Um desafio – Parte II

Conforme prometido segue abaixo a segunda parte do documentário do canal 4 britânico sobre a suposta Farsa do Aquecimento Global (é verdade que com alguns dias de atraso, mas, antes tarde do que nunca). Já antecipo que continuo achando o vídeo extremamente radical. O oposto do movimento ambientalista. Algo como Dawkins vs Criacionistas. Os comentários virão posteriormente ao vídeo.

Como já disse anteriormente não sou especialista na área. Uma análise técnica do vídeo pode ser encontrada aqui. Porém, arriscarei algumas opiniões pessoais a respeito de dados apresentados. Procurarei fazê-lo enfocando aspectos diferentes aos aboradados no último link.
Esse segundo vídeo inicia-se com uma, ao meu ver, propaganda favorável à sociedade industrial. Diga-se de passagem um vídeo bem próximo daqueles institucionais apresentados durante visitas técnicas em grandes empresas, por exemplo.
O próprio vídeo diz que, pela teoria do aquecimento global antropogênico, o crescimento industrial deveria causar elevação da temperatura. Relação óbvia entre aumento de emissão dos gases do efeito estufa x elevação da temperatura. Para contestar essa hipótese o vídeo apresenta um intervalo entre 1940 e 1980 (aproximadamente) onde a temperatura global aparentemente decresce. Contraditoriamente esse é um período de crescimento industrial (pelo menos parte dele). Mas algumas considerações devem ser feitas. A primeira delas é relativa à seleção do intervalo de tempo. Quando avalia-se os dados apresentados no vídeo logo percebe-se que a temperatura aumenta significativamente após o período industrial, marcado principalmente por seu início a partir das duas revoluções industriais, entre os séculos XVIII e XIX. Sabe-se também que essas revoluções foram baseadas em combustíveis “sujos”, principalmente o carvão mineral. E sabe-se também que houve uma mudança significativa nos meios produtivos principalmente a partir da segunda revolução, entre 1860 e 1900. Portanto, o gráfico, ao contrário do que é dito no vídeo, apresenta sim uma relação, ao meu ver, clara entre industrialização e elevação da temperatura. A não ser que por uma incrível ação do destino algo, como elevação da atividade solar, apresentou comportamento muito próximo à elevação da atividade industrial.
gráfico
Fonte: http://i157.photobucket.com/albums/t63/izzy_bizzy_photo/capture.jpg
Os baixos níveis de emissão registrados por carros e aviões (veículos automotivos) também e citado como um dos aspectos que não se “encaixariam” com a elevação da temperatura no período anterior à guerra. Ora, ora, só “esqueceram”, mais uma vez, de dizer que esse período (entre a segunda revolução industrial e a segunda guerra mundial) foi marcado pela definitiva mudança nos meios produtivos. Foi aí que as máquinas (movidas à carvão inicialmente) definitivamente se tornaram a base dos meios produtivos. 
Como cientista e adorador da ciência, obviamente, não posso descartar a influência de fatores naturais, entretanto, o efeito antropogênico também deve ser levado em consideração. Quanto ao período de declínio da temperatura, os modelos atuais já mostram que ele pode não ter sido tão expressivo. Outros trabalhos ainda mostram que o efeito de aerossóis de sulfato podem ser os responsáveis pelo mesmo. Além disso, tem que se lembrar que o berço da revolução industrial (europa) passava, principalmente entre os anos 40 e 50 por um período difícil, se recuperando da II Guerra Mundial, que ocorreu entre 1939 e 1945. Obviamente, esses fatos tiveram efeito sobre as taxas de crescimento industrial no velho continente.
A simplificação do fenômeno do aquecimento global também é um erro. O documentário frisa demais a relação CO2 temperatura, esquecendo que a teoria é muito mais complexa que isso. Além de outros gases do efeito estufa estarem relacionados com o aquecimento, ainda existem fatores naturais influindo. Existem também, no sentido contrário, outros fatores que podem causar arrefecimento, como os já citados aerossóis de sulfato. É óbvio que o aquecimento é função da interação de todos esses fatores. Descaracterizar um ou outro, visando benefícios duvidosos, na singela opinião desse que aqui vos escreve, é algo sem sentido. Pelo menos isso é esperado no campo científico.
semttulokl2
Em vermelho (Temperatura)
Em azul (níveis de CO2 atmosféricos)
Fonte: http://img529.imageshack.us/img529/4963/semttulokl2.jpg
Em parte do vídeo, um dos entrevistados também deixa a entender que a preocupação com o CO2  pode ser contestada pela quantidade ínfima em que ele está presente na atmosfera. Ora, mas o efeito estufa, tido como um dos pilares para existência de vida na terra, é atribuído à uma assembléia de gases atmosféricos. Vapor d´água, CO2, CH4, etc. Não entendo como não atribuir ao aumento de tais gases uma possível elevação nas temperaturas médias do planeta. Filosoficamente isso é possível. Basta agora saber se cientificamente isso se comprova. Para tal, é necessário que ambos os lados existam, os que acreditam e os que não acreditam na teoria do aquecimento global antropogênico. É necessário confrontar-se os dados. Para tal, é necessário primeiro gerar-se os dados. Portanto, ambos são importantes. Mais ainda, a descaracterização de um pelo outro não levará a ciência a lugar nenhum. Ações como essas me fazem pensar em interesses “ocultos”. A boa e velha teoria da conspiração.
O vídeo é encerrado com uma discussão sobre a teoria (e vejam que eu disse teoria)  que aborda que, na troposfera, as temperaturas em elevadas altitudes deveriam ser maiores que em altitudes menores. A discussão continua na terceira parte do documentário e, devido a isso, abordarei tal tema na próxima postagem.
Enfim, essas são minhas opiniões. Continuando nossa discussão espero a opinião dos leitores.
Até a próxima.
Carlos Pacheco

