novamente, pelas palavras e por sua participação no Géofagos.
    Acredito que a discussão é necessária, Manuel, para o bem da ciência. Mas também posso classificá-la como descessária, quando o foco principal é o bem social, humano. Veja bem que por mais que se discuta a origem do aquecimento global, se antropogênico ou não, ele ainda assim ocorrerá pela forçante natural. Além disso, continuamos tendo a questão da poluição atmosférica e suas consequências na saúde humana. Talvez nem tanto pelo CO2, mas pelos gases, aerossóis e materiais particulados que o acompanham. Enfim, não é lícito usar-se argumentos do tipo CO2 não gera aquecimento para justificar-se o atual modelo de “desenvolvimento” industrial.
    Ademais, uma das justificativas dada pelos autores do documentário, de que a tese do aquecimento global antropogênico pode estar ligada com a manutenção da dependência de países pobres, é completamente absurda. A sociedade industrial é uma das principais responsáveis pelo aumento das desigualdades mundiais. Como então pode-se dizer que ela é a solução para tais problemas? É um contrasenso.
    Enfim,
    Abraços

  6. geofagos disse:

    Caro Marcelo e leitores,
    Realmente a colocação estava estranha. Sendo assim reformulei o trecho citado pelo Marcelo. Mil desculpas.

  7. geofagos disse:

    Caro Marcelo,
    A Idade média também é uma fase transição entre um clima frio e quente (atual fase interglacial). Entretanto, ela experimentou uma “pequena idade do gelo”, ainda por motivos não totalmente esclarecidos. Favor não confundir com o as “minis eras glaciais” vistas no modelo de Veevers. A última dessas teve seu início há cerca de 115000 anos. Estima-se que o seu final se deu por volta de 7 a 10000 anos atrás. Quanto à amenização do clima depois da “Pequena Idade do Gelo”, estima-se que se deu principalmente na Idade média central. Pode ser que eu não tenha me expressado bem. Minhas desculpas.
    Abraços,
    Veja alguns relatos da época em http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/1982/artigo64468-1.htm .
    Outro trecho de outra publicação: “No último milênio o clima variou repetidamente, não obstante a pequena amplitude dessas variações. Mas, houve uma variação de maior valor e duração, que se prolongou desde o século XIV até o século XVIII, denominada, na Europa, de “Pequena Idade do Gelo”. Entre 1650 e 1850 a queda de temperatura provocou a fome no Velho Continente, em função dos prejuízos impostos à agricultura. No rastro da fome vieram as guerras que acabaram por tornar o período conhecido como “Dark Age” “, retirado de http://www.mv-brasil.org.br/coluna_gs_variacoesclimaticas.html .
    Carlos Pacheco

  8. Marcelo hermes disse:

    Veja um trecho de seu texto:
    basta lembrar que a idade média também é frequentemente citada por ter experimentado uma “mini idade do gelo”
    segundo o documentario, a idade media teria sido mais quente.
    abraços
    Marcelo

  9. manuel disse:

    Caro Carlos
    É caso para dizer,como aqui,que o Calos tardou,mas arrecadou.O que vai aí no seu texto.Preparou-se,não há dúvida. Foi o que fizeram,e fazem, os da “fraude”. Estão no seu direito,e à vontade,pois que de teorias se trata,como o Carlos apontou.
    Do pouco que mais vi dos vídeos,lá permanece o “bias”. Era de esperar,como é de esperar de um que se ponha do lado contrário,à semelhança do que vou fazer,referindo alguma coisa do que vi.
    William Broecker,da Columbia University,NY,que recebeu ,há pouco tempo,o I Prémio Fronteiras do Conhecimento da Fundação BBVA,afirmou que necessitamos de árvores artificiais para remover CO2 da atmosfera. Este cientista de 77 anos,que se vem preocupando com o CO2 a mais desde 1975,lastima,numa entrevista, que se tenha feito pouco para o reduzir,e revelou que brevemente partirá rumo à Islândia,com a finalidade de realizar uma experiência sobre injecção de CO2 no subsolo.
    Depois,está muito generalizada nalguns países ditos desenvolvidos,como no Reino Unido, a prática da limitação da velocidade dos carrinhos,para diminuir os efeitos da combustão.
    Ainda há muito pouco,no El País,de 19/1/2009,vinha a notícia – Barcelona. Melhor em autocarro e bicicleta. Também é visível o propósito de ir introduzindo a locomoção híbrida e inteiramente eléctrica.
    Depois,há o preocupar com a saúde,como se vê dos Seminars of American Meteorologic Society(the carbon link to mortality).
    Enfim,dá para muito gosto.Haja liberdade,pois, de comer daquilo que se goste,até um ponto, claro. Quem o vai marcar?
    Desculpe Carlos,em meter foice em seara alheia. E ,mais uma vez,admirar-me com o trabalhão que teve em reunir esse estendal que aí deixou. De um colunista,ou cronista,que o Elton também é.
    Muito boa súde e muito bom trabalho.

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