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Discussão - 12 comentários

  1. Nilo disse:

    Olá a todos!
    Embora já lá vai quase 1 ano desde o último post, senti que poderia participar tb, até porque me encontro a cogitar e a absorver bastante informação sobre o tema aqui em debate.
    Apenas quero manifestar o ponto de vista relativamente à ciência.
    Como cientistas que somos devemos ter um olhar sempre critico e de forma isenta tentar refutar ou corroborar hipóteses. Infelizmente vejo, nos dias de hoje, cada vez menos isso acontece por causa de crenças que devem ficar de fora do debate cientifico. As escolas em particular e as sociedades em geral deveriam ser locais de discussão e não de imposição de ideias para que houvesse um verdadeiro avanço no conhecimento (promover-se-ia a entrada de novas hipóteses que depois, de forma isenta, se procuraria comprovar ou refutar).
    Relativamente ao tão propalado Aquecimento Global, olho com desconfiança. E a meu ver é uma teoria que em vez de se fixar na ciência, mistura muita coisa (clima, poluição, riscos…) que merecendo de igual forma atenção cientifica, fogem àquilo que é a climatologia.
    Abraço
    Nilo

  2. Luiz Moura disse:

    Somente para me situar.
    O CO2 independente do efeito estufa, em grandes concentrações é nocivo a saúde.
    Bom Carlos, com relação a suas afirmações tem algumas, que acho até que se você refletir melhor, talvez não escrevesse assim.
    “1940 e 1980 (aproximadamente) onde a temperatura global aparentemente decresce. ”
    Que isto agora, APARENTE!, aí é, como os que dizem que não existe o AG!, pode-se então duvidar das medições, neste nível ?
    Não gosto deste gráfico, porque foi alterada a proporção para ficar mais visível na TV, mas é fundamentalmente o mesmo gráfico que está no site do NOA.
    “Sabe-se também que essas revoluções foram baseadas em combustíveis “sujos”, principalmente o carvão mineral. E sabe-se também que houve uma mudança significativa nos meios produtivos principalmente a partir da segunda revolução, entre 1860 e 1900.”
    Difícil concordar, pois a industrialização até o início do século XX, por mais suja que fosse, tinha uma escala absolutamente mínima em relação a industrialização do século XX,seu efeito era sentido somente nas poucas cidades industriais particularmente na Inglaterra.
    No século XX, com a sociedade de consumo o crescimento foi explosivo.
    Números:
    Produção e “queima” de petróleo(anual).
    1900= -1 bilhão de barris
    1940= 2.5 bilhão de barris
    1975= 20 bilhões de barris
    “Além disso, tem que se lembrar que o berço da revolução industrial (europa) passava, principalmente entre os anos 40 e 50 por um período difícil, se recuperando da II Guerra Mundial, que ocorreu entre 1939 e 1945”
    Em plena guerra ? A produção industrial ‘esforço de guerra’ estava no máximo, quem não sabe disto.
    Dados da realidade: entre 1940 e 1975 houve o maior aumento de consumo de petróleo da história, justo no período de arrefecimento da média de temperatura !
    Finalizando.
    A quantidade de CO2 na atmosfera é incrementada continuamente, mas mesmo assim de 1895 até 1908 e de 1940 até 1975, houve um expressivo resfriamento.
    Não faz sentido, não combina com a informação de que o CO2 é fundamental no aquecimento.
    Após obter muita informação, coloco nesta ordem as possibilidades:
    Primeiro fator: Interação Sol – Terra.
    Segundo fator : Desmatamento, degradação do solo, grandes aglomerados urbanos.(são tipos de solos que aquecem mais a atmosfera)
    Terceiro fator: Gases de efeito estufa, dentre eles o CO2.
    Um abraço a todos e peço desculpas pela eloqüência.

  3. Prezado Tiago,
    Estou respondendo de forma prévia o seu comentário em nome do nosso colega Carlos Pacheco, autor do post.
    Seja bem vindo ao Geófagos. A sua opinião é muito importante para nós. Não deixe de enviar suas críticas, comentários e sugestões.
    Mais uma vez, obrigado!
    Att.
    Elton.

  4. Tiago disse:

    Olás..
    É minha primeira participação no Geófagos, mas me identifiquei bastante com o site (por sinal trabalho com os bichinhos que ilustram o blog.. rsrs)
    Enfim.. quanto ao assunto..
    Como mais um leigo.. só digo, sem muitos argumentos, que uma coisa é certa.. os ambientes naturais de todo o mundo estão sendo devastados..
    Se falar em aquecimento global é sensacionalismo, eu, como não estou a par dos estudos, não sei dizer se isso também é ou não fato.. mas pelo menos toda essa conversa está fazendo com que as pessoas “comuns” pensem nos ambientes naturais.. e isso, por si só, acho que já vale a pena..

  5. geofagos disse:

    Caro Luiz,
    Em um tema tão amplo é impossível fechar-se todas as vias. Por isso a minha idéia, dos leitores também participarem ativamente da discussão. Coisa que, diga-se de passagem, você e o Manuel vem fazendo excelentemente. Por isso também que vejo ambos os lados, de fundamentalistas industriais e ambientalistas, com muita preocupação. Simplificam sobremaneira questões complexas e, não menos importante, procuram deteriorar o outro lado para angariarem simpatizantes. Definitivamente não é por aí. São necessários os dois lados para o bem da ciência.
    Ah! E concordo contigo quanto à industrialização.
    Abraços.

  6. geofagos disse:

    Caros Manuel e Luiz Bento,
    Não questiono de forma alguma o desenvolvimento industrial. Ao contrário, acredito que se bem aplicado ele pode ser um aliado do bem estar, principalmente no que concerne às questões sociais. Questiono sim o modo como vem sendo aplicado. Em detrimento de questões importantes. Em detrimento do ambiente, em detrimento do bem estar de grande parte da população. Pretendo fechar essa série com um comentário sobre os outros pontos negativos dos gases gerados pelos motores de combustão, além do efeito estufa. Temos obrigação, como cientistas, de mostrar que a discussão vai muito além da simplificação para nós passada. Tanto por parte dos ambientalistas, quanto por parte dos fervorosos defensores do atual modelo de produção industrial.
    Enfim,
    Mais uma vez gostaria de agradecer a presença de vocês no Geófagos.
    A discussão está ficando cada vez mais enriquecedora.
    Abraços,
    Carlos Pacheco

  7. manuel disse:

    Caros Carlos Pacheco e Luíz Bento
    Cá estou eu de novo.
    Os chineses não vão deixar de comprar carrinhos,um triunfo do engenho humano,pela simples razão de que os vão ter,primeiro,mistos, e ,depois,totalmente eléctricos. É o que vem na web. Isto parece ser uma forte prova de que os gases de combustão já os estavam a afligir demasiado,independentemente do seu efeito como gases de estufa. Sentiam-nos tanto que reduziram a circulação automóvel,nalgumas zonas,se não me engano, por altura dos Jogos Olímpicos.
    De facto,vapor de água é um forte gas de estufa,como são outros,o metano das vaquinhas(quem diria?,elas que nos dão o rico leitinho;é a sua maldadezinha),o óxido nitroso,os fluorcarbonetos,e se calhar mais,que os segredos da criação lá se vão desvendando,graças à Ciência,produto do engenho humano(outra vez),que a inteligência,com a cabeça,sua morada, que Deus deu ao homem ,e à mulher,não foi só para tapa-las com o chapéu,como se dizia.
    De resto, o vapor de água,como vem na web(fonte principal da minha actual ciência),é trave mestra de uma das teorias do “global warming”.
    Bem,parece-me que não me esqueci de nada do que queria debitar. Só peço é a vossa compreensão para quem se está atrevendo a ser papagaio da web.
    Muita saúde e muito bom trabalho.

  8. Luiz Bento disse:

    Caro Carlos,
    Boa discussão. Estou junto contigo, como não especialista discutindo aquecimento global. Mas como cientistas podemos sim tirar conclusões.
    Gostaria de citar e complementar algo que você não comentou desta parte do vídeo que é o papel do vapor d´água no processo. Ele é sim um gás estufa, mas é um feedback e não uma forçante da temperatura. O vapor d´água amplifica o aumento de temperatura, não é a causa primária. Saiu um estudo recente que retrata bem este caso.
    http://www.eurekalert.org/pub_releases/2008-11/nsfc-wvc111708.php
    Quanto ao início do post que discute o argumento do desenvolvimento industrial eu tenho uma opinião um pouco diferente. Acho que o vídeo distorce um argumento correto. A tecnologia e a indústria trouxeram sim várias coisas boas para a humanidade. Querer que os chineses e os brasileiros parem de comprar carros é um pouco forte demais. Sou a favor da busca de uma maior eficiência de combustão, troca (parcial) por combustíveis menos poluentes e mitigação direta dos gases de efeito estufa.
    Não vamos encarar a industrialização como um bicho papão. É como falar que todos temos que virar vegetarianos já que as vacas emitem metano.
    abraços e até a próxima parte.

  9. manuel disse:

    Caro Calos Pacheco
    Que tenha entrado com o pé direito,
    como aqui se diz,em 2009,é o que lhe desejo,e também a todos os geófagos.
    Prometeu um próximo novo vídeo,e ele aí está,acompanhado de um comentário de especialista,que diz não ser. Então,como seria ele se fosse? Mas vamos ao que aqui me traz,depois de ter visto o vídeo,que segue a mesma linha do primeiro,como o Carlos bem apontou. O seu tom é exaltante,por um lado,e demolidor por outro. Pobre CO2,que não vales nada,o CO2 que nos dá tanta comidinha. É claro que não é deste que o vídeo trata. Cruza o vídeo um evidente “bias”,que o Carlos,melhor do que eu, notou.
    Com que então luxos para todos? Muito obrigado pelo que me toca. Até com coisas´muito sérias se faz demagogia.
    Quanto às teorias,neste âmbito,que são várias(nem que fosse só uma,a do “Global Warming”),elas estão sujeitas,como bem se sabe,a controvérsia. Há os defensores e há os detractores,como,aliás,em tudo,quando se trata de teorias. Cada um lá sabe das linhas com que se coze.
    No meu caso,alinho com os que se preocupam com o CO2 da combustão,quer a dos carrinhos,como doutras,mesmo que ela não tivesse nada a ver com alterações climáticas. É que é legítimo não querer que se libertem fornadas de CO2,como tem sucedido,e poderá vir a suceder até com mais intensidade,que os chamados países emergentes estão aí,em força.
    Daí,surgirem vozes e escritos referindo-se a coisas de pasmar,como as poucas que aí vão.
    Como se sabe,os oceanos são “sinks” naturais do CO2,os mais importantes mesmo. Pois já se pensa em lhes aumentar a sua capacidade,fertilizando-o. O fitoplancton irá falar.
    Como se sabe, a indústria de cimento contribui,também,para a emissão de CO2. Pois há quem esteja a querer inverter a situação,utilizado-o para mais cimento.
    Como se sabe,igualmente,por esse seu estar pode o CO2 vir a ser recebido de braços abertos por certo silicato,o peridodito,para dar calcário ou mármore.
    Como é sabido,o CO2 ocupa espaço. Pois já se está a pensar nele para ir preencher os vazios deixados por extracções várias. Isto,para além do seu enterramento nos fundos dos mares,onde até a tecnologia o permitir.
    E pronto,esgotaram-se,por hoje, as leituras,que eu sou um simples agrónomo muito amigo da natureza. Pela-se por ver verde,por esses campos,por essas florestas,por esses parques e jardins,cobrindo a terra.
    Muita saúde e muita vontade de trabalhar. E desculpe,Carlos,os disparates que,como leigo,tenha cometido.

